Trajetória de um
herói brasileiro
Francisco Viana
1902. 12 de setembro. Nasce Juscelino Kubitschek de Oliveira, em Diamantina
(MG). Era filho de João César de Oliveira, caixeiro-viajante, e Júlia Kubitschek,
professora primária. No mesmo ano, Rodrigues Alves, ex-monarquista e ex-conselheiro
do Império, é eleito presidente da República; Os Sertões consagram o escritor
e jornalista Euclides da Cunha; e, em São Paulo, uma rebelião monarquista
é sufocada, abrindo caminho para a adesão em massa dos adeptos do Antigo
Regime à República, na expectativa de manter seus privilégios e interesses.
1905. 10 de janeiro. Morre o pai de Juscelino, João César. Nas
suas memórias, anotou, com carinho: “Na verdade, mal conheci
meu pai e, naquela idade, não poderia conservar dele
maiores recordações pessoais. Deve ser, assim, talvez um
pouco fantasiosa e estranha a imagem que, de sua figura
humana, se constitui em meu espírito. Às poucas reminiscências,
acrescentaram-se as narrativas de minha mãe e dos
parentes, a contemplação dos retratos que se encontravam
na casa e, mais tarde, confidências de amigos e de pessoas
que o haviam conhecido”.
1914. Então com 12 anos, o menino Juscelino — Nonô, como
era conhecido —, sem dinheiro para custear os estudos em
Barbacena ou Belo Horizonte, vai estudar no seminário em
Diamantina. Os colegas lembrariam dele como um “garoto
inteligente, vaidoso, que fazia questão de estar entre os primeiros”.
Termina os estudos antes de completar 15 anos.
1919. Juscelino e seu inseparável José Maria Alckmin fazem
exame para telegrafista em Belo Horizonte e são aprovados
entre 89 candidatos. Para custear a viagem, sua mãe vendeu
as joias da família. JK só seria admitido em 19 de maio
de 1921, depois de exaustivos estudos do código Morse, que
ele conhecia razoavelmente desde as primeiras provas. Ele
e Alckmin se conheceram em 1916. O futuro ministro da Fazenda
de JK, que fora ajudante de tripeiro, partilha de muitas
das dificuldades para estudar e sobreviver na adolescência.
Foram amigos por toda a vida. Advogado, era de uma estirpe
de políticos que se costuma chamar em Minas de raposa
felpuda, daqueles que, de tão hábeis e discretos, são capazes,
como reza a lenda, de “tirar as meias sem tirar os sapatos”.
Juscelino Kubitschek junto a Israel Pinheiro
da Silva, que, como presidente da empresa
Novacap, foi o responsável pela nova Brasília.
A fotografia capta o momento da entrega
das chaves da nova capital em 1960. (foto ao lado)
1921. Em dezembro, JK é aprovado no vestibular da faculdade
de Medicina. Seu colega, Pedro Nava, se surpreendia
com a energia e a resistência do telegrafista, que trabalhava
durante as madrugadas e, às 8h da manhã, estava pronto
para as aulas. A faculdade, fundada há onze anos numa cidade
que acabara de completar o 20º aniversário, era menos
famosa que a faculdade de Direito, originária de Ouro Preto,
mas se destacava pela qualidade do ensino e pelo rigor à
disciplina. Juscelino não fumava, não bebia; gostava, porém,
de dançar. Suas notas eram excelentes, com a classificação
sempre variando entre distinção e plenamente. A colação de
grau ocorreu em 17 de dezembro de 1927. JK revelou-se excelente
cirurgião. Não se interessava muito pela política.
1923. Juscelino Kubitschek vai ao Rio de Janeiro e contempla
o mar pela primeira vez. Gostava de sentir o cheiro da maresia,
caminhar pela Praia do Flamengo, pisar na areia com
os pés descalços e admirar a imponente silhueta do Pão de
Açúcar.
1927. Juscelino diploma-se médico e passa a clinicar no consultório
de Júlio Soares, seu cunhado. Em Minas, termina o
ciclo de poder do Governo Arthur Bernardes, e se inicia o
Governo Antônio Carlos de Andrada.
