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É dia de Festa Junina

Judite Maria de Santana Silva

festa juninaLouvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
São João dos carneirinhos!
Vai ligeiro até teu pé-de-serra,
ouve o canto da carrimbamba, assanha a asa-branca e não deixe
o candeeiro apagar nem derramar o gás.
Rivaldo Paiva

Os festejos juninos concretizam uma das mais tradicionais e importantes manifestações populares do Nordeste. Seu ciclo compreende de 13 a 29 de junho, quando são destacados três santos: Santo Antônio, São João e São Pedro, todos homenageados pela Igreja Católica e reverenciados pelo povo. Tais manifestações constituem-se em grande contribuição cultural, representadas através de folguedos, crendices, danças, músicas, fogos, fogueiras e uma culinária específica. O ciclo junino é composto, ainda, pelos esportes rurais do Nordeste, especialmente a vaquejada, que une vaqueiros e agricultores festejando os frutos de seu trabalho.

As manifestações juninas são de origem agrária, de tradição européia, ligadas aos ciclos da fertilidade da terra, acontecimentos em que a fecundidade era festejada, obedecendo ao ritmo da colheita, fosse a partir do plantio do milho, fosse no momento em que se constatava o sucesso da colheita. Hoje, essa conotação já não existe, o sentido da comemoração não está atrelado aos ritos da fecundidade, mas, sobretudo, aos movimentos de grupos sociais como alternativa de entretenimento e lazer. E, como a influência européia se faz presente na vida cultural brasileira desde a colonização, as quadrilhas juninas, as fogueiras e os fogos (invenção chinesa) se popularizaram no Brasil, e as comemorações iniciadas no meio rural passaram a fazer parte do calendário das cidades.

Os instrumentos típicos utilizados (zabumba, triângulo e sanfona) são hoje auxiliados por sons eletrônicos. O requebrado sensual e dengoso da matuta apresenta uma coreografia à parte. As tendências urbanas vão se pluralizando e revelando as várias faces de nossas raízes, resultado da mescla negra, índia, portuguesa. Os aspectos da vida rural que se desenvolvem no Brasil enriquecem e representam nossa multiplicidade cultural. Exemplo bem característico aconteceu com a construção de Brasília, no final dos anos 1950, onde muitos nordestinos, transferidos para o Planalto Central, estenderam sua cultura através de bailes populares com o título de forró.

É no Nordeste que se conserva a tradição, através da música e da dança. O rojão, os foguetes, o fole tocando, a fogueira queimando nas noites de São João, quando toda a Região se agita ao som da sanfona, que dá um mexe-mexe no coração. O romantismo é invocado: Olha pro céu, meu amor, / vê como ele está lindo, / olha pra aquele balão multicor, / que lá no céu vai subindo.

O São João do Nordeste teve suas origens modificadas por outras influências, sobretudo a dos africanos, no que concerne à comida e aos ritmos. As transformações se dão no contexto histórico. Pensar no São João na roça é reviver o carpe diem, quando a natureza é mais vida e convida o homem a fugir da cidade (fugere urbem).

Os festejos juninos tornaram-se a mais rica manifestação folclórica, pois, mesmo preservando o caráter popular, atingem do tradicional ao estilizado. Essa modernização é percebida nos trajes, nas danças e nas músicas. A festa deixa de ser essencialmente do arraial e invade parques, praças, shoppings e clubes. E todo esse sincretismo torna o folclore junino um dos mais ricos, pelas suas crenças, superstições, adivinhações e pela fé dos devotos. Valorizar o saber popular de um povo é não deixar morrer a sua história, é não perder a sua identidade. E quem melhor que o nosso Luiz Gonzaga para expressar os sentimentos, o caráter e a história do Nordeste (Quando oiei a terra ardendo qual fogueira de São João [...]), que, de maneira ímpar, cantou o Nordeste, cantou o Brasil?

festa juninaAs danças juninas

O furor das contradanças
por toda parte se estende;
a todo o gênero humano
a quadrilha compreende.

