Edição 11

Pintando o 7

Brincadeira de gente grande

Marcelo Xavier, mineiro muito bem humorado, é publicitário e artista plástico autodidata. Faz um belo trabalho com massa plástica, criando ilustrações, cenografias, figurinos e adereços para espetáculos de teatro, música, dança e programas de TV. Com livros já premiados (O dia-a-dia de Dada, Tem de tudo nesta rua e Asa de papel), nos fala de um trabalho seu que dá o que falar… A Coleção O Folclore do Mestre André, que aborda o mundo fantástico e imaginário do folclore, trazendo informações preciosas sobre essa inesgotável fonte de cultura. Bem, entre personagens, cores, materiais e tantas outras coisas da sua Oficina Mágica, nos deu a seguinte entrevista:

Construir Notícias – Você é formado em publicidade, mas trabalha com artes plásticas. Como e por que começou a trabalhar com a modelagem em massa plástica?

Marcelo Xavier – A modelagem em argila era uma das brincadeiras de rua da minha infância. A massa de modelar apareceu nesse tempo, mas muito timidamente. Quando pensei numa ilustração tridimensional para o livro “Truques Coloridos”, que tem texto de Branca de Paula, me veio o desejo de voltar à modelagem da infância. No atelier, eu já trabalhava com materiais menos usuais no universo artístico. Mas a massa de modelar ainda não fazia parte do meu repertório. Fui buscá-la junto aos brinquedos das minhas filhas e, naquela madrugada, construí uma pequena cena como teste para o livro. Fiquei surpreso com a facilidade com que o trabalho saiu e com seu resultado plástico. Pela manhã, isso foi confirmado pelo olhar das crianças que deram o seu aval e me empurram para frente.

CN – Estudou para desenvolver o trabalho com modelagem?

MX – Como já disse, a modelagem me chegou de forma muito espontânea. Quando a retomei, foi como se tivesse dado uma prega no tempo. O menino se juntou ao profissional magicamente, de forma muito natural.

CN – Existe alguma técnica especial para confeccionar suas criações?

MX – Todo trabalho exige alguma técnica, por mais simples que seja. Como não freqüentei nenhuma escola de arte, aprendi experimentando, descobrindo segredos da modelagem com o próprio trabalho. Cada criação me abria possibilidades infinitas. Assim, cheguei à animação com massinha e já realizei alguns filmes publicitários de curtíssima duração. É uma produção cara e muito trabalhosa. Um verdadeiro parto.

CN – Como surgiu o projeto dos livros O Folclore do Mestre André?

MX – O universo plástico do folclore sempre me fascinou. Suas cores, seus sons, sua força. A cultura de um povo é uma árvore na qual as manifestações folclóricas estão em sua raiz. Se a raiz estiver firme, todo o resto se sustentará. Senão, os ventos poderosos de outras culturas farão tombar essa árvore. As crianças, obviamente, precisam saber disso. Defender esta causa. A coleção O Folclore do Mestre André é minha pequena contribuição na fertilização de nossas raízes.

CN – Você escreve e ilustra. Qual desses dois processos de criação desenvolve mais facilmente? Por que?

MX – Escrever e ilustrar faz parte do meu trabalho de criação desde criança. Nós, crianças dos anos 50, crescemos dentro de histórias em quadrinhos. Esta fórmula, texto-imagem é uma linguagem natural em nosso universo de comunicação. As onomatopéias, os balões de fala ou pensamento, os sinais e códigos gráficos dos quadrinhos acabavam revelando uma natureza plástica das palavras e textos que eu aprendi a apreciar. Daí, quando trabalho um texto, além de seu significado, adoro sua plasticidade. Nos meus exercícios solitários de criação, imagens e palavras sempre estiveram presentes. Vinham isoladas ou juntas, mas sempre como matérias, com a mesma possibilidade plástica, com o mesmo peso.

CN – Mais especificamente sobre a Coleção, como foi o processo de criação dela?

MX – O primeiro ponto foi selecionar os temas a serem abordados. Como os livros teriam ilustrações tridimensionais, os assuntos que favoreciam a plasticidade tiveram preferência. “Mitos”, “Festas”, “Crendices e Superstições” – temas que dariam o que falar e modelar. Parti para o trabalho de pesquisa bibliográfica, buscando informações em bibliotecas e outras fontes. Separei o que me parecia mais interessante e recontei a meu modo aquelas histórias. Então, construí as ilustrações.

CN– Uma vantagem significativa desse trabalho em relação às imagens planas é a profundidade que se obtém nas cenas, pedagogicamente este é um recurso que, na sua opinião, facilita ou dificulta a “leitura da imagem”?

MX – A imagem tridimensional tem um poder enorme de sedução. Ela se aproxima bastante do real, ao mesmo tempo que mantém o clima fantástico da criação e da fantasia. Seu universo de comunicação é sempre o da linguagem concreta. Como a educação se liga diretamente à motivação, esse tipo de linguagem se mostra altamente eficaz, principalmente para as crianças. A imagem plana é uma linguagem mais sofisticada, pois é uma representação mais distanciada da realidade. É uma linguagem mais sintetizada, mais sutil, que pode chegar a um alto grau de abstração.

CN – Mestre André existiu?

MX – Mestre André é uma ficção.

CN – Como esta ficção influenciou o seu trabalho?

MX – Mais uma vez funcionou a plasticidade das palavras. “Mestre André” faz a língua da gente bater nos dentes de uma forma divertida como uma percussão musical. Também já havia a canção folclórica da “Loja do Mestre André”. Não deu outra. Adotei o “Mestre” e fiz, através dele, uma referência aos contadores de histórias.

CN – Nos seus livros, o folclore está assim definido: “é o conjunto de coisas que o povo sabe, sem saber quem ensinou”. O conceito de folclore, para você, é este ou tentou “traduzi-lo”, de maneira que ficasse acessível ao seu público?

MX – Quando se quer passar um conceito às crianças, é preciso sintetizar ao máximo as idéias. Mesmo que não seja uma definição completa, o importante é que ela fique clara e esteja em sua medida de compreensão. A coleção O Folclore do Mestre André não pretende esgotar o assunto, mas apresentá-lo ao público infantil. Motivar a pesquisa e o interesse por suas múltiplas representações, sempre uma festa para os sentidos. Puro prazer!

CN – Hoje existe uma tendência na educação em preservar a pluralidade cultural de cada grupo. Como e por que o folclore está diretamente relacionado com estes objetivos? Por que é tão importante preservá-lo?

MX – O mundo globalizado é uma realidade inquestionável. Sabemos que a força motriz deste mundo é o poder econômico e político. Valores culturais estrangeiros se impõem onde desejarem através da tecnologia avançada e das estratégias de marketing de comunicação. A novidade, por si só, excita e conquista o indivíduo. O novo, cientificamente elaborado e usado para conquistar, é, portanto, uma arma poderosa contra as tradições, os regionalismos de uma sociedade fragilizada. Ele se torna nocivo por atacar as raízes culturais desta sociedade.

CN – Teremos mais algum “presente” da coleção O Folclore do Mestre André ou Mitos, Festas e Crendices e Superstições compõem toda a coleção?

MX – Foram cinco anos dedicados ao folclore. Minha contribuição, pequena, está dada. Aos que tiverem sede de sentimento popular, só posso oferecer um delicioso copo de água fresca, representado por esses três livros. A fonte inesgotável e cristalina está no Mestre Câmara Cascudo e, resistindo, em cada canto do Brasil.

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