1930. Em abril, Juscelino, que tinha visto um automóvel aos
21 anos e que, antes de ver o mar, no Rio de Janeiro, não
tinha na memória a visão de um rio ou de um lago sequer,
partiu de navio para Paris. A travessia do Atlântico se prolongou
por 24 dias. Especializou-se em Urologia, viajou pela
Europa e pelo Oriente. Adquiriu autoconfiança. Fez amizade
com o pintor Candido Portinari e o ator Leopoldo Froes. Tomou
consciência do lugar que o Brasil tinha a desempenhar
no mundo. Retornou ao Rio de Janeiro em novembro de
1930, pouco depois de Getúlio Vargas e os tenentes assumirem
o poder, e de Olegário Maciel sagrar-se, em Minas,
general civil do novo governo revolucionário. Chegando a
Belo Horizonte, instalou seu consultório, trabalhando também
na Santa Casa de Misericórdia e no Hospital São Lucas.
Acompanhava a movimentação política do País, vendo as
velhas oligarquias perderem terreno e a carcomida República
Velha desfazer-se em caos. No entanto, não demonstrava
interesse maior pela vida pública.
1931. JK casa-se com Sarah de Souza Lemos, uma jovem de
família tradicional que conhecera numa festinha em Belo
Horizonte, numa época em que os namoros aconteciam nos
clubes e nos passeios na Praça da Liberdade. O clã dos Lemos
descendia, pelo lado paterno, do Barão do Rio Verde; a mãe
de Sarah era filha do comendador José Duarte da Costa Negrão,
próspero proprietário de terras, e seu pai representou
Minas no Congresso por longas três décadas. O casamento
foi uma cerimônia simples e discreta, a mais íntima possível,
na Igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, no Rio
de Janeiro. Sarah, com um vestido longo, muito elegante,
não usou véu e grinalda, como rezava a tradição. O casal
passou a lua de mel no Hotel Londres, na Avenida Atlântica,
que hoje não mais existe, e comemorou o réveillon no Copa-
cabana Palace, retornando em seguida para Belo Horizonte,
onde foi morar numa casa alugada, com dois pavimentos e
um enorme jardim, na Avenida Paraúna. Eufórico, escreveu
JK: “Casa nova. Vida nova. E, consequentemente, mais amplos
projetos para o futuro”.
1932. Por indicação de Gabriel Passos — então secretário particular
do presidente do Estado de Minas Gerais, Olegário
Maciel —, Juscelino é nomeado chefe do Serviço de Urologia
do Hospital da Polícia Militar, no posto de capitão-médico.
Em 9 de julho de 1932, São Paulo iniciou uma revolução com
a proposta de reconstitucionalizar o País. Convocado, em
16 de julho, para servir em Passa Quatro (MG), fez amizade
com o então delegado de polícia da região, Benedito Vala-
dares, que viria a ter importante influência na sua ascensão
política. Após a rendição de São Paulo, em 1º de outubro
de 1932, Juscelino, então capitão-médico, retornou a Belo
Horizonte prestigiado pelos excelentes serviços na frente
de combate. Em banquete em sua homenagem oferecido
pela oficialidade, foi definido como “o bisturi de ouro da
polícia militar mineira”, e o governador Olegário Maciel o
distinguiu com um convite para uma audiência no Palácio
da Liberdade. O médico competente começava a ceder lugar
ao político idealista e genial.
1934. Em 16 de julho, com a promulgação da nova Constituição,
iniciaram-se as articulações tendo em vista as eleições
de 4 de outubro. Em Minas Gerais, formaram-se dois partidos:
o Partido Republicano Mineiro (PRM), chefiado por
Arthur Bernardes, e o Partido Progressista (PP), chefiado por
Antônio Carlos e Andrade. Juscelino ingressa no PP e inicia
sua carreira política como chefe do gabinete do recém-nomeado
interventor federal em Minas Gerais, Benedito Vala-
dares. Nesse mesmo ano, é eleito deputado federal, sendo o mais votado.
