Edição 72

Projeto Didático

Avaliação cardiológica – Será necessária a solicitação pela escola?

Escola Recanto do Saber – São Luís – MA

“Avaliação cardiológica? Avaliação cardiológica em criança? Avaliação cardiológica no meu filho? Será que essa escola não está exagerando? Será que tem cardiologista para criança ou será que eles querem que eu leve o meu filho em um médico de adulto que não tem paciência com criança? Ah, isso é besteira, é invenção dessa escola, é paranoia dessa diretora, o meu filho não sente nada! [...]”

PROJETO---ESCOLA-669_optCreio que questionamentos como esses rondaram a mente de muitos pais da Escola Recanto do Saber — uma escola de Ensino Fundamental, em São Luís do Maranhão —, no início deste ano, quando a diretora Marize resolveu solicitar avaliação cardiológica dos seus alunos. Acredito que ela encontrou muita resistência por parte dos pais para conseguir que estes tomassem a iniciativa de procurar um cardiologista pediátrico para avaliar o seu filho.

Devo ressaltar que fui tomada de imensa satisfação e orgulho quando as primeiras crianças da Escola Recanto do Saber chegaram até mim para uma simples avaliação cardiológica solicitada por aquela escola. Fiquei surpresa quando os pais me informaram que, no ato da matrícula, um dos documentos exigidos pela escola foi a avaliação cardiológica e mais ainda quando chegaram para mim crianças assintomáticas nas quais pude diagnosticar problemas cardíacos que atualmente estão sob controle, já que screens como esses não são comuns no nosso dia a dia. Outra surpresa foi saber que a diretora Marize não foi motivada a tomar essa iniciativa por problemas de saúde apresentados por seus alunos, mas pelo fato de ela mesma conhecer os riscos dos problemas cardíacos na vida das crianças e a necessidade do diagnóstico precoce desses problemas, já que dessa forma ela estaria evitando complicações durante a permanência dos alunos na escola, quer seja em sala de aula, quer seja durante atividade física ou em suas brincadeiras durante o recreio.

Nas últimas décadas tem havido uma evolução verdadeiramente “explosiva” no diagnóstico e no tratamento da criança cardiopata em decorrência dos avanços tecnológicos. Entretanto, apesar desses avanços todos, a base racional para o diagnóstico e a orientação dos casos ainda se inicia com a propedêutica física e o conhecimento geral das anomalias sob investigação. Assim, o assunto em questão continua sendo de interesse para profissionais que operam em níveis primário e secundário de atendimento. São exatamente esses profissionais que nos auxiliam de maneira relevante na elaboração do diagnóstico inicial e na aplicação das primeiras ações terapêuticas, e é nesse grupo de atenção à criança que encontramos a grande colaboração da Escola Recanto do Saber.

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A escola tem sido nossa aliada na luta pelo crescimento e desenvolvimento humano em muitos aspectos, já que a temos como aliada e coadjuvante na educação de nossas crianças. E, visto que cada vez mais nossos pequeninos dedicam um grande tempo de sua vida produtiva no convívio escolar, ela tem se tornado nosso “termômetro” em muitos aspectos de sua vida física, psíquica e social.

É do conhecimento de todos que as cardiopatias, quando não coíbem, limitam as atividades físicas de crianças e adultos, porém, exceto em algumas situações, nenhuma restrição física é recomendada. Sabemos também que o exercício físico na infância previne o sedentarismo do adulto, pois a criança já estará “treinada” para a prática esportiva, o que é imprescindível para uma boa saúde física e mental. Entretanto, devo ressaltar que, muitas vezes, somos surpreendidos ao tomar conhecimento de problemas cardíacos graves, muitos dos quais com necessidade de intervenção cirúrgica de emergência, até mesmo em atletas que sempre foram assintomáticos do ponto de vista cardiológico e se destacavam em seu esporte de preferência. Devo enfatizar que certas cardiopatias graves podem apresentar-se inicialmente sob a forma de morte súbita, como ocorre na estenose aórtica. Quantas vezes escutamos falar que tal atleta estava jogando e, subitamente, desmaiou e morreu em quadra? A maioria dessas situações decorre de cardiopatias congênitas não diagnosticadas e tratadas na época adequada.

Quantas crianças no Brasil praticam atividades físicas, esportes, sem nunca terem passado por uma avaliação cardiológica? São muitas, já que isso não é rotina da maioria das escolas brasileiras. Quantas crianças portadoras de cardiopatia congênita e outras com hipertensão arterial estão praticando esportes e fazendo atividades físicas sem uma avaliação prévia e chegam ao cardiologista já diante dos agravamentos de sua cardiopatia de base, sendo que uma simples avaliação poderia ter evitado aquela complicação? Quantas internações seriam evitadas apenas com uma avaliação simples ainda na fase inicial da doença?

Se fosse tradição das escolas a solicitação da avaliação cardiológica de seus alunos, quantas cardiopatias congênitas e/ou adquiridas não seriam diagnosticadas e tratadas precocemente e quantas complicações dessas patologias seriam evitadas? Essa prática é comum em países de primeiro mundo, onde a prevenção é rotineira em todas as esferas da sociedade. Como ficaríamos mais tranquilos se todos os alunos antes da prática desportiva fossem avaliados e quantas complicações seriam evitadas!

Mas este panorama está mudando em nosso país desde que a Escola Recanto do Saber tem chamado para si uma responsabilidade cada vez maior dos seus alunos. Prática como essa não se torna apenas extremamente louvável, como deveria ser seguida e imitada por outras escolas brasileiras, já que assim poderíamos diagnosticar muitos problemas que, com frequência, tornam-se crônicos devido à demora do diagnóstico. Atitudes como essas demonstram a conivência com a família na preocupação não apenas com a educação e cultura, mas enfatizando a saúde física como uma de suas metas.

Creio que esse será o futuro que sonhamos, no qual educação e saúde caminham juntas, delineando o alicerce de uma vida plena.

Iniciativas como essa merecem parabéns e com certeza marcarão uma nova era na prevenção de doenças cardíacas na infância.

E como a filosofia de vida médica lembra: “O médico tem o privilégio de às vezes curar, muitas vezes aliviar, mas sempre confortar”.

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Silvanni do Amaral Rodrigues

Pediatra pela Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte – Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte.

Título de Especialista em Pediatria.

Cardiologista Pediátrica pela Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte – Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte.

Título de Especialista em Cardiologia Pediátrica.

Professora do Departamento de Medicina III da Universidade Federal do Maranhão.

Gestora da escola: Marize Belfort Oliveira.

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