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Em busca do imaginário infantil

Sylvia Orthof: o bom humor na literatura infantil brasileira



Poesia é coisa séria. E Sylvia Orthof sempre levou a sério essa tarefa de olhar o mundo de forma bem humorada e poética! Sabia remexer nas palavras e extrair delas o maior número de significados possíveis.

Sabia dar cara nova às coisas gastas e velhas. Tinha plena consciência de sua maneira especial de dirigir o olhar do leitor para a poesia que brota das coisas mais simples e de encaminhá-la até os escondidos e escuros da alma.

Celso Sisto


Sylvia Orthof, filha de judeus austríacos, nasceu no Hospital dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro, em 3 de setembro de 1932. Seus pais tinham deixado Viena entre as duas guerras, em busca de paz e trabalho. Seu pai, Gerhard Orthof, veio de uma família de artistas; ele próprio era pintor. Seu tio materno foi o músico Arnold Schoenberg, e a avó, Malvine, era casada com um letrista de operetas vienenses. Esta avó Malva influenciou muito na adolescência de Sylvia, com sua irreverência e liberdade. A avó materna de Sylvia, a vovó Trude (Gertrud Alice Goldberg, depois Orthof), foi pintora e ceramista de uma família burguesa e rica de Viena, que perdeu tudo na guerra e veio para o Brasil, fugindo do nazismo.

Sylvia teve uma infância difícil. Aprendeu a falar primeiro alemão e falava português com sotaque errado até a idade escolar. Foi filha única, numa família de imigrantes pobres que recebia seus avós e tios, chegados da Áustria em guerra. Quando tinha sete anos, seus pais se separaram, numa época em que isso era muito incomum. Seu pai casou, e a sua segunda esposa tinha uma filha de sua idade. Sylvia passou a viver com sua vovó Trude. Ela não sabia que era judia; seus pais temiam o preconceito e, por isso, não falavam alemão na rua para não serem confundidos com nazistas num Brasil então em guerra, lutando com os aliados. Na escola, as meninas faziam Primeira Comunhão e Sylvia também quis fazer... e fez, sendo batizada por uma família não-religiosa.

Na adolescência, conheceu o Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, e aos quinze anos foi a “Julieta” de Shakespeare.

Aos dezoito anos foi estudar teatro em Paris, onde estreitou os laços com a única irmã da sua avó Trude, a famosa Tia Hedy, que havia fugido para a França durante a guerra.

Um ano depois, voltou ao Brasil e trabalhou como atriz no Teatro Brasileiro de Comédias (TBC), em São Paulo, e no Rio com os grandes nomes do teatro e da TV, como Cacilda Becker, Walmor Chagas, Ziembisnky, Sérgio Britto, Cleyde Yáconis, Sérgio Cardoso, entre outros.

Aos 25 anos, casou-se com Sávio Pereira Lima. Era médico amigo de artistas. Depois de casada, foi morar numa aldeia de pescadores, em Marobá, hoje Nova Viçosa, no sul da Bahia, onde viveu seu primeiro ano de casada, e teve sua primeira filha, Cláudia Orthof.

Dois anos depois, foi morar em Petrópolis, onde nasceu Geraldo (o Ge Orthof, hoje ilustrador) e onde conheceu Póla e Tato Gostkorzewicz e Zilahe Luís Tranin, amigos da vida inteira.

Em 1959, Juscelino anunciava a construção de Brasília e a mudança da capital. O espírito aventureiro fez com que Sylvia e Sávio, seu esposo, se mudassem para lá, no início de 60, onde viveriam a vida dos candangos pioneiros de Brasília. Lá nasceu Pedro, seu novo filho. Seu marido foi médico pediatra da Câmara dos Deputados e secretário de Saúde do Distrito Federal. Sylvia, agora com 32 anos, tem três filhos, dois enteados, um marido respeitado profissionalmente e uma enorme insatisfação profissional.

Começou a usar sua criatividade na TV Brasília, com um programa infantil de fantoches, o Teatro do Candanguinho. Contava histórias na Rádio MEC, era júri do concurso de Miss Brasília e desenhava fantasias para o cabeleireiro Augusto, nos bailes carnavalescos, onde ele ganhava todos os prêmios da categoria “Originalidade”. Foi professora na UnB, sem nunca ter sido universitária, e criou um grupo de teatro amador com operários, no Sesi, onde encenou Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, numa montagem com atores operários que entusiasmou Paulo Autran, que viajava com a mesma peça numa turnê nacional.

No País, o Regime Militar fez com que a censura dificultasse o trabalho de Sylvia Orthof. A pressão aumentava e, em 1966, aos 34 anos, ela fugiu para Paris com a sua avó Trude. Seus filhos Geraldo e Cláudia ficaram com uma tia. Pedro, então com dois anos, e Sávio ficaram em Brasília.

