
Nas nossas pesquisas, vimos que antigamente acreditava-se que toda essa região
correspondente ao semiárido seria o resultado da destruição de outros
ecossistemas, como a Mata Atlântica ou a Floresta Amazônica. Entretanto, em
nossos estudos, encontramos um ecossistema rico, com uma biodiversidade
muito variada e considerada extremamente frágil e com os seus componentes
muito ligados e dependentes uns dos outros, onde podemos ver muitas relações
ecológicas.
Imagem 01 - Espécies diferentes de vegetais que vimos com
muita frequência no local.
Os climas a que essa imensa região está submetida variam
de semiáridos a subúmidos secos tropicais de exceção e são
caracterizados por uma quantidade de chuva concentrada
em um só período (de 3 a 5 meses), com médias anuais
situadas entre 250 e 900 milímetros, irregularmente distribuídas
no tempo e no espaço. As temperaturas médias
anuais são relativamente elevadas, entre 26 ºC e 29 ºC. A
umidade relativa do ar é de cerca de 50%, e as taxas médias
de evaporação são em torno de 2.000 mm por ano. Os solos,
com algumas exceções, são pouco desenvolvidos em matéria
orgânica, mineralmente ricos, pedregosos, pouco espessos
e com fraca capacidade de retenção de água. No nosso
trabalho, partimos para a caracterização e o levantamento
do ambiente de caatinga do Estado de Pernambuco, conhecendo
seus habitantes e os componentes abióticos (temperatura,
ar, água e solo) e procurando entender os tipos
de relação e as formas de utilização dos recursos naturais
pelos seres vivos.
• O Ambiente
O semiárido brasileiro é uma região onde ocorrem secas
com uma quantidade de chuvas muito irregular, de 400 a
800 mm anuais. Seus solos são rasos, onde aparece uma
vegetação, conhecida como xerófila, resistente a longos períodos
de seca. O semiárido brasileiro é um cenário muito
diferente do que se vê no dia a dia. Um dos maiores problemas
com a seca é que ela não proporciona muito comércio
à região, fazendo com que os donos de grandes empresas
fiquem sem possibilidades de realizar grandes construções
para sua terra e os prefeitos dessas cidades não tenham o
poder do dinheiro para investir no povo.
A maior atividade econômica do semiárido está no Setor
Primário, em que se situa a grande criação de gado e de outros
animais. A temperatura do semiárido é muito variada,
e a chuva é mal distribuída física e temporalmente. Devido
às características climáticas da região, o Nordeste possui
um dos maiores índices de evaporação do Brasil, o que torna
os reservatórios de água pouco profundos e inúteis em
épocas de seca.

Paisagem do Vale
A água dos barreiros e açudes, baixados onde se acumula
a chuva, é geralmente poluída e cheia de vermes. Em uma
região com essas características, a pecuária pode ser uma
boa saída para os problemas da população, pois alguns animais,
como os bodes e algumas raças de boi, conseguem se
desenvolver nessas condições ambientais.
O Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta, contando
com cerca de 10% da biota global. Trabalhos recentes estimaram
a biota brasileira entre 170 mil e 210 mil espécies
conhecidas, mas essas estimativas podem aumentar para a
faixa de 1,8 a 2,4 milhões de espécies se considerarmos as
espécies desconhecidas. Essa biodiversidade está presente
em grande parte no Nordeste do Brasil, que apresenta uma
paisagem muito diferenciada: em alguns pontos, temos uma
parte plana; em outra região, encontramos muitos relevos.
Essa diferença no meio ambiente faz com que haja uma
grande quantidade de seres vivos que vivem em estreita relação
ecológica entre espécies diferentes, como as palmeiras,
conhecidas como Catolé, que servem de suporte para várias
orquídeas e bromélias. Observamos uma grande quantidade
de cactos, que são plantas que conseguem armazenar, no
seu interior, uma certa quantidade de água e, por isso, são
muito procuradas pelos animais.
Outro vegetal que é bem característico da região são as bromélias,
que conseguem formar uma verdadeira cadeia alimentar
em seu corpo.
Todo esse ecossistema é conhecido como caatinga, que fica
em uma região de clima quente com curta estação chuvosa.
