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Retomar a delicadeza relegada ao esquecimento melhora a qualidade de vida e as relações cotidianas

Cíntia Parcias e Clarisse Meireles

Faça um rápido teste de memória. Você cumprimentou seu vizinho hoje de manhã no elevador? Desejou bom-dia ao porteiro quando cruzou com ele na portaria, como faz todas as manhãs? Deu passagem para o carro que precisava mudar de pista para entrar numa rua transversal? Esperou pacientemente o carro da frente andar, sem buzinar, quando o sinal ficou verde? Se respondeu negativamente a alguma das perguntas acima, saiba que, além de agir de forma tremendamente mal-educada, você está fazendo mal à sua própria saúde — e à das pessoas que o cercam.

Segundo o livro A Arte da Gentileza, de Piero Ferruci (Ed. Alegro), pesquisas científicas confirmam que pessoas gentis são mais saudáveis e vivem mais, são mais amadas e produtivas, têm mais sucesso nos negócios e são mais felizes. “Ser gentil nos faz tão bem quanto ser alvo de uma gentileza”, garante o autor. Por outro lado, a não gentileza gera sentimentos negativos, atrapalha as relações e pode até deixar a pessoa doente, já que, quando alguém é alvo de grosseria ou falta de educação, o sistema nervoso reage liberando hormônios como a adrenalina, que desequilibra o organismo. Até a musculatura é afetada e reage à falta de gentileza se contraindo, deixando o corpo cada vez mais tenso.

“A falta de gentileza, caracterizada por um ambiente de grosseria e violência, constitui-se em um fator estressor que leva o indivíduo ao desenvolvimento do estresse crônico. Por consequência, a qualidade de vida acaba sendo afetada, incluindo a saúde”, confirma a psicóloga Lúcia Novaes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretora do Centro Psicológico de Controle do Stress.

O que a ciência agora comprova vai ao encontro do que o Profeta Gentileza passou grande parte da vida pregando e escrevendo nos mais de 50 murais que criou sob o Viaduto do Gasômetro, próximo à Rodoviária Novo Rio. Sua mensagem podia ser resumida na frase-síntese “gentileza gera gentileza”.

Os murais, restaurados há cinco anos pelo projeto Rio com Gentileza, coordenado pelo filósofo Leonardo Guelman, hoje se encontram novamente danificados por pichações logo abaixo das inscrições do Profeta. Mais ou menos como a própria gentileza, tão fora de moda nos dias que correm.

“O Gentileza denunciava uma crise ética, de valores. Segundo ele, tudo passa pelo favor. O simples fato de pedirmos ‘por favor’ e agradecermos com um ‘obrigado’ denotava que adotamos a troca na base do toma lá dá cá, típico do mundo individualista, produto do capitalismo que ele batizou de ‘capeta capital’”, afirma Guelman, autor do livro Brasil, Tempo de Gentileza (Eduff), sobre o Profeta, que morreu aos 79 anos, em 1996.

Para o Profeta, ficamos cegos e surdos e perdemos a capacidade de ver e ouvir o outro. Segundo a psicoterapeuta e educadora Sandra Celano, o pronome nós, neste mundo tão individualista, agrega, no máximo, o núcleo familiar. “Então, como esperar que um seja gentil com o outro em pequenas ações cotidianas se as pessoas não conseguem nem perceber o outro?”, questiona. Até em uma discussão é possível manter a gentileza. “Basta prestar atenção ao que a outra pessoa diz e se expressar considerando suas razões e seu ponto de vista”, completa Sandra, que observa, em seu consultório, o crescimento da falta de gentileza como uma das queixas comuns de seus pacientes.

Um dos ambientes onde a falta de delicadeza e gentileza mais se manifesta é no local de trabalho. Muitas vezes, as pessoas confundem relações profissionais com frieza e rispidez. E deixam de agradecer um serviço só porque este está sendo pago. “Hoje, já existem empresas que têm como meta o bem-estar dos seus funcionários. Não porque sejam boazinhas, pois toda empresa precisa gerar lucros, mas, sim, porque descobriram que, onde há bem-estar, há produtividade, pois as pessoas trabalham felizes”, observa Alkíndar de Oliveira, consultor de empresas e autor de Viver É Simples, Nós É que Complicamos (Ed. Didier). “Neste novo mundo corporativo que está surgindo, há uma ferramenta que tende a ser a mais importante na convivência profissional. Trata-se da afetividade. E a gentileza é um dos frutos da árvore do afeto.”

