Edição 109

A fala do mestre...

As competências socioemocionais e o caminho das pedras

Lécio Cordeiro

Quando nos perguntamos, como professores, que sociedade queremos formar, a resposta utópica dos documentos oficiais é clara: “O objetivo é promover uma sociedade justa, ética, democrática, responsável, inclusiva, sustentável e solidária”. A essência desse pensamento foi esboçada, anos atrás, nos PCN e na LDB e expressa definitivamente na BNCC. No entanto, por mais incrível que pareça, muitos professores ainda acreditam que construiremos essa sociedade apenas repassando conteúdos. Para eles, quanto mais competência cognitiva os alunos tiverem, mais capacidade terão de atuar na sociedade. Seria um raciocínio perfeito se estivessem falando de máquinas, não de pessoas. Não é preciso meditar muito para perceber que esse pensamento se apoia em premissas falsas. Na verdade, só poderemos alcançar esse objetivo se, assumindo nossa parcela do processo socioeducativo, desenvolvermos em nossas salas de aula as competências socioemocionais lado a lado com os conteúdos. De nada adianta formarmos máquinas, pois o século 21 é marcado pelos imprevistos, e máquinas não trabalham com imprevistos. Diante do imprevisível, as máquinas se quebram, param, explodem.

Costumo dizer que o caminho mais viável para mudar a educação é pela empatia, pelo sentimento, pelo envolvimento socioemocional. É fato que os alunos aprendem mais com os professores que os motivam a ir além de si mesmos, de forma colaborativa, protagonista, altruísta, etc. Os professores que insistem em ser verdugos dos seus próprios alunos não fazem outra coisa senão cavar um túmulo entre o quadro e as carteiras. Mais tarde, serão adultos incapazes de ver a Matemática nas coisas do dia a dia, pensarão que a Língua Portuguesa é apenas a gramática, que a Química é a tabela periódica, que a Física é qualquer coisa que calcula delta S sobre delta T. Não estou defendendo que o professor seja amiguinho dos alunos, plante bananeira ou vista uma fantasia para dar sua aula. Estou falando que precisamos entender que nossos alunos são completamente diferentes dos alunos que nós fomos no século passado e que, por causa disso, exigem de nós muito mais que a memorização de fórmulas ou conceitos. Eles precisam estar aptos para lidar com os desafios impostos pelo século 21.

32Enquanto estamos reforçando padrões anacrônicos do século 20, nossos alunos estão com dez abas mentais abertas. Muitos deles estão pensando coisas sobre as quais não temos qualquer conhecimento. Quer fazer um teste? Você sabia que estão jogando jogos yandere, gostam de beber em binge e se desesperam pedindo biscoito? Levante a mão quem não entendeu. Isso é tão complexo que, na verdade, eu não sei se chega a ser preocupação para eles, se chegam a ter consciência disso, dos riscos que assumem. Dia desses vi em uma pesquisa acadêmica que muitos jovens estão seduzidos pelo perigo, por viver perigosamente. Eles sentem prazer em ter relações sexuais desprotegidas, em experimentar drogas diferentes de formas diferentes. Ora, isso é uma faceta do suicídio. Talvez seja irrefletida, mas revela um profundo desprezo pela vida ou um exacerbado carpe diem pós-moderno. Meus amigos, muitos dos nossos alunos estão completamente perdidos, incapazes de lidar com suas emoções.

