Edição 14

Professor Construir

Brincando e aprendendo com rótulos de embalagens

A presente experiência ocorreu numa turma de 1ª série do Ensino Fundamental, com crianças de 7 a 11 anos, a maioria sem vivência escolar. No início do ano, as crianças se apresentavam sem vontade de estudar e sem disposição para a leitura. Por mais que eu quisesse fazer parecer fácil, não acontecia uma interação do aluno com o conteúdo abordado, tudo parecia muito distante deles. Não tinham confiança em si mesmos e apresentavam problemas de relacionamento. Só queriam mesmo era brincar, porém com brincadeiras agressivas, com as quais acabavam se machucando.

Diante dessa situação, procurei observar o comportamento das crianças e verifiquei algo que me chamou a atenção: elas ficavam brincando com os materiais das atividades, fazendo aviõezinhos, criando personagens imaginários, conversando. E, conforme Walter Benjamin (1984, p. 70): “A criança quer puxar alguma coisa e torna-se cavalo, quer brincar com areia e torna-se padeiro, quer esconder-se e torna-se ladrão ou guarda”.

Percebi, nessa atitude das crianças com os materiais, um possível caminho para atraí-las à aprendizagem, ou seja, eu precisava promover uma prática pedagógica que abrisse mais espaço para a brincadeira e a integração entre os alunos. Dessa reflexão é que surgiu o nome do projeto: Brincando e aprendendo com rótulos de embalagens. A idéia era criar um ambiente de aprendizagem prazerosa, onde o conhecimento não fosse transmitido de forma mecânica para o aluno, mas onde o aluno, interagindo com os objetos desse ambiente, pudesse manipular e desenvolver outros conceitos (Valente, 1991, p. 40).

Assim foi que, para encorajá-los à leitura e estimular a confiança nelas mesmas, procurei utilizar material conhecido do seu dia-a-dia em casa, pois, segundo os PCNs de Língua Portuguesa, “As embalagens comerciais… e demais portadores de texto possibilitam suposição de sentido a partir do conteúdo, da imagem ou foto, do conhecimento da marca ou do logotipo, isto é, de qualquer elemento do texto ou do seu entorno que permita ao aluno imaginar o que poderá estar aí escrito” (p. 83). E, para atrair a atenção dos alunos para as aulas, foi proposta a confecção de bonecos com os rótulos de embalagens. No momento dessa confecção, foi interessante trabalhar o esquema corporal de forma significativa e prática, quando o aluno pôde observar e entender o próprio corpo. Brincando de fazer pernas, braços e cabeça para montar os bonecos, eles iam percebendo as partes de um corpo e relacionando tudo isso a sua compreensão do próprio corpo, suas possibilidades e limitações.

Essa estratégia foi a forma que eu encontrei para estabelecer um elo favorável entre os educandos e os objetos de conhecimento, levando em conta a sua afetividade e as dificuldades da turma. E isso foi valioso para envolvê-las no processo de ensino–aprendizagem. Os bonecos feitos de rótulos se tornaram alvo das brincadeiras e curiosidades das crianças. Elas também recortavam figuras de rótulos dos encartes de supermercados; colavam no caderno; desenhavam braços, pernas, cabeça; faziam balõezinhos e criavam histórias baseadas no seu conhecimento e em fatos ocorridos com aqueles produtos no seu cotidiano, em casa. Ex.: A mamãe usa o sabão para… Meu pai pegou a lata de margarina e…

A confecção desse material tornou-se uma brincadeira em que se aprende a compartilhar idéias; ouvir os outros; trabalhar de forma cooperativa, vivenciando momentos de descontração; além de despertar para a leitura e escrita, sua importância e seu significado na vida. Durante várias semanas, trabalhamos com os rótulos, explorando a oralidade, leitura e escrita e realizamos uma série de atividades, abrangendo várias áreas de estudo. Assim é que, aproveitando essa característica própria das crianças, o gosto pelo brincar, buscamos transformar isso em algo favorável para trabalhar as dificuldades percebidas na turma, garantindo, assim, sua freqüência às aulas.

