Edição 107

Em discussão

ATIVIDADES LÚDICAS NAS AULAS DE ESPANHOL – ENSINO FUNDAMENTAL II

Poliana de Oliveira Santos

“Brincar não é perder tempo, é ganhá-lo.
- Carlos Drummond de Andrade

Resumo

Este trabalho analisa a importância das atividades lúdicas como subsidiadoras do ensino-aprendizagem de Espanhol no Ensino Fundamental II. A intenção é possibilitar uma reflexão acerca do componente lúdico como recurso eficaz, bem como trazer sugestões que norteiem o ensino voltado para a motivação dos discentes. Para tal, permearemos as perspectivas de alguns teóricos como: Callegari (2004; 2008), Huizinga (2004) e Vygotsky (1998).

Palavras-chave: Atividades lúdicas; língua espanhola; ensino-aprendizagem.30

Introdução

Nos últimos tempos, o lúdico se tornou objeto de interesse para muitos professores pela sua importância como prática que auxilia no processo ensino-aprendizagem, contribuindo para a superação de dificuldades ligadas ao universo escolar, como concentração, atenção, raciocínio. Dessa forma, o componente lúdico se torna uma ferramenta que pode promover a construção ou potencialização de conhecimentos.

Para Huizinga (2004, p. 3-4), o jogo é anterior à cultura e “[...] é uma função significante, isto é, encerra determinado sentido. No jogo existe alguma coisa ‘em jogo’ que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação” (grifos do autor). Apenas no século XIX, o jogo passa a ser objeto de atenção; contudo, apesar de estar há tanto tempo no âmbito educacional, sua importância não representa uma constância e, por isso, nos últimos anos, a ludicidade ganhou destaque, uma vez que vivenciamos uma era da educação alvejada por críticas e que necessita de reformulações. Nesse sentido, as atividades lúdicas são apenas um entre os muitos recursos que o professor dispõe para introduzir, explicar ou fazer com que o aluno desenvolva determinada habilidade. Dessa forma, um dos objetivos do jogo em sala de aula é levar o aluno a refletir e focar a atenção nos usos linguísticos, socioculturais, discursivos e estratégicos do idioma de uma maneira mais prazerosa.

A ideia para a escrita deste artigo surgiu a partir da prática docente de espanhol como língua estrangeira em uma escola privada situada no munícipio de Jacundá/Pará, no âmbito do Ensino Fundamental II. A instituição existe há 15 anos e, há cinco, adota um material didático integrado, no qual o ensino de língua espanhola é iniciado no 6º ano do Ensino Fundamental. O objetivo foi investigar a importância do componente lúdico como facilitador do processo de ensino-aprendizagem do espanhol.

Esperamos que esta investigação seja uma oportunidade de fomentar discussões que contribuam para o ensino e o aprendizado da língua espanhola, bem como proporcionar a reflexão da prática docente ante os subsídios que integrarão a aula.

O lúdico – Conceituação x importância para aprendizagem

O lúdico como instrumento educativo já se fazia presente no universo criativo do Homem desde os primórdios da humanidade. Desde pequenas, as crianças participam de jogos e, na maior parte deles, o “brincar” está relacionado à curiosidade, elemento inerente à criança — por exemplo, a conscientização de partes do corpo, nos primórdios de um bebê; a linguagem (como adivinhações); e a organização do pensamento a partir de lógicas.

31As experiências são extremamente importantes em nossa vida. Todo o acervo de brincadeiras constituirá o banco de dados de imagens utilizadas em nossas interações. Dispor de tais imagens é de fundamental importância para a construção do conhecimento e sua socialização. Ao brincar, a criança se movimenta em busca de parceria e, na exploração de objetos, comunica-se com seus pares, expressa-se através de múltiplas linguagens, descobre regras e toma decisões. Nesse sentido, faz-se necessário conceituar o termo lúdico para que fique clara a ideia desse elemento como recurso subsidiador das aulas de espanhol.

O lúdico tem sua procedência na palavra latina ludus, que significa jogos infantis, recreação — as mais diversas formas de representação, como aquelas ligadas aos atos litúrgicos ou às encenações teatrais, à dança ou ainda aos jogos de azar. Por conseguinte, atividade lúdica é todo e qualquer movimento que tem como objetivo produzir prazer quando de sua execução, ou seja, divertir o praticante. Portanto, podemos considerar que:

Jogar é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias dotadas de um fim em si mesmas, acompanhadas de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da ‘‘vida quotidiana’’ (HUIZINGA, 2004, p. 33).

