Edição 110

Matéria Âncora

Campanha da Fraternidade 2020 “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”. Fraternidade e vida: dom e compromisso

Apresentação

 

A Campanha da Fraternidade é um modo privilegiado pelo qual a Igreja no Brasil vivencia a Quaresma. Há mais de cinco décadas, ela anuncia a importância de não se separar a conversão do serviço aos irmãos e às irmãs, à sociedade e ao planeta, nossa Casa Comum. A cada ano, um tema é destacado como sinal de que realmente necessitamos de conversão. Assim, a Campanha da Fraternidade já nos convidou a enfrentar realidades muito próximas dos brasileiros, por exemplo: família, políticas públicas, saúde, trabalho, educação, moradia e violência, entre outros enfoques. Em cada um desses temas tão específicos, temos sido convidados a alargar o nosso olhar e a perceber que o pecado ameaça a vida como um todo.

Neste ano, somos convidados a olhar, de modo mais atento e detalhado, para a vida. Longe de ser uma mera repetição de assunto exaustivamente abordado, o tema Vida emerge em nossos dias como um clamor que brota de tantos corações que sofrem de inúmeras formas e da criação que se vê espoliada (LS, n.53). Como nos indicou a Campanha da Fraternidade de 2019, que tratou das políticas públicas, esse clamor se depara com a insuficiência de ações efetivas para a superação dos problemas.

O olhar que se eleva para Deus, no mais profundo espírito quaresmal, volta-se também para os irmãos e as irmãs, contempla o planeta, identificando a criação como presente amoroso do Senhor. Percebe-se também que não estamos cuidando como deveríamos desse amoroso presente divino. Constata-se que chegamos a um ponto em que até mesmo a nossa condição humana mais profunda esbarra em uma série de angustiantes indagações. O que aconteceu conosco? O que vem ocorrendo com a humanidade, que, embora percebendo o aumento do número de sofrimentos, parece não mais se sensibilizar com eles? Teríamos deixado se perder o sentido mais profundo da vida? Diante, por exemplo, de concepções de felicidade individualista e consumista, não estaríamos nos esquecendo do significado maior da existência? Por que vemos crescer tantas formas de violência, agressividade e destruição? Perdemos, de fato, o valor da fraternidade?

Em meio a tantas questões, a Campanha da Fraternidade deste ano nos convoca a refletir sobre o significado mais profundo da vida e a encontrar caminhos para que esse sentido seja fortalecido e, algumas vezes, até mesmo reencontrado. Não será uma campanha que abordará apenas, dentre tantas questões angustiantes, consequências do pecado. Será uma Campanha que, olhando transversalmente as diversas realidades, nos interpelará a respeito do sentido que estamos, na prática, atribuindo à vida nas suas diversas dimensões: pessoal, comunitária, social e ecológica.

Para nos ajudar, nunca será demasiado recordar o que o Papa Francisco conclamou, logo no início do seu pontificado, quando visitou a Ilha de Lampedusa, sul da Itália, em julho de 2013. Aquela era a primeira viagem que ele fazia depois de assumir a missão de sucessor de Pedro. Da pequena ilha no Mar Mediterrâneo, o Papa nos convocou a vencer a “globalização da indiferença”. Se já não somos mais capazes de perceber a desumana dor ao nosso lado, também nós nos tornamos desumanizados.

É por isso que a Campanha da Fraternidade de 2020 proclama: “A vida é Dom e Compromisso! Seu sentido consiste em ver, solidarizar-se e cuidar”. A vida é essencialmente samaritana, tal qual o homem que interrompeu sua rotina para cuidar de quem estava caído à beira do caminho (Lc 10,25-37). Não se pode viver a vida passando ao largo das dores de irmãos e irmãs.

Para combater a autossuficiência, somos quaresmalmente convidados a redescobrir o Dom de Deus (Jo 4,10). Vivendo a conversão e buscando assumir o espírito da Quaresma com toda a sua riqueza espiritual. Diante da inconsequência, somos interpelados a recuperar o valor do Compromisso (Lc 14,25-33). Assustados pela indiferença, torna-se urgente testemunhar e estimular a solidariedade (Mt 25,45). Em Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte, somos vocacionados ao intercâmbio do cuidar: cuidamos uns dos outros, cuidamos juntos da Casa Comum, porque Deus sempre cuida de todos nós (Sl 8,4; Is 49,15; 1 Pe 5,7)!

Permita o Bom Deus que cada pessoa, grupo pastoral, movimento, associação, igreja particular, enfim, o Brasil inteiro, motivado pela Campanha da Fraternidade, possa ver fortalecida a revolução do cuidado, do zelo, da preocupação mútua e, portanto, da fraternidade. Ao final deste texto, como de costume, são apresentadas algumas sugestões para o agir. Muito mais pode ser feito quando o coração se abre para o intercâmbio do cuidado e a criatividade se deixa conduzir pela fraternidade e pela solidariedade.

