
De quem: crianças
ou adultos?
Faltam limites?
Marcelo Cunha Bueno
Muitas famílias me procuram para conversar a respeito de limites e de uma
tal de “agressividade” infantil. Trazem os mais diferentes relatos de espancamento,
cusparadas, mordidas e empurrões. Falam dos escândalos em lugares
públicos, em festas de criança, na porta da escola... Sempre se perguntam se
a criança tem algum problema, se esse comportamento acontece também no
espaço escolar. Sempre trazem a mesma questão: como colocar limites? Como
fazer para a criança obedecer e se tornar educada?
São dois pontos importantes e que estão ligados a dois aspectos:
um de ordem conceitual, pois existe um modelo de
criança esperado pelas famílias, portanto, uma concepção
de infância; e outro, de ordem “prática”, que está relacionado
ao conceitual, que dirá o que fazer nessas situações.
A primeira coisa que a escola pode fazer para ajudar as famílias
é mostrar que é bem possível que o que se espera do filho
ou da filha seja demais para eles. É tentar fazer com que
as famílias construam uma imagem do filho sem estar colada
à imagem da criança ideal. Sai a pressão, a conformidade
da conduta, entra a criança, colocada na família específica.
Uma vez feito isso, é muito importante que desfaçamos algumas
ideias de autoridade. Autoridade não é uma relação
construída sem respeito, sem integridade. Autoridade é firmeza,
paciência e persistência nas palavras.
Muitas famílias outorgam às crianças poderes de adultos de
forma que elas escolhem se vão viajar ou não, se vão sair à
noite ou não, escolhem os próprios castigos e até se querem
ir à escola. Criança não pode fazer isso. Não pode porque é
função do responsável por ela. Isso não é criar uma relação
democrática, entre iguais. Isso é colocar um peso que o corpo
e a mente da criança não suportariam! Isso é deslocar
o papel de pai e mãe para uma instância fora do que seria
uma referência para as crianças. Outra coisa: pais e mães,
e professores também, devem aprender o valor afetivo do
“não”. Um “não” que acolhe, um “não” que oferece limites,
um “não” que educa. É mais fácil para as crianças conviverem
com o “não” do que com a ausência dele. Já vi diversas
vezes mães e pais, depois de uma cena de escândalo de seus
filhos, que não conseguiram o que queriam, voltarem atrás
e dizerem: “Só dessa vez!”. Isso é ausência de autoridade.
Muitos familiares, para evitar cenas de birra em público, acabam
cedendo às pressões dos filhos e das filhas e, com isso,
prestam um desserviço à educação deles. Depois de um tempo,
de tomar tanto na cara, pais e mães perdem a paciência
e partem para a autoridade que não queriam ter: revidam a
desobediência com os mesmos tapas e gritos das crianças.
Na escola, é bem comum ver aquelas crianças que batem
mais, que resolvem seus conflitos de forma mais corporal,
ou seja, com tapas e pontapés. Ou crianças que tentam, por
meio de gritos e choros, conseguir o que querem. Isso não
pode ser “uma coisa de criança”, simplesmente permitida,
pois seria pensar na criança como aquele ideal infantil. Isso
deve ser resolvido. Se ela sempre bate nos amigos, o professor
deve fazer algo com ela. Sem castigos ou coisa do gênero.
Limites! Sinto que muitas escolas e muitos professores têm
medo de dizer “não” e de colocar limites também. Isso não
pode acontecer. Se escola é um espaço repleto de regras, é repleto,
portanto, de transgressões; então, ela deve se preparar
para lidar com isso de forma clara e direta, sem rodeios.
Clareza é a chave para o sucesso! Ser franco e direto alivia
a criança da angústia das decisões tardias dos adultos. As
crianças precisam de limites no momento que os pedem.
Fica mais fácil para aprender, fica mais fácil para crescer.
Colocar limites é fundamental para que construam um espaço,
digamos assim, “geográfico” das relações sociais.
À medida que as crianças crescem, percebo que as intervenções
das famílias precisam ser repetidas diversas vezes. É
isso mesmo, repetir até ficar diferente. O fato de a criança
voltar, vez ou outra, à mesma atitude pode não significar
que ela não aprendeu ou não entendeu, mas, sim, que ainda
precisa checar algumas situações e ver como o pai e a mãe
se colocam diante dela e como as pessoas reagem quando
ela age dessa forma. Não adianta fazer ameaças e ceninhas,
as crianças precisam de ação. O que pode pode, o que não
pode não pode e pronto. Elas esperneiam, choram, mas todos
sabem o fim, é preciso ser firme e ter paciência.
Criança gosta de repetir as coisas. Assiste ao mesmo filme
diversas vezes, pede para ouvir a mesma história sempre,
gosta de brincar das mesmas brincadeiras. Repete para
aprender, para elaborar e construir uma ideia de mundo.
Muitos familiares dizem que já tentaram de tudo para fazer
com que seus filhos ou suas filhas parem de bater, de falar
palavrões, de dar pontapés. Perguntam-me qual é o problema...
querem levá-los ao médico, fazer ressonância da cabeça.
Digo que o problema é que tentaram de tudo... e não
uma coisa apenas.
Não adianta fazer malabarismos na educação de crianças.
É preciso ter firmeza nas palavras, fazer-se valer diante das
situações. Colocar a regra e que tipo de intervenção irá
acontecer quando ela for descumprida. A criança vai checar
para ver se ela continua valendo, se o pai e a mãe realmente
sabem o que fazem e dizem. Existe família que acha que
repetir a mesma bagunça é pouco caso... mas não é, não,
muito pelo contrário... é por fazer muito caso, é por dar
muita importância, que a criança repete as cenas.
Na verdade, podemos dizer que a tal “agressividade infantil”,
ou coisa que o valha, é, muitas vezes, um pedido de
socorro. Um pedido pela presença do adulto, um pedido que
deve ter começado lá atrás, desde cedo, e que as famílias
não souberam ou não quiseram ler. É preciso também colocar
limites nas ações dos adultos, pois eles são os únicos
responsáveis pelas crianças de que cuidam.
Quando aprendemos a ler as crianças e colocar as coisas no
lugar, conseguimos identificar melhor o que acontece realmente
com elas, ou seja, quando é um pedido de socorro e
quando é um ato violento. Por isso, pais e mães devem se
aliar às escolas para entenderem e se informarem melhor
quando o assunto é limites. Devem conversar bastante com
professores para perceber quais comportamentos também
fazem parte da vida da criança, pois, se na escola é tão diferente
do que acontece em casa... algo está dissonante!
Marcelo Cunha Bueno é educador e diretor pedagógico
da Escola Estilo de Aprender, em São Paulo.