
A mente humana é uma máquina em desenvolvimento constante, que trabalha
em alta rotatividade para atingir os seus limites. Se for monitorada com maestria
para evitar distúrbios, conduzida por um caminho coerente para superar
grilos, dificuldades, anormalidades, pode transformar vidas.
Um dos atalhos que pode conduzir o indivíduo ao desvio é o
Transtorno Bipolar – TB.
O Transtorno Bipolar, ou Distúrbio Bipolar, é uma forma
de transtorno caracterizado pela variação extrema do
humor entre uma fase maníaca, ou de hipomania (hiperatividade
e grande imaginação), e uma fase de depressão,
de inibição (lentidão para conceber e realizar
ideias e ansiedade ou tristeza). Juntos, esses sintomas
são comumente conhecidos como depressão maníaca.
A vítima do TB vive em permanente estado de inconstância
comportamental, oscila entre a extrema alegria — com
uma euforia exagerada, humor contagiante (hipomania ou
mania) — e a tristeza, o mau humor, desespero, medo (depressão).
Depois volta a agir normalmente, como se tais
mudanças não transitassem pela sua cabeça.
É fundamental ratificar que nem todas as pessoas que
têm altos e baixos no comportamento são vítimas do TB,
pois essas oscilações podem ocorrer com qualquer pessoa
livre de distúrbios. Da mesma forma, a proporção das
crises varia de pessoa para pessoa quanto à intensidade e
duração. Ninguém está fora da mira desse distúrbio, nem
mesmo as crianças. E, como em muitos casos a vítima
não percebe as mudanças de humor, há resistência para
se submeter aos tratamentos.
Apesar de desconhecido para uns e um mito para outros, o
TB é um martírio para as vítimas, que mergulham em episódios
singulares sem que aqueles que as rodeiam entendam
tais comportamentos. Devido à inexistência de amparo
e apoio da família, que na maioria dos casos desconhece
o problema, a situação se agrava. Pois o TB absorve a resistência
psicológica, abala a estrutura emocional e afeta o
sistema nervoso devido aos conflitos que acontecem num
espaço de tempo cada vez menor à medida que a doença
avança, fazendo com que o período em crise seja superior
ao período normal. A progressão é tamanha que muitos não
suportam as alterações de conduta e tentam suicídio.
Segundo a medicina, mais de 90% dos casos de Transtorno
Bipolar são manifestados na infância — conforme revela a
conceituada revista americana Time, que destacou o TB na
infância como matéria de capa na edição do dia 19 de setembro
de 2002 —, principalmente em crianças adotadas,
mas muitos casos são identificados depois dos 15 anos. Pais
e especialistas confundem as mudanças de humor — normal
nessa fase de metamorfose física e emocional —, normalmente,
com pirraça, fato que dificulta o tratamento, devido
ao diagnóstico tardio da doença.
E, como todo problema complexo que envolve o emocional
e o psicológico, tudo é delicado: da abordagem ao tratamento,
pois uma gama de sinônimos e paralelos é posta
em xeque, e o TB apresenta uma longa lista — psicose
maníaco-depressiva; transtorno ou doença afetivo-bipolar,
incluindo tipos específicos de doenças ou transtornos
do humor, como hipomania, que é uma alteração de humor
semelhante à mania, porém com menor intensidade;
transtorno misto do humor; e ciclotimia, uma forma de
temperamento ou oscilações do estado psíquico.
Apesar de ser novidade para muitos, a bipolaridade há séculos
ronda a cabeça da humanidade, inclusive a de grandes
personalidades do mundo da literatura, como Agatha Christie,
Edgar Allan Poe, famosos pelos seus contos de mistérios e
terror; Fernando Pessoa, poeta e escritor português que marcou
época com suas frases, poesias e poemas; mitos do rock,
como Cazuza, e do cinema, como a imortal Elizabeth Taylor;
Vincent Van Gogh, mestre das artes plásticas, e até grandes
nomes da filosofia e ciência, como Platão e Isaac Newton.
Com tantas cabeças famosas habitadas por essas inquietações,
o TB não foi levado a sério. Era encarado como uma
psicose maníaco-depressiva sem importância, por não apresentar
sintomas psicóticos.


Mesmo com os avanços da ciência, o TB ainda é um desafio
para a medicina moderna, que, apesar de diagnosticar precocemente
as formas mais típicas, como a euforia-mania e
a depressão, não identifica ou confunde muitos casos de TB
com a mania e a hipomania, estas sempre vêm acompanhadas
de uma boa dose de irritabilidade.
Segundo Moreno (2004) e Angst et al. (2003),
[...] pelo menos 5% da população geral já apresentou
mania ou hipomania. A irritabilidade e os sintomas depressivos
durante episódios de hiperatividade breves e
a heterogeneidade de sintomas complicam o diagnóstico.
Doenças neurológicas, endócrinas, metabólicas e
inflamatórias podem causar uma síndrome maníaca.
Às vezes, a hipomania ou a mania são diagnosticadas
de forma errada como normalidade, depressão maior,
esquizofrenia ou transtornos de personalidade ansiosos
ou de controle de impulsos.
Mas, para transitar pelos caminhos do cérebro — o ponto
mais vulnerável do ser humano —, são necessários cuidados,
porque o emaranhado de neurônios, em constante estado
de ebulição, atentos a todos os bulícios à nossa volta, altera
comportamentos considerados exemplares. Nessa transição
entre a manifestação e o início do tratamento, muitos se
tornam vítimas de diagnósticos precipitados e simplesmente
abandonam tudo.