1935–1937. No cargo de secretário do PP, Juscelino tem atuação
discreta, mas firme. Constrói bases sólidas em Diamantina,
inaugurando um estilo político totalmente novo e que
seria a marca registrada da sua carreira: ia de casa em casa
apertando a mão de todos os moradores e solicitando seu
voto. Resultado: elegeu onze dos quinze vereadores, além
do prefeito. Com o fechamento do Congresso, após o golpe
do Estado Novo em 10 de novembro de 1937, Juscelino
voltou a seu consultório médico e à chefia do Serviço de
Urologia do Hospital Militar.
1940. Nomeado prefeito de Belo Horizonte por Benedito Valadares
e empossado em 18 de abril, Juscelino transforma a
capital mineira num gigantesco canteiro de obras e revela
o seu talento como político e administrador. Como administrador,
consagrou-se com a realização de grandes obras,
entre elas o conjunto arquitetônico da Pampulha, que se
transformou num marco da moderna arquitetura brasileira.
Como político, revelou-se um democrata radical. Ao inaugurar
a sede da Cultura Inglesa, em 1941, no auge do Estado
Novo, acentuou que a “Inglaterra havia se transformado no
baluarte da liberdade no mundo e que, para ela, deviam se
voltar, em busca de inspiração, todos aqueles que viviam
sob a opressão e amavam, acima de tudo, o respeito e a
dignidade do homem”. O chefe de polícia de Minas, Ernesto
Dornelles, revidou, em tom cordial, em conversa particular:
Francisco Nilo Gonsalves (Arquivo público do Distrito Federal)
“Gostei da sua pregação democrática, Juscelino. Mas o seu
discurso é de fazer qualquer um perder o cargo”. Não perdeu
o cargo, e tal foi a repercussão do discurso que, ao fim
da Segunda Guerra Mundial, ganhou de Winston Churchill
um punhal fabricado com estilhaços de uma bomba lançada
pelos nazistas, além de uma coleção de livros do grande estadista
inglês, com dedicatória de próprio punho.
1945–1949. Ingressando no PSB, partido nascido sob o manto
protetor de Getúlio Vargas, foi novamente eleito deputado
federal, exercendo o mandato de 1946 a 1950, período que
aproveitou para viajar e estudar as experiências de desenvolvimento
nos Estados Unidos e no Canadá. Conheceu a
Biblioteca do Congresso, em Washington, e o Metropolitan
Museum. Surpreendeu-se com a estrada que liga Toronto
aos EUA, “com seis pistas de rolamento, com três mãos cada
uma”. Surpreendeu-se também ao constatar que os cerca
de 80 mil veículos que viu estacionados em grandes áreas
privadas da Ford, em Detroit, pertenciam aos operários das
fábricas e não tinham saído das linhas de montagem, como
ele imaginara, para ser vendidos no mercado consumidor.
Foi quando viu e sentiu “o caminho que deveríamos seguir.
E, mais importante ainda, o sentido, a direção, o rumo que
os governos do nosso país tinham de imprimir ao nosso progresso”.
Nas suas memórias, concluiu: “Ser político é uma
vocação. Mas, para se transformar num estadista, tem-se
necessidade de passar por um longo e duro aprendizado”.
1950. As eleições marcaram a volta de Getúlio Vargas à Presidência
da República e a vitória de Juscelino Kubitschek
como governador, derrotando Gabriel Passos, o candidato
da União Democrática Nacional (UDN). Empossado em 31
de janeiro do ano seguinte, leva à prática o programa inspirado
no binômio Energia e Transporte. Criou as Centrais
Elétricas de Minas Gerais (Cemig), que construíram cinco
usinas de energia elétrica, e comandou a construção de
mais de 3 mil quilômetros de rodovias, numerosas pontes e
campos de aviação. Deu assistência também aos setores de
Educação e Saúde, construindo escolas e postos médicos.
Para resolver os problemas da agricultura e da pecuária,
criou o frigorífico Frimisa e a fábrica de fertilizantes Fertisa.
Dinâmico, popular e com trânsito entre as diferentes
correntes do PSD e do PTB, qualificava-se como o candidato
mais forte à sucessão presidencial, em 1955. Apesar da forte
oposição de setores antigetulistas, é eleito presidente da República,
tendo como vice João Goulart, herdeiro político de
Vargas no Partido Trabalhista Brasileiro.
