Edição 87

Em discussão

Avaliação Escolar: por uma Visão Construtiva da Aprendizagem

Ivonilson Simião Severo

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Naturalmente, costumam-se avaliar coisas, pessoas, fatos, etc. Desse modo, os indivíduos se colocam numa posição de análise perante o que veem, ouvem, percebem. Os sentidos são automaticamente acionados no momento da avaliação e revelam o que ficou bom ou não. Essa atitude, quase que mecânica, não obedece a muitos critérios, pois os sentidos acabam por denunciar também gostos e preferências, o que nem sempre faz justiça ao que é avaliado. Por isso, a avaliação deve ser impessoal, com critérios adequados, com os quais o avaliador deve procurar ao máximo manter uma neutralidade naquilo que é investigado.

No dicionário Aurélio (2011), um dos significados para avaliar é reconhecimento da grandeza, intensidade e força de algo, o que nos remete à ideia de uma verificação cuidadosa e minuciosa de algo para identificação e reconhecimento do que há de grandioso, intenso e forte. Nessa perspectiva, podemos afirmar que, no processo avaliativo, é possível que a averiguação constate, entre erros e imperfeições, detalhes que demonstram avanço na aprendizagem.

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Está arraigado, na formação de muitos docentes, o entendimento sobre o ato de avaliar numa concepção classificatória, punitiva e excludente, ou seja, quando a avaliação possui caráter de medição, provocando um transtorno na aprendizagem, pois, nessa visão, interessa saber, por meio de verificação e mensuração, o quanto o estudante aprendeu, sendo relevante o aspecto quantitativo.

Nessa concepção, Barbosa (2008) coloca:

Assim, o termo avaliar tem sido constantemente associado a expressões como: fazer prova, fazer exames, atribuir nota, repetir ou passar de ano. Essa associação, tão presente ainda em nossas escolas, é resultante de uma concepção pedagógica ultrapassada, mas tradicionalmente dominante. [...] Em consequência, a avaliação se restringe a medir a quantidade de informações retidas.

Partindo do pressuposto de que se avalia para corrigir ou consertar, não se pode lidar com esse instrumento como fim, mas como meio de favorecimento à aprendizagem. Não é concebível pensar em avaliação como conclusão de um trabalho, mas de uma etapa e início de uma nova em que novos procedimentos devem ser adotados na construção do conhecimento.

Assim, a avaliação assume uma função de verificação da aprendizagem para se detectarem avanços, imperfeições e dificuldades que porventura interferiram no trabalho, para que haja uma reelaboração do trabalho pedagógico como um todo. Para isso, é fundamental que o professor não se contente com o que já apreendeu sobre o assunto e não permaneça estático perante as mudanças e descobertas que surgem. Afinal, os desafios são sempre novos, e não é possível continuar respondendo com respostas velhas.

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Um olhar sobre as diferenças individuais

Ainda perdura nas escolas do País inteiro um modelo de ensino em que o ato de ensinar se dá de uma única forma, em que os alunos são postos dentro de um padrão de homogeneidade. Não há nada de errado com o educador que se apresenta conforme o seu estilo, pois ele é único e o seu jeito de desenvolver a atividade docente também lhe é peculiar. Além disso, esse mesmo educador terá sempre que recorrer ao conhecimento que possui sobre determinado assunto e fará uso do repertório e das estratégias adquiridos ao longo do seu processo formativo. Também se pode considerar que o docente traz em si mesmo uma carga cultural que o torna como ele é.

Porém, considerando que o docente é único e só consegue ensinar do mesmo jeito, é natural que um aluno, por ser único, não consiga entrar em sintonia com o estilo do professor, ao passo que outros educandos o farão muito bem. Não parece justa uma explicação sobre adição por meio de uma única estratégia metodológica em que uns aprendem e outros não.

Tem-se aqui uma grande tarefa: conhecer como o aluno aprende. Faz-se necessário que o professor tenha ciência de que diversos fatores são contundentes na aprendizagem, por vezes favorecendo e outras vezes prejudicando.

Tais fatores podem ser, segundo Cavellucci (2013), de ordem física, ambiental, cognitiva, afetiva, cultural e socioeconômica. Com essa compreensão, é possível concluir que o aluno que deixa de aprender não o faz porque simplesmente deseja isso. Como contraponto, é comum ouvir alguns relatos do tipo: “Tal aluno não quer nada com a vida” ou “Fulano não presta atenção a nada”. Num primeiro raciocínio, essas afirmações podem favorecer uma conclusão precipitada de que determinados alunos são indisciplinados por vontade própria. No entanto, seria necessário descobrir quais foram os fatores que desencadearam tal postura e, no mínimo, evitar rótulos sobre os personagens. Num segundo momento, conhecendo as razões que desembocam na falta de aprendizagem, identificar as potencialidades e habilidades pessoais para uma intervenção didático-pedagógica que contribua positivamente na aprendizagem.

