Propriamente falando, essas histórias já andavam a correr o mundo na boca das velhas amas e
das avozinhas. Estas não fizeram mais do que dar o que seus pequenos ouvintes lhes pediam.
Era o caso de se perguntar quem era mesmo que inventava as histórias. Os irmãos Grimm, por
sua vez, com uma fidelidade muito anterior à época em que foi inventada a palavra folclore,
colheram, da boca das mulheres, umas dezenas dessas histórias. Essa carinhosa pesquisa se
estendeu por treze anos, enquanto comparavam e decantavam as diferentes versões, dando-lhes
unidade de estilo.
Mário Quintana

É meu objetivo, neste artigo, começar revisitando, de forma breve, a psicanálise freudiana
e a psicologia analítica de Jung para tentar encontrar uma possível relação entre o
inconsciente e a simbologia presente nos contos de fadas, bem como o papel que essa
possível relação vem desempenhando nos trabalhos dos que utilizam esse tipo de narrativa
como material clínico, para poder, em outro momento, refletir sobre a minha prática
enquanto terapeuta infantil, na qual o conto de fadas ocupa um lugar de destaque.
Freud e o Simbólico da Psicanálise: o Início de Tudo
Freud, desde muito cedo, em sua experiência clínica, destacou a importância e o valor dos
contos de fadas, chamando a atenção para o fato de que, assim como nos mitos e nas lendas,
essas narrativas referem-se à parte mais primitiva do psiquismo.
Não é surpreendente descobrir que a psicanálise confirma nosso reconhecimento do lugar
importante que os contos de fadas populares alcançaram na vida mental de nossos filhos. Em
algumas pessoas, a rememoração de seus contos de fadas favoritos ocupa o lugar das
lembranças de sua própria infância; elas transformaram esses contos em lembranças
encobridoras [...] Elementos e situações derivadas de contos de fadas podem também ser
encontrados em sonhos. Interpretando as passagens em apreço, o paciente produzirá o conto
de fadas significativo como associação (Freud, 1925:355).
Acredito que o papel do simbólico dos contos de fadas e sua relação com o processo de
elaboração onírica nas pessoas recebe um destaque no texto de Freud A Interpretação dos
Sonhos (1900). Nesse livro, o autor apresenta uma leitura minuciosa sobre o manancial
simbólico encontrado em relatos de seus pacientes, ao descreverem, em processo de terapia,
seus sonhos.
Freud, ao afirmar que os sonhos se valem do símbolo para uma representação disfarçada de
seus pensamentos latentes, acredita que, mesmo levando-se em consideração a plasticidade
peculiar do material psíquico, algumas vezes, um símbolo deveria ser interpretado em seu
sentido próprio. “Quando um sonhador dispõe de uma escolha entre diversos símbolos, ele se
decide em favor daquele cujo tema está ligado ao restante do material de seus pensamentos,
em outras palavras, daquele que tem motivos individuais para sua aceitação, além dos
motivos típicos” (Freud, 1999:47).
Em alguns casos clínicos descritos na obra citada, Freud traz, várias vezes, à baila a
pertinência de alguns símbolos presentes em alguns contos de fadas, encontrados em sonhos
de seus pacientes. Acho particularmente interessante sua referência a um conto de Hans
Andersen — A Roupa Nova do Imperador — encontrada na seção Sonhos embaraçados de estar
despido.
Nessa referência, ele acredita que os sonhos em que a pessoa se vê nua, ou
insuficientemente vestida na presença de estranhos, ocorrem, por vezes, com a
característica adicional de haver completa ausência de moralidade por parte de quem sonha.
Ora, num dos contos de Andersen, vislumbra-se a trajetória de dois impostores ao tecerem,
para um rico imperador, um traje muito caro que, segundo eles, só seria visível para as
pessoas de virtude e lealdade. O imperador desfila nu pelas ruas de sua cidade, e todos os
seus súditos, intimidados, fingem não reparar a nudez de seu monarca. No final da trama, é
uma pequena criança que, observando a nudez do rei, começa a gritar que ele está nu.