Como descreve Soren Kierkegaard, pai do existencialismo,
teólogo e filósofo dinamarquês do século XIX, jovem vítima
do TB que enfrentou grandes dificuldades para se adequar
na sociedade:
E nenhum grande inquisidor tem prontas tão terríveis
torturas como a ansiedade tem; e nenhum espião
sabe como atacar mais inteligentemente o homem de
quem ele suspeita, escolhendo o instante em que ele
está mais fraco, ou sabe onde colocar armadilhas em
que ele será pego e enredado como a ansiedade sabe; e
nenhum juiz é mais esperto e sabe interrogar melhor,
examinar e acusar como a ansiedade sabe, e nunca o
deixa (a vítima) escapar, nem através de distrações,
nem através de barulhos, nem divertindo, nem brincando,
nem de dia, nem de noite... Algum dia até, não
somente os meus escritos, mas a minha vida e todo o
complicado segredo do seu mecanismo serão minuciosamente
estudados.
Como o próprio Soren descreveu, conviver com o TB é um
tormento para a vítima e para aqueles que a cercam, suas
previsões já são uma realidade, principalmente no ambiente
escolar, em que tudo se manifesta. O TB, como outros tantos
transtornos vividos no cotidiano de uma sala de aula, exige
atenção especial, estudos minuciosos, e é mais um desafio
para a Psicopedagogia, que busca identificar os transtornos
que abalam o sistema de ensino.
Tais perturbações preocupam especialistas, pois essa inquietação
afetiva vem alterando o perfil dos educandos, elevando
uma barreira entre as vítimas e o mundo à sua volta,
uma vez que as variações temperamentais dificultam os relacionamentos
professor-aluno e aluno-aluno, retardando o
processo de aprendizagem.
Se “o ser humano é um produto do meio em que ele vive”,
por onde iniciar os ajustes para evitar tantos transtornos?
É hora de direcionar a atenção para a base maior do homem:
a família. Ressaltando a sua relevância no desenvolvimento,
no comportamento do indivíduo. É no seio da família
que são gerados valores imprescindíveis à formação
e aos hábitos indispensáveis à conduta do cidadão. Valores que o acompanharão por toda a vida e definirão o seu desenvolvimento
humano, profissional e pessoal, para que, ao
ser inserido no contexto escolar, possa se libertar de transtornos,
ampliar os seus horizontes e, ao chegar ao mercado
de trabalho, tenha características como adaptação e relacionamento
disciplinar.
Na sociedade, mesmo com seus valores mutilados pelos
avanços do tempo, a família sempre será a base do indivíduo.
A parceria família-escola, mesmo em tempos de guerra,
de desamores, ainda é sinônimo de educação de qualidade,
pois esses pilares foram e sempre serão os guias que
conduzirão o homem pelo sinuoso caminho da realização
pessoal e profissional.
É preciso que a escola cumpra o seu papel de integradora
da educação, família e sociedade, pois, ao ingressarem na
escola, essas pessoas se perdem ao se confrontarem com
as perturbações de um sistema de ensino abalado, como
os transtornos das salas de aula superlotadas, da violência
doméstica e urbana, do descompromisso, dos professores
incapacitados, das rixas políticas que fazem da escola uma
passarela onde grupos ostentam poder, determinam e impõem,
provocando o surgimento de um transtorno maior:
o Transtorno do Professor Estressado – TPE. Este converte o
ambiente da sala de aula numa atmosfera irrespirável, onde
educador e educando não falam a mesma língua, não encaram
o mesmo horizonte e, consequentemente, não atingirão
a meta da aprendizagem.
É preciso reconhecer que a família é a primeira referência
do indivíduo. Um item que deve ser inserido no processo
educacional para entendermos comportamentos, pois —
mesmo com a sua arcaica organização social sendo alvo das
políticas sociais da modernidade, suprimida pela própria
evolução humana (a qual instituiu novas formas de família)
— ostenta os seus valores através dos tempos. Se a escola
não usar essa ferramenta, estará abrindo mão de um instrumento
precioso na construção do conhecimento do aluno.
Infelizmente, os valores do homem desagregaram-se dos
princípios, especialmente os religiosos. O desamor é voraz,
a ambição, insaciável, e o maior desafio da humanidade no
século da ciência e da informação será resgatar a essência
da família, que se esvaiu dos lares através dos séculos. Somente
assim encontraremos as respostas dos porquês de
tantos distúrbios que atormentam os homens e a cura de
males que desafiam os ases da ciência.
Mas, enquanto os homens continuarem a abrir mão de valores,
desfizerem-se de virtudes, mancharem a própria honra
para conquistar poder e divisas, a humanidade será ainda
mais irracional, pois se distanciará do sonho maior, que é o
sonho de ser feliz. Muitos acreditam que chegaram ao ápice
apenas por ser um destaque, massacrando valores, tradições
e princípios.
E você, educador, que deixa a cada dia a sua parcela para
diminuir a ignorância e está fazendo deste país uma grande
nação, não desista. Se os transtornos do ofício abalarem a
sua estrutura, roubarem a sua tranquilidade, não perca a
ética. Use a sua força para abrir caminhos, transformar vidas
e contorne esses transtornos. Se novos obstáculos fragilizarem
seu otimismo, levarem os seus sonhos, pare, olhe à
sua volta e observe o TB, o qual pode levar a um transtorno
maior, que é o do analfabetismo.
