Edição 27

Matérias Especiais

ATITUDES FRATERNAS

1. ENCONTRAR AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

fraternasMuitas pessoas não-deficientes ficam confusas quando encontram uma pessoa com deficiência. É o desconforto diante do “diferente”, que diminui e pode desaparecer quando existem oportunidades de convivência entre pessoas com deficiência e não-deficientes. As pessoas com deficiência não devem ser evitadas; e, no encontro com elas, não se deve fazer de conta que a deficiência não existe. A deficiência deve ser reconhecida e aceita como um fato real; contrariamente, o relacionamento com a pessoa não será real.

Não se deve subestimar as possibilidades nem as dificuldades. As pessoas com deficiência têm o direito de tomar suas próprias decisões e podem e querem assumir a responsabilidade por suas escolhas. Ter uma deficiência não faz com que uma pessoa seja melhor ou pior do que uma pessoa não-deficiente.

Provavelmente, a pessoa com deficiência pode ter dificuldades para realizar algumas atividades; por outro lado, poderá ter extrema habilidade para fazer outras coisas. Exatamente como todo mundo. A maioria das pessoas com deficiência não se importa de responder perguntas, principalmente aquelas feitas por crianças a respeito da sua deficiência e de como ela realiza algumas tarefas. Mas, quando não se tem familiaridade com essas pessoas, é melhor evitar muitas perguntas.

Pessoas Cegas ou com Deficiência Visual

Nem sempre as pessoas cegas ou com deficiência visual precisam de ajuda, mas esta sempre pode ser oferecida. Nunca se deve ajudar sem antes perguntar como se deve fazê-lo. Se a ajuda for aceita, o voluntário deve dobrar o cotovelo e colocar nele a mão da pessoa cega no cotovelo dobrado de quem ajuda. Assim, ela pode acompanhar o movimento do corpo do ajudante enquanto vai andando.

É sempre bom avisar, antecipadamente, a existência de degraus, pisos escorregadios, buracos e obstáculos em geral durante o trajeto. Num corredor estreito, por onde só é possível passar uma pessoa, coloque o seu braço para trás, de modo que a pessoa cega possa continuar seguindo você. Para ajudar uma pessoa cega a sentar-se, deve-se guiá-la até a cadeira e colocar a mão dela sobre o encosto da cadeira, informando se esta tem braço ou não. Deixe que a pessoa sente-se sozinha. Ao ir embora, sempre avise à pessoa com deficiência visual.

Ao explicar direções para uma pessoa cega, é preciso ser o mais claro e específico possível, de preferência, indicando as distâncias em metros (“uns vinte metros à sua frente”). Algumas pessoas, sem perceber, falam em tom de voz mais alto quando conversam com pessoas cegas. A menos que a pessoa tenha também uma deficiência auditiva que justifique isso, não faz nenhum sentido gritar. Fale em tom de voz normal.

Por mais tentador que seja acariciar um cão-guia, é bom lembrar que esses cães têm a responsabilidade de guiar um dono que não enxerga. O cão nunca deve ser distraído do seu dever de guia.

As pessoas cegas ou com visão subnormal são como as outras, só que não enxergam. Trate-as com o mesmo respeito e a mesma consideração devidos a todas as pessoas. No convívio social ou profissional, não exclua as pessoas com deficiência visual das atividades normais. Deixe que elas decidam como podem ou querem participar. Como a todas as pessoas, proporcione-lhes a chance de ter sucesso ou de falhar.

Pessoas com Deficiência Física

Para uma pessoa sentada, é incômodo ficar olhando para cima por muito tempo; portanto, ao conversar por vários minutos com uma pessoa que usa cadeira de rodas, se for possível, sente-se perto dela para ambas ficarem no mesmo nível.

A cadeira de rodas (assim como as bengalas e muletas) é parte do espaço corporal da pessoa, quase uma extensão do seu corpo. Agarrar ou apoiar-se na cadeira de rodas é como agarrar ou apoiar-se numa pessoa sentada numa cadeira comum. Isso muitas vezes pode parecer simpático, mas também pode ser desconfortável para a pessoa que tem deficiência motora.

Nunca se deve movimentar a cadeira de rodas sem antes pedir permissão à pessoa. Empurrar uma pessoa em cadeira de rodas não é como empurrar um carrinho de supermercado. Quando estiver empurrando uma pessoa sentada numa cadeira de rodas e parar para conversar com alguém, lembre-se de virar a cadeira de frente para o interlocutor, para que a pessoa com deficiência também possa participar da conversa.

Ao empurrar uma pessoa em cadeira de rodas, faça-o com cuidado. Preste atenção para não bater nas pessoas que caminham à frente. Para subir degraus, incline a cadeira para trás para levantar as rodinhas da frente e apoiá-las sobre a elevação. Para descer um degrau, é mais seguro fazê-lo de marcha à ré, sempre apoiando, para que a descida seja sem solavancos. Para subir ou descer mais de um degrau em seqüência, será melhor pedir a ajuda de mais uma pessoa.

Auxiliando uma pessoa com deficiência que anda devagar, com ajuda ou não de aparelhos ou bengalas, procure acompanhar o passo dela. Mantenha as muletas ou bengalas sempre próximas à pessoa com deficiência. Se ela encontrar dificuldades, ofereça ajuda; caso aceite, pergunte como fazer. As pessoas têm suas técnicas pessoais — para subir escadas, por exemplo —, e, às vezes, uma tentativa de ajuda inadequada pode até atrapalhar. Outras vezes, a ajuda é essencial. Não se ofenda se a ajuda for recusada.