Em outra obra sua, Totem e Tabu (1913), Freud, mais uma vez, demonstra seu aguçado
interesse pela questão do simbolismo enquanto produto de uma cultura e seu papel no
entendimento do comportamento do ser humano. Nesse livro, ele apresenta uma leitura dos
mitos primitivos da humanidade, tentando estabelecer uma possível ligação entre o efeito
dos mesmos na compreensão e na leitura do comportamento de seus pacientes neuróticos. Sem
dúvida alguma, nos seus escritos, ele mergulha no universo das crenças religiosas, fato que
o leva a aventurar-se e arriscar-se frente à comunidade científica. Assim, Freud começa a
apresentar uma leitura de rituais e cultos totêmicos, que, às vezes, incluíam sacrifícios
de animais como forma de simbolização da purificação da alma humana.

Foi em abril de 1913 que começou o quarto capítulo do ensaio (Regresso Infantil ao
Totemismo), em que a origem da religião e da sociedade era explicada pelo assassínio do pai
primitivo e que, por várias razões, uniu contra si a grande maioria dos especialistas.
Procurando as analogias da vida psíquica dos primitivos com a dos neuróticos — e esse era o
subtítulo da obra —, Freud chega a uma conclusão com a qual ele próprio parece um pouco
admirado: “Redijo lentamente a minha quarta analogia, respeitante ao totemismo, com que
será encerrada a série. É a coisa mais ousada em que jamais me meti... Que Deus me ajude!”
(Freud, in Robert, 1977:308).
Ainda no trabalho citado, delineia relação entre os ritos iniciáticos dos povos primitivos
e as fobias e os medos de seus pacientes. Faz alusões ao medo do incesto, ao desejo de
ocupar o lugar do pai, à rivalidade fraterna, tentando sempre estabelecer uma analogia com
os dados clínicos de sua vasta prática terapêutica. No caso do pequeno Hans, por exemplo,
quando discute um caso particular de fobia animal em uma criança, começa a buscar uma
relação entre o quadro das fobias infantis ligadas ao medo quase sempre imotivado por um
animal. Freud (1913), em suas reflexões sobre a questão do totemismo, acredita que, pelo
modo como identifica o homem com o animal e pela espécie de terror sagrado de que o totem é
objeto, o totemismo evoca sempre, ou quase sempre, as estranhas zoofobias infantis que
encontrava, por vezes, em sua prática clínica.
Esse interesse pelos rituais dos povos primitivos e também pelo valor simbólico que algumas
características peculiares a determinados animais sacrificados apresentavam talvez tenha
levado Freud a pesquisar, mais sistematicamente, o papel simbólico que alguns “animais”
desempenhavam em alguns sonhos e também em certos contos de fadas. Não é de se estranhar o
fato de Freud (1925) ter dedicado grande interesse ao papel dos contos e sua relação com a
elaboração dos sonhos, chegando a escrever o artigo intitulado A Ocorrência em Sonhos de
Material Oriundo dos Contos de Fadas.
Nesse texto, chega a citar sonhos de alguns de seus clientes, que parecem evocar medos,
ligados, segundo ele, a questões da humanidade primitiva. Diz ele:
Se observamos cuidadosamente, a partir de exemplos claros, a maneira pela qual os
sonhadores utilizam os contos de fadas e o momento no qual os trazem à baila, podemos
talvez conseguir recolher algumas sugestões que os ajudarão a interpretar obscuridades
remanescentes nos próprios contos de fadas (Freud, 1925:359).
Na realidade, ele acreditava que essas histórias, enquanto relatos populares, perpassavam o
sagrado e o profano, o trágico e o humorístico, caracterizando-se pela presença de seres,
objetos e lugares sobrenaturais e que eram facilmente adaptáveis à mentalidade infantil,
assim como à dos adultos.
Freud, frente a um caso clínico, aponta para o fato de o Lobo Mau ser simplesmente um
primeiro representante paterno a encontrar sua relação com o conteúdo oculto nos contos de
fadas em que o Lobo come cabritinhos e Chapeuzinho Vermelho, fato que o leva a pensar no
medo infantil da figura paterna e na questão do desamparo. Assunto explorado por ele, sob o
ponto de vista psíquico, como fazendo parte da própria natureza humana. Essas referências
surgem a partir do caso clínico O Homem dos Lobos, quando o paciente substituía
simbolicamente o lobo pelo pai, a partir de seu desejo.
