Edição 08

Matérias Especiais

Brinquedos e medos do menino Portinari

O pintor Cândido Portinari gostava muito de retratar trabalhadores. Esses trabalhadores têm pés enormes. Alguns carregam na cabeça sacas de café. Ele pintou esta cena diversas vezes, como podemos ver no quadro Café, que está no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e no mural dedicado ao mesmo tema que se encontra no prédio do Ministério da Educação, também no Rio.

Filho de imigrantes italianos, Portinari nasceu em 1903 numa fazenda de café, na pequena cidade de Brodósqui, no interior de São Paulo. Os trabalhadores faziam parte da paisagem de sua infância e ficou para sempre na memória do pintor a forte impressão causada aos olhos do menino. Já adulto, ele lembrava: “Impressionavam-me os pés dos trabalhadores das fazendas de café. Pés disformes. Pés que podem contar uma história. Confundiam-se com as pedras e os espinhos. Pés semelhantes aos mapas: como montes e vales, vincos como rios”.

O que Portinari viveu quando menino inspirou-lhe pela vida inteira. Foi em Paris, onde estava como resultado de um prêmio de viagem, que ele teve o estalo. Era o ano de 1929, ele tinha mais ou menos 26 anos e escreveu numa carta: “A paisagem onde a gente brincou a primeira vez e a gente com quem a gente conversou a primeira vez não saem mais da gente, e eu quando voltar vou ver se consigo fazer a minha terra”.

Portinari queria dizer, quando escreveu isso (nas cartas, nem tudo que a gente escreve é muito exato), que, ao contrário do que vinha fazendo até aquele momento, ele queria ver sua pintura menos influenciada pelo que acontecia na Europa e mais ligada nas coisas da sua infância e do seu país.

O antigo menino da cidade pequenininha, 200 casas brancas de um andar, no alto de um morro espiando para todos os lugares, voltou ao Brasil. E uma das coisas que ele mais passou a pintar foram outros meninos, as crianças com que tinha brincado na sua infância em Brodósqui e seus mil jogos e diversões.

Também para o prédio do Ministério da Educação, conhecido como Palácio da Cultura e que foi o primeiro edifício moderno do Rio de Janeiro, Portinari fez o painel Jogos Infantis. Nele aparecem muitos meninos – um monta a cavalo, outro brinca de cabra-cega, e tem pião, gangorra, arlequim, chapéu de soldadinho de papel… Os temas da infância repetem-se em muitos quadros: palhaços, espantalhos, meninos plantando bananeira, o jogo da amarelinha, bichos, garotos empinando papagaio. “Sabem por que é que eu pinto tanto menino em gangorra e balanço?”, perguntou um dia Portinari. “Para botá-los no ar, feito anjos”, ele mesmo respondeu.

Por isso e também para reviver aquele menino de Brodósqui que um dia, já grande, se divertiu enumerando as brincadeiras de que mais gostava quando pequeno: “gude, pião, arco, avião, papagaio, diabolô, iôiô, botão, balão, malha e futebol”. Estas eram as do dia a dia claro, mas havia também as brincadeiras da noite: “pique, barra-manteiga, pulando carniça etc”, e mais as histórias de reis, príncipes e princesas que lhe contava dona Iriam, uma senhora portuguesa.

Muitas dessas brincadeiras a gente já nem sabe mais como são, mas dá para ver que Portinari, “menino maluquinho” do início do século, que viveu até 1962, brincou a valer em pequeno. As cores que ele usava para pintar essas travessuras, no entanto, nem sempre eram as mais alegres. No mural Jogos Infantis, por exemplo, predominam diferentes tons de marrom. Por que será que Portinari não associava a alegria das crianças a cores fortes e quentes, como quase todo mundo? Talvez seja porque, lembrando tão bem do menino que foi, Portinari sabia que a infância não é povoada somente de sonhos, mas também, como ele escreveu, de “cansaços e grandes medos”. As histórias de lobisomem, mulas-sem-cabeça, saci-pererê e almas do outro mundo, que ele escutava durante o dia, muitas vezes vinham lhe perturbar a noite, atrapalhando o sono. Que cor tem esse medo? Para Portinari, às vezes, ele era marrom.

Sheila Kaplan,Coladoradora de Ciência Hoje.
SBPC – Revista de Divulgação Científica para Criança – Ano 9/nº 59 – Pág.8.

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