Como todo profeta, Gentileza denunciava a crise e anunciava uma boa nova. Para ele, temos que, assim como a natureza, que nos dá tudo de graça, reservar um tempo à troca desinteressada. O primeiro passo seria bem simples: dizer sempre “agradecido” e “por gentileza”, em vez das fórmulas consagradas — que já foram esquecidas por muita gente, porém sem nenhuma substituição.

Uma das pessoas que foram tocadas pela obra de Gentileza foi a compositora Marisa Monte, que transformou alguns de seus versos em uma canção com o nome do Profeta. Marisa fez a música no dia em que foi apresentar os murais ao parceiro Carlinhos Brown, antes do projeto de recuperação, e viu que não havia mais nada. Chocada, escreveu a música.

A cantora acha que a mensagem de Gentileza está cada vez mais atual: “Com o ritmo acelerado das cidades, as pessoas estão perdendo a noção de gentileza, que é uma espécie de pureza refrescante para a vida, para o dia a dia”. Ainda hoje, ela se comove em ver que alguém dedicou sua vida para falar da importância de ser gentil e, em vez de pedir dinheiro, ir de carro em carro, oferecer uma flor. “Ele foi uma pessoa linda que plantou a semente da gentileza.”

Buda também identificou alguns benefícios de se cultivar a gentileza, como dormir bem, ser amado, ter proteção dos seres divinos e uma mente serena. De nada adianta, no entanto, começar a ser gentil para obter tais resultados e melhora da qualidade de vida, pois falsidade é algo diametralmente oposto à proposta. E, por princípio, a gentileza é necessariamente desinteressada. Como o escritor britânico Aldous Huxley afirmou no fim da vida: “É desconcertante que, após anos e anos de pesquisas e experimentações, eu tenha que dizer que a melhor técnica para transformar nossa vida seja ser mais gentil”.

Isso é algo bastante urgente de ser lembrado nos dias de hoje. Pois, se gentileza gera gentileza, a sua falta só pode produzir uma carência ainda maior, daí o cenário aterrador de um mundo de rispidez e impaciência e seus assustadores índices de violência — não como causa única, evidentemente.

“A falta de gentileza e a hostilidade nas relações podem contribuir para um mundo estressante, na medida em que essas atitudes são contagiosas. Violência gera violência, hostilidade gera hostilidade, raiva gera raiva”, acredita a psicóloga Lúcia Novaes. “Por outro lado”, diz ela, “o mundo estressado, com tantas demandas, com a necessidade de se fazer cada vez mais coisas em menos tempo e mais perfeitas, abre espaço para atitudes agressivas, raivosas e hostis. É um círculo vicioso.”

Em 2006, para marcar os dez anos da morte de Gentileza, um grupo de artistas e intelectuais afinados com a causa do Profeta retomou o projeto Rio com Gentileza, com manifestações festivas pela cidade para lembrar a atualidade do pensamento do Profeta.

“Se ele estivesse entre nós, continuaria pregando a gentileza, já que seus avessos, a rudeza e a violência, infelizmente não saíram de moda”, acredita Guelman, que também reivindica junto à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro um maior cuidado com os murais, que deveriam ser cercados e iluminados. “São um patrimônio afetivo da cidade”, justifica.

A importância de se adotar a atitude no cotidiano é bem expressada pelo teólogo Leonardo Boff, em artigo intitulado Espírito de Gentileza (disponível na íntegra no site leonardoboff. com). “Este espírito nunca ganhou centralidade, por isso somos tão vazios e violentos. Hoje ele é urgente. Ou seremos gentis e cuidantes ou nos entredevoraremos.”

Fonte: Fórum Saúde BR

http://www.vadiando.com/textos/archives/cat_compaixao_generosidade.html





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