Nesse sentido, vemos a relevância de se inserir essas atividades como base do aprendizado. Após tantos métodos de ensino de línguas, somente com o aparecimento da abordagem comunicativa (é uma denominação genérica para referir-se àquelas abordagens que promovem o interesse por desenvolver a competência: os aprendizes constroem seus conhecimentos de outras culturas mediante atividades comunicativas nas quais criam, conjuntamente, significados, estabelecendo um estreito vínculo entre língua e cultura) é que houve o surgimento do caráter motivador lúdico nas aulas de línguas.

As publicações sobre a importância das atividades lúdicas no processo de aprendizagem de maneira geral e no de aprendizagem de idiomas de maneira mais específica são recorrentes, de modo que fica evidente que esse recurso pode ser um grande aliado de alunos e professores no ensino de línguas estrangeiras. Entretanto, o que determinará a eficácia desse recurso é a clareza e a organização sobre o seu funcionamento. Assim, é importante que verifiquemos se as atividades lúdicas mantêm relação direta com os objetivos do curso, com os conteúdos e com a metodologia adotada; que consideremos as características do grupo de alunos, uma vez que este sempre é heterogêneo; que explicitemos aos discentes os objetivos e os resultados esperados com a realização da atividade lúdica; e que verifiquemos a estruturação da atividade: materiais necessários, explicação dos procedimentos, etapas da atividade e regras.

Essa organização desmistifica a ideia de brincar como sinônimo de atividade para “passar o tempo”, já que a instituição escolar cobra e se preocupa com o cumprimento do currículo e, às vezes, não compreende a atividade lúdica como algo promissor.

Durante essas atividades lúdicas, o ambiente em sala de aula parece se tornar mais agradável e leve, os alunos se descontraem, apresentam uma postura mais ativa e aprendem com mais facilidade os conteúdos abordados (CALLEGARI, 2004, p. 155). Aqui, vemos a importância que a atividade lúdica traz no que concerne à participação do aluno, diminuindo bloqueios e trazendo maior eficácia na aprendizagem:

Os jogos permitem estimulá-los a ter atitudes de cooperação, responsabilidade, participação, respeito, iniciativa, tomada de decisão. [...] através das brincadeiras, constroem seus conhecimentos com maior facilidade (SCHOLZE, BRANCHER, NASCIMENTO, 2008, p. 102).

Os conteúdos deixam de ser algo que simplesmente o aluno vai aprender, já que passam a ter um sentido prazeroso, uma vez que o lúdico possibilita o estímulo do “vencer”, “acertar”, “conseguir”:

Se quisermos aproveitar o potencial do jogo como recurso para o desenvolvimento, não podemos contrariar sua natureza, que requer a busca do prazer, a alegria, a exploração livre e o não constrangimento (KISHIMOTO, s/d, p. 44).

A ludicidade, assim, é uma auxiliar eficaz na educação e positivamente favorece o desenvolvimento dos quatro pilares básicos propostos pela Unesco, que são: aprender a conhecer (o aluno precisa assumir uma postura ativa), aprender a fazer (o aluno se torna corresponsável pelo seu aprendizado), aprender a ser (o aluno se insere como atuante de uma sociedade regida por normas) e aprender a viver juntos (o aluno entende regras e as partilha com seus companheiros de classe). Como se constata, brincar é, assim como estudar, uma atividade séria na medida em que mobiliza atitudes, raciocínio, cooperação, normas, princípios, valores éticos e disciplina. Por meio do lúdico, o aluno é capaz de conferir sentido àquilo que aprende e de aplicar o que foi aprendido nas diferentes situações em que seja necessário fazer uso da língua espanhola.

Prática docente: Ensino Fundamental II – 7º ano b – Escola Arte de Educar

Atuamos na Escola Arte de Educar há sete anos e, juntamente com a coordenadora, fizemos quatro aulas de intervenção para verificar a eficácia do componente lúdico como uma ferramenta positiva. A escolha dessa turma foi proposital, uma vez que os alunos são muito ativos, a maioria faz as atividades rapidamente; e apresenta alunos com dificuldades de concentração, uma aluna hiperativa e outros com transtornos de aprendizado. Para organizar as atividades, partimos da premissa do que nos propõe os PCNs (1998, p. 54):

[...] é fundamental que, desde o início da aprendizagem de Língua Estrangeira, o professor desenvolva, com os alunos, um trabalho que lhes possibilite confiar na própria capacidade de aprender, em torno de temas de interesse e interagir de forma cooperativa com os colegas. As atividades em grupo podem contribuir significativamente no desenvolvimento desse trabalho, à medida que, com a mediação do professor, os alunos aprenderão a compreender e respeitar atitudes, opiniões, conhecimentos e ritmos diferenciados de aprendizagem.

