Edição 86

A fala do mestre...

Casa Comum,Nossa Responsabilidade

Nildo Lage

A humanidade admite: o novo milênio, mesmo anunciado, abalroou como uma avalanche e surpreendeu. Empunhando a sua potente arma — a tecnologia —, almejou o ego do homem e deu a sentença: alie-se a mim ou a sua raça se resumirá a uma vítima do próprio tempo. O homem, vulnerável às tendências, curvou-se, aceitando que o planeta precipitasse os passos para trilhar o caminho delineado pelo GPS do desenvolvimento. O alvo foi alcançado. O progresso acordou. Consumir se tornou moda; destruir, um desafio.

A natureza replicou de forma avassaladora: secas, enchentes, terremotos, tsunamis… O homem atemorizou-se. Todavia, por se considerar soberano, dominador, acreditou que tinha faculdades para reverter o quadro, ignorou os alertas e arremeteu… Impeliu a situação ao limite e estacionou à beira de um caos que requer muito equilíbrio. Do contrário, a humanidade pagará um alto preço para ostentar o existir.

Diante das ameaças, múltiplos caminhos foram esboçados e, no ímpeto de apaziguar o clima que se aquece a cada dia, um novo trajeto foi delineado. Entre tentativas e fracassos, a consciência de que o planeta Terra é a Casa Comum, o universo que abriga todos os tipos de vida, e mais: é de nossa responsabilidade.

Todos aquiesceram. O martelo foi batido. O desafio é atingir a meta de trabalhar com sustentabilidade. Entretanto, a maioria ainda desconhece que a sustentabilidade exige consciência, maturidade, compreensão, formação, para então plantar um presente capaz de promover o desenvolvimento para um presente caótico, sem ter que consumir o futuro das novas gerações. Avançar rumo ao novo exige responsabilidade e competências para administrar as ferramentas do futuro a favor da vida.

Escola: lugar de vivências, transmissão, análise e produção do conhecimento

Ante a degradação da Casa Comum, refrear o consumo é o primeiro passo; formar cidadãos conscientes de seu papel social no planeta é o norte para uma sociedade predadora, e, nessa transição, a escola desponta como vereda para conduzir conquistas surpreendentes. Basta substituir os instrumentos enferrujados por ferramentas que transformam a chuva de conteúdos, que desabam sobre a escola, em conhecimentos, na consciência de que consumir com moderação hoje é preservar o amanhã, exatamente para a pátria educadora ser um lugar de gente que busca uma formação para construir um Brasil melhor. Assim, edifica-se um espaço que promove o encontro de vivências, cujos valores são corroídos geração após geração, pois a escola do novo milênio apenas transmite teores que não suprem a fome dos que buscam, na Educação, o caminho para crescer.

Por desconhecerem que sustentabilidade é um conjunto de ações sincronizadas e que esse concerto deve partir dos grandes centros — afinal, 84% da nossa população é urbana e não está “nem aí” para os impactos provocados pelos resíduos do consumo­ ­—, um novo padrão social vem nascendo para atender às metas de um mercado que produz sem se preocupar com o local para onde irão os resíduos dessa produção.
O pulmão do mundo já experimenta a falta de ar devido à redução do oxigênio provocada pelo desmatamento. Ante a pandemia, criar uma rede de UTIs verdes ou Green Schools (Escolas Verdes), como nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Austrália, no Canadá e na Escócia, não sanará o problema. Basta comprometimento e cobrança de metas. Também, se necessário, punição. É preciso cair a ficha do professor, que ele assuma o papel de educador para formar, e não alfabetizar. A família, que se transforma de modelo para se adequar às novas realidades sociais, deve assumir o seu posto de fomentadora de valores. A escola deve trocar essa roupagem de Carnaval que faz festa em duzentos dias no ano — e, no apagar das luzes, o aluno é quem sai com a ressaca da desaprendizagem. E o governo deve trabalhar sustentabilidade na Educação como um fundamento da Educação Básica.

Com uma transformação assim, o sistema de ensino terá uma plataforma para delinear uma Educação para a sustentabilidade, pois o novo deixará de ser adventício para se tornar um horizonte, afinal, o novo requer estrutura, exige originalidade e mudanças.

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Educar a geração do “devoro o mundo” para preservar o planeta é desafio de titãs, pois a situação chegou a um estágio tão alarmante que desmatamento e poluição se tornaram “o caminho” do desenvolvimento econômico. E, quando esse progresso parte para o caminho da irracionalidade, reciclar é apenas um detalhe ante a necessidade de promover um resgate para, somente então, delinear o mapa dos propósitos para ostentar a preservação.

Se nesse estágio a nossa Educação evoluir manuseando as ferramentas por meio de projetos para a sustentabilidade e se existirem leis rigorosas para punirem sem “passar a mão na cabeça” ou “fazer vista grossa”, considerações econômicas ensinarão que para desenvolver não é preciso devorar a vida e os conceitos sociais se tornarão ferramentas que gerarão ações conjuntas, capazes de apagar o fogo da fornalha que, dia após dia, eleva a temperatura do planeta.

O desafio de promover a sustentabilidade humana num planeta cada vez mais rivalizado

Introduzir as ideologias da sustentabilidade na escola para que o humano reconheça que o planeta Terra é a Casa de todos os viventes e de sua responsabilidade requer tempo.