1955. 4 de abril. Num comício em Jataí, Goiás, o candidato à
Presidência da República Juscelino Kubitschek, respondendo
a uma pergunta de um eleitor, promete que, se eleito,
fará a transferência da capital para o Planalto Central. Em 5
de agosto, o presidente Café Filho aprova o Sítio Castanho e
a área da nova capital.
Eleito presidente da República em outubro, com 36% dos votos,
Juscelino Kubitschek e o vice, João Goulart, encontram
grande resistência da oposição para tomar posse. Os udenistas
e militares ligados a Carlos Lacerda conspiram abertamente.
Em editorial na temida Tribuna da Imprensa, sob
o título Kubitschek e Jango Não Podem Tomar Posse, Lacerda
pede que a Constituição seja suspensa e os direitos individuais,
suprimidos. Graças à indisciplina nos meios militares,
em especial na Aeronáutica e na Marinha, o presidente Café
Filho simula um ataque cardíaco e entrega o governo a Carlos
Luz, udenista mineiro, que se dispõe a demitir o ministro
da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, e impedir a posse
de JK e Jango. Apoiado pelo general Odílio Denis, comandante
do I Exército, Lott reage com o “golpe pela legalidade”,
derruba Carlos Luz e entrega o governo ao presidente do
Senado, Nereu Ramos, garantindo a posse dos eleitos.
1956. Juscelino é empossado na Presidência da República e
promete fazer o Brasil saltar cinquenta anos em cinco. Cumpriu
a promessa: ampliou a participação popular na riqueza
nacional, ampliou extraordinariamente a base industrial,
em especial por meio da implantação da indústria automobilística,
da construção naval, da mecânica pesada e da proteção
à pequena e à média empresa. Em paralelo, transferiu
a capital federal do Rio de Janeiro para Brasília.
18 de abril. Juscelino Kubitschek envia ao Congresso a Mensagem
de Anápolis, propondo a criação da Companhia Urbanizadora
da Nova Capital do Brasil (Novacap); propõe
também que a cidade seja batizada com o nome de Brasília.
19 de setembro. É sancionada a Lei nº 2.874, que determina
a transferência, em definitivo, da capital. No mesmo dia, é
lançado o Concurso do Plano Piloto. Vence o urbanista Lucio
Costa. Treze dias depois, Juscelino Kubitschek visita o território
da futura capital e declara: “Deste Planalto Central,
desta solidão que em breve se transformará em cérebro das
mais altas decisões nacionais, lanço meus olhos mais uma
vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada,
com uma fé inquebrantável e uma confiança sem limites no
seu grande destino”.
16 de junho. Juscelino Kubitschek assina o decreto de criação
do Geia, subordinado ao Conselho de Planejamento, órgão
executivo daquela verdadeira revolução que foi a implantação
da indústria automobilística. Quatro meses depois, o
presidente da República estava em São Paulo para dirigir o
primeiro caminhão Mercedes-Benz fabricado no Brasil. No
pátio, os cartazes diziam: “Nas estradas brasileiras, caminhões
brasileiros”.
25 de julho. Começam as obras da Usina Três Marias, na
região do Vale do São Francisco. Foi o ponto de partida da
meta da energia elétrica, que elevou a potência instalada no
País de cerca de 3 milhões de kW, em 1955, para 5,4 milhões
de kW, em 1961, assentando bases para nova expansão até
8,7 milhões de kW, a ser atingida em 1966. Outro ponto forte
do programa foi a Usina de Furnas, em São Paulo, com
capacidade para 1,2 milhão de kW. Registra-se que, desse
potencial, só existiam usinas nos Estados Unidos e na União
Soviética. À época, foi o maior projeto do gênero na América
Latina e entre os países em desenvolvimento. O Governo JK,
que enfrentou crise de energia elétrica e racionamento nos
primeiros meses, terminou com abundância de energia e
reservatórios cheios.
1º de outubro. Enviada ao Congresso mensagem com o respectivo
projeto de lei, o qual, depois de aprovado, transformou-
se na Lei nº 3.381, de 1958, que criava o Fundo da Marinha
Mercante e a Taxa de Renovação da Marinha Mercante.
