Edição 59

Matérias Especiais

Avaliação – Modismo da tia: intervenção no ensino da Educação Infantil

Maria Ione Alexandre Coutinho

Resumo

O fato de a professora ser chamada de tia na Educação Infantil se cristalizou no Brasil na década de 1960, na Educação Pré-escolar, e permanece até hoje nas escolas brasileiras. Este artigo propõe uma reflexão sobre o tratamento da professora/tia instalado nas escolas públicas e privadas. No percurso metodológico, abordamos a concepção de diversos autores e analisamos entrevistas realizadas com professores da Educação Infantil na região da Mata Norte. Nos resultados das discussões, observamos que o modismo da tia compromete a valorização, a competência e a autoestima do profissional de Educação Infantil. Esse tratamento interfere na qualidade do ensino para crianças pequenas, dificultando a educação sustentável dessa região.

Palavras-chave: modismo da tia, relações de gênero, interdisciplinaridade, competência profissional.

Introdução

Segundo Eliana Novaes (1992), o modismo da tia surgiu no Brasil na década de 1950, no século XX, quando as crianças, filhos de famílias abastadas e de classe média alta, começaram a chamar os amigos dos seus pais de “tios/tias” por terem dificuldades de aprender o nome dessas pessoas. Na pré-escola, esse hábito foi estabelecido a partir da década de 1960, sendo a vez das professoras de Ensino Primário durante a década de 1970.

As causas do modismo são diversas. Uma delas é a mãe, que, por trabalhar fora de casa, sente-se aliviada de entregar o seu filho à “tia”, figura boazinha e amiga das crianças. Outro fato é que a mulher moderna deve descartar as atividades domésticas e não mais cuidar dos filhos na esfera familiar.

O objetivo deste artigo é refletir sobre a interferência do tratamento da professora como tia na qualidade do ensino na Educação Infantil. A estrutura deste texto respalda-se na análise das categorias gênero, magistério na Educação Infantil, modismo da tia e interdisciplinaridade, dificultando ou contribuindo para uma educação sustentável.

Concepções sobre gênero e magistério na Educação Infantil

O termo gênero é definido pelos papéis sociais e culturais que exercem homens e mulheres numa determinada sociedade. Segundo Joan Scott, “Gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos” (1990, p. 41). Nessa definição, compreendemos que gênero é diferente de sexo. Embora o termo demonstre a nova forma de o homem e a mulher comportarem-se socialmente, ele também representa espaços e instituições que geralmente são classificados de masculinos e femininos.

O magistério na Educação Infantil é uma ocupação que, historicamente, foi quase sempre exercida por mulheres. Ela já nasceu feminina, diferentemente dos níveis dos ensinos Fundamental e Médio, que foram ocupações masculinas e, na história da Educação, com o tempo, feminizaram-se.

No Brasil, durante muito tempo, as instituições de Educação Infantil realizaram um trabalho dicotômico e excludente. As creches executavam funções de cunho assistencialista, e a pré-escola realizava ações de caráter pedagógico.

A aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação n° 9.394/96 estabelece a nova concepção para Educação Infantil. Essa lei reza:
Art. 29 – A Educação Infantil, primeira etapa básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até 6 anos de idade, em seus aspectos: físico, psicomotor, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade (Brasil, 1996, p. 34).

O artigo 29 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) está fundamentado nos princípios da interdisciplinaridade e da globalidade. Hilton Japiassú (2007) diz que a interdisciplinaridade busca um conhecimento universal, ou seja, um conhecimento que não seja partido em vários segmentos. Nesse sentido, o desenvolvimento das potencialidades da criança não ocorre em áreas fragmentadas, nas quais a professora trabalha isoladamente o psicomotor para depois trabalhar o social. Essas áreas devem ser trabalhadas pela professora conforme a concepção interdisciplinar da LDB: de forma integrada e indissociável.

Na visão de Edgar Morin (2001), o retalhamento das áreas de desenvolvimento impossibilita o desenvolvimento integral da criança, que forma o complexo. Segundo Morin:

O desafio da globalidade é também um desafio de complexidade. Existe complexidade de fato quando os componentes que constituem um todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico) são inseparáveis e existe um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre as partes e o todo, o todo e as partes (2001, p. 14).

Assim sendo, o Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil (1998) foi elaborado para fundamentar princípios legais com o objetivo de orientar propostas pedagógicas para o cumprimento do desenvolvimento integral das potencialidades da criança. A Educação Infantil tem duas funções indispensáveis e indissociáveis: cuidar e educar. Portanto, o primeiro passo para atingir o binômio educar e cuidar é mudar a concepção sobre a infância.

Segundo Oliveira (2001), antigamente a criança era vista como um ser passivo, frágil e silencioso. Atualmente, a criança adquiriu uma nova identidade, sendo vista como um ser ativo, curioso, que interage com o meio sociocultural através de suas experiências subjetivas, do mundo pessoal. Dessa forma, a creche e a pré-escola precisam proporcionar oportunidades para as crianças desenvolverem sua linguagem, cognição, afetividade, sociabilidade e criatividade na interação com o mundo que as cerca. Assim, para atender às novas concepções da infância, o/a educador/a infantil precisa de formação profissional qualificada.

