Edição 26

Pintando o 7

Cânticos – Rosinha Campos

Colunas, escadas, vãos, casa, jardim, tempo, círculos, arabescos, caminhos, um homem, uma mulher, impossibilidades, desencontros. E, novamente, colunas, escadas, vãos, casa, jardim, tempo, círculos, arabescos, caminhos, um homem, uma mulher, impossibilidades, desencontros. São três as imagens em que esses elementos se repetem. Uma litogravura, Queda de água, de Escher, de 1961, incluída no livro O espelho mágico de Escher; uma ilustração em aquarela do livro Cântico dos Cânticos, de Angela Lago, de 1992; uma fotografia de Luiz Santos para o catálogo da exposição Matriz da Luz do artista Joelson, de 2003.

Outros elementos as unem. Algo de sagrado e de profano.

Queda de água exemplifica o item do livro que fala de ligações impossíveis. Estruturada da união de três “tribar”, espécie de triângulo, formado de três ângulos normais, ligados uns aos outros de forma falsa, geometricamente impossível. Escher usou a água para evidenciar a absurdidade do tribar. No ponto mais alto do caminho, a água se precipita e põe uma roda em movimento, que corre por uma calha de tijolos. Corre continuamente para baixo como podemos observar em cada percurso, até que chega ao ponto mais baixo do caminho, que coincide com o ponto mais alto do aqueduto, de onde se precipitará para, novamente, fazer girar a roda, num eterno moto contínuo. Esse caminho é sustentado por colunas, que, a exemplo de sua litogravura Belveder, une planos cujos eixos estão em direções contrárias. As duas estruturas em torre são coroadas com polígonos. Por trás da queda de água, uma casa, com porta, janelas, chaminé. E um estreito terraço que a rodeia dando acesso à água. Ao lado da casa, num plano mais baixo, um jardim impossível de algas exageradas. Nele, um portão. O acesso é feito através de um largo terraço onde um homem solitário contempla o céu. Nesse terraço, há mais três possibilidades de caminhos. Um corredor que vai para algum lugar além da imagem, um arco com uma possível porta nos encaminha para o interior da construção e uma pequena escada que nos leva a uma espécie de hall a céu aberto, que une outros três caminhos: o do terraço onde está o homem; o caminho de acesso à queda de água que circunda o aqueduto e a casa em forma de estreito terraço, podendo dar acesso à casa onde se encontra uma mulher que estende roupas no varal; e o caminho para fora desse complexo, que a imagem mostra em forma de paisagem em socalcos (espécies de degraus na encosta) que o plano de fundo nos revela.
A outra imagem pode ser a segunda ou a décima das onze ilustrações que compõem o livro, já que este permite ao leitor contemplá-lo de trás para frente ou de ponta-cabeça. Em qualquer direção, podem ser vistos, independente de onde se começou a ler: a procura de um homem e de uma mulher, a aproximação, o encontro (na sexta ilustração) e, posteriormente, seu afastamento e desencontro. Todas as imagens são emolduradas por iluminuras florais e, nos cantos da imagem central, há sugestão de passagem de páginas de um livro, de passagem de tempo. A ilustração escolhida, talvez por apresentar o maior número de elementos presentes nas demais imagens, apresenta-se em tons de verde e azul, predominantemente, com detalhes em rosa e vermelho. Rosas, aliás, são as flores da moldura que sugere um jardim. O homem, de roupa inteira e turbante verdes, casaco vermelho e espada na cintura, encontra-se em uma espécie de hall em forma circular onde aparecem mais três aberturas em forma de arco, três outras possibilidades de caminhos. O hall é composto de volumes arquitetônicos verticais, formando uma grande escada de paredes, coroados de terraços, abóbadas e corredores. Dependendo de onde se começa a ler o livro, o homem pode estar entrando ou saindo do hall. Podemos escolher continuar do ponto onde o homem se encontra ou atravessar o hall e entrar na abertura maior, que a imagem sugere ser o caminho que o levará em direção à mulher. Esta, com um vestido de corpo inteiro vermelho, sobrecapa azul e rosa e véu amarelo com motivos florais, encontra-se em meio a um caminho circular através de uma escada caracol com degraus de ladrilhos branco e lilás, ladeada de um peitoril ponteado de colunas que formam arcos entre si. Da mesma forma que o homem, dependendo de onde se começa o livro, a mulher pode estar indo de encontro ao homem ou se afastando dele.

“Além da circularidade, as imagens nos falam das dualidades, em suas complementações, Yin-Yang, em suas impossibilidades, em suas ilusões.”