Sua temperatura média é de 35 ºC, sendo que existem locais
com 800 metros de altura, onde encontramos uma das temperaturas
mais baixas de todo o Nordeste.
Seu solo é oligotrófico, muito arenoso e com pedras, além
de pobre em nutrientes e com acentuado processo erosivo,
não permitindo o acúmulo de matérias orgânicas. Esse solo
apresenta muita permeabilidade; porém, mesmo quando
chove, o solo pedregoso não consegue armazenar a água
que cai, e a temperatura elevada (médias entre 25 °C e 29 °C)
provoca intensa evaporação. Na longa estiagem, os sertões
são, muitas vezes, tão semidesertos que, apesar do tempo
nublado, não costumam receber chuva, o que submete as
plantas a um grande estresse hídrico e, mesmo na estação
chuvosa, isso faz com que as plantas captem água até da
neblina. O aspecto agressivo da vegetação contrasta com o
colorido diversificado das flores emergentes no período das
chuvas, cujo índice pluviométrico varia entre 300 e 800 milímetros
anualmente. Observamos que a caatinga apresenta
três partes vegetais: arbórea (de 8 a 12 metros), arbustiva
(de 2 a 5 metros) e a herbácea (abaixo de 2 metros). A vegetação
adaptou-se ao clima seco para se proteger. As folhas,
por exemplo, são finas ou inexistentes. Algumas plantas armazenam
água, como os cactos; outras se caracterizam por
terem raízes praticamente na superfície do solo para absorver
o máximo da chuva.
Coroa-de-frade
Algumas das espécies vegetais mais comuns da região são
as imburanas, a aroeira, o umbu, a baraúna, a maniçoba, a
macambira, o mandacaru e o juazeiro. Este último pode ser
observado em grande quantidade nas feiras e no comércio
da região, pois é um vegetal que a população utiliza bastante
para a produção de sabonetes e outros produtos de limpeza.
Durante o nosso trabalho de campo, vimos que, no meio
de tanta aridez, a caatinga surpreende com suas “ilhas de
umidade” e seus solos férteis. São os chamados brejos, que
quebram a monotonia das condições físicas e geológicas dos
sertões. Nessas ilhas, é possível produzir quase todos os alimentos
e as frutas peculiares aos trópicos do mundo.
Essas áreas normalmente localizam-se próximas às serras,
onde a ocorrência de chuvas é maior. Através de caminhos
diversos, os rios regionais saem das bordas das chapadas,
percorrem extensas depressões entre os planaltos quentes e
secos e acabam chegando ao mar ou engrossando as águas do
São Francisco e do Parnaíba (rios que cruzam a caatinga).
Das cabeceiras até as proximidades do mar, os rios com
nascente na região permanecem secos durante cinco a sete
meses do ano. Apenas o canal principal do Rio São Francisco
mantém seu fluxo através dos sertões, com águas trazidas
de outras regiões climáticas e hídricas.
Quando chove, no início do ano, a paisagem muda muito
rapidamente. As árvores cobrem-se de folhas, e o solo fica
forrado de pequenas plantas. A fauna volta a engordar.
Os animais mais comuns na região, que não vimos em nossas
caminhadas diurnas, mas ouvimos falar pela população local,
são: o sapo-cururu, a asa-branca, a cotia, o gambá, o preá, o
veado-catingueiro, o tatu-peba e o sagui-do-nordeste. Há uma
quantidade grande de insetos como os cupins e as formigas,
inclusive uma espécie muito conhecida por ser carnívora, também
chamada de formigão ou formiga-preta. Observamos que
a maior parte dos animais da região tem hábitos noturnos, a
partir das nossas pesquisas e entrevistas no local. Nessa região
coberta pela caatinga, vivem aproximadamente 20 milhões de
brasileiros, em quase 800 mil km² de área. Quando não chove,
o homem do sertão e a sua família precisam caminhar quilômetros
em busca da água dos açudes. A irregularidade climática
é um dos fatores que mais interferem na vida do sertanejo.