Não nos acomodemos com a virulência do pecado. A Quaresma é um tempo para reforçarmos em nós a fé no Ressuscitado. Jesus venceu a morte. Jesus derrotou o pecado. N’Ele, com Ele e por Ele, também nós o faremos, reconstruindo os laços, unindo os corações, as mentes e a sociedade.

Não temamos se nos sentirmos pequenos diante dos problemas. Lembremo-nos de Santa Dulce dos Pobres, mulher frágil no corpo, mas fortaleza peregrinante pelas terras de São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Dulce, presença inquestionável do amor de Deus pelos pobres e sofredores. Dulce, incansável peregrina da caridade e da fraternidade. Dulce, testemunho irrefutável de que a vida é Dom e Compromisso. Dulce que via, se compadecia e cuidava. Dulce que intercede por nós no céu.

“A vida é essencialmente samaritana, tal qual o homem que interrompeu sua rotina para cuidar de quem estava caído à beira do caminho”
(Lc 10,25-37)

O bom samaritano: anúncio da compaixão e do cuidado com a vida

1. Em meio aos inúmeros e ricos textos bíblicos que podem iluminar a nossa Quaresma, um deles é destacado pela Campanha da Fraternidade deste ano, tornando-se referência para tudo o que viermos a rezar, refletir e agir: “25Um doutor da lei se levantou e, para experimentar Jesus, perguntou: ‘Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?’ 26Jesus lhe disse: ‘Que está escrito na Lei? Como lês?’ 27Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua força e com todo o teu entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo!’ 28Jesus lhe disse: ‘Respondeste corretamente. Faze isso e viverás’. 29Ele, porém, querendo justificar-se, disse a Jesus: ‘E quem é o meu próximo?’. 30Jesus retomou: ‘Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes que lhe arrancaram tudo, espancaram-no e foram embora, deixando-o meio morto. 31Por acaso descia por aquele caminho um sacerdote, mas, ao ver o homem, passou longe. 32Assim também um levita: chegou ao lugar, viu o homem e seguiu adiante pelo outro lado. 33Um samaritano, porém, que estava viajando, chegou perto dele e, ao vê-lo, moveu-se de compaixão. 34Aproximou-se dele e tratou-lhe as feridas, derramando nelas azeite e vinho. Depois, colocou-o sobre seu próprio animal e o levou a uma hospedaria, onde cuidou dele. 35No dia seguinte, pegou dois denários e deu-os ao dono da hospedaria, recomendando: ‘Cuida dele, e o que gastares a mais eu o pagarei quando eu voltar’. 36No teu parecer, qual dos três fez-se o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? 37Ele respondeu: ‘Aquele que usou de misericórdia para com ele’. Então Jesus lhe disse: ‘Vai e faze o mesmo’” (Lc 10,25-37).

2. Essa parábola, proposta por Jesus em seu caminho de subida a Jerusalém (Lc 9,51–19,27), é parte da explicação do que seria necessário fazer para entrar na vida eterna. Esse tipo de questionamento era muito comum naquele tempo já que existiam mais de 613 leis e outras prescrições pontuais a serem cumpridas para se chegar a esse fim. Por essa razão, vendo a impossibilidade de cumprir fielmente todos os mandamentos, o doutor da lei questiona Jesus sobre o que realmente não poderia deixar de ser feito para herdar a vida eterna.

3. A parábola é composta por cinco personagens anônimos, indicados apenas por suas etnias ou funções, e ocorre em um local de fácil compreensão para alguém daquele tempo. Por isso, embora seja uma parábola, a história narrada possui grande possibilidade de ter sido, ao menos em parte, um fato que realmente aconteceu na estrada que ligava Jericó a Jerusalém. Um homem, vítima de salteadores, é deixado quase morto, à beira da estrada. O fato de ter sido agredido leva a pensar na possibilidade de ter resistido ao assalto, o que lhe teria ocasionado a agressão quase fatal e o abandono à beira da estrada, não sendo mais capaz de fazer algo por si mesmo.

4. Um samaritano que passava, ao ver o homem, sentiu compaixão. Essa compaixão nasceu do seu modo diferente de olhar, do seu modo diferente de perceber aquela realidade. Essa compaixão o levou a se aproximar do homem, gastar tempo, modificar parcialmente sua viagem, tudo para não ser indiferente com aquele que sofria diante dele. Os cuidados práticos descritos na parábola são emergenciais: desinfeta as feridas com vinho e alivia a dor com óleo, costumes daquele tempo; transporta o homem até a hospedaria e paga as despesas de sua estada.