Dessa forma, escolhemos duas atividades lúdicas (retiradas do manual Atividades lúdicas para a aula de língua estrangeira, de Gretel et al., e adaptadas à realidade escolar) com temas já vistos pelos alunos com o intuito de deixá-los numa zona de conforto e para que pudessem recuperar as informações adquiridas anteriormente. As atividades foram realizadas intercaladas com um momento de reflexão. Assim, após cada atividade, fizemos uma roda de conversa para que expusessem sua autoavaliação de todo o processo. A intenção era a de verificar como se sentiram e o que conseguiram absorver.

Na primeira atividade, sorteamos 10 alunos e, depois, mais 11, de forma que todos os 21 alunos participassem; apenas 5 não conseguiram acertar muitos itens, porém isso não acarretou uma diminuição do filtro afetivo para com a dinâmica, uma vez que todos ficaram eufóricos por estar se divertindo. Alguns que estavam assistindo até pegaram o dicionário como apoio para relembrar o grupo de vocábulos apresentados antes da brincadeira, pois queriam acertar todos e, caso esquecessem, já estavam prontos a relembrar.

Vygotsky (1991) argumenta que agir sobre as coisas é considerado a principal forma de que a criança dispõe para conhecê-las e compreendê-las. A criança se esforça para agir como um adulto. Será possível que, através da brincadeira, ela satisfaça essas necessidades? Nesse sentido, verificamos que o ato de usar o dicionário como apoio na brincadeira, que partiu de alguns alunos, ainda nos permite perceber que:

Ao definir papéis a serem representados, dando significados diferentes aos objetos para uso no brinquedo, e no processo de administração do tempo e do espaço, em que vão definindo os diferentes temas dos jogos, as crianças têm a possibilidade de levantar hipóteses, resolver problemas e construir sistemas de representação (VYGOTSKY, 1991).33

Após a primeira brincadeira, que durou 20 minutos no total, os alunos fizeram uma roda na qual começamos a conversar. Na segunda atividade, o processo foi diferente, já que o trabalho em equipe favoreceria o feedback positivo da dinâmica. Os alunos se esforçaram para não errar e falar com a pronúncia correta. O mais interessante de tudo foi o cooperativismo de uns com os outros, já que, ao final, eles corrigiam a pronúncia das palavras quando algum colega não o fazia adequadamente. Após o término, formamos a roda de conversa, e eles finalizaram seu parecer acerca da aula “diferente”. Para nós, de uma maneira geral, foi um período rico em trocas de experiências, aprendizado e companheirismo, no qual pudemos aprender e ensinar coisas novas, juntamente com momentos de alegria e descontração.

Considerações finais

Encerramos aqui a discussão do presente trabalho, explicitado por meio de um levantamento teórico, no qual tentamos transmitir a importância do componente lúdico como um subsidiador das aulas de língua espanhola, possibilitando uma compreensão de mundo para o aluno. O que se espera é a abertura de caminhos para que professores possam conciliar teoria e prática em consonância ao contexto de sala de aula e, assim, criar novas formas de ensinar, usando o lúdico como uma base que reforça a motivação, o cooperativismo, as habilidades individuais dos alunos, entre outras. Assim, demonstra ter valor significativo para os participantes, uma vez que ambas as partes serão beneficiadas no processo de ensino-aprendizagem.

 

Poliana de Oliveira Santos é graduada em Letras/Espanhol pela Universidade Federal do Pará (UFPA – 2013), especialista em Ensino de Língua Espanhola pela Universidade Estácio de Sá (2016) e mestranda em Letras pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa – 2018).

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental: língua estrangeira / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998.

Chaguri, Jhonatas de Paula. O uso de atividades lúdicas no processo de ensino-aprendizagem de espanhol como língua estrangeira para aprendizes brasileiros. Disponível em:
Acesso em: 06/05/2016.

GRETEL, Eres Fernandéz; CALLEGARI, Marília Vasques; RINALDI, Simone. Atividades lúdicas para a aula de língua estrangeira: espanhol: considerações teóricas e propostas didáticas. São Paulo: Ibep, 2012.

KISHIMOTO, T. M. O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira, 1998.

VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

cubos