A imagem do catálogo mostra a sala da casa do artista quase que numa monocromia de marrons. A sala apresenta uma coluna em cimento chapiscado, uma escada de obra em madeira, a parede em tijolo aparente onde a luz atravessa as aberturas e confere um ar sagrado ao espaço, lembrando a catedral de Rochamp. O piso de cimento queimado na cor verde, com losangos compostos de quatro ladrilhos desenhando um arabesco em Flor de Lis, se deseja um jardim. Estão presos na coluna dois pratos com cabeça de mulher e parte de um terceiro que o corte da foto não nos permite contemplar por inteiro. Por trás da escada, uma estante com vários objetos: jarros, cabeças, animais, uma mulher, folhas, todos trabalhos em barro. No patamar, um quadro grande, em preto e branco, de forma circular, apresenta imagens de flores, espadas e algo que me sugere um Cristo. Acima deste, o corte da fotografia esconde parte de um painel díptico, em preto, branco e marrom. Ao lado da escada e no centro da fotografia, um armário, que lembra os armários de escola da minha infância, com a porta entreaberta mostrando revistas, pratos e outros objetos que não consigo identificar. Acima do armário, quatro cabeças observam todo o ambiente. Ao lado, no chão, uma esfera branca, em barro, com uma foto antiga de uma mulher nua, sentada em uma cadeira de costas para o observador. Do lado esquerdo da fotografia, o artista acorrentado a uma outra esfera que repousa sobre um banco de madeira. Ao lado, um porta-revista de fuxico. Na parede, três pratos e outros objetos pendurados. O artista desenvolve seu trabalho em barro e sua casa apresenta características de simplicidade de materiais parecida com as do barro. Primordial é o barro, e a imagem da mulher delata os primórdios da fotografia. A imagem do artista aparece diluída pela baixa velocidade utilizada pelo fotógrafo para captar o ambiente. Este apresenta-se acorrentado à sua obra, apesar de não haver um desejo de contemplação; ao contrário, apresenta um olhar longínquo em direção oposta. A antiguidade da foto da mulher na esfera que repousa no chão denuncia a impossibilidade do encontro entre homem e mulher.
São três Cânticos que se resumem a um apenas: o encontro-desencontro homem-mulher.

As imagens trazem, cada qual, características dos quatro elementos: Queda de água traz o elemento no próprio nome, na corrente de água que serpenteia a imagem, nos jardins de plantas aquáticas, na mulher concentradamente lavando roupas. O ar sopra através das ilustrações, levantando suas páginas, embalando as flores no jardim, nos movimentos circulares da correria da mulher e no turbilhão que envolve a sala onde se encontra o homem. O barro se pronuncia a todo instante na fotografia. É instrumento de trabalho, é de que se compõe a casa, é ao que o artista se apresenta acorrentado. O fogo, elemento aparentemente ausente nas imagens, é o que verdadeiramente as une: o fogo que funde homem e mulher.

Que ele me beije!
Que ele me beije com boca ardorosa!
Pois tuas carícias são melhores que o vinho,
melhores que a fragrância de teus perfumes.

Quão belas são tuas carícias, minha irmã-noiva!
Quão melhor que o vinho, tuas carícias,
e que todos os bálsamos,
a fragrância de teus perfumes.

Cântico dos Cânticos

Os elementos se complementam e nos perpetuam. Homem e mulher se complementam e nos perpetuam.

Olho agora em minha volta e vejo minha filha em suas primeiras incursões no mundo das paixões. Ilumina-se ao falar do namorado, flutua pela casa, relaxou em suas obrigações de estudante. Que força é essa que nos empurra para o epicentro do furacão? Tal Laço de Moebius nos tira as referências de baixo-cima e dentro-fora, dilui nossa identidade. Em quanto tempo virão as lágrimas em seu rosto e o desejo de se tornar pó para que novamente os quatro elementos se complementem e ela tenha sua identidade restabelecida? É inevitável? Encontro e desencontro fazem parte da nossa humanidade. Assim como no laço, infinitamente nos encontramos em um ponto, nos distanciamos e nos reencontramos mais além, de forma quase cíclica. As algas, roda d’água, arcos e portas da litogravura de Escher; a moldura, a sala, as escadas e os arcos da ilustração de Angela; as mandalas, os pratos, as esferas e o quadro sobre a escada da fotografia de Luiz; tudo nos remete a um eterno movimento circular. O Laço de Moebius se faz presente na estrutura das imagens de Escher, na proposta de leitura do livro de Angela, na relação do artista com sua obra, na relação homem-mulher.

Além da circularidade, as imagens nos falam das dualidades, em suas complementações, Yin-Yang, em suas impossibilidades, em suas ilusões. O homem contempla o céu, o que será que lê nas estrelas? A mulher, absurdamente absorta em seu cotidiano, será ela prisioneira? A água denuncia o erotismo. Os líquidos fluem por toda a imagem, mas o homem parece não se dar conta da presença da mulher; o contrário também é verdadeiro. A água dilui a tinta da aquarela, e, agora, homem e mulher se buscam, mas parecem escolher caminhos diferentes. O vento sopra, mas eles não têm tempo de ouvir. Apenas correm insanamente em busca de si mesmos se perdendo em labirintos. Onde se escondeu o fio de Ariadne? A água se mistura ao barro para ditar a sua consistência, e o artista se acorrenta ao passado para dar nitidez ao presente. Mais fácil amar alguém que já não existe, só sua imagem se perpetua e o artista pode moldá-la ao seu gosto. Tempo e matéria separam dois mundos.

As três imagens trazem por fim elementos dos contos de fadas e Sherazade sabe que “a narrativa constitui um dos principais interesses da mente humana” (Robert Scholes). Iluminuras e personagens da Idade Média, tão visitada por Escher e por Angela, elementos árabes nos detalhes da casa e no semblante do artista da fotografia de Luiz,nos enredam nessas narrativas. Mas sobre buscas e caminhos, impossibilidades e ilusões, encontros e desencontros, só Pessoa é capaz de nos revelar.

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

EROS E PSIQUE
Fernando Pessoa

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