Ao presenciar um tombo de uma pessoa com deficiência, ofereça ajuda imediatamente. Mas nunca ajude sem perguntar se a pessoa quer ajuda e como isso deve ser feito. Preste atenção para a existência de barreiras arquitetônicas, quando se escolhe uma casa, um restaurante, um teatro ou qualquer outro local que se queira visitar com uma pessoa com deficiência física.

fraternas_paralisia

Ao encontrar uma pessoa com paralisia cerebral, é bom lembrar que ela tem necessidades específicas, por causa de suas diferenças individuais.

Respeite sempre o ritmo dessas pessoas; usualmente, elas são mais vagarosas no que fazem, como andar, falar e pegar as coisas. Tenha paciência ao ouvi-las; geralmente, elas têm dificuldades na fala. Essa dificuldade e o ritmo lento não devem ser confundidos com a deficiência mental.

A pessoa com paralisia cerebral não deve ser tratada como uma criança ou pessoa incapaz. A paralisia cerebral é fruto da lesão cerebral acontecida antes, durante ou após o nascimento e causa desordem sobre os controles dos músculos do corpo. Não é doença e não é contagiosa. É uma situação, uma condição.

Pessoas com paralisia cerebral podem ter dificuldades para andar, podem fazer movimentos involuntários com pernas e braços e apresentar expressões estranhas no rosto. Não se intimide com isso. São pessoas comuns, como você. Geralmente, têm inteligência normal e, às vezes, até acima da média.

Se a pessoa tiver dificuldades na fala e não conseguir se fazer entender logo, peça que ela repita o que disse. Pessoas com dificuldades desse tipo não se incomodam em repetir, se necessário.

Pessoas Surdas ou com Deficiência Auditiva

Não é correto dizer que alguém é surdo-mudo. Muitas pessoas surdas não falam porque não aprenderam a falar. Algumas fazem a leitura labial, outras não. Quando quiser falar com uma pessoa surda, se ela não estiver prestando atenção, acene para ela ou toque levemente em seu braço.

Conversando com uma pessoa surda, fale de maneira clara, pronunciando bem as palavras, mas sem exagerar. Use a velocidade normal da fala, a não ser que ela peça para falar mais devagar. Use um tom normal de voz, a não ser que ela peça para falar mais alto. Nunca grite.

Fale diretamente com a pessoa, não de lado ou atrás dela. Faça com que a sua boca esteja bem visível. Gesticular ou segurar algo em frente à boca torna impossível a leitura labial. Usar bigode também atrapalha.

Ao falar com uma pessoa surda, fique num lugar iluminado. Não fique contra a luz (de uma janela, por exemplo), pois isso dificulta a visão do seu rosto. Conhecendo alguma linguagem de sinais, tente usá-la. Se a pessoa surda tiver dificuldade em entender, ela avisará, mas, de modo geral, ela apreciará sua tentativa.

Seja expressivo ao falar. As pessoas surdas não podem ouvir mudanças sutis de tom de voz, que indicam sentimentos de alegria, tristeza, sarcasmo ou seriedade. As expressões faciais, os gestos e o movimento do corpo serão excelentes indicações do que se quer dizer.

Enquanto estiver conversando, mantenha sempre contato visual; se desviar o olhar da pessoa surda, ela pode achar que a conversa terminou. Nem sempre a pessoa surda tem uma boa dicção. Se tiver dificuldade para compreender o que ela está dizendo, não se acanhe em pedir para que repita. Geralmente, as pessoas surdas não se incomodam em repetir quantas vezes for preciso para que sejam entendidas.

fraternas_audicaoSe for necessário, comunique-se por meio de bilhetes. O importante é comunicar-se. O método escolhido não é tão importante. Quando a pessoa surda estiver acompanhada de um intérprete, dirija-se à pessoa surda, não ao intérprete. Algumas pessoas mudas preferem a comunicação escrita, outras usam linguagem em código; outras, ainda, preferem códigos próprios. Esses métodos podem ser lentos, requerem paciência e concentração. Se possível, ajude a pessoa muda a encontrar a palavra certa; assim, ela não precisará de tanto esforço para passar sua mensagem. Não fique ansioso, pois isso pode atrapalhar a conversa.

Pessoas com Deficiência Mental

Aja naturalmente ao dirigir-se a uma pessoa com deficiência mental. Trate-a com respeito e consideração. Se for uma criança, trate-a como criança. Se for adolescente, como adolescente. Se for uma pessoa adulta, trate-a como tal.

Cumprimente-a e despeça-se dela normalmente, como faria com qualquer outra pessoa. Nunca ignore sua presença. Dê atenção a ela, converse e seja natural no trato com ela. Nunca superproteja-a, mas deixe que ela faça ou tente fazer sozinha tudo o que puder. Ajude apenas quando for realmente necessário.

Não subestime sua inteligência. As pessoas com deficiência mental levam mais tempo para aprender, mas podem adquirir muitas habilidades intelectuais e sociais. Lembre que o respeito está em primeiro lugar e só existe quando há troca de idéias, informações e vontades. Por maior que seja a deficiência, valorize as capacidades da pessoa que ali está.

As crianças com deficiência mental devem ser integradas com os companheiros de classe ou as demais crianças da mesma idade, para participar de brincadeiras, passeios e atividades de lazer com suas famílias.

As pessoas com deficiência mental, geralmente, são muito carinhosas. Deficiência mental não deve ser confundida com doença mental. Trate as pessoas com deficiência mental com a mesma consideração e o mesmo respeito devidos às demais pessoas.

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade 2006: texto-base / Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. CNBB _ São Paulo: Editora Salesiana, 2005. p. 107 a 113.

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