5. A postura inesperada do samaritano contém o centro do ensinamento de Jesus: o próximo não é apenas alguém com quem possuímos vínculos, mas todo aquele de quem nos aproximamos. É todo aquele que sofre diante de nós. Não é a lei que estabelece prioridades, mas a compaixão que impulsiona a fazer pelo outro aquilo que é possível, rompendo, dessa forma, com a indiferença. A fé leva necessariamente à ação, à fraternidade e à caridade.

6. A vida nos traz oportunidades de concretizar a fé em atitudes bem específicas. Para perceber os outros, principalmente em suas necessidades, não bastam os conceitos, mas, sim, a compaixão, e a proximidade. Não se deve questionar quem é o destinatário do amor. Importa identificar quem deve amar e não tanto quem deve ser amado, pois todos devem ser amados, sem distinção. Não importa quem é o próximo. Importa quem, por compaixão, torna-se próximo do outro (Lc 10,36). A medida do amor para com o próximo não é estabelecida com base em pertença religiosa, grupo social ou visão de mundo. Ela é estabelecida pela necessidade do outro, acolhendo como próximo qualquer pessoa de quem se possa acercar com amor generoso e operativo. Isso abre uma nova perspectiva nos relacionamentos, excluindo a indiferença diante da dor alheia.

7. No final da narrativa, Jesus se dirige novamente ao doutor da lei com uma nova pergunta: “No teu parecer, qual dos três fez-se próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” (Lc 10,36). Desse modo, afirma Papa Francisco, Jesus inverte a pergunta do seu interlocutor e também a lógica de todos nós. Cristo nos faz entender que não somos nós, com base em nossos critérios, que definimos quem é o próximo e quem não é, mas é a pessoa em situação de necessidade a quem devemos reconhecer como próximo, isto é, usar de misericórdia para com ela.

8. “Ser capazes de sentir compaixão: essa é a chave. Essa é a nossa chave. Se, diante de uma pessoa necessitada, você não sente compaixão, o seu coração não se comove, significa que algo não funciona. Fique atento, estejamos atentos. Não nos deixemos levar pela insensibilidade egoística. A capacidade de compaixão se tornou a medida do cristão, ou melhor, do ensinamento de Jesus.”

9. Jesus é o verdadeiro bom samaritano que se aproxima dos homens e das mulheres que sofrem e, por compaixão, restitui-lhes a dignidade perdida. A encarnação é sinal concreto da proximidade de Deus, que salva aqueles que jazem no sofrimento. A perspectiva do Paraíso eterno orienta a vida ainda no momento presente e convida os homens e as mulheres a terem em si os mesmos sentimentos que estão no coração misericordioso de Cristo, apresentando, assim, o anúncio do reino de Deus e ressignificando a vida humana como Dom e Compromisso.6

“Ver, sentir compaixão e cuidar serão os verbos de ação que nos conduzirão no tempo quaresmal.”

10. Na busca de transformação e santificação, a Igreja no Brasil, oferece às Comunidades, no tempo da Quaresma, uma realidade para ser refletida, meditada, rezada. É a Campanha da Fraternidade, que, neste ano tem como tema: Fraternidade e vida: dom e compromisso; e, como lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34).

11. Fraternidade e vida! Pelo Verbo de Deus tudo foi criado, e no faça-se! (Gn 1,3), quando tudo passou a existir, a vida divina foi irresistivelmente comunicada como um transbordamento do amor trinitário. Todos os seres animados e inanimados, como efusão do amor de Deus, foram criados por amor. Nada escapa ou está fora desse amor. Assim, Deus vem ao nosso encontro, pois quer “[...] comunicar a sua própria vida divina aos homens, criados livremente por ele, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adotivos” (CIgC, n. 52). Essa comunicação de Deus nos permite conhecê-Lo e amá-Lo e, assim, participarmos da glória amorosa da Trindade Santa.

12. Dom e Compromisso! A vida é um Dom que recebemos de Deus e que somos chamados a partilhar em busca da plenitude: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Deus tudo disse no seu Verbo encarnado: “Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai” (CIgC, n.65). Eis o nosso Compromisso para com essa vida, Dom de Deus: levá-la à plenitude de Cristo. Criados à sua imagem e semelhança, somos filhos no Filho, e os seus gestos de fraternidade nos ensinam este caminho: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34).

13. Vida é Dom de Deus! “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Jesus Cristo não apenas anunciou, mas Ele mesmo é a plenitude, a consumação de toda a vida. O seu viver, sua pregação, sua morte e ressureição despertam para o sentido da vida e, assim, Ele mesmo se revela para nós como o Caminho, a Verdade e a Vida! (Jo 14,6). Ele anuncia o ano da graça do Senhor, pois, na unção, proclama a liberdade aos presos no corpo e na alma, oferece visão aos cegos sem horizontes, liberta e alivia os oprimidos pela ganância e pelo egoísmo; é a boa-nova da solidariedade e da gratuidade para os pobres e desamparados (Lc 4,16-19).