A forma inovadora e lúdica com que foram trabalhados os rótulos de embalagens propiciou uma aprendizagem prazerosa e significativa, pois levou em consideração os interesses e conhecimentos prévios dos alunos, provocando a imaginação e o envolvimento deles na elaboração de novos conhecimentos e na resolução de problemas.

Com o decorrer dessa experiência, procuramos ampliar ainda mais essa abordagem com os rótulos de produtos variados e proporcionar conhecimentos úteis para o dia-a-dia de nossos educandos, buscando orientá-los e mostrando-lhes como são utilizados esses produtos, sua importância, data de validade e qual o destino final dos materiais usados. Eles tiveram oportunidade, ainda, de conhecer melhor seu meio ambiente, observá-lo de forma crítica e compreender as conseqüências do lixo jogado em locais impróprios: as doenças, o mau cheiro, a sujeira, a poluição, etc., constatando isso na própria realidade de vida deles, o que proporcionou aos meus educandos momentos de reflexão que os levou a perceber que a questão do lixo é um problema sério, e todos, sem exceção, devem colaborar para a preservação do meio ambiente, afinal, o planeta em que vivemos não é só nosso, e sim de toda a humanidade.

Isso despertou nos alunos a consciência dos cuidados que se deve ter com o meio ambiente e o lixo, que era uma realidade vivida pelas crianças que moram perto de igarapés. Assim foi que, recolhendo materiais descartáveis e pesquisando sobre eles, visitando o igarapé do bairro, colecionando rótulos de embalagens, confeccionando materiais (bonecos) com esses rótulos, os alunos foram entendendo, na prática, como muitos materiais que iriam para o lixo podem se transformar em objetos úteis para as pessoas; no nosso caso, em material didático. Foram feitos também boliche de garrafas de refrigerantes, bilboquê, bonecão Rotulão, etc.

O Rotulão era uma caixa com rosto de palhaço e corpo todo formado com rótulos de embalagem de produtos. Por isso, os alunos o chamavam de Rotulão. A história do palhaço é a seguinte:

Ele coleciona e come rótulos para ficar inteligente e precisa comer todo tipo de alimento, pois todos os alimentos são igualmente importantes. E as crianças também precisam comer e estudar bastante para ficar fortes e inteligentes. Com esse bonecão, nós elaboramos um jogo: o Rotulão tem uma boca grande, e as crianças deviam arremessar caixinhas de fósforo com rótulos colados (nomes de alimentos) para dentro da boca do palhaço Rotulão-comilão. Ao jogar a caixinha, cada criança fala o nome do alimento arremessado (trabalhando a leitura de novas palavras). Em outros momentos, cada criança recebe um saquinho e um número. O primeiro jogador joga o saquinho dentro da boca do Rotulão e fala um número. Quem tiver esse número será o próximo a jogar seu saquinho na boca do boneco, rapidamente, e a falar outro número, observando ordem, agilidade e disciplina.

Foi proveitoso buscar estabelecer uma relação entre os conteúdos ensinados em sala de aula e os interesses dos alunos, entre os seus problemas e a realidade da comunidade, o que colaborou para uma postura ativa frente à aprendizagem. Com isso, obtive, sobretudo, uma atitude receptiva e ativamente interessada, que ajudou na aprendizagem de todos.

Esse projeto foi muito importante, pois os alunos desenvolveram habilidades artísticas e lingüísticas; e, o mais importante, aprenderam a conhecer melhor o meio ambiente e a preservá-lo, o que foi comprovado nas atitudes, na construção de personagens, nas produções de textos e ilustrações, etc.

A professora Jaqueline Dias agradece à direção da Escola Estadual Nossa Senhora da Glória, à diretora Raimunda Nonata, à Fundação Bunge, a seus colegas de trabalho e a seus alunos por essa realização de sucesso.

Professora: Jaqueline Maria de Souza Dias – jakkeline@hotmail.com
Formação: Licenciatura Plena em História – Universidade Federal do Amazonas
Escola Estadual Nossa Senhora da Glória
Rua Lourival Muniz, 370 – Glória – Manaus/Amazonas – CEP: 69027-640

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