Os recursos mobilizados permitiram a materialização dos
itens 11 e 28 do programa de metas, isto é, a ampliação da
frota de cabotagem e de longo percurso, de 300 mil toneladas,
e da frota petroleira, de 330 mil toneladas, assim como
a implantação da indústria de construção naval no Brasil.
1958. Em 4 de agosto, Juscelino Kubitschek recebe, no Rio
de Janeiro, o secretário de Estado dos EUA, Foster Dulles. Na
pauta, estava a reformulação do pan-americanismo. O presidente
rechaçou a ideia de combater a agitação ideológica
do continente com medidas policiais. Insistiu e fez prevalecer
medidas que combatessem o subdesenvolvimento — pobreza,
analfabetismo, enfermidades, carência habitacional,
abandono do campo, escassez de escolas e desemprego —
com medidas de alcance social, a exemplo da função de um
grande banco de fomento, o BID, e o diálogo entre os líderes
do continente. Antes, em junho, JK denunciou e deixou de
atender às exigências do Fundo Monetário Nacional, que, se
levadas em prática, inviabilizariam seu programa de metas.
O rompimento foi feito dentro das “normas de discrição e
compostura que a gravidade do assunto exigia”. No dia 17
do mesmo mês, discursou perante a multidão que fora ao
Catete prestar solidariedade: “Convém que se compreenda,
de uma vez para sempre, que o desenvolvimento do Brasil
não é pretensão ambiciosa, um desvario, um delírio expansionista,
mas uma necessidade vital. Desenvolver, para nós,
é sobreviver”.
No domingo dia 22, leu a edição de O Estado de S. Paulo, demonstrou
interesse por um artigo transcrito do The Economist,
separou as páginas, guardou-as numa pasta e partiu
para um almoço na casa do deputado federal Ademar de Barros
Filho. Terminado o almoço, o motorista José Pereira Neto
o levou até o km 2 da Via Dutra, onde Geraldo esperava por
ele num Opala metálico, com teto preto. O carro arrancou
em direção ao Rio de Janeiro numa viagem que não teria fim.
Eram 14 horas. Um domingo de céu azul. Juscelino decidira
tudo de última hora. Não avisara a ninguém. Oficialmente,
estava planejando voltar a Brasília às 16 horas. Mas precisava
ver Maria Lúcia. Viver os dias como belas canções.
1959. 15 de dezembro. Em solenidade no Palácio Laranjeiras,
Juscelino Kubitschek sanciona a lei que cria a Superintendência
de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Apesar
da violenta oposição das oligarquias da região, JK confia a
direção do órgão ao economista Celso Furtado.
1960. 21 de abril. Brasília fica pronta. O Plano Piloto sai definitivamente
da prancheta de Oscar Niemeyer e Lucio Costa.
Ao ser inaugurada, a nova capital federal tem uma população
fixa de quase 100 mil habitantes. Escreveu JK: “Quando
os ponteiros marcaram 20 minutos do dia 21 de abril, vi o
espetáculo de som e cores que se armou no céu e, olhando
em torno, vi a multidão constrita, não consegui me conter.
Cobri o rosto com as mãos e chorei”.
1961. Juscelino passa o governo em 1º de janeiro para o presidente
eleito Jânio Quadros e torna-se o único presidente
eleito por voto direto a iniciar e terminar seu mandato na
data prevista pela Constituição, desde Arthur Bernardes. Por
todo o País, circula o slogan JK -65. O primeiro governo
foi da industrialização, o segundo teria a agricultura como
meta prioritária.
4 de junho. O ex-presidente é eleito senador pelo PSD de
Goiás. Percorreu oitenta cidades e ganhou do adversário
Wagner Estelita Campos por 146.366 contra 26.800 votos.
No discurso de posse, o único que pronunciaria até 1964,
respondeu aos adversários que o acusavam de disparar o
gatilho da inflação no País com números precisos: em lugar
de emitir moeda sem lastro, emitira 20 mil quilômetros de
estradas, 320 mil veículos, 2 milhões de toneladas de cimento,
petróleo, fertilizantes e a indústria naval. Com a renúncia
de Jânio Quadros na manhã do dia 25 de agosto, Dia do
Soldado, Juscelino alinhou-se com os legalistas em favor da
posse do vice-presidente João Goulart. O País estava polarizado
entre uma utopia, à direita, e outra, à esquerda. Juscelino
buscava o caminho do centro, na esperança de manter
firme a aliança PSD-PTB, imbatível desde 1945.