Jung e Von Franz: o Mergulho no Universo das Imagens Arquetípicas
Um outro teórico da psicanálise, não menos famoso, Jung, deixa margem para estudiosos da
psicologia analítica verem, no conto de fadas, a possibilidade de trabalhar questões
relativas à existencialidade humana, que estão no plano do inconsciente — enquanto imagens
arquetípicas —, levando o ser humano a entrar em contato com o seu processo de
individuação, encorajando-o para a vida, criando sempre novas possibilidades que dariam
continuidade ao fluxo da existência. Na realidade, Jung se aprofunda de forma detalhada no
estudo dos contos de fadas, motivado, obviamente, pelo seu interesse acerca da questão do
simbolismo universal e arquetípico como influenciador da história individual das pessoas.
Quando um psicanalista se interessa por símbolos, ocupa-se, em primeiro lugar, dos símbolos
naturais, distintos dos símbolos culturais. Os primeiros são derivados dos conteúdos
inconscientes da psique e, portanto, representam um número imenso de variações das imagens
arquetípicas universais. Em alguns casos, pode-se chegar às suas origens mais arcaicas —
isto é, a idéias e imagens que vamos encontrar nos mais antigos registros e nas mais
primitivas sociedades. Os símbolos culturais, por outro lado, são aqueles que foram
empregados para expressar “verdades externas” e que ainda são utilizados em muitas
religiões. Passaram por inúmeras transformações e, mesmo, por um longo processo de
elaboração mais ou menos consciente, tornando-se, assim, imagens coletivas aceitas pelas
sociedades civilizadas (Jung, 1964:93).
Carl G. Jung, na verdade, trabalhou na decodificação dos contos infantis para melhor
diagnosticar e entender as doenças psicológicas, acreditando que os contos de fadas
representavam as etapas do processo de individuação: a realização, pelo ego, das
potencialidades de si mesmo. Segundo ele, os contos de fadas nada mais seriam do que a
versão contemporânea da transmutação alquímica, em que a matéria bruta seria transformada
em algo de maior valor.
Essas narrativas, assim como os mitos e rituais iniciáticos, são para Jung (1964) os
tesouros da humanidade utilizados para atravessar momentos de crise. São experiências
iniciáticas disfarçadas, a fim de poderem escapar da censura de uma época antimítica. São
as expressões mais transparentes dos arquétipos do inconsciente coletivo.
De acordo com o teórico, o inconsciente coletivo seria um reservatório de imagens latentes,
em geral chamadas de imagens primordiais. O homem herdaria essas imagens do passado
ancestral, passado esse que inclui todos os antecedentes humanos, bem como os antecedentes
pré-humanos ou animais. Essas imagens nada mais seriam que predisposições, no lidar e no
responder ao mundo tal como os antepassados.
Por sua vez, os conteúdos do inconsciente coletivo, chamados de arquétipos, estimulam um
padrão pre-formado de comportamento pessoal, que o indivíduo seguirá desde o dia do seu
nascimento. São de natureza universal, o que justifica a crença defendida por Jung de que
todos os homens herdariam as mesmas imagens arquetípicas básicas. Sendo assim, por exemplo,
cada criança herdaria um arquétipo materno. Essa imagem preformada da mãe aplica-se
futuramente a uma imagem definida pela aparência e pelo comportamento da verdadeira mãe e
pelas relações que a criança travaria com ela.
Em suas reflexões, Jung procurou mostrar o quanto é necessário para um psicanalista um
conhecimento sólido e profundo da questão dos arquétipos e da mitologia, para poder
compreender e utilizar os contos de fadas e sua simbologia universal enquanto material
clínico. Segundo ele, a presença de animais na quase maioria dos contos parece sugerir a
natureza primitiva e instintiva do homem. Concordando com Freud, afirma que, para poder
rememorar o seu lado perverso, o homem lança mão da figura de animais, às vezes demoníacos,
como cobras, dragões, leões, lobos...