• O Homem
Artesão e morador local
O povoamento dessa área ocorreu em tempos antigos, e os
primeiros sinais seguros da presença humana existem há 52
mil anos. Os portugueses, na sua chegada, há 500 anos, não
reconheceram a sabedoria da população nativa, denominada
de índios, o seu profundo conhecimento da natureza e a
sua vida adaptada ao clima.
Os habitantes do semiárido brasileiro de hoje questionam,
muitas vezes, seu destino de chamar essa região de pátria.
Olhando, porém, o mapa-múndi, observa-se logo que terras
com chuvas limitadas são muito mais regra do que exceção
neste planeta. Desde regiões extremamente secas a
moderadamente secas, tudo se encontra neste nosso globo
terrestre. Terra úmida, com chuva constante, é um recurso
limitado. Somente a zona semiárida abrange 49 países do
mundo e ocupa 55% das áreas agrícolas. E, no Brasil, existe
a região mais populosa do semiárido do mundo, onde uma
mistura de descendentes de escravos, grupos indígenas e
outros convivem e se misturam fazendo um grande caldeirão
de cultura e religiosidade.
Observamos, no trabalho de campo, que a população vive
da cultura de algumas plantas, como o milho, a mandioca,
o caju, etc.
Pelo que observamos na aula de campo, a população daquele
local usa muito a agricultura como uma forte fonte
de comércio de plantas medicinais, e diversas culturas são
usadas na sua alimentação.

• A Água
Conhecidas são as notícias em televisão e jornais que relatam
uma seca catastrófica no Nordeste. Relatam que choveu
tão pouco que a semente não germinou ou a planta secou
mais tarde. Porém, com a criação de animais, especialmente
de cabras e ovelhas, poucos problemas aparecem. Mesmo
em anos de secas grandes, os animais sempre encontram
alimento suficiente. Esse fato deve chamar a atenção e levar
à análise de suas causas.
Uma delas é encontrada na própria precipitação. Não é que
a chuva seja pouca. Na média plurianual, registramos em Juazeiro,
Bahia, um dos lugares mais secos do semiárido, com
505 milímetros de chuva por ano. Na verdade, o problema é
outro: a irregularidade. A chuva cai de maneira irregular no
“tempo e no espaço”. Isso significa que nunca se sabe em
que mês se iniciará a estação chuvosa e, depois de uma chuva,
quando cairá a próxima. Também a distribuição espacial
é irregular demais. Uma tempestade forte pode encharcar a
terra num determinado lugar, e a caatinga se desabrochar
em flores, enquanto, alguns quilômetros adiante, os cactos
estão ainda encolhidos; e as árvores, sem folhas.

A falta de chuva e a sua irregularidade não são os únicos fatores
decisivos para a seca no semiárido brasileiro. Existem
regiões da Europa onde a precipitação é a mesma do semiárido,
ou até menor, e ninguém fala de secas catastróficas. A
diferença se encontra na evaporação, que, no semiárido, é
muito alta, conforme constatamos em nossos estudos.
• Alunos em Trabalho
O semiárido está situado perto do equador, com temperaturas
quentes durante o ano todo e baixa umidade do ar. Tudo
isso contribui para uma evaporação alta, de aproximadamente
3 mil milímetros por ano, e faz com que, a cada ano,
se evapore uma coluna de água de 3 metros de altura!
Outro aspecto que temos que considerar é a água subterrânea,
que exerce uma influência decisiva no clima. Encontra-
-se água já em profundidades rasas — 10 metros —, embora
esses poços rasos, em anos de estiagem maior, tendam a
secar. Água segura só é encontrada a partir de 100 metros.
Apesar da abundância da água subterrânea, também aqui a
captação da água da chuva encontra sua importância, por
causa do alto preço da perfuração e dos custos constantes
de manutenção da bomba do poço e do motor. Além disso,
existe a carência de pessoal tecnicamente qualificado para
eventuais consertos e manutenção preventiva.
O estudo desenvolvido mostrou que, no semiárido pernambucano,
encontra-se uma população cuja subsistência sempre
foi ligada à terra e aos seus recursos e que desenvolve a
pecuária e a agricultura familiar com atividades ligadas aos
ciclos das chuvas e ao que os recursos naturais oferecem. Ali
encontramos muitas plantas nativas usadas como remédios.