20 de março. A convenção nacional do PSD homologou a
candidatura de Juscelino Kubitschek à Presidência da República.
O pleito, porém, não se concretizaria em consequência
da crise política iniciada com a renúncia de Jânio
Quadros, que desaguou no movimento militar que depôs o
presidente João Goulart, em 31 de março de 1964. Juscelino
apoiou a candidatura de Castelo Branco à Presidência da
República, na expectativa de superar a grave crise institucional
e garantir a realização das eleições presidenciais de
1965. Mas, em 8 de junho de 1964, o governo cassou o seu
mandato de senador e suspendeu seus direitos políticos por
dez anos, com base no Ato Institucional nº 1. Chegava ao
fim o sonho materializado no slogan JK - 65. Juscelino partiu
para o exílio na Europa.
1965. 4 de outubro. Após a vitória de seus correligionários
Israel Pinheiro e Negrão de Lima, eleitos, respectivamente,
para os governos de Minas Gerais e da Guanabara, Juscelino
desembarcou no Rio de Janeiro. Foi intimado e prestou depoimento
na Polícia Federal. Em 9 de janeiro de 1966, partiu
novamente para o exílio na Europa e nos Estados Unidos.
Continuou a manter contatos políticos. Formou a Frente
Ampla, movimento de oposição ao governo brasileiro, com
Carlos Lacerda e João Goulart. Em 9 de abril de 1967, retorna
definitivamente ao Brasil.
1968. Com a decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de
dezembro, é preso. Libertado no início do ano seguinte, passa
a se dedicar a atividades empresariais e literárias.
1974. Juscelino é eleito para a Academia Mineira de Letras.
Apresentou uma obra com 22 títulos de palestras e discursos,
os livros Belo Horizonte, Na Palavra do Seu Prefeito, Por
que Construí Brasília e A Experiência com os Humildes. Tomou
posse em 3 de maio do ano seguinte.
A primeira geração da Congregação dos Salesianos teve início
em 1859. Segundo a determinação do jovem guia, essa
geração não deve ser contada. Ao excluí-la, a próxima teve
início sessenta anos depois, em 1919, estendendo-se até
1979. A partir daí, no período de 1979 a 2039, é que seria a
segunda geração, atribuindo-se a 2039 a data final para a realização
das palavras proféticas do jovem: “Isso acontecerá
antes que passe a segunda geração”.
1975. Publica o primeiro volume de suas memórias, intituladas
Meu Caminho para Brasília. Nesse ano, candidatou-se
à Academia Brasileira de Letras, tendo sido derrotado por Às 17h55, o Opala dirigido por Geraldo desgovernou-se, atravessou
o canteiro que separava as duas pistas da Dutra e
espatifou-se contra um caminhão que transportava 30 toneladas
de sacos de gesso numa carreta de 12 rodas. Ficou
reduzido a um monte de ferros retorcidos e vidros estilhaçados.
O acidente ocorreu nas proximidades da curva do km
165, conhecida como a “curva do açougue”.
Eram 19 horas quando o Brasil soube do acidente. O corpo
de Juscelino Kubitschek e o de Geraldo Ribeiro foram velados
no Edifício Manchete, na Praia do Russel, no Rio de
Janeiro, onde o ex-presidente, nos últimos doze anos, tinha
mantido seu gabinete de trabalho, no 11º andar. O País chorou
a perda de seu maior estadista com espontânea e dolorosa
emoção. Milhares e milhares de pessoas se uniram à
família de JK para o último adeus.
“Em nome de Juscelino, agradeço essa manifestação de amor
de vocês”, disse Sarah Kubitschek, que, ao lado das filhas,
Márcia e Maristela, manteve-se o tempo inteiro do velório ao
lado do esquife. No trajeto entre o Edifício Manchete e o Aeroporto
Santos Dumont, a multidão cantava alternadamente o Hino Nacional, A Valsa do Adeus e Peixe Vivo. Em Brasília, as
cenas de viva emoção se repetiram. A população da cidade
saiu às ruas para prestar homenagens àquele que se tornaria
um símbolo maior do culto à democracia. Na Catedral de
Brasília, entre as lágrimas e os aplausos do povo que jamais
esqueceu o criador da cidade, o esquife do estadista, coberto
pela bandeira nacional, foi levado para o altar dos pioneiros.