Abordagens sobre o tratamento professora/tia na Educação Infantil

Há várias explicações adicionadas ao modismo da tia segundo Eliana Novaes (1992). Uma delas é o fato de as mães deixarem as crianças pequenas na escola para irem trabalhar.

Essa autora comenta sobre a influência das mães no tratamento professora/tia na instituição educativa. As mães, muitas vezes, sentem-se culpadas por entregar à escola a guarda dos seus filhos, pois trazem consigo a imagem da professora rígida e áspera do ensino tradicional. Assim, dissimulam que estão entregando seus filhos aos “cuidados” da “tia”, pessoa carinhosa e amiga das crianças. Dessa forma, a mãe se sente aliviada.

Novaes (idem) atribui a origem do tratamento professora/tia, na Educação Pré-escolar, à perspectiva da família. Segundo essa autora, as mães demonstram sentimento de culpa de abdicar a guarda dos filhos para a escola, pelo motivo de trabalharem fora ou simplesmente porque a mulher moderna deve descartar as tarefas domésticas; no caso, o “cuidado” dos filhos.

Tal tratamento é desaconselhável, sendo prejudicial ao desenvolvimento socioafetivo da criança. Novaes afirma que esse costume dificulta a identificação da criança na família em relação ao conhecimento de parentesco, prejudicando a formação do seu autoconceito, em que o grupo familiar ocupa lugar principal, enquanto que, na escola, tratando a professora de tia, é estimulada uma atitude regressiva de apego às pessoas por laços afetivos. Esse modismo na instituição escolar favorece o anonimato da professora, que perde sua identidade. Assim, será apenas uma “tia”. Portanto, os alunos não se dirigem a ela pelo seu próprio nome.

Nas suposições de Machado, a professora tem responsabilidade em receber esse tratamento, como se observa a seguir:

[...] a professora, que antigamente era tratada como tal e com maior respeito pelos alunos, abdica do seu título e passa a fazer parte da família de todos os seus alunos. Foi intitulada de “tia” e assim passou a ser chamada. Fico pensando o motivo dessa substituição (MACHADO, 1981, p. 07, apud NOVAES, 1992, p. 122).

A respeito do assunto, surgem alguns questionamentos: será que a dissimulação da professora é porque se sente desvalorizada profissionalmente e não quer cumprir seu papel? Ou será que a professora considera uma forma carinhosa de aproximação no relacionamento com seus alunos?

Numa pesquisa realizada por Coutinho (2005) com professoras de Educação Infantil da região da Mata Norte de Pernambuco, pretendendo conhecer suas concepções sobre questões de gênero, realizamos entrevistas e solicitamos suas opiniões sobre o fato de as crianças, na Educação Infantil, chamarem as professoras de tia. Na fala das educadoras, houve concepções diversas sobre o tema. Nas escolas públicas de Nazaré da Mata, observamos que há uma confusão de papéis vivenciada pelas crianças em que a professora representa a figura da mãe, tia ou babá, chegando os alunos, muitas vezes, até a pedirem “a bênção”. Segundo essas professoras, essa confusão contribui para o desempenho da sua autoridade na sala de aula.

Na fala das professoras entrevistadas, percebemos que não concordam com esse tratamento, afirmando que, na escola, os educadores infantis têm que assumir seu papel profissional, porque foram qualificados e preparados para serem professores. A tia faz parte da vida afetiva e familiar da criança, logo não é conveniente estabelecer essa relação entre a educadora e seus alunos.

Na discussão sobre o modismo da tia na escola, Paulo Freire (2002) diz que é uma tendência do sistema político educacional a desvalorização da profissão docente, transformando a professora em parente postiço dos seus alunos.

O ato de ensinar exige do profissional “amorosidade, criatividade e competência científica [...] é possível ensinar sem a capacidade forjada, inventada e bem-cuidada de amar” (FREIRE, 2002, p. 10).

Segundo o autor, “Professora é professora, e tia é tia” (FREIRE, 2002, p. 26), pois uma e outra desempenham papéis diferentes na sociedade. A tia é uma pessoa carinhosa que leva os sobrinhos para passear, dá presentes e não estabelece regras nem limites; enquanto a professora ensina conhecimentos, interligando a área cognitiva e a área emocional.

No debate sobre o tratamento da professora como tia na escola, Paulo Freire traz sua contribuição:

O ato de ensinar é profissão que envolve certa tarefa, certa militância, certa especificidade no seu cumprimento, enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco. Ser professora implica assumir uma profissão, enquanto não se é tia por profissão (FREIRE, 2002, p. 11).

Esse pensador afirma, ainda, que a aceitação do tratamento de tia pela professora pode ser uma dissimulação de sua possível desvalorização ou incompetência profissional, o que a leva a assumir esse falso parentesco. Nesse sentido, as autoras Eliana Novaes (1994) e Guiomar Melo (1987) consideram que o fato de a professora ser mulher contribui, muitas vezes, para que ela não adote uma postura profissional, misturando seu saber técnico da esfera pública com o saber doméstico de vida privada, percebendo-se em situações da docência como mãe ou tia dos seus alunos.