Pode-se constatar, em sua obra mais conhecida, O Homem e seus Símbolos (1964), uma
referência ao famoso conto A Bela e a Fera. De acordo com sua leitura, esse conto encarna
nosso medo primitivo frente às questões sexuais, que, no conto, traduzem-se na pele de um
feroz animal. Nesse conto, a figura masculina parece se dividir em: o pai-bom e o
homem-fera, divisão essa que obriga Bela a viver com o segundo, para que, com essa escolha,
possa salvar o primeiro. O conto se desenvolve como processo de amadurecimento da heroína
graças a um rito de passagem, o que a leva a conscientizar-se da figura masculina através
de seus desejos. Do pai à fera, da fera ao príncipe. “Há um mito universal que expressa bem
esse tipo de despertar — o conto da Bela e a Fera. A versão mais conhecida conta como Bela,
a mais jovem de quatro irmãs, tornou-se, graças à sua bondade e abnegação, a preferida do
pai” (Jung, 1964:138). Existem muitas versões dessa história romântica que, há séculos, vêm
sendo transmitidas. No entanto, a versão mais conhecida é o texto clássico de Madame Jeanne
Marie de Reaumont, datado de 1756.
Essa relação parece esclarecer a teoria dos discípulos de Jung, na qual acredita-se que os contos de fadas, por retratarem imagens arquetípicas universais, por serem presentes no
inconsciente coletivo do ser humano e originados, possivelmente, nos sonhos das pessoas,
seriam um modelo encorajador para a vida, criando sempre novas possibilidades que dariam
continuidade ao fluxo humano da existência.
Para vários estudiosos da psicologia analítica, cada conto de fadas representa um drama no
qual os personagens arquetípicos — que povoam o inconsciente — movimentam o psiquismo,
estabelecendo a ponte entre o consciente e o inconsciente, obtendo, a partir desse momento,
efeitos catárticos e projetivos. Assim, a bruxa seria uma das várias manifestações do
aspecto negativo do arquétipo mãe. Em João e Maria, por exemplo, ela parece ser o símbolo
da mãe dominadora que controla e prende seus filhos no nível obscuro da imaturidade,
usando, por sua vez, docinhos como armadilha. Já em o Pequeno Polegar, sete irmãos são
expulsos da casa paterna porque os pais não têm como alimentá-los e vão parar na casa de um
ogro faminto. Para Jung, uma espécie de pai devorador.
O trabalho de Marie Louise Von Franz (1979), colaboradora de Jung, sobre a utilização dos
contos de fadas na clínica é amplo e profundo. Ela acredita que o simbolismo encontrado nos
contos de fadas, chamados por ela de textos alquímicos, não poderia ficar isolado de
pesquisas referentes a outras modalidades do inconsciente–sonhos. Mitos e lendas. Ela
compara a procura do sentido dos contos de fadas à tentativa de alcançar, seguindo-lhe as
pegadas, um cervo fugitivo particularmente ágil.
Contos de fadas são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do
inconsciente coletivo. Conseqüentemente, o valor deles para a investigação científica do
inconsciente é sobejamente superior a qualquer outro material. Eles representam os
arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa. Os camponeses suíços
experienciam-nos constantemente, e eles formam a base das crenças folclóricas. Quando
alguma coisa acontece, ela é cochichada e corre, como correm os boatos; então, sob
condições favoráveis, o fato emerge enriquecido de representações arquetípicas já
existentes e, progressivamente, transforma-se num conto (Von Franz, 1990:29, 30).
Bruno Bettelheim: a Criança e o Conto de Fadas
Passo agora às especulações científicas de Bettelheim (1980) em torno dos contos de fadas,
pelo fato de essa perspectiva vir, há muito tempo, exercendo uma influência significativa
em meu fazer clínico.
Gostaria, inicialmente, de pontuar o fato de o autor em questão, a meu ver, aproximar-se
mais de um modelo freudiano de personalidade ao trabalhar com os contos de fadas, não
abordando, em suas constatações, questões relativas a conceitos junguianos — inconsciente
coletivo–arquétipo —, bem dimensionados nos relatos de Von Franz.
Por outro lado, acho importante deixar claro que, para a grande maioria de psicólogos e
psicanalistas, os contos de fadas são tão paradoxais quanto o próprio psiquismo humano, e
sua importância fundamental se encontra no fato de que eles parecem permitir lançar uma
ponte imaginária entre o consciente e o inconsciente. Sua narrativa serve para encorajar
crianças, jovens e adultos a “vencerem”, a “superarem” sua natureza instintiva,
fortalecendo o ego, para que se tornem cada vez mais conscientes das escolhas éticas em sua
condição e conduta pessoal; além disso, no caso de adultos, os contos de fadas podem
auxiliar na identificação de seus complexos e suas compulsões, pelas analogias “mais ou
menos rápidas” que permitem estabelecer, levando a novas formas puras; as imagens
arquetípicas fornecem-nos as melhores pistas para a compreensão dos processos que se passam
na psique coletiva.