14. Vida é Compromisso fraterno! A vida como Dom nos conduz a um Compromisso. Despertamos para a responsabilidade de nossa existência e de todas as criaturas. Compromisso como promessa de permanecer junto de, comprometer-se com. É o que lemos e vemos na parábola do bom samaritano. Ele permanece junto ao assaltado e garante-lhe acolhimento e cuidado: ver, sentir compaixão e cuidar serão os verbos de ação que nos conduzirão no tempo quaresmal. Que possamos nos dispor a uma profunda conversão da cultura da morte para a cultura da vida.

I Parte – “VIU, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34)

1 O olhar de Jesus – atenção aos outros

“Se buscarmos o princípio deste olhar, é necessário voltar ao livro do Gênesis, naquele instante em que, depois da criação do ser humano, ‘homem e mulher’, Deus viu ‘que era muito bom’.
Esse primeiro olhar do Criador se reflete no olhar de Cristo.”

15. Diante do convite para vivermos uma profunda conversão, temos duas maneiras de olhar que são apresentadas por Jesus na parábola do bom samaritano: um olhar que vê e passa em frente, vivido pelo sacerdote e pelo levita; e um olhar que vê e permanece, envolve-se, compromete-se, vivido pelo samaritano. Diante desses olhares, há uma vida em jogo, em perigo, necessitada e vulnerável. Para uma verdadeira mudança de vida, precisamos aprender a configurar nosso olhar com o de Jesus, com o olhar do bom samaritano. Nesse sentido, é interessante observar também que as duas vidas marcadas pelo egoísmo correm o risco da morte eterna, consequência do pecado.

16. O olhar que vê e passa adiante representa toda indiferença e desprezo pela vida do outro. Reflete aquilo que temos por dentro. Pelo olhar, construímos e se manifestam os conceitos mais profundos sobre a vida e o viver. Pelo olhar, podemos expressar verdades e mentiras, amor e ódio, alegria e tristeza. Muitas vezes nosso olhar pode se tornar maldoso, viciado e cansado. É preciso exercitar a mesma perspectiva do olhar virtuoso que Cristo nos ensina. Não um olhar de indiferença, mas de compaixão. Essa foi a virtude que muitos santos buscaram viver em suas vidas: conformar seus olhos ao olhar de Cristo. Santa Terezinha, por exemplo, nos diz: “Ah! Compreendo agora que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não se escandalizar com as suas fraquezas, em edificar-se com os mais pequenos atos de virtude que se lhes vir ficar encerrada no fundo do coração: ‘Ninguém, disse Jesus, acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas a coloca sobre o candelabro para alumiar todos os que estão na casa’. Creio que essa luz representa a caridade, que deve iluminar e alegrar, não só os que são mais queridos, mas todos aqueles que estão em casa, sem exceção de ninguém”.

1.1 O olhar da indiferença gera ameaças à vida

1.1.1 O olhar que abandona a vida das pessoas

“É preciso que todos tenham fé e esperança em um futuro melhor. O essencial é confiar em Deus. O amor constrói e solidifica.”
Santa Dulce dos Pobres7

17. A realidade mostra que será necessário empreender muitos esforços para que realmente a vida esteja em primeiro lugar. No Brasil, 22,6% das crianças e dos adolescentes com idade entre 0 e 14 anos vivem em situação de extrema pobreza. Esses dados correspondem a 9,4 milhões de menores com renda domiciliar per capita mensal inferior ou igual a um quarto de salário mínimo, ou R$ 234,25 em valores de 2017. Além desses dados, 2,5 milhões de crianças e adolescentes até 17 anos trabalham; 11,7 mil crianças e adolescentes foram vítimas de homicídio em 2017; mais de 3 milhões de domicílios estão em favelas; 16,4% das adolescentes são mãe antes dos 19 anos. É igualmente alarmante o crescimento do número de pessoas desaparecidas, razão de angústia para familiares.

18. A automutilação é um fenômeno que tem crescido entre os jovens. Ela consiste em “uma prática de agredir o próprio corpo, que pode acontecer de diferentes formas. A mais comum é fazer pequenos cortes na pele, mas a pessoa também pode se bater, se queimar, arrancar os cabelos, se furar com agulhas ou praticar qualquer outra autolesão. ‘Os ferimentos costumam ser feitos em lugares que podem ser escondidos, como braço, perna e barriga. Os adolescentes tentam escondê-los com pulseirinhas, deixam de usar shorts e passam a usar mais mangas longas’”.

