Edição 112

Espaço pedagógico

Autorregulação e Metodologias Ativas: quais suas relações?

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa

Estamos em uma época de muitas reflexões escolares acerca do processo de ensino e aprendizagem. Reflexões estas que se baseiam em: Como nossos alunos aprendem? Como podemos despertar o interesse das gerações Y e Z? O que fazer para conquistar o envolvimento dos estudantes nas aulas? São muitas as indagações que fazemos no nosso dia a dia. É notório que a escola hoje e sempre precisa preparar as crianças e os jovens para um mundo em constante mudança. Para isso, é preciso que saibamos aprender e viver a resiliência junto a eles. Segundo Morin (2001, p. 14),

Seria preciso ensinar estratégias que permitiriam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza e modificar seu desenvolvimento em virtude das informações adquiridas ao longo do tempo. É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certeza.

Nesse sentido, faz-se necessário que a escola aprenda a desenvolver o protagonismo dos estudantes e, junto a isso, a sua autonomia. Alunos autônomos e ativos no processo de aprender serão capazes de dar sentido aos conteúdos em sua vida dentro e fora dos muros da escola.

O processo de aprender é único para cada ser humano, uma vez que cada pessoa aprende de um jeito diferente, peculiar a cada um. O aprender advém por meio de diversos contextos, em especial pela nossa própria motivação, pelo nosso próprio querer atrelado aos estímulos externos, sejam estes o outro e/ou o meio.

O ato de aprender, segundo Piaget (1990, p. 12):

É uma construção contínua, comparável à edificação de um grande prédio que, à medida que se acrescenta algo, ficará mais sólido ou à montagem de um mecanismo delicado, cujas fases gradativas de ajustamento conduziriam a uma flexibilidade e a uma mobilidade das peças tanto maiores quanto mais estável se tornasse o equilíbrio.

Para que o ser humano adquira a maturidade de aprender na perspectiva citada por Piaget (1990), é preciso que ele compreenda a sua própria importância nesse processo. É preciso que se compreenda que o ato de aprender está intrinsicamente ligado à autonomia e que esse ato transcende o aspecto cognitivo, perpassando o social e afetivo.

Sobre a autonomia dos estudantes, Reeve (apud Berbel, 2011, p. 28) nos diz que, quando os alunos compreendem-se como seres autônomos, seis pontos positivos ganham destaque em sua vida acadêmica. São eles:

[...] 1 – a motivação (apresentando motivação intrínseca, há percepção de competência, pertencimento, curiosidade, internalização de valores); 2 – o engajamento (com emoções positivas, persistência, presença nas aulas, não reprovam ou se evadem da escola); 3 – o desenvolvimento (evidenciando autoestima, autovalor, preferência por desafios ótimos, criatividade); 4 – a aprendizagem (melhor entendimento conceitual, processamento profundo de informações, uso de estratégias autorreguladas); 5 – a melhoria do desempenho (em notas, nas atividades, nos resultados em testes padronizados); e 6 – o estado psicológico (apresentando indicadores de bem-estar, satisfação com a vida, vitalidade).

Quando falamos em autonomia e protagonismo estudantil, estamos nos referindo diretamente a dois pressupostos: autorregulação da aprendizagem e metodologias ativas.

As metodologias ativas pressupõem um processo de construção do conhecimento que vislumbra a participação ativa e efetiva do estudante mediada pela ação docente, que precisa ser flexível, inovadora e comprometida com a aprendizagem. Atrelada a esse conceito, trago presente a autorregulação da aprendizagem como mola propulsora para a concretização das estratégias metodológicas ativas, uma vez que a autorregulação objetiva a autonomia do aprendiz e a autorreflexão do que é e como se faz para aprender, ratificando assim o protagonismo estudantil.

É preciso pensarmos em uma escola para além da reprodução do conhecimento e da retenção das informações. Em outras palavras, a escola precisa aprender a dinamizar o ensino de forma a dar sentido às informações proferidas pelo docente em sala de aula. Miranda (2005, p. 25) endossa o que se destaca acima, afirmando que:

[…] a escola deveria preparar os estudantes para serem capazes de se adaptar de um modo flexível a novos problemas e situações, isto é, deveria ensinar os alunos a transferirem os conhecimentos acadêmicos às situações cotidianas da vida.

autoregulacao

Observando o cotidiano das salas de aula, percebe-se nitidamente a evolução da criticidade e da aprendizagem dos estudantes quando estes compreendem o porquê e o para que dos conteúdos em sua vida, quando estes sabem o que e como estudar, quando estes têm objetivos e metas traçados. Os estudantes que conseguem chegar a esse nível de compreensão escolar atingem resultados incríveis de aprendizagem, e esses alunos chamamos de autorregulados, ou seja, pessoas capazes de ser protagonistas dos seus saberes a partir de uma consciência estratégica de suas atividades e de seus obstáculos. Segundo Zimmerman & Schunk (2011), a autorregulação da aprendizagem é definida como o processo no qual o aluno estrutura, monitora e avalia o seu próprio aprendizado.

O estudante autorregulado desenvolve estratégias motivacionais, emocionais e interpessoais que propiciam uma aprendizagem de qualidade com alto rendimento acadêmico.

O processo de autorregulação propicia aos estudantes uma apropriação estratégica do conhecimento por meio da sistematização dinâmica da aquisição, organização e fixação da informação necessária à construção consciente do seu conhecimento.