Nos mitos, nas lendas ou em qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as
estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas, nos
contos de fadas, existe um material cultural consciente muito menos específico e,
conseqüentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique (Von Franz,
1990:9).
Em suas especulações sobre o papel dos contos de fadas no processo terapêutico, Von Franz
(1979) parece afirmar que a linguagem dos símbolos permite mergulhar-se nas camadas do
inconsciente, pelo fato de essas narrativas serem portadoras de um sentido que cobra uma
leitura para além de uma visão puramente racional.
Com base nessas especulações, chega-se à constatação de que os contos de fadas tentam, na
realidade, descrever, em suas entrelinhas simbólicas, apenas um fato psíquico. Trata-se, na
realidade, do que Jung denominou de processo de individuação que, segundo o teórico, seria,
pelo ego das potencialidades de si mesmo, o arquétipo comum do psiquismo humano.
Em outras palavras, seria a versão moderna da transmutação alquímica em que a matéria-prima
sem valor era transformada em ouro ou na “pedra filosofal”, o símbolo do tesouro oculto que
aparece nos mais variados contos de fadas. Ora, esse tesouro oculto, na realidade,
encontra-se dentro de cada homem, e só é possível desvendá-lo a partir de um diálogo
sistemático entre consciente e inconsciente.
Gostaria de encerrar essas observações sobre a autora, trazendo uma citação sua, que
acredito abordar de forma sintética tudo o que até agora foi discutido.
A hipótese é de que, provavelmente, as formas mais originais dos contos folclóricos são as
sagas locais e as histórias miraculosas que acontecem devido à invasão do inconsciente
coletivo sob a forma de alucinações em estado de vigília.
De família de classe média judia, Bruno Bettelheim teve sua formação em colégios da
Alemanha e da Áustria. Estudou na Universidade de Viena — era discípulo de Freud —, onde se
formou com especialização em Psicologia e Filosofia. Depois do Ph.D. em 1938, teve sua
trajetória atropelada pelo nazismo. Graças à influência de Leonor Roosevelt — mulher do
então presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt —, que já tinha ouvido falar sobre
seu trabalho com crianças autistas, acaba escapando do confinamento nazista e vai para a
América, onde dá prosseguimento aos seus estudos sobre crianças emocionalmente
comprometidas.
Bettelheim buscava a cura dessas crianças, utilizando, em sua clínica, as brincadeiras que
faziam parte de seu cotidiano. Aos poucos, vai incluindo em seus atendimentos o trabalho
com contos de fadas, para ele narrativas envoltas por um clima maravilhoso e rico em
fantasias. Em realidade, Bettelheim acreditava que essas crianças precisavam resgatar o
significado de sua vida. Significado este “perdido” em algum momento de sua infância, a
partir da relação com seus pais e com a sociedade. Diz ele:
Com respeito a essa tarefa, nada é mais importante do que o impacto dos pais e outros que
cuidam da criança; em segundo lugar, vem nossa herança cultural, quando transmitida à
criança de maneira correta. Quando as crianças são novas, é a literatura que canaliza
melhor esse tipo de importância (Bettelheim, 1980:12).
O conto de fadas teria o poder de ajudar nesse resgate.
Afirma que o contato com o conto de fadas possibilita aprender mais sobre os dilemas
interiores do ser humano e sobre as soluções corretas para seus predicamentos em qualquer
sociedade. Para o autor, essas narrativas falam das pressões internas infantis de uma
maneira que a criança possa compreender o inconsciente, sem negligenciar as lutas
interiores mais sérias que o crescimento psicológico pressupõe, oferecendo modelos de
soluções temporárias e permanentes para as dificuldades mais urgentes.
Ainda segundo Bettelheim, em quase todos os contos de fadas fica claro que é só partindo
para o mundo fora de casa que o herói — a criança — pode se encontrar e, fazendo-o, poderá
encontrar também o outro com quem será capaz de viver feliz para sempre, isto é, sem ter de
experimentar novamente a ansiedade da separação.
Por serem narrativas orientadas para o futuro, a criança, ao projetar-se em seu mundo,
acaba se colocando no lugar do personagem central e, com ele, acompanhando todos os rituais
de crescimento. Esses rituais, às vezes sofridos e dolorosos, acabam levando o herói para a
conquista de seu próprio crescimento.