19. Quem provoca tal agressão a si mesmo não busca a dor física pelo prazer de senti-la, o que em si já é problemático. “‘Na maioria dos casos, a automutilação é reflexo de uma incapacidade de lidar com seus próprios sentimentos, como angústias, medos, tristeza e conflitos. Os adolescentes veem nessa prática a saída mais rápida para aliviar esse intenso sofrimento. É uma troca da dor emocional pela dor física’ [...] O ato também pode ter relação com se punir por alguma atitude, raiva ou baixa autoestima”. Em muitos desses casos, a tristeza se apresenta como característica recorrente. Além disso, o bullying se apresenta como uma forma de indiferença em nossos dias. Atitudes agressivas, sejam elas físicas ou verbais, ferem a dignidade humana.

20. Em 2016, no Brasil, houve 11.433 mortes por suicídio, ou seja, 31 casos de suicídio por dia. Ainda de acordo com o Ministério da Saúde, o enforcamento aparece como o principal meio de morte por suicídio, respondendo por 60% dos óbitos. Intoxicação por drogas aparece em segundo, com 18%; arma de fogo é a terceira causa, com 10%; outros meios respondem por 12% dos casos. Os jovens entre 15 e 29 anos estão entre as maiores vítimas do suicídio, que é considerado a quarta maior causa de morte nessa faixa etária. Mortes violentas e por acidente de trânsito também são realidades que inspiram cuidados e ações concretas de educação para o respeito e a tolerância.

21. Uma triste ameaça à vida é o aumento do feminicídio. Em 2017, a cada 10 feminicídios, registrados em 23 países, 4 ocorreram no Brasil. “Naquele ano, pelo menos 2.795 mulheres foram assassinadas, das quais 1.133 no Brasil. Já o Atlas da Violência 2018, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontou uma possível relação entre machismo e racismo: a taxa de assassinatos de mulheres negras cresceu 15,4% na década encerrada em 2016. Ao todo, a média nacional, no período, foi de 4,5 assassinatos a cada 100 mil mulheres, sendo a de mulheres negras de 5,3 e a de mulheres não negras de 3,1”.

22. As redes sociais, infelizmente, têm funcionado, em muitos casos, como uma caixa amplificada que reverbera todos esses tipos de violência, causando grande mal à vida. A banalização da vida alcançou o mundo virtual por meio das fake news, dos perfis falsos e da disseminação de notícias caluniosas e raivosas sem nenhuma preocupação em verificar a veracidade do que se compartilha e do que se curte. Esse cenário vem crescendo e ceifando vidas. Basta observarmos os números da violência, que se apresenta de várias formas.

1.1.2 O olhar que destrói a natureza

“O que fazer para mudar
o mundo? Amar.
O amor pode, sim, vencer
o egoísmo.”

Santa Dulce dos Pobres

23. Nos últimos anos, vem crescendo a consciência de que, articulada com o desrespeito ao ser humano, encontra-se a agressão à natureza. “Quando falamos de ‘meio ambiente’, fazemos referência também a uma particular relação: a relação entre a natureza e a sociedade que a habita. Isso nos impede de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos. As razões pelas quais um lugar se contamina exigem uma análise do funcionamento da sociedade, da sua economia, do seu comportamento, das suas maneiras de entender a realidade. Dada a amplitude das mudanças, já não é possível encontrar uma resposta específica e independente para cada parte do problema. É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza” (LS, n. 139).

24. Tanto a extinção de espécies quanto os desequilíbrios climáticos apresentam uma forte ligação com a exploração desordenada e com o aumento da poluição. Raramente se registra o deslizamento de terras em áreas em que a vegetação está preservada. Contudo o contrário se torna presente e desastroso em nossos dias, como atestam os rompimentos das barragens de rejeitos de minério no distrito de Fundão, em Mariana (MG), ocorrido em 5 de novembro de 2015, e no Córrego do Feijão, município de Brumadinho (MG), ocorrido pouco mais de três anos depois, em 25 de janeiro de 2019. No primeiro, 19 pessoas foram engolidas pelo tsunami de 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério; e, no segundo, centenas de pessoas tiveram suas vidas tiradas por cerca de 12,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos. Em ambos os casos, e em diversos outros semelhantes Brasil afora, o dano ecológico e humano é incalculável, modificando a biodiversidade e deixando milhares de pessoas sem seu sustento por causa da contaminação do solo e das águas da Bacia do Rio Doce, no caso de Mariana, e da Bacia do Rio Paraopeba, em Brumadinho.

“Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental.”

25. O olhar que destrói a natureza nasce da incapacidade de percebê-la em sua singularidade. A natureza requer paciência para oferecer a nós o melhor para respirarmos; a melhor água para nos saciar; o melhor frescor da brisa em tempos cálidos; a chuva mansa que traz vida à terra. Terra que é mãe a nos oferecer seus mais belos frutos. Mãe que cuida e a quem devemos cuidar. Por que então não estamos cuidando dela como deveríamos?

“No amor e na fé, encontraremos as forças necessárias para a nossa missão.”