Depois de quatro meses, voltaram à vida familiar em Brasília e prosperaram junto com a Corrente pra frente, Brasil; mudaram para uma casa no Lago, mas o cerceamento da liberdade, o cerco militar, a censura e a tortura não deixavam a família ser feliz.

Mais tempos duros vieram. Sávio, esposo de Sylvia, descobriu que estava com câncer e resolveu devolver Sylvia e os filhos ao velho Orthof. Mudaram-se em 1971 para Petrópolis. A casa em Brasília foi vendida, e o dinheiro, aplicado na Bolsa, que ruinou naquele ano. Retomaram o convívio familiar com as famílias Orthof e Pereira Lima e os velhos amigos de Petrópolis. Por pouco tempo, pois alguns meses depois o amigo Tato perdia a sua mulher e as duas noras num trágico acidente de automóvel. Sylvia ficou viúva aos quarenta anos. Voltou a Petrópolis e reencontrou o seu amigo Tato, então viúvo, e com ele se casou.

Começou aí a segunda etapa da vida de Sylvia. Recém-casada com Tato, voltou ao Rio e retomou sua vida profissional. Escreveu e dirigiu, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, a premiada peça infantil A Viagem do Barquinho, em que toda a família trabalhava. Do teatro passou à literatura infantil e começou a sua carreira de sucesso como escritora. O casamento com Sylvia fez com que Tato, aposentado como arquiteto, e também ele um artista, retomasse a pintura e o desenho, passando a ilustrador da maioria de seus livros. Alguns foram ilustrados por ela própria, outros por seu filho Gê Orthof e outros por vários desenhistas.

Sylvia tinha a vida cada vez mais voltada para a literatura, sendo reconhecida como escritora. Pedro cresceu, Sylvia e Tato mudaram-se para Petrópolis e produziram mais de cem livros. Começou a escrever com certa idade, quarenta anos aproximadamente, e realmente criou um mundo de fantasia impressionante. A importância de sua literatura infantil trouxe uma enorme contribuição no que diz respeito à liberdade, à espontaneidade.

Teve uma vida plena e rica e, neste inevitável inventário, é bom ver que ela fez a sua parte, o seu melhor possível. Foi casada por quinze anos com o médico Sávio e por 24, com Tato. Fez o melhor que pôde o papel de madrasta dos dois filhos de cada marido. Foi sincera e tentou superar as dificuldades. Teve seus três filhos, seus quatro netos e mais todos os outros emprestados, filhos dos enteados, do genro, da nora. Foi generosa. Criou, trabalhou, usou seu potencial, não desperdiçou seu talento, foi coerente com sua ideologia de liberdade e de paz.

Em 1996, descobriu o câncer que a levou. Ainda viveu um ano e meio, e nesse tempo escreveu vários livros, enfrentando a quimioterapia, os exames, duas cirurgias e três internações hospitalares. Faleceu no dia 24 de julho de 1997 em companhia de seus filhos, do genro, das noras, dos netos, do marido, dos enteados, todos próximos, diminuindo a sua dor, ajudando-a a morrer como ela sempre os ajudou a viver.

Sylvia sempre foi mística. Voltou a pedir ajuda à religião, que nunca esteve ausente de sua vida. Seus livros estão repletos de símbolos religiosos — judaicos e católicos — e quando começou a pesquisar a cultura brasileira e africana, os orixás do candomblé também participaram de sua literatura, numa mistura alegre e solidária de um Deus único e generoso.

Deixou como herança para seus filhos a filosofia de vida de não só acreditar na Justiça, na Paz, na Solidariedade, mas de trabalhar por elas.

Últimos poemas

Estes poemas foram encontrados por Cláudia, filha de Sylvia Orthof, na bolsa de sua mãe. Estavam num bloquinho, desses de anotar recado de telefone, e tudo indica que foram escritos no hospital, pouco antes da morte da escritora

Se eu me for
vou de bagagem
sem ter mala
e compromisso.
Vou de anjo,
sem ter asa,
vou morando,
sem ter casa.
Vou medir
o infinito.

Hoje sou mais ontem
e me resvalo
em pensamento
e lembrança.
Virei criança.

Passarinho,
passarinho,
asa de vento
e plumagem,
bico feito de cantiga
me livra desta gaiola
que tem palavra
e linguagem!

A saudade
é coisa à toa:
avoa!
A saudade
é coisa tanta:
espanta!

A cor do tempo
é aguada,
cor de neblina
e azul.
A cor do tempo
usa óculos,
requebra
numa bengala.
A cor do tempo
é sem cor,
parece filme
antigo.
é um tom
de pianola
ou talvez
de violino.
A cor do tempo
é sem tempo.
E o sem tempo
é a cor
que desbota
num "me lembro"
e acaba
em esquecimento
aonde for.



Entrego o livro e assim me livro, na quarta capa não digo e digo.
Sou quem eu sou, não vou e vou: brinco de livro!

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