Edição 92

Matérias Especiais

Apresentação da CF 2017

“[...] cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15)

Recebemos o dom da fé! Seguir Jesus Cristo, viver das palavras, da vida, da morte e ressureição é graça. Cultivar a fé, exercitar-se é guardar. Guardados, cuidados pelo dom do seguimento de Jesus, que transforma e matura: plenitude de vida. Cultivar a fé e ser guardado pela fé abre-nos para os cuidados dos irmãos e de toda a obra criada.

A Quaresma nos provoca e convoca à conversão, mudança de vida: cultivar o caminho do seguimento de Jesus Cristo. Os exercícios do cultivo que a Igreja nos propõe, no tempo da Quaresma, são aqueles que abrem nossa pessoa à graça do encontro: jejum, oração e esmola. Jejum: esvaziamento, expropriação, libertação e não privação. O jejum abre a nossa pessoa para a receptividade da vida em Cristo. Oração: súplica de exposição da tentativa de ser atingindo pela misericórdia. Esmola: partilha, o amor partilhado. Deixar-se tocar pela presença do mendigo que cuida do doador.

Todos os anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresenta a Campanha da Fraternidade como caminho de convenção quaresmal, como itinerário do cultivo e do cuidado comunitário e social. Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida é o tema da campanha para a Quaresma em 2017. O lema é inspirado no texto do Gênesis 2,15: “Cultivar e guardar a criação”. A campanha tem como objetivo geral: cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho.

Bioma quer dizer a vida que se manifesta em um conjunto de semelhantes de vegetação, água, superfície e animais. Uma “paisagem” que mostra uma unidade entre os diversos elementos da natureza. “Um bioma é formado por todos os seres vivos de uma determinada região, cuja vegetação é similar e contínua, cujo clima é mais ou menos uniforme e cuja formação tem uma história comum” (Texto-base CF 2017).

Como são extraordinárias a beleza e a diversidade da natureza do Brasil. Ao abordarmos os biomas brasileiros e lembrarmos dos povos originários que neles habitam, trazemos à meditação a obra benfazeja de Deus. Admirar a diversidade de cada bioma é criar uma relação respeitosa com a vida e a cultura dos povos que neles vivem!
Cultivar e guardar nascem da admiração! A beleza que toma o coração faz com que nos inclinemos com reverência diante da criação. A campanha deseja, antes de tudo, levar à admiração, para que todo cristão seja um cultivador e guardador da obra criada. Tocado pela magnanimidade e bondade dos biomas, seremos conduzidos à conversão, isto é, a cultivar e guardar.

A depredação dos biomas é a manifestação da crise ecológica, que pede uma profunda conversão interior. “Entretanto, temos de reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragmático, frequentemente se omitem das preocupações com o meio ambiente. Outros são passivos, não se decidem a mudar os seus hábitos e tornam-se incoerentes. Falta-lhes, pois, uma convenção ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário de experiência cristã, mas parte essencial de uma existência virtuosa” (LS, n. 217).

Ao meditarmos e rezarmos pelos biomas e pelas pessoas que neles vivem, sejamos conduzidos à vida nova. Todos nós cristãos recebemos o dom da fé e, na fé, somos despertados para o cultivo e o cuidado. São Gregório Magno, em uma das suas homilias, perguntava-se: “Que gênero de pessoas são aquelas que se apresentam sem hábito nupcial? Em que consiste esse hábito e como se pode adquiri-lo?”. E a sua resposta é: “Aqueles que foram chamados a se apresentarem de alguma maneira têm fé.” É a fé que lhes abre a porta; mas falta-lhes o hábito nupcial do amor. Cultivar e guardar têm a dinâmica do amor.

O Ano Nacional Mariano celebra os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida por pescadores do Rio Paraíba. Encontro que desperta o cuidado e fortalece o cultivo. Cuidado com o mistério revelado e cultivo da familiaridade. Hoje, é o rio que pede cuidado e cultivo.

Dom Leonardo Ulrich Steiner é bispo auxiliar de Brasília-DF e secretário-geral da CNBB.

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