A aprendizagem deve, acima de tudo, significar construção de destrezas cognitivas e conhecimento, significando a apropriação de mecanismos de busca e seleção de informação, assim como de processos de análise e resolução de problemas, que viabilizem a autonomia progressiva do aluno no aprender e no realizar, os quais se prolongam por toda a vida (ROSÁRIO e ALMEIDA, 2005, p. 144).

A autorregulação está associada a uma prática educativa que desperte a curiosidade e a participação efetiva do aluno, estimulando-o a buscar novos sentidos para aquilo que está posto e já construído por outros, a qual é denominada, por alguns estudiosos, como metodologias ativas. Portanto, é possível afirmar que a junção de ambos os processos promove aquilo que se pode chamar de Inovação Pedagógica Eficaz (IPE). A Inovação Pedagógica Eficaz se dá a partir do momento em que o docente se mostra flexível e conectado com o mundo digital e centrado na participação efetiva do estudante. É quando o discente tem plena consciência do seu fazer no processo de ensino e aprendizagem, numa perspectiva proativa de planejamento, disciplina e avaliação. Essa interligação da autorregulação com as metodologias ativas está intimamente engajada na teoria da complexidade posta por Morin (2010), que diz que “Tudo está ligado a tudo”.

Mas é preciso detalharmos melhor o termo metodologias ativas. A princípio, precisamos deixar claro que essa proposta pedagógica surgiu na área da Saúde, uma vez que se viu a necessidade de se estruturar um profissional capaz de resolver as situações-problema do cotidiano de forma individual e coletiva, a partir das dimensões biopsicossociais, ou seja, um profissional instrumentalizado no que tange ao rigor científico e ético associado ao compromisso integral com a saúde e a cidadania. Frente a isso, desenvolveu-se o processo de aprender com base na problematização, a fim de ressignificar o processo de ensino e aprendizagem diante de uma relação ativa do discente com o objeto de conhecimento, passando este a fazer sentido para aquele.

Metodologias ativas e autorregulação objetivam a aprendizagem do aluno de forma ativa e autônoma, ou seja, uma aprendizagem pautada numa consciência autônoma do ato de aprender. Perrenoud (1999, p. 96), nessa compreensão, afirma que:

Para aprender, o indivíduo não deixa de operar regulações intelectuais. Na mente humana, toda regulação, em última instância, só pode ser uma autorregulação, pelo menos se admitirmos as teses básicas do construtivismo: nenhuma intervenção externa age se não for percebida, interpretada, assimilada por um sujeito. Nessa perspectiva, toda ação educativa só pode estimular o autodesenvolvimento, a autoaprendizagem, a autorregulação de um sujeito, modificando seu meio, entrando em interação com ele. Não se pode apostar, afinal de contas, senão na autorregulação.

Sabe-se que, quando o estudante passa a ter domínio próprio da sua aprendizagem, atuando ativamente sobre o objeto de conhecimento (conteúdo) e o ressignificando-o, sua competência acadêmica se torna visível e significativa.

Diante da falácia vivenciada hoje por nossas escolas no que diz respeito ao processo de ensino e aprendizagem, quando na verdade esse processo não está acontecendo como deveria, é salutar e importante propor e desafiar os docentes e gestores a buscarem um novo olhar para o ato de ensinar e aprender a fim de transformar a inócua ação educativa da atualidade.

BERBEL, Neusa Aparecida Navas. As metodologias ativas e a promoção da autonomia de estudantes. Semina: Ciências Sociais e Humanas. v. 32, n. 1, p. 25-40, jan./jun., 2011.

MIRANDA, Guilhermina. Aprendizagem e transferência de conhecimentos. Lisboa: Relógio D’Água, 2005.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2001.

___________ . A religação dos saberes: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

PERRENOUD, Phillipe. Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens: entre duas lógicas. Porto Alegre: Artmed, 1999.

PIAGET, J. Seis estudos de Psicologia. Rio de Janeiro: Forense Universitária Ltda., 1990.

ROSÁRIO, Pedro; ALMEIDA, Leandro da Silva. Leituras construtivistas da aprendizagem. Lisboa: Relógio D’água, 2005.

ZIMMERMAN, B. J.; SCHUNK, D. H. Handbook of Self-Regulation of Learning and Performance. Nova York: Routledge, 2011.

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa é pedagoga, especialista em Psicopedagogia e Tecnologia Educacional, Mestra e Doutoranda em Ciências da Educação.
 

BERBEL, Neusa Aparecida Navas. As metodologias ativas e a promoção da autonomia de estudantes. Semina: Ciências Sociais e Humanas. v. 32, n. 1, p. 25-40, jan./jun., 2011.

 

MIRANDA, Guilhermina. Aprendizagem e transferência de conhecimentos. Lisboa: Relógio D’Água, 2005.

 

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2001.

 

___________ . A religação dos saberes: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

 

PERRENOUD, Phillipe. Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens: entre duas lógicas. Porto Alegre: Artmed, 1999.

 

PIAGET, J. Seis estudos de Psicologia. Rio de Janeiro: Forense Universitária Ltda., 1990.

 

ROSÁRIO, Pedro; ALMEIDA, Leandro da Silva. Leituras construtivistas da aprendizagem. Lisboa: Relógio D’água, 2005.

 

ZIMMERMAN, B. J.; SCHUNK, D. H. Handbook of Self-Regulation of Learning and Performance. Nova York: Routledge, 2011.

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa é pedagoga, especialista em Psicopedagogia e Tecnologia Educacional, Mestra e Doutoranda em Ciências da Educação.

cubos