Se não fosse forçada a tornar-se Borralheira, a heroína nunca teria ficado noiva do
príncipe. Para conseguirmos identidade pessoal e auto-realização em um nível superior,
necessitamos das duas coisas: os pais bons do início e depois os pais adotivos, que parecem
fazer exigências cruéis e insensíveis (Bettelheim, 1980:234).
Ao longo de sua obra mais famosa — Psicanálise dos Contos de Fadas (1980) —, vai oferecer
embasamento teórico e reflexões terapêuticas com base no modelo freudiano de psicanálise,
visando à investigação do inconsciente infantil, no sentido de asssegurar às crianças uma
possibilidade de trabalhar sua natureza instintiva, por meio do contato com a simbologia
pertinente a esses contos.
Según Shapiro y Katz (1978), Bettelheim interpreta el significado simbólico de los
personajes de los cuentos de hadas en tres niveles: representan personas importantes en la
vida del niños, como sus padres o sus hermanos; representan partes o experiencias de la
propia personalidad (como la parte buena o mala de uno mismo); y representan procesos
internos, como el ego y el superego. Este tipo de análisis es muy similar a la
interpretación psicoanalítica de cientras proyectivas (Coulacoglou, 1995:8).
Chauí (1984) concorda com Bettelheim nas seguintes questões:
Em primeiro lugar, o conto de fadas é essencial para a formação da criança porque ajuda,
dando asas à imaginação, a distinguir o real e o irreal. Em segundo lugar, ajuda a criança
a estabilizar afetos conflitantes, configurando claramente o justo e o injusto, o bom e o
mau [...] Em terceiro lugar, garante à criança que é amada e que esse amor não desaparecerá
quando, ao crescer, ela se desligar de seus próximos para viver sua própria vida...
(1984:31).
A obra do autor é rica em citações de casos clínicos atendidos por ele, através dos quais
procura delinear o papel dos contos de fadas na terapêutica das desordens infantis. Ele
acredita que os problemas típicos da criança, tais como: superação dos dilemas edípicos,
narcisismo, rivalidades fraternas, abandono da onipotência e egocentrismo infantis podem
ser redimensionados quando a criança se familiariza com o conteúdo de seu inconsciente
através de devaneios prolongados, como também do processo único de fantasiar, e não por
meio da tentativa de compreensão racional da natureza e do conteúdo de seu inconsciente. Chama ainda a atenção para a necessidade infantil da fantasia, da mágica e, principalmente,
do símbolo e seu significado como um canal de acesso ao seu inconsciente.
Bettelheim (1980) acredita que um desenvolvimento emocional “anormal” se estabelece quando
um dos elementos da personalidade — id, ego e superego — acaba por predominar sobre
qualquer dos outros, acarretando um esvaziamento total da personalidade de seus recursos
específicos. Afirma que o contato com o simbolismo presente nos contos de fadas seria uma
estratégia poderosa na tentativa de restaurar o ritmo normal do desenvolvimento infantil.
Portanto, para esse autor, o conto de fadas, com sua estrutura narrativa e a presença do
maravilhoso enquanto elemento básico, pode ser o elemento, a técnica terapêutica que irá
resgatar o equilíbrio entre as instâncias psíquicas citadas.
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Bibliografia
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo: Paz e Terra, 1979.
BRITO, Carlos. Ressignificando o Uso Clínico dos Contos de Fadas na Clínica com Crianças:
do Símbolo ao Significante. Dissertação de Mestrado. PUC/SP, 2000.
CHAUÍ, Marilena. Repressão Sexual, nossa (Des)conhecida. São Paulo: Brasiliense, 1984.
COULACOGLOU, Carina. FTT- Test de los Cuentos de Hada. Madrid: Tea, 1995.
FREUD, Sigmund. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1925.
JUNG, Carl. G. Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1964.
VON FRANZ, Marie L. A Interpretação dos Contos de Fadas. São Paulo: Paulinas, 1980. |
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Carlos Brito é psicólogo, fonoaudiólogo, especialista em Metodologia do Ensino Superior
(Unicap/PE), Mestre em Fonoaudiologia (PUC/SP), professor adjunto do Departamento de
Psicologia da Unicap/PE e professor de Literatura Infantil. |