Edição 64

Como mãe, como educadora, como cidadã

Caso João – Dona Zaneide

Zeneide Silva

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— Dona Zaneide, a mulher oca quer falar com a senhora.

Era sempre esse alvoroço e agitação quando Dona Maria chegava à minha casa para buscar seus remédios, e os meninos que moravam na mesma favela a acompanhavam.

Atendia-os e sempre reclamava com os meninos por chamar Dona Maria de “mulher oca” (ela havia feito uma esterectomia). Em um de nossos encontros, fiquei sabendo que João, Lucas, Wellington e Pablo estavam sem estudar porque não tinham registro. Os pais preferiam que eles fossem para a rua pedir dinheiro ou trabalhar (não existia o Bolsa Família), tinham que chegar em casa com dinheiro.

Resolvi propor algo aos meninos: eu os colocaria na escola, acompanharia seus estudos e, todos os sábados, eles tomariam café comigo e fariam alguns serviços lá em casa, e eu pagaria a diária — fechamos o acordo.

Consegui matriculá-los em escolas diferentes, porém no mesmo bairro. Sabia que não seria fácil para as professoras lidar com os quatro na mesma sala.

Nos primeiros quinze dias, tudo tranquilo. Estava orgulhosa com os meninos e feliz por estar contribuindo para a formação deles.

Como não tinham estímulos em casa e na própria comunidade, começaram a surgir alguns problemas — não gostavam de estudar, as aulas eram sempre a mesma coisa, os professores só chamavam os alunos de “elementos”, entre outras coisas, mas continuavam indo à escola.

Um dia chegou João lá em casa no horário de aula, queria falar comigo. Quando o avistei, comecei logo a perguntar por que não havia ido à aula. Ele logo me respondeu: não vou mais, fui expulso.

Parei para escutar a história.

“Dona Zaneide, foi assim:

Fomos para a fila da merenda, a professora na frente, de costas para nós, também na fila. Foi quando chegou um menino e me empurrou, e eu era o último. Com o empurrão, empurrei as pessoas que estavam na minha frente, derramando o lanche. A professora quando viu foi logo gritando, dizendo que só poderia ser eu, ela falava sempre: ‘Só poderia ser você, João’.

Tentei falar, explicar, ela não me escutava, só gritava.

Ah, Dona Zaneide, perdi a paciência e mandei ela tomar no… Pronto. Fui para a direção e confirmei o que tinha dito e que não estava arrependido. A diretora pediu para eu pedir desculpas à professora, e eu disse que só pediria se ela escutasse minha explicação; a professora disse que poderia falar, mas que não mudaria sua opinião, pois sabia que era mentira.

Aí, eu disse que não ia pedir.

Fui expulso do colégio, eu não quero mais estudar, as professoras ensinam a gente a ser educado, mas elas não são.

Vou voltar mais não, Dona Zaneide.”

Conversamos, expliquei que ele não deveria ter desrespeitado a professora. Ele falava que também havia sido desrespeitado. Percebi uma revolta e mágoa por não ter sido escutado, por já ser rotulado.

João foi embora, e fiquei pensando como é triste ver crianças fora da escola, sendo negado a elas o seu direito de estudar e de se alimentar, pois sabemos o quanto a merenda é fundamental. Esses dois direitos foram negados a ele.

João hoje vive numa cadeira de rodas. Um carro com motorista embriagado bateu em sua carroça enquanto recolhia lixo para vender.

Acredito que houve uma grande melhoria na Educação, mas ainda falta muita coisa a ser feita em relação, principalmente, ao respeito. A Bolsa Escola leva o aluno à sala de aula, mas sua cabeça continua fora, já que muitas vezes não existem estímulos e motivação.

Desejo e tenho esperança em uma sociedade justa e fraterna, porém só acredito na mudança radical da escola para não parafrasear o que diz Hamilton Werneck: Você finge que aprende e eu finjo que ensino.

Um grande abraço!

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