Todavia, não temos espaço para contornar, pois o desequilíbrio da humanidade, incitado pelo desejo de ser, ter e conquistar, permitiu a extinção de valores; e a restrição da justiça, da família, das tradições, dos princípios religiosos e das culturas, para que a fome do humano pelo novo fosse saciada.

É fato consumado… Mesmo com as suas bases abaladas pelos tremores do abandono de alguns governantes que submergiram o País na lama da corrupção; com o desequilíbrio da família, que perdeu a autonomia sobre os filhos; e com a ausência de entusiasmo do desmotivado educador, o cumprimento da função social da escola é capital para promover a sustentabilidade de um país cada vez mais atingido pelas anormalidades ambientais — que arremessam o planeta num angustiante processo de saturação, tornando cada vez mais difícil reconstruí-lo, para, assim, oferecer uma educação à base de valores sustentáveis.

O saldo das manifestações não foi suficiente para impulsionar o sistema de ensino a agir em caráter de emergência e preencher os vácuos da grade curricular com conteúdos que fortaleçam crianças e jovens para enfrentarem as fúrias do planeta nas próximas décadas ou que os eduquem para transformar hábitos predadores em atitudes sustentáveis.

Se a escola não despertar a consciência da sociedade de que a geração do século XXI está devorando o próprio planeta, crente de que avança a passos largos rumo ao progresso, as gerações futuras apreciarão em tons cinzas o que um dia foi um Planeta Azul, pois nem mesmo os revolucionários softwares ou as hodiernas impressoras 1.000-D conseguirão tonificar o que um dia foi o planeta Terra.

Cadê o culpado?

Todos olham à sua volta. A maioria aponta com o dedo em riste e detona: “A escola!”. Chegamos a esse caos porque a nossa Educação não se despertou para as mudanças que aconteciam. Porém, para quem está faminto — de ser —, o amanhã pode ser um futuro tão distante que muitos acreditam não ter mais tempo para ajustar as falhas do hoje.

Esse tempo exige uma escola com novos conceitos, que ofereça uma Educação transformadora de comportamentos. O desafio lança o sistema de ensino numa missão quase impossível diante dos problemas sociais e familiares enfrentados, pois é impossível buscar mudanças no ambiente escolar sem pensar na família, sem olhar de lado e estender a mão num gesto de inclusão, convidando a sociedade a resolver um problema que é de todos… Sustentabilidade é consequência de ações conjuntas; se EU — pai — e VOCÊ — educador — não cumprirmos as nossas responsabilidades, jamais NÓS — sociedade — atingiremos a meta almejada para que ela — a ESCOLA — cumpra o seu papel social.

Essa indiferença impede a escola de “semear consciência” em mentes férteis, contudo, cauterizadas. Soluções conjugadas são atos cada vez mais difíceis: “Não posso, não tenho tempo”, esquiva a família.

“Preservar o planeta, a vida, é responsabilidade do outro! Ninguém me disse que sustentabilidade deve se iniciar em mim, muito menos na sala de aula”, desconversa o professor.

Até quando o professor reivindicará salário, melhores condições de trabalho, suporte, aporte… E, nessas lutas, acomoda o seu aluno na carteira, mas a evolução não acontece?

Até quando o gestor permanecerá ausente, atendendo aos interesses do sistema? Puxa a cadeira, senta, abre a janela e aprecia a evolução do mundo alheio ao crescimento dos seus alunos.

Até quando o sistema permanecerá adormecido? Por que não assume o seu papel e torna-se âncora para equilibrar o barco da Educação? É mais cômodo tocar o bote adiante e remar sem rumo definido… Assim, quando o bote da Educação descambar por uma corredeira, pulará a tempo de ser levado ao fim.

Até quando a escola continuará isolada do mundo, cumprindo calendário, repassando conteúdos mas sem deixar a Educação acontecer?

Se não houver um “despertar coletivo”, sustentabilidade e Educação se converterão em pontos de discussão. Todos querem o melhor para si, mas não estão ”nem aí” com a situação do outro… Contudo, muitos têm consciência, mas aguardam o dia da sentença, o momento em que os pulmões buscarão oxigênio, porém só irão aspirar a essência da destruição. Olharão de lado e verão um cenário assolador — humano sem essência humana num cenário sem vida — e perguntarão em coro: “Quando?”, “Onde?,” “Por quê?”.

Quando deveríamos ter parado com a destruição?

Onde falhamos na Educação dos nossos filhos para que não consumissem valores, princípios… mas o próprio planeta?

Por que a Educação não resistiu às crises, mas desabou ante os tremores e permitiu ser devorada pela violência, pelo descaso e pelo abandono?

É preciso consciência; o Planeta Azul é a nossa casa, e, a cada elemento que destruímos, estamos restringindo o nosso espaço.

É preciso responsabilidade, porque as novas gerações precisarão do planeta Terra intacto, pois ele é sua Casa. Se prosseguirmos com a destruição, secas intermináveis, chuvas assoladoras e tsunamis extinguirão cidades, plantações, animais… E nos faltará o mais importante: alimento e água, e, sem eles, não há vida.

É preciso pensar no coletivo para adotarmos atitudes sustentáveis. Quando ambicionamos o coletivo, certamente estaremos nos preocupando com o planeta, com o outro, com o amanhã, pois é impossível vivermos em sociedade alimentando pensamentos voltados ao “meu mundo e nada mais!”.

É preciso olhar para a dimensão do estrago e unificar uma ideia: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5.24).

 

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