Dança é uma seqüência de movimentos corporais executados de maneira ritmada, em geral ao som de música. As danças representam uma das características mais próprias dos festejos juninos. Quadrilha, baião, xaxado, xote, coco, forró e arrasta-pé são as alegres e expressivas danças juninas. São apresentadas em grupos coordenados que obedecem a várias seqüências coreográficas ou exibidas espontaneamente por pessoas comprometidas tão-somente com a festa e com a diversão.

A quadrilha é uma dança de origem européia, cujos registros originários, que falavam de velhas danças rurais da Normandia e da Inglaterra, perderam-se no tempo. O conjunto de danças palacianas, aristocráticas, que se espalhou pela Europa nos séculos XVIII e XIX chegou ao Brasil com os portugueses.

O termo quadrilha vem do francês quadrille e origina-se do italiano squadro, que significa companhia de soldados dispostos em quadrado. Era uma dança de elite, formada nos salões dos palácios. Com o passar do tempo, ela saiu e foi absorvida pela classe proletária, invadindo o interior brasileiro, onde se fixou como parte dos festejos juninos. Nos centros urbanos, ela é aceita como dança de origem caipira, sendo copiada em todos os detalhes, numa caracterização exagerada. Os maestros responsáveis pela introdução da quadrilha no Brasil foram Milliete e Cavalier, que encantaram, com essa modalidade de dança, os salões da corte. A quadrilha se espalhou pelas províncias e fixou-se na região rural, sendo dançada, inclusive, nos festejos de casamentos quando o cortejo desfilava pelas ruas após a celebração da cerimônia.

A quadrilha é a dinâmica da cultura, do popular ao erudito; cria e recria, estabelecendo a tradição como forma de preservação das origens, embora modernizada pela força da mídia, do comércio e da indústria cultural. Reporta-nos ao passado, quando a História nos faz reviver os vários momentos de uma manifestação.

A história, a dança e as músicas são alteradas, ganhando dimensões novas. Entretanto, há uma essência estrutural que as define e que não permite descaracterizar o modelo. É assim que os festejos juninos continuam vivos entre nós. A quadrilha tem como música original a polca, que é uma valsa ligeira e foi substituída pelos ritmos nordestinos como o xote, o xaxado, o baião, a ciranda, a marcha junina, constituindo-se no gênero forró.

A quadrilha torna-se, no Nordeste, o ponto alto do ciclo junino. O caráter se perde em função da cultura urbana, embora as origens nunca se ausentem, pois estão implícitas na memória do povo. O estilizado, na busca de renovação, deu lugar ao recriado, o que pode ser observado nas coreografias, nos figurinos e nas músicas que embalam os ritmos. É crescente o número de grupos que fazem a quadrilha como um espetáculo junino, produzido por agentes da periferia da cidade, como prova de que as transformações caminham atreladas às permanências. Isso é o verdadeiro significado de tradição, algo que ficou e que precisa ser visto e buscado como referencial.

Com a terminologia francesa, a quadrilha chegou ao Brasil: anavantur; anarrier; balancer, e, com a força da brasilidade, alguns termos foram aportuguesados, e outros, criados ou recriados: damas ao centro, é mentira, olha o túnel, olha a chuva, passeio, traveser de damas, traveser de cavalheiros, etc.

festa juninaEu vou mostrar pra vocês
como se dança o baião,
e quem quiser aprender
é só prestar atenção.

O baião é uma dança cantada, criação nordestina, resultante da fusão da dança africana com as danças dos nossos indígenas e a dos portugueses colonizadores, refletindo, na sua composição, o caldeamento dessas três raças. Anteriormente conhecido como baiano, do verbo baiar, forma popular de bailar, é uma variação rítmica do forró, geralmente entoada ao som da viola e de outros instrumentos, como a sanfona, o zabumba e o triângulo. A natureza do baião não sofreu transformação em outras regiões para onde migrou.

Essa modalidade de dança é formada dos seguintes passos: balanceio, passo de calcanhar, passo de ajoelhar e rodopio, em que damas — vestidas de chita, com babados, decotes ousados, mangas curtas e sandálias coloridas — e cavalheiros — com sandálias de couro cru, calça de brim claro e camisa comum — em pares, fazem a festa, ao som do agogô, do triângulo e da sanfona. A dança é executada com balanceios lascivos, rodopios, estalar de dedos e movimentos dos braços.
Xaxado é onomatopéia do rumor xa-xa-xa das alpercatas arrastadas no solo.

