Edição 33

Lá Vem a História

Brasinha

Jacques Salomé

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Raivas são tristezas

Era uma vez um peixinho chamado Brasinha. Vivia num mar distante, não muito grande, mas cheinho de peixes.

Morava com seus pais. Papai-peixe e mamãe-peixe eram bastante severos.

Não se sabe porque eles o impediam de fazer uma porção de coisas. Talvez com medo de que se machucasse ou se perdesse. Eles não lhe explicaram isso claramente, pois os pais-peixe não falam muito. Não é à toa que se diz, às vezes: “Mudo como um peixe”.

Brasinha era repreendido por nadar, brincar, fazer barulho com a boca.

Logo, passou a achar que não fazia nunca o que era preciso. Muitas vezes, se perguntava se seus pais eram mesmo “pais verdadeiros”, de tanto que os achava severos, e foi se tornando um peixinho muito triste.

Às vezes, sentia-se sobrando. Tinha medo demais, sobretudo do pai; da mãe, tinha menos, mas mesmo assim… Esse medo, escondia bem dentro dele. Nunca o confessaria a ninguém. Além do mais, falar com quem? Os outros peixes não pareciam senti-lo!

Sabem o que o Brasinha fazia quando chegava à escola? Rápido, nadava na direção dos outros peixes no pátio da escola e os mordia assim: cratch, cratch! Dava-lhes tapas nas costas com as nadadeiras e com a cauda. Jogava água em seus olhos, para que chorassem. É, os peixes também choram. A gente só não vê porque as lágrimas se misturam com a água do mar.

Todos os outros peixes ficavam espantados ao ver Brasinha morder e bater desse jeito e tinham medo dele. Era desse jeito que funcionava dentro dele: porque tinha medo do pai e um pouco de medo da mãe, então fazia medo aos outros peixinhos.

Mas, bem no fundo, ele estava triste. A raiva apenas escondia a tristeza. Se vocês soubessem como é triste a tristeza de uma criancinha-peixe! É triste de tal maneira que, às vezes, a água do mar até fica cinzenta ou preta.

Um dia, a mestra dos peixes se aproximou de Brasinha:

— Estou vendo como você bate nos outros peixinhos. Aliás, na maioria das vezes, impedi você de fazer isso. Não quero que seus colegas tenham medo de você. Tenho observado que você está sempre cheio de raiva. Em alguns dias, uma grande raiva, vermelhinha. Ontem à noite, antes de me deitar, pensei em você, refleti bastante e, então, tive uma idéia: trouxe para você uma caixa, onde poderá colocar toda a sua raiva. Todos os peixinhos vão poder colocar sua raiva nessa caixa. Quando você chegar de manhã, pode pôr a raiva na caixa e, à tarde, se você quiser, pode deixar a raiva dormir aqui na escola. Na manhã seguinte, ela estará descansada… Há outras caixas também, uma para cada sentimento.

Brasinha olhou muito espantado para a mestra. Não sabia que existiam caixas para a raiva, para o medo, para a tristeza, para o amor e para a alegria… Aliás, nem sabia que as coisas que a gente sente têm nomes…

Não disse nada, mas, no dia seguinte, chegou com uma conchinha pequenina que encontrou no caminho da escola, bem no fundo do mar.

Disse à mestra:

— Professora, eu queria colocar a minha tristeza desta manhã na caixa da raiva.

A mestra, uma sábia muito vivida, ao observar a concha, percebeu que ele expressava mais tristeza do que raiva. Ela sabia que as raivas são tristezas que não podem se expressar de outra maneira. Assim, pediu licença para colocar a conchinha dentro da caixa da tristeza.

Outras professoras das escolas de peixes também adotaram o costume de apresentar caixas para acolher os sentimentos dos alunos, para que não ficassem carregados, possuídos ou poluídos o dia inteiro, ruminando pensamentos. Acho que assim também poderia acontecer com as crianças humanas.

Por ora, assim termina a história do peixinho que carregava uma raiva tão grande que poderia engolir o mar inteirinho — de tanta tristeza que sentia.

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Contes à guerir, contes à grandir, de Jacques Salomé, Éditions Albin Michel, Paris, 1993.

Tradução: Maria Otília Bosson

Adaptação: Cecília Caram

Contribuição: Gislayne Matos

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