Santa Dulce dos Pobres

26. Junto à indiferença, sentimo-nos diante de um outro inimigo que tem crescido em nossos dias: o ódio. A indiferença e o ódio, em todas as suas formas, paralisam e impedem que se faça o que é justo até mesmo quando se sabe que é justo. A indiferença “é um vírus que contagia perigosamente a nossa época, um tempo no qual estamos cada vez mais ligados com os outros, porém sempre menos atentos ao próximo”. “Nenhuma família, nenhum grupo de vizinhos, nenhuma etnia e, muito menos, nenhum país terão futuro se o motor que os une e encobre as diferenças for a vingança e o ódio”. O contexto globalizado do mundo de hoje deveria nos ajudar a compreender que nenhum de nós é uma ilha, mas que somos responsáveis uns pelos outros. Em uma sociedade profundamente marcada pelos traços de Caim, Deus novamente nos pergunta “Onde está [...] teu irmão?” (Gn 4,9).

1.1.4 O olhar da solidariedade social

“O corpo é um templo sagrado. A mente, o altar. Então, devemos cuidar deles com o maior zelo. Corpo e mente são o reflexo da nossa alma, a forma como nos apresentamos ao mundo e um cartão de visitas para o nosso encontro com Deus.”

Santa Dulce dos Pobres

27. O olhar da fé, ao mesmo tempo que identifica sombras, deve, indispensavelmente, identificar luzes. Não é um olhar amargo, desiludido, apenas para o que é negativo. A tristeza que brota de quem olha o sofrimento não pode impedir que o olhar de esperança encontre também as luzes da solidariedade. Por isso, não podemos esquecer o testemunho de quem defende a vida atuando nas diversas entidades, nos conselhos de direitos, organizações não governamentais, nos movimentos sociais e populares, nos sindicatos, nas associações de bairros e em outras organizações comprometidas com a vida.

28. Nossa realidade está repleta de pessoas que superam a fragilidade da vida, realçando a beleza e a alegria de viver. Na família, edifica-se o exemplo dos pais que acolhem com amor os filhos com deficiência, dedicando-lhes carinho e ternura samaritanos. Com seu gesto, testemunham o valor e a inviolabilidade da vida humana e dão prova de que o amor é a medida para se acolher a vida.

1.1.5 Qual será o nosso olhar?

“Se Deus viesse à nossa porta, como seria recebido? Aquele que bate à nossa porta em busca de conforto para a sua dor e para o seu sofrimento é um outro Cristo que nos procura.”

Santa Dulce dos Pobres

29. Devemos ter claro que assumir o olhar solidário capaz de cuidar, como modo de ser no mundo, nos permite ir além do egoísmo e da indiferença. O cuidado reinstaura o espaço da graça e da leveza diante do mundo e de todas as formas de vida, gerando um novo laço de amor entre nós. Essa imagem nos remete ao belo poema Não sei, de Cora Coralina:

Não sei se a vida é curta
ou longa demais para nós,
mas sei que nada
do que vivemos tem sentido
se não tocamos o coração
das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
o colo que acolhe,
o braço que envolve,
a palavra que conforta,
o silêncio que respeita,
a alegria que contagia,
a lágrima que corre,
o olhar que acaricia,
o desejo que sacia,
o amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto ela durar.

II Parte – “Viu, SENTIU COMPAIXÃO e cuidou dele” (Lc 10,33-34)

2 Compaixão de Jesus – romper com a indiferença

“O importante é fazer a caridade, não falar de caridade. Compreender o trabalho em favor dos necessitados como missão escolhida por Deus.”

Santa Dulce dos Pobres

30. Se, por um lado, o olhar da indiferença gera tanto mal, o olhar da compaixão pode fecundar o bem no coração humano e conferir verdadeiro sentido à vida. Na parábola do bom samaritano, o olhar que Jesus nos ensinou é o olhar daquele que se compromete com o outro. Um olhar interessado, não em si mesmo, mas no bem do próximo, seja ele quem for: simpático ou antipático, de qualquer etnia ou religião, amigo ou inimigo. O olhar da compaixão gera um “permanecer com”, uma presença que salvaguarda, cuida e transforma a vida de quem mais precisa.

31. Em uma época na qual a indiferença vai tomando conta das consciências e dos corações, a Quaresma se mostra como tempo importante para reflexão sobre a misericórdia e a compaixão. Neste tempo quaresmal, podemos mergulhar no mistério que nos conduz para a Paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo na medida em que nos propomos uma sincera convenção. Para o Papa Francisco, a parábola do bom samaritano é uma dádiva maravilhosa, mas também é um compromisso: “A cada um de nós, Jesus repete aquilo que disse ao doutor da lei: ‘Vai e também tu faze o mesmo!’. Somos todos chamados a percorrer o mesmo caminho do bom samaritano, que é a figura de Cristo: Jesus debruçou-se sobre nós, fez-se nosso servo, e foi assim que nos salvou, para que também nós pudéssemos amar como Ele nos amou, do mesmo modo”.

