Oscar Niemeyer, o homem que ensinou
o concreto armado a voar, completará
103 anos no próximo dia 15 de
dezembro, mas ainda é capaz de se
assombrar quando recorda a aventura
quase impossível da construção de
Brasília. “Fico espantado”, diz à Veja,
corpo miúdo engolido pela cadeira na
sala dos fundos de seu escritório voltado
para o mar de Copacabana, onde,
devido à dor em uma vértebra fissurada,
já não tem podido aparecer para
trabalhar com a disciplina partidária
que sempre marcou sua carreira.
“O problema era erguer uma cidade em menos de cinco
anos, então a minha parte era fazer uma arquitetura mais
simples, mais fácil”, lembra, sob o olhar de um Dom Quixote
de sucata. Uma sombra de sorriso maroto passa por
seu rosto vincado. “Mas não fiz nada disso. Por exemplo:
as colunas do Alvorada podiam ser mais fáceis de construir,
sem aquelas curvas. Mas foram elas que o mundo inteiro
copiou”.
Espanto é uma palavra-chave no discurso de Oscar, como o
chamam amigos e colaboradores. Resume o efeito de beleza
inesperada que toda boa arquitetura deve provocar, segundo
a cartilha que ele conserva inalterada desde a juventude.
A ideia é que “o sujeito pare e se espante”. No caso de
Brasília, diz: “a arquitetura de fantasia valeu a pena porque
tornou a cidade mais conhecida”, mas a mesma certeza já
estava em sua cabeça quando projetou, no início dos anos
1940, o curvilíneo conjunto da Pampulha por encomenda
de Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte.
Niemeyer sempre enfatizou — e volta a enfatizar agora, por
via das dúvidas — que, na capital mineira, foi plantada a
semente da nova capital federal. O futuro presidente desenvolvimentista
encontrara seu arquiteto. E seu arquiteto encontrara
um estilo — para sempre.
O busto de Lênin sob uma das prateleiras arqueadas de livros
que forram as paredes não é o único sinal de desafio
ao tempo nos ares do escritório, que Niemeyer continua
perfumando com a fumaça de sua cigarrilha. “Uma coisa
que eu noto quando olho para trás é que, quando comecei
Brasília, eu pensava exatamente igual a hoje”, diz a voz baixa
— mas ainda clara —, cheia de curvas e chiados cariocas.
Essa “resistência de concreto” das ideias que o moldaram
explica muita coisa, desde a coerência de sua obra ao longo
de tantas décadas até o fato de que, entrevistado hoje, ele
continua produzindo respostas — às vezes com as mesmas
palavras — que já estavam em seu livro Minha Experiência
em Brasília, lançado em 1961. Lá, como aqui, se encontram
expressões-chave como liberdade plástica, as curvas femininas
como inspiração, imagens poéticas sobre “palácios suspensos,
leves e brancos, nas noites sem fim do Planalto”.
Envelhecimento físico à parte, o homem mudou pouco. Tanto
nas convicções políticas — continua fiel ao comunismo e
admirador do ditador soviético Josef Stalin, que diz ter sido
“demonizado pela mídia” — quanto na capacidade de se entusiasmar
com o trabalho. É difícil mantê-lo interessado por
muito tempo na conversa sobre uma cidade construída há
meio século, mesmo sendo a cidade um caso, provavelmente
único na história, de tela em branco entregue ao gênio de
um arquiteto. Niemeyer vibra mais ao falar dos prédios oficiais
que o governador mineiro Aécio Neves lhe encomendou,
do teatro que está sendo erguido neste momento na
cidade argentina de Rosario ou da praça “fantástica, monumental”
que projetou para o governo do Cazaquistão. Não
é por acaso que, após uma união de 76 anos com Annita,
que morreu em 2004, ele se casou novamente, há três anos,
com Vera Lúcia Cabreira, 62 anos, sua secretária desde 1992.
Seu tempo de vida se dilata para abarcar uma filha, quatro
netos, treze bisnetos e cinco trinetos, mas parece um presente
sem fim.