Sabe-se que é impossível existir uma sala de aula com turma homogênea, e isso é constatado nas atividades iniciais, quando se percebe o desnivelamento de aprendizagens entre os alunos. Esse fato exigirá do professor um repensar da sua metodologia, ou seja, será indispensável que busque se apropriar de outras estratégias que venham a se somar com as que ele já possui, pois não se trata de abolir suas metodologias de ensino, mas de acrescentar outras que possam atender os alunos que não foram ainda atingidos por um método utilizado.

Cavellucci também expõe com bastante clareza alguns pontos que ajudam a repensar a prática docente, entre os quais está a importância da junção de maneiras diferentes de trabalho em sala de aula, fator que beneficia as preferências de aprendizagem, que devem ser entendidas como características preponderantes em cada indivíduo. Partindo da compreensão de que cada indivíduo possui ritmo e compreensão diferentes dos demais presentes em uma mesma turma, é salutar concluir que não poderá apreender e construir o conhecimento no mesmo tempo dos outros.

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Avaliar para intervir

A avaliação deve ser sempre vista como um recurso que promove a aprendizagem, e, nessa visão, as práticas que exercem função de julgamento devem possuir um caráter formativo em que o indivíduo deverá ser atendido sequencialmente por não ter alcançado determinado conhecimento. Nessa perspectiva, a avaliação será sempre encarada pelos alunos como fator positivo, onde poderão fazer uma autocrítica do seu desempenho.

Ao assumir a tarefa de formar, o professor terá que buscar meios que proporcionem a evolução do educando através de novas estratégias de abordagem do conhecimento.

Fernandes (2008) esclarece: “Quando se verifica que um aluno não sabe o que é suposto saber, a avaliação formativa deve estar presente para ajudar a melhorar, a vencer a dificuldade, com o seu esforço e o esforço do professor”.

Uma parceria entre professor e aluno na superação das dificuldades apontadas pela avaliação é uma alternativa que tende a dar ótimos resultados, uma vez que o aluno reconhece a dificuldade, como também as condições, de progredir mediante esforços. Essa “cumplicidade” entre aluno e professor é fundamental para que o trabalho pedagógico seja eficaz.

Avaliar é preciso. Isso é indiscutível. Mas, necessariamente, não tem que haver um momento exclusivo para isso; não combina com ameaça ou medo. A avaliação é uma demonstração do que se aprendeu. Deve haver uma conotação de entusiasmo e apresentação de uma habilidade desenvolvida.

Deve funcionar como a habilidade que a criança desenvolve para andar de bicicleta. Ela fica desejosa para demonstrar que aprendeu a dominar a bicicleta primeiramente para si mesma e depois para quem quiser apreciar. É preciso repensar a avaliação como uma atividade prazerosa em que o indivíduo faz questão de mostrar o que sabe. Mesmo consciente de que não domina tudo, como a criança que ainda não conhece todo o mecanismo de funcionamento da bicicleta, mas que tem a plena certeza de que, ao errar, terá alguém que lhe dirá como fazer da próxima vez.

A avaliação escolar assume seu verdadeiro papel quando há uma interação entre professor e aluno numa perspectiva de colaboração entre as partes. Cabe aqui uma “dose” de afetividade necessária em qualquer relação. As possibilidades de aprendizagem diminuem quando a antipatia presente na tríade professor-aluno-conhecimento é notavelmente detectada. Torna-se um obstáculo que interfere negativamente no processo a falta de afetividade, uma vez que é inerente ao ser humano o desejo de se afastar daquilo com que não consegue construir afinidade.

Ivonilson Simião Severo é pedagogo pela Universidade Federal do Rio Grande Do Norte (UFRN), especialista em gestão integrada em educação pela Universidade Potiguar (UNP) e mestre em Ciências da Educação pela Faculdade do Norte do Paraná (Facnorte).
Contato: ivonilson.ofs@hotmail.com.

Referências

CASTANHEIRA, Ana Maria Porto; CERONI, Mary Roseane. Formação Docente e a Nova Visão da Avaliação Educacional. Estudos em Avaliação Educacional, v. 19, n. 39, jan./abr. 2008.

CAVELLUCCI, Lia Cristina B. Estilos de Aprendizagem: em Busca das Diferenças Individuais.
Disponível em: http://www.faculdadebarretos.edu.br. Acessado em 12 de agosto de 2013.

FERNANDES, Domingos. Para uma Teoria da Avaliação no Domínio das Aprendizagens. Estudos em Avaliação Educacional, v. 19, n. 41, set./dez. 2008.

BARBOSA, Jane Rangel Alves Barbosa. A Avaliação da Aprendizagem como Processo Interativo: um Desafio para o Educador. Democratizar, v. II, n. 1, jan./abr. 2008.

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