32. Sentir nas vísceras a dor do outro é muito mais do que ter dó. Significa comprometer-se com ele, sem medo de aproximar e identificar-se com o próprio amor de Deus para conosco: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34).

33. O samaritano agiu com verdadeira misericórdia e foi capaz de assumir a dor do outro provendo tudo o que lhe era necessário. Na compaixão não há incertezas, não se titubeia, não existe indiferença, pois trata-se de ter, em nós, os mesmos sentimentos de Cristo (Fl 2,5). Fazer-se próximo sem preconceitos, sem classificação, sem esperar nada em troca. Gratuitamente amar! Assim nos ensina Jesus.

2.1 Compaixão é ter mais coração nas mãos

“Se houvesse mais amor, o mundo seria outro; se nós amassemos mais, haveria menos guerra. Tudo está resumido nisto: Dê o máximo de si em favor do seu irmão, e, assim sendo, haverá paz na terra.”

Santa Dulce dos Pobres

34. De fato, quem ama não julga, não acusa, não divide! Quem ama cuida, acolhe, integra. Quem ama dialoga, suporta, se compadece. O egoísta e prepotente, cujo alcance da visão e do coração é ele mesmo, julga o mundo a partir de si, esquecendo-se de que seu olhar está embaçado pelo pecado, seu coração está entupido pela maldade. O que seria do mundo se nos julgássemos menos e nos compreendêssemos mais? O que seria do mundo se houvesse menos competição e mais compaixão? Não seria um mundo diferente se houvesse menos voracidade e mais partilha?

35. Nossas mãos não podem estar fechadas para socar. Elas têm de estar abertas para apoiar. Não podem ser mãos fechadas para agredir. Devem ser mãos unidas para cuidar. Sem ter onde reclinar a cabeça (Mt 8,20), o filho do homem salvou o mundo. O que estamos fazendo com tantos recursos, tanta tecnologia, tantos avanços científicos? Estamos acomodados em nossa zona de conforto ou temos coragem de termos em nós os mesmos sentimentos de Jesus, fazendo de nossa vida uma oferta generosa da presença de Deus?

2.2 Compaixão é ter mais justiça no coração11

“Habitue-se a ouvir a voz do seu coração. É através dele que Deus fala conosco e nos dá a força de que necessitamos para seguirmos em frente, vencendo os obstáculos que surgem na nossa estrada.”

Santa Dulce dos Pobres

III Parte – “Viu, sentiu compaixão e CUIDOU DELE” (Lc 10,33-34)

3 O cuidar de Jesus – disposição em servir

“Nós somos como um lápis com que Deus escreve os textos que Ele quer ditos nos corações dos homens.”

Santa Dulce dos Pobres

36. O sentido da vida, nós o encontramos no amor, que, entre outros aspectos, traduz-se na capacidade de se compadecer e cuidar. Por essa razão, um dos primeiros passos do nosso agir não poderia ser outro senão este: como discípulos missionários daquele que é Vida, resgatar o sentido do viver no horizonte da fé cristã proclamando a beleza da vida. “Fazei coisas belas, mas, sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.”

37. Assim, aprendemos com o bom samaritano: o meu próximo é aquele de quem eu me achego. É aquele a quem dedico cuidado. É aquele com quem tenho a alegria de compartilhar o caminho da vida. Neste mundo tão acelerado, é preciso ter a coragem da fé, que é capaz de parar, de interromper a rotina para cuidar. A vida é essencialmente samaritana!

38. Agir como o bom samaritano supõe um novo aprendizado: empregar nossos melhores recursos — humanos, materiais e espirituais — para que aqueles que estão desfigurados pela dor possam reencontrar, com o auxílio da fraternidade, a dignidade da vida: “Cuida dele, e o que gastares a mais, eu o pagarei quando eu voltar” (Lc 10,35).

39. Com a Campanha da Fraternidade, somos convidados a proclamar em todo o País que a vida, dom e compromisso, é essencialmente samaritana! Convertidos pela Palavra de vida e salvação, somos convocados a testemunhar e estimular a solidariedade; fortalecer a revolução do cuidado, da ternura e da fraternidade como testemunho de vida dos discípulos missionários, daquele que oferece vida em plenitude. A missão evangelizadora brota de um coração capaz de cuidar e de ser cuidado.

40. Em nosso agir evangelizador, “Também temos, diante de nós, à nossa disposição, duas bacias com água: de um lado, a bacia utilizada por Pilatos, símbolo da indiferença e da omissão; do outro lado, a bacia utilizada por Jesus no lava-pés, sinal de terno cuidado e Compromisso para com o serviço. Serviço evangelizador que dá visibilidade ao Reino de Deus presente no mundo. Qual das duas bacias temos utilizado como evangelizadores?”.