A identificação da professora com a figura da tia acarreta desvalorização profissional, retirando o compromisso e a responsabilidade política da sua formação permanente. No sistema educacional brasileiro, essa identificação é enfatizada, principalmente, na rede privada. É como uma proclamação às professoras: boas “tias” não fazem greve, para não prejudicar o aprendizado dos seus alunos. Nessa ideologia, a manifestação da professora para lutar por seus direitos é um desamor e uma irresponsabilidade da “tia” por seus alunos. Essa concepção permanece nas famílias que têm filhos na rede privada ou no ensino público, dificultando que os educadores se assumam profissionalmente.

No discurso de Paulo Freire, a prática pedagógica do/a professor/a deve ser permeada pela interdisciplinaridade. Segundo Silva:

Viver a interdisciplinaridade numa perspectiva histórico-dialética implica vivê-la na sua complexidade, isto significa empregar esforços no sentido de distinguir sem separar e associar, sem identificar ou reduzir através do princípio dialógico, o qual constitui a essência dessa concepção interdisciplinar na Educação (2008, p. 30).

Na perspectiva de Silva (2008), a formação continuada dos professores fundamenta-se no diálogo e na construção de um conhecimento crítico por meio de uma ação reflexiva permanente. Conforme essa autora, o/a professor/a, para desenvolver uma prática interdisciplinar, não utiliza atos mecânicos e habilidades pedagógicas individualizadas, porém utiliza o exercício permanente da reflexão e da ação. Os professores, de forma coletiva, discutem com os demais colegas de sua escola assuntos da atualidade de ordens social, econômica e política.

Nas falas das professoras entrevistadas sobre o modismo da tia na região da Mata Norte, observa-se um compromisso ético e político no desempenho do magistério da Educação Infantil. Segundo elas, não é um título de tia que mudará sua competência técnica ou irá desvalorizá-las profissionalmente. Porém, os professores precisam lutar para mudar as concepções dos adultos dirigentes de instituições e da sociedade em geral. Na Educação Infantil, sua função não é ser tia ou babá de crianças. No olhar de Freire, no qual professora não é tia, ele faz um esclarecimento:

É possível ser tia sem amor aos sobrinhos, sem gostar de ser tia, mas não é possível ser professora sem amor aos alunos, mesmo que amar só não baste, sem gostar do que se faz. É mais fácil, sendo professora, dizer que não gosta de ensinar de que, sendo tia, dizer que não gosta de ser tia. Reduzir a professora à tia joga um pouco com esse temor embutido — o de a tia recusar ser tia (FREIRE, 2002, p. 26).

O referido autor considera importante o profissional de Educação Infantil conhecer as manhas ideológicas do tratamento da professora como tia. Nessa perspectiva, é necessário que as professoras lutem por seus direitos, para que seus deveres sejam cumpridos na Educação com crianças pequenas, pois se compreende que elas têm liberdade de optar, de decidir, de serem chamadas de tias ou não na escola. Só não se pode deixar de cumprir com o papel profissional, que é ensinar com competência e, ao mesmo tempo, demonstrar afetividade e compromisso ético no relacionamento com os alunos.

Compreendemos que, como docente, é necessário assumirmos uma postura profissional, política e cultural nas instituições de ensino e na sociedade em geral, para que possamos construir uma educação sustentável para a sobrevivência do planeta.

Considerações Finais

No âmbito da discussão sobre questões de gênero, compreendemos que a professora ser chamada de tia na escola não está correto, porque prejudica o desenvolvimento socioafetivo da criança. Esse costume dificulta a identificação da criança na família em relação ao conhecimento de parentesco, prejudicando a formação de seu autoconceito, em que o grupo familiar ocupa lugar principal.

Evidenciamos, tanto na análise bibliográfica de autores como na pesquisa de campo, que a professora não é tia, porque a professora tem competência para ensinar conteúdos curriculares aos alunos, enquanto a tia é uma pessoa delicada, carinhosa, permissiva no relacionamento com seus sobrinhos, tentando conquistar a afetividade dos mesmos.

Nesse sentido, compreendemos que o/a professor/a de Educação Infantil, na sua prática pedagógica, não deverá dissociar o educar (cognição) do cuidar (emoção). Essas duas funções caminham juntas, porque, quando transmitimos conhecimentos intelectuais, estamos também desenvolvendo a afetividade e a ética moral no relacionamento com as crianças pequenas.

No olhar da interdisciplinaridade de Paulo Freire, compreendemos que o/a professor/a, na sua reflexão permanente e na sua discussão crítica com seus colegas de trabalho, auxiliará a mudança da concepção dos pais, diretores, professores e da sociedade em geral. Assim, certamente, no futuro a professora não será chamada de tia, contribuindo para uma educação sustentável de qualidade.

Maria Ione Alexandre Coutinho é professora-assistente da Faculdade de Formação de Professores de Nazaré da Mata – Universidade de Pernambuco – e Mestra em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco. Endereço Eletrônico: mariaione_07@hotmail.com.

Referências bibliográficas

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