Quer fazer outro teste para avaliar essa perdição? Entre na loja de aplicativos do seu smartphone e pesquise por “tortura”. A primeira opção que aparece é um jogo infantil chamado Kick the Budy, com mais de 100 milhões de downloads. É um jogo para crianças bastante simples. Consiste apenas em torturar um boneco de vodu de diferentes maneiras, mas ele não morre. Os usuários o elogiam bastante. Dizem que é bom para se divertir, inventando maneiras de torturar Budy. Outro jogo é o yandere High School Simulator. Também está lá na sua loja de aplicativos. Este simula uma escola de Ensino Médio, com alunos, professores, salas de aula. Aparentemente, é um jogo feito para adolescentes, mas as crianças também podem jogar, pois é livre. Enquanto resolve as missões, o jogador pode namorar, acessar os espaços da escola, pilotar carros, trocar de roupa, sabotar seus rivais. Pode também pegar uma faca, um porrete, uma arma de fogo e sair matando as pessoas. Se quiser, pode atropelar pessoas também. Uma das metas é cometer dez assassinatos, como acontece em escolas do mundo real, seja em Suzano, seja em Ohio. Nas avaliações que os usuários fazem do jogo, que soma mais de 10 milhões de downloads, não há críticas à fúnebre finalidade do jogo. Nas 260 mil avaliações, praticamente todos os usuários o elogiam. Um acha bom porque quando mata alguém sai sangue. Outro concorda e lembra que sai sangue também quando é preciso carregar um corpo. Uma usuária sugere que os desenvolvedores criem mais lugares estratégicos para colocar os mortos, “[...] algo que realmente nos deixe pensar, para não sermos pegos pela polícia”.

A pergunta é: o que esses dois jogos têm em comum além da violência? Há vários pontos, mas, trazendo a reflexão para o nosso tema, o que me chama mais a atenção é que ambos possibilitam aos usuários, ao menos hipoteticamente, o extravasamento das emoções. Certamente todos eles estão à procura de sensações que o mundo real não pode lhes oferecer, ou até pode, mas não deve. De fato, se eu frustro um aluno, ele pode até querer me torturar, mas não deve. Mas com o Budy ele pode. Essa relação tem tudo a ver com o desenvolvimento do sistema límbico, isto é, com o amadurecimento das estruturas cerebrais capazes de gerenciar as emoções. Desse modo, ao lidar com as emoções artificialmente essa válvula de escape quebra o percurso do sistema límbico, não permitindo a finalização desse mecanismo psíquico, o que gera um prejuízo enorme. Quando o sistema límbico faz a sua volta, completa o seu percurso, cria uma valiosa benesse que a natureza não nos dá: a autoestima. Somente o psiquismo humano é capaz de criar a autoestima.

Em outras palavras, podemos dizer que a autoestima se forma quando percebemos que o outro é capaz de suportar nosso lado mau e nós também. Diante da frustração, da impossibilidade, do impedimento, a criança faz o seu espetáculo 34de birra, mas, ao perceber que os pais suportam seu lado mau, que ele não destruiu ninguém, sente-se segura, capaz de enfrentar as adversidades com autoestima. Se ela não consegue suportar a si, se não confia em si, será capaz de suportar o lado mau do outro? Assim, pais suficientemente bons são aqueles que suportam o percurso do sistema límbico dos filhos, ajudando-os a criar sua autoestima. Sabem que as dificuldades da vida forjam competência, dignidade e respeito. Obviedade: só desenvolvemos as competências socioemocionais vivendo.

Uma análise panorâmica da realidade atual nos mostra, portanto, que o desenvolvimento dessas competências é inadiável. Mais ainda: é imperecível. Hoje muitas empresas ainda contratam com base no conhecimento, valorizam a formação do candidato, seu currículo. Mas o demitem por causa da sua incompetência socioemocional. Digo que são habilidades imperecíveis porque, nesta época em que tudo flui, são as únicas coisas que podemos ensinar hoje que lhes serão úteis realmente em 2100, às portas do século XXII, quando eles estiverem velhos.

Uma análise panorâmica da realidade atual nos mostra, portanto, que o desenvolvimento dessas competências é inadiável. Mais ainda: é imperecível. Hoje muitas empresas ainda contratam com base no conhecimento, valorizam a formação do candidato, seu currículo. Mas o demitem por causa da sua incompetência socioemocional. Digo que são habilidades imperecíveis porque, nesta época em que tudo flui, são as únicas coisas que podemos ensinar hoje que lhes serão úteis realmente em 2100, às portas do século XXII, quando eles estiverem velhos.

Lécio Cordeiro é formado em Letras pela UFPE e editor e autor de livros didáticos de Língua Portuguesa para os anos finais do Ensino Fundamental.

leciocordeiro@editoraconstruir.com.br

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