O xaxado é uma dança originária do sertão pernambucano, cujos movimentos acontecem em forma de círculos, onde os componentes se localizam um atrás do outro, levando o pé direito à frente num movimento ora ternário (três), ora quaternário (quatro) para as laterais, deslizando pelo salão num sapateado ligeiro.

festa juninaXote, maracatu e baião:
tudo isso eu trago no meu matolão.

O xote é considerado dança de salão com passos semelhantes aos da polca, que é executada ao som da sanfona nos bailes populares.

festa juninaSou um tirador de coco,
enfrento qualquer altura
com o meu rolinho de peia
amarrado na cintura.

O coco é uma dança típica das regiões praieiras e do sertão, sendo vivenciada no Norte e no Nordeste, especialmente em Alagoas por ser esse seu Estado de origem. Surgiu nos engenhos e percorreu um longo caminho até invadir os refinados salões burgueses. Recebeu uma grande influência africana e algumas marcações coreográficas dos bailados indígenas dos tupis da costa. O grupo é formado por instrumentos de percussão, bombos, ganzás ou caracaxás, pandeiros e cuícas.

Embora exista uma grande variedade de cocos, a sua coreografia e formação são básicas: uma roda de casais que cantam e dançam acompanhados pelas palmas, batidas dos pés ou tropel e pelos músicos. É também conhecido por pagode e samba e, em Pernambuco, como coco de roda. O mestre cantador, ou coqueiro, inicia a brincadeira puxando o canto com loas de improviso, os dançarinos formam a roda, respondendo ao refrão com palavras e com o sapateado típico.

festa juninaSabe quem eu sou?
Sabe quem sou eu?
Eu sou o forró.

Forró (do banto africano), forrobodó ou forrobodança significa festa, fartura de comes e bebes. Esse termo foi incorporado ao vocabulário nordestino desde o século XIX. É o maior sinônimo de São João no Nordeste. Essa palavra surgiu na imprensa, no Recife, em 1882, por Rodrigues de Carvalho e Pereira da Costa, e encaixada no Vocabulário Pernambucano com o significado de divertimento, pagodeira ou festança. As chamadas casas de forró surgiram, nos anos 1970, como local de entendimento dos migrantes nordestinos, e, assim, os festejos juninos foram tomando conta do Brasil. Hoje, o forró existe em todos os ritmos nordestinos e de outras regiões, o xote, o rojão, a dança de roda, o coco, o xaxado e o baião. O forró nordestino é nossa marca maior, uma espécie de identidade cultural brasileira.

O arrasta-pé é a marca do homem da roça, sofrido em seu pé-de-serra e durante muito tempo adormecido pela modernidade cultural. Hoje, revitalizado, glória que não se pode dar a outro, senão ao velho Lula, nosso Luiz Gonzaga, que soube tão perfeitamente cantar este Nordeste na sua língua e no manejo de seu povo.

No âmbito dos festejos juninos, contamos também com a presença dos bacamarteiros, que fazem suas exibições de grande importância para o brilhantismo das comemorações juninas. Essas apresentações datam de mais de um século nas fazendas do Sertão e do Agreste pernambucanos, bem como na Paraíba e em Alagoas.

A diversão constitui-se de homens portando bacamartes, reiúnas e granadeiras que são carregadas com pólvora seca (sem projétil ou chumbo) e disparadas pelos aficionados sob as ordens de um comandante, homenageando santos padroeiros ou em cerimônias típicas e políticas.

A tradição passa de pai para filho e, na falta de um varão na família, a filha mais velha se engaja no batalhão, após o falecimento do pai, e continua a participação no grupo.

A grande motivação dessa festa é o prazer de deflagrar poderosas armas, normalmente sendo cópias de granadeiras que foram usadas na Guerra do Paraguai.

 

festa junina

Fonte: Festejos juninos: uma tradição nordestina/.
Organizadores: José Ricardo Paes Barreto, Margarida Maria de Souza Pereira. Recife: Nova Presença, 2002.
Texto gentilmente cedido pelo Sr. José Ricardo Paes Barreto
Conselho Editorial da Editora Nova Presença.





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