Desse ponto de vista, entende-se que Brasília esteja “tão longe”,
como ele diz ao justificar uma de suas muitas lacunas
de memória sobre os anos de 1956 a 1960. É possível que a
distância seja uma metáfora daquela geografia, que quase
o fez desistir da encomenda de JK ao pisar pela primeira
vez na desolação poeirenta do Planalto Central. Nesse caso,
porém, trata-se de uma distância medida no tempo, e não
no espaço. Nas palavras de Niemeyer, os cinquenta anos da
capital do País ora se espicham em “oitenta”, ora sofrem
um abatimento para virar “quarenta, sei lá”. Não se trata de
falta de lucidez, mas de desapego a detalhes. Da experiência
de Brasília, ele preservou, como repetiu em centenas de entrevistas,
o prazer da convivência com os amigos que levou
consigo — “nem todos arquitetos, alguns só para a gente
poder conversar e esquecer a arquitetura” — e os animados
saraus promovidos por JK ao som do violão de Dilermando
Reis. Mas guardou, sobretudo, a sensação de ter vivido uma
utopia igualitária, morando nas mesmas casas geminadas
dos operários e comendo ao lado deles no mesmo restaurante,
“como uma grande família, sem preconceitos nem
desigualdades”. Pronta a cidade, registrou em Minha Experiência
em Brasília sua decepção com o fim do sonho: “Agora
tudo mudou, e sentimos que a vaidade e o egoísmo aqui
estão presentes e que nós mesmos estamos voltando, pouco
a pouco, aos hábitos e preconceitos da burguesia que tanto
detestamos”.
Antes do choque de realidade, contudo, houve tempo de escrever
um épico. “Era aquele sol, a terra vazia e cheia de
poeira. Tínhamos de tomar banho de manhã e à noite. Era
uma coisa radical”, recorda. Coube ao arquiteto escolher —
ou algum verbo semelhante que inclua uma dose de aleatório,
como seria de esperar em terreno quase desprovido de
marcos e acidentes — o local onde seria fincado o Palácio
da Alvorada, antes de existir o Plano Piloto, “com capim a
nos bater nos joelhos”. Os projetos saíam de sua prancheta
diretamente para a mesa do calculista Joaquim Cardozo, e
o próprio original seguia então para a obra. “Não havia programas”,
diz Niemeyer, referindo-se à falta de informações
minimamente precisas sobre as construções que lhe cabiam
projetar. Na companhia de Israel Pinheiro, presidente da
Novacap, visitava pessoalmente as instalações governamentais,
no Rio de Janeiro, para contar salas, medir espaços e
depois multiplicar tudo por dois ou três. O que ainda seria
pouco. “O Palácio do Planalto foi feito para 150 pessoas.
Tem 600”, diz. O clima de improviso não excluía questões
financeiras. Niemeyer concebeu tudo o que Brasília tem de
monumental recebendo um salário de funcionário público,
mas, quando faltou dinheiro para construir o chamado Catetinho,
a residência de madeira que abrigaria o presidente
da República durante as obras, o próprio arquiteto e outros
amigos de JK levantaram empréstimo num banco.
“Foi um período que me afastou de muita coisa”, lembra.
Seu pai, também chamado Oscar, morreu quando ele estava
“no meio do deserto”. Por questões de segurança, sua mulher,
que ficou no Rio, deixou a Casa das Canoas, a bela residência
de concreto e vidro que ele construíra no início dos
anos 1950 (hoje tombada pelo Patrimônio Histórico e parte
da Fundação Oscar Niemeyer), e se mudou para um apartamento.
Avesso a viagens aéreas, o arquiteto sofreu um grave
acidente de carro a caminho do Rio que o deixou preso “por
um mês” a uma cama de hospital. Niemeyer parece levar
em conta todo esse investimento pessoal quando, comentando
a recente polêmica sobre o projeto da monumental
Praça da Soberania, que a comunidade brasiliense rejeitou,
declara magoado: “Eu achei que tinha o direito de fazer essa
praça”. O tombamento da capital do País o incomoda. “Se
o Brasil fosse tombado, o prefeito Pereira Passos não teria
feito essa avenida tão importante”, diz, referindo-se à Avenida
Rio Branco, artéria de inspiração parisiense rasgada no
centro do Rio de Janeiro no início do século XX. “Tudo muda.
Quando a água do polo derreter, o mar vai subir e todas
as cidades litorâneas terão de ser modificadas”, especula. A
Praça da Soberania está na gaveta, mas o presente contínuo
de Oscar Niemeyer ainda tem vista para o futuro. Fonte: Revista Veja. Edição especial. Ano 42. São Paulo:
Abril, novembro de 2009.
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