No sermão, o arcebispo Dom José Newton ressaltou que “o
espírito cristão do filho da professora Júlia se deve ao respeito
recebido e herdado de uma venerada mãe que o ensinou a
não ter ódio nem rancor”.
Nas ruas, a multidão que se aglomerava entre as proximidades
da catedral e a estação rodoviária gritava, incessantemente:
“O povo leva, o povo leva”. E o povo levou o esquife
de Juscelino Kubitschek de Oliveira nas mãos até sua última
morada: o cemitério do Campo da Esperança, ao lado da
sepultura do engenheiro Bernardo Sayão, um de seus braços
direitos na construção de Brasília, a 150 metros do túmulo
do candango desconhecido. No dia 12 de setembro, o ex-
-presidente completaria 74 anos. O cortejo levou três horas
e meia para chegar ao Campo da Esperança. Estendeu-se ao
longo de uma dezena de quilômetros. Os jovens, em motocicletas,
levavam cartazes com os dizeres: “A Juscelino, nossa
eterna gratidão”. O corpo baixou à sepultura às 23h35. O
povo gritava: “Viva JK!”, “Viva a democracia!”. As luzes dos
edifícios públicos em Brasília permaneceram acesas durante
toda a noite.
Na semana seguinte, milhares de pessoas lotaram a Igreja da
Candelária, no Rio de Janeiro, para assistir à missa de sétimo
dia pela alma de Juscelino Kubitschek. O cardeal Dom Eugênio
Sales falou, com a voz embargada, como a morte de JK
terminava para o ex-presidente a longa noite de exílio dentro
e fora da Pátria, tempo em que ele lutara como um marinheiro
num navio durante a tempestade. Lutara para se manter
vivo, lutara para manter a juventude na voz e na alma,
lutara, como observou David Nasser, para acreditar que iria
viver para sempre, como se “não fosse morrer nunca”, tanto
que plantava jabuticabeiras em Luiziânia como se, em quinze
anos, pudesse degustar a fruta, a preferida dos mineiros.
Com a morte de JK, também a pressão pela redemocratização
se tornou um esforço coletivo. E a democracia renasceu.
No coração dos brasileiros, Juscelino Kubitschek viverá
para sempre. Ele trilhou os caminhos ascendentes da vida
e portou-se com dignidade e altivez quando perseguido.
Sofreu com as perseguições e injustiças, mas soube criar
outra vida. Nunca, em instante algum, desde os tempos
em que trabalhava à noite como telegrafista para sustentar
os estudos nos anos em que ficou sem poder exercer seus
direitos políticos, disse adeus à esperança. Viveu e amou,
revolucionou a vida brasileira e sonhou com um Brasil moderno
e democrático. Nunca cerrou o coração ao diálogo e
ao entendimento. Nunca traiu seus ideais. Possuía a virtude
do “impossibilismo”, a qualidade mineira, nas palavras de
Pedro Nava, de “beirar os impossíveis”, de entrar na chama
e não se queimar, de penetrar na “loucura e prática dos atos
mais dementes com sabedoria”.
Quando o jornalista David Nasser, condestável da revista
Manchete e íntimo das Forças Armadas, insistiu para que
ele aderisse ao movimento militar de 1964, tendo como
testemunha a via-sacra de Mercier, Juscelino foi taxativo,
veemente: “Você é um bom jornalista e um mau profeta”.
Disse não. Foi franco, direto, sem rodeios, sem hipocrisias.
Tinha a qualidade da franqueza para ser, ao mesmo tempo,
cordial e polido. Acreditava nas urnas. Nasser e os demais
conspiradores acreditavam que, naquele instante, existiam
apenas urnas funerárias.
Fonte: VIANA, Francisco. JK: A Saga de um Herói Brasileiro.
São Paulo: Companhia Editora Nacional, Lazulli Editora, 2006.
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