41. No caminho que se apresenta a todos nós, encontramos desafios e oportunidades. Na certeza de que a Vida é um Dom e, ao mesmo tempo, um Compromisso, a Igreja segue os passos de seu Senhor, vê, sente compaixão e cuida dos homens e das mulheres que se encontram feridos e necessitados de amor. Sem jamais perder a alegria do Evangelho, os cristãos são convidados a cultivar, na oração, na fraternidade e no serviço, um olhar de esperança, que irradie para todos a luz da vitória da Ressurreição de Cristo. Com Ele, a Igreja tem a certeza de que o amor terá a última palavra e vencerá todo tipo de mal.

42. Com o intuito de percorrer com entusiasmo o caminho da Esperança cristã, propõem-se alguns conselhos que o Papa Francisco ofereceu a toda a Igreja em sua catequese Educar para a Esperança.

“O sentido da vida, nós encontramos no amor, que, entre outros aspectos, traduz-se na capacidade de se compadecer e cuidar.”

43. “Onde quer que você esteja, construa! Se você está caído na terra, levante-se! Não permaneça nunca caído, levante-se, deixe-se ajudar para ficar de pé. Se está sentado, coloque-se em caminho! Se o tédio o paralisa, realize obras de bem! Se se sente vazio ou desmoralizado, peça que o Espírito Santo possa novamente encher o teu nada.”

44. “Promova a paz em meio aos homens e não ouça a voz de quem espalha ódio e divisões. Não ouça essas vozes. Os seres humanos, por mais que sejam diversos uns dos outros, foram criados para viver juntos. Nos contrastes, paciência: um dia descobrirás que cada um é depositário de um fragmento de verdade.”

45. “Ame as pessoas. Ame-as uma a uma. Respeite o caminho de todos, seja linear ou difícil, porque cada um tem a sua história a contar. Também cada um de nós tem a própria história a contar. Cada criança que nasce é a promessa de uma vida que ainda uma vez se demonstra mais forte que a morte. Todo amor que surge é um poder de transformação que deseja a felicidade.”

46. “Seja responsável por este mundo e pela vida de cada homem. Pense que cada injustiça contra um pobre é uma ferida aberta e diminui a sua própria dignidade. E cada dia peça a Deus o Dom da coragem. Lembre-se de que Jesus venceu por nós o medo. Ele venceu o medo!”

47. “Tenha sempre a coragem da verdade, porém lembre-se: você não é superior a ninguém. Recorde-se disso: você não é superior a ninguém. Se você permanecer também o último a acreditar na verdade, não se refugie, por isso, da companhia dos homens. Mesmo que você viva no silêncio de um ermo, leve em seu coração os sofrimentos de cada criatura. Você é cristão; e na oração tudo entrega a Deus.”

48. “Cultive ideais. Viva por algo que supera o homem. E, mesmo que um dia esses ideais peçam a você uma conta salgada para pagar, nunca deixe de levá-los em seu coração.”

49. “Se você errou, levante-se: nada é mais humano que cometer erros. E esses mesmos erros não devem se tornar para você uma prisão. Não se engaiole em seus erros. O Filho de Deus veio não para os sãos, mas para os doentes: portanto, veio também para você.”

50. “Se o atinge a amargura, acredite firmemente em todas as pessoas que ainda trabalham pelo bem: na humildade deles, há a semente de um mundo novo. Conviva com pessoas que conservaram o coração como aquele de uma criança. Aprenda com a maravilha, cultive o estupor. Viva, ame, sonhe, acredite. E, com a graça de Deus, nunca se desespere.”

51. Fraternidade: Dom e Compromisso. Ver, solidarizar-se e cuidar, ações de uma vida samaritana. “Para partilhar a vida com o povo e dar-nos generosamente, precisamos reconhecer também que cada pessoa é digna da nossa dedicação. E não pelo seu aspecto físico, suas capacidades, sua linguagem, sua mentalidade ou pelas satisfações que nos pode dar, mas porque é obra de Deus, criatura sua. Ele criou-a à sua imagem e nela reflete algo da sua glória. Cada ser humano é objeto da ternura infinita do Senhor, e Ele mesmo habita na sua vida. Na cruz, Jesus Cristo deu o seu sangue precioso por essa pessoa. Independentemente da aparência, cada um é imensamente sagrado e merece o nosso afeto e a nossa dedicação. Por isso, se consigo ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida. É maravilhoso ser povo fiel de Deus. E ganhamos plenitude quando derrubamos os muros e o coração se enche de rostos e de nomes!” (EG, n. 274).

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)/Campanha da Fraternidade 2020: Texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2019.

cubos