Nos últimos quinze anos, uma parte dessa região se transformou
em deserto devido à interferência do homem. A desertificação
é um fenômeno que impossibilita a convivência
do homem com o ecossistema. Pesquisadores dizem que o
Nordeste brasileiro desertificado é diferente dos desertos
naturais, como o Atacama (Chile) e o Saara (norte da África).
“Os desertos naturais são importantes para o planeta, principalmente
para o equilíbrio do clima”, segundo a Revista
Brasileira de Ciência do Ambiente.
As áreas em desertificação no Brasil são prova de que existe
um desequilíbrio ambiental. A aridez do clima e, sobretudo,
o uso inapropriado que a população faz dos recursos naturais
contribui muito na formação dos desertos. Em algumas
regiões, o esgotamento do solo — que começou há mais de
três décadas com a monocultura de algodão e teve continuidade
com a criação de gado para a produção de leite —
chegou ao século XXI com a extração de lenha para apoiar as
indústrias de cerâmica.
Dentro do Brasil, há outro “país” dominado pela seca, onde a
sobrevivência é árdua e as ações em favor do meio ambiente
são raras. Na área de 1,3 milhão de quilômetros quadrados
que compõe o semiárido, a natureza está sendo “derrotada”
pelo homem.
Os problemas sociais são bastante sérios, o que acaba refletindo
na pressão que a população exerce sobre a natureza.
Com isso, boa parte dos terrenos se tornou improdutiva
porque o solo não serve para o plantio ou as fontes de água
secaram. Como afirma Edmon Nimer na Revista Brasileira de
Geografia, “A desertificação impossibilita a convivência do
homem com o ecossistema”.
Inicialmente, quando escolhemos esse tema para desenvolver
as pesquisas, pensávamos que íamos estudar um ambiente
muito pobre em biodiversidade e aspectos interessantes,
mas estávamos todos enganados! Constatamos que
o local apresentava muitas coisas curiosas, como os processos
de adaptação das estruturas do corpo e os hábitos dos
animais e das plantas da região. Por exemplo, percebemos
que poucos animais circulam durante o dia, pois a maioria é
noturna, evitando, assim, a perda de água e o sol escaldante
do dia. Notamos também as mudanças na forma das plantas,
que apresentam espinhos e, dessa maneira, conseguem
absorver água. Além disso, os espinhos servem de proteção
e defesa contra os predadores, que, buscando saciar a sede
e a fome, comem muitas plantas com o objetivo de absorver
sua água e seus nutrientes.
Outro ponto que nos chamou muita atenção foi a relação
que existe entre o homem e o meio ambiente. O homem
faz tudo que é possível para utilizar, de forma harmônica,
os recursos naturais, como as plantas, na alimentação e na
medicina, e a criação de animais. Constatamos que alguns
moradores da região utilizam a madeira para consumo,
construção de casas e criação de objetos de arte, como o
escultor Zé Bezerra, mais conhecido na região como Zé de
Carmelita, que utiliza a imburana para esculpir peças representando
animais e seres humanos.
Com a necessidade de aproveitar o máximo do meio ambiente
sem depredá-lo, o homem buscou alternativas de subsistência,
inclusive para o armazenamento de água, para que
esta não se evapore com tanta rapidez. Algumas técnicas de
aproveitamento foram desenvolvidas, como o preparo de cisternas.
Com essa constatação, conhecemos um projeto chamado
Cem Cisternas, que visa ao estudo das dificuldades do
povo do semiárido e à busca de soluções. Para isso, a Escola
Recanto, junto com outras do Recife, está mobilizada para
investir e aprender com a região, oferecendo coletivamente
uma melhoria da qualidade de vida da sua população.

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Saulo Nogueira da Costa (orientador) é bacharel e licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Rural de Pernambuco
(UFRPE). É professor de Ciências e coordenador dos projetos Dom Helder – um Novo Olhar sobre o Semiárido (do Colégio Recanto) e 100
Cisternas (da Fundação Cáritas).
Ana Catarina Vieira da Costa (coorientadora) é formada em Pedagogia e Arte-educação e professora de Artes da Escola Recanto.