Edição 80

Matérias Especiais

Apresentação da CF 2015

Leonardo Ulrich Steiner

“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10.45).

start_cf_1Vida que resgata vidas! O Crucificado como servo das dores! A morte que liberta da escravidão e concede a dignidade de servir como Deus serve! Deus servo, Jesus Cristo, que concede a toda pessoa batizada o dom de ser serviço para os irmãos e as irmãs.

Quaresma é tempo de abertura para o mistério da dor e da morte, da cruz, do Crucificado. Nele, somos conduzidos à graça da vida plena, à ressurreição. Ressurreição, transformação do mistério da dor, da morte na cruz. Quaresma, caminho de identificação com Cristo, pede de nós jejum, oração, esmola.

Jejum é um abster-se, um esvaziar-se, um abrir-se. No vazio de nós mesmos, somos fecundados pela suavidade da gratuidade. Jesus crucificado, vazio de si, é entrega suave-sofrida ao Pai: “[...] em tuas mãos entrego meu espírito [...]” (Lc 23.46). No jejum, somos reintegrados!

start_cf_2A oração é aproximação, nova relação, exposição; busca de atingimento pela amorosidade de Deus. Uma quase súplica de afeto e de amor: “[...] Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Mt 27.46). A busca de coração pelo Pai. Quanta intimidade!

A esmola é partilha de vida, cuidado amoroso, liberdade de entrega, serviço! A esmola é um envio para o próximo. Encontro com aqueles que a sociedade e o Estado não querem (Madre Teresa de Calcutá). Esmola, exercício para o crescimento e fidelidade da nossa filiação divina: sermos bons e generosos como Deus o é.

A conversão, a mudança de vida que a Quaresma possibilita, é um itinerário de libertação pessoal, comunitária e social. A Campanha da Fraternidade 2015 nos convida a refletir, meditar e rezar a relação entre Igreja e sociedade. O tema é Fraternidade: Igreja e Sociedade; e o lema, Eu vim para servir (cf. Mc 10.45). A Campanha vai ajudar-nos a “[...] aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus” (Objetivo Geral da CF 2015).

Sociedade vem de socius e id. Id, idade, que diz da força, do vigor; força e vigor do socius. Socius é o companheiro, a força que faz e deixa ser companheiro. Companheiros são os que, unidos pela mesma força e pelo mesmo vigor, formam um grupo. Estes formam a sociedade. As pessoas que têm mesma pertença e buscam viver e conviver com um modo próprio de organização formam uma sociedade. As pessoas também recriam a sociedade. Porque, formada por pessoas, a sociedade é viva, transforma-se. Uma sociedade é sociedade quando todos participam do conviver e do decidir e não permitem que uma pessoa seja excluída. Para que a sociedade possa existir e persistir, deve ser guiada por valores fundamentais de justiça, de fraternidade, de paz.

O Concílio Ecumênico Vaticano II recordou que a Igreja é Reino de Deus, Povo de Deus. “Para cumprir a vontade do Pai, Cristo inaugurou na terra o Reino dos Céus, revelou-nos Seu mistério e, por Sua obediência, realizou a redenção. O Reino de Deus, já presente em mistério pelo poder de Deus, cresce visivelmente no mundo.”1 “O Senhor Jesus iniciou a Sua Igreja, pregando a boa-nova, isto é, o advento do Reino de Deus […]. Esse Reino manifestou-se lucidamente aos homens na Palavra, nas obras e na presença de Cristo.”2 Com a vinda do Espírito Santo, poderíamos dizer que se completaram os tempos.

Assim, a Igreja é o novo Povo de Deus, a comunidade dos que creem. “Deus convocou e constituiu a Igreja — comunidade congregada por aqueles que, crendo, voltam seu olhar a Jesus, autor da salvação e princípio da unidade.”3 Aqueles que têm seu olhar fixo em Jesus vivem na sociedade. Eles compõem com outras pessoas a sociedade. Os cristãos, como participantes da sociedade, levam seus valores e compromissos, ajudam a constituir uma sociedade justa, fraterna e de paz.

A Igreja, as comunidades de fé, os cristãos, são ativos na sociedade. Eles, pelo diálogo e pela caridade, cuidam das pessoas que são excluídas da sociedade. Ao mesmo tempo, participam ativamente das discussões e proposições que visam o bem de todos. Como nos diz o Papa Francisco: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta, e Jesus repete-nos sem cessar: ‘[...] Dai-lhes vós mesmos de comer [...]’ (Mc 6.37)” .

A Campanha da Fraternidade deste ano será uma oportunidade de retornarmos aos ensinamentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. Ensinamentos que nos levam a ser uma Igreja atuante, participativa, consoladora, misericordiosa, samaritana. Sabemos que todas as pessoas que formam a sociedade são filhos e filhas de Deus. Por isso, os cristãos trabalham para que as estruturas, as normas, a organização da sociedade estejam a serviço de todos. Na sociedade, a Igreja, as comunidades desejam seguir a Jesus: Vim “[...] para servir e dar a vida em resgate de muitos” (Mc 10.45)4.

Maria, Mãe de Deus e nossa, acompanhe-nos na caminhada quaresmal, para sermos sempre mais a presença da Igreja que serve a todos. Caminhemos todos com Jesus para Jerusalém e participemos com Ele da dor, da morte e da ressurreição.

Abençoada Quaresma e Feliz Páscoa!

Brasília, 6 de agosto de 2014

Festa da Transfiguração do Senhor

Leonardo Ulrich Steiner é bispo-auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB.

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NOTAS

1DOCUMENTO CONCILIAR. Constituição Dogmática Lumem Gentium. n. 3.
2Idem. n. 5.
3Idem. n. 9.
4Cf. PAPA FRANCISCO. Exortação apostólica Evangelii Gaudium. Brasília: Edições CNBB, 2013. n. 49.

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