Edição 101

A fala do mestre...

Combatendo discursos de ódio

Lécio Cordeiro

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No artigo da edição 99 da nossa Construir Notícias, falamos sobre a variação e o preconceito linguístico. Você pode conferir o texto acessando nosso portal: http://www.construirnoticias.com.br/a-variacao-e-o-preconceito-linguistico/.

Agora, vamos dar continuidade a essa reflexão investigando um pouco mais a noção de preconceito. Na sequência, propomos uma atividade para você realizar com os seus alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e relacionaremos o conteúdo às habilidades propostas na BNCC de Língua Portuguesa.

Para começar, uma boa saída para abordar melhor o tema com os alunos é recorrer à etimologia da palavra preconceito, isto é, à sua origem. Na nossa língua, a palavra conceito tem muitos sentidos. Um deles é opinião, ponto de vista, como ocorre em Qual é o seu conceito sobre as pessoas que falam fror, brusa, bicicreta? Diante de uma pergunta como essa, como qualquer outra, devemos pensar para responder adequadamente. Assim, não é tão fácil emitir um conceito adequado sobre algo aparentemente simples. Nesse caso, precisamos perceber que as pessoas que falam bicicreta (e não bicicleta) em geral pertencem às camadas mais pobres da sociedade, que vivem em situações em que praticamente tudo falta, inclusive estudo, e que, por esse motivo (entre outros), são vistas frequentemente de maneira negativa pelas pessoas das classes mais ricas e que possuem mais tempo de estudo.

Desse modo, podemos dizer que o preconceito é uma opinião antecipada, isto é, uma conclusão à qual se chega sem reflexão. Quando falamos sobre os mitos que originam o preconceito linguístico no artigo anterior, vimos que é muito comum as pessoas pensarem que o português é uma língua difícil. Ora, esse é um pensamento irrefletido. Na verdade, todas as línguas naturais têm suas características. Alguém poderia dizer que, na verdade, a nossa gramática é difícil, mas isso é outra questão — depende do que estamos chamando de gramática e de como isso é ensinado na escola…

Seja qual for o lugar onde uma pessoa vive, ela pertence à mesma espécie, a do Homo sapiens sapiens. Isso significa que tem o mesmo cérebro que qualquer outra pessoa, dotada das mesmíssimas capacidades. Assim, se um bebê nascido em uma tribo indígena da Amazônia for levado para a Inglaterra, aprenderá a falar inglês como qualquer outro bebê nascido lá e vice-versa.

Desse modo, é normal sentirmos dificuldades quando começamos a aprender uma língua nova, pois não tivemos contato com ela nos primeiros anos da infância. E essas dificuldades aumentam quando a nova língua é muito diferente da nossa. Por exemplo: o espanhol é parecido com o português, mas o japonês não. No espanhol, muitos sons são semelhantes aos sons da nossa língua, mas os sons produzidos na fala do japonês não são. Por isso, dizemos que não existem línguas fáceis ou difíceis, feias ou bonitas, ricas ou pobres… Elas são, simplesmente, diferentes umas das outras. Todas as línguas têm suas características próprias e atendem perfeitamente às necessidades comunicativas dos seus falantes.

A prática e a BNCC

Habilidades trabalhadas

EF89LP01 – EF89LP13 – EF89LP14 – EF89LP15

Esta atividade envolve diferentes habilidades ligadas à prática da leitura e da oralidade, como estas indicadas acima. No entanto, dependendo dos seus objetivos pedagógicos e dos objetos de conhecimento trabalhados, é possível expandir a análise. Você pode pedir aos alunos, por exemplo, para pesquisar na Internet e nas redes sociais memes, peças publicitárias, comentários, etc. que contribuem para a perpetuação de variadas formas de preconceito, incluindo o linguístico.

1. Uma forma interessante de perceber os preconceitos comuns na sociedade consiste em perguntarmos às pessoas qual é o seu conceito (opinião) sobre determinados temas. Por exemplo:

Qual é a sua opinião sobre comida japonesa?
Para mim, a comida japonesa é nojenta e ruim. Não tenho nem vontade de experimentar peixe cru…

Reflita e opine: por que essa resposta em relação à comida japonesa é preconceituosa?

Sugestão de abordagem

Caso considere oportuno, experimente outras perguntas, que envolvam temas polêmicos, a fim de levar os alunos a diferenciar liberdade de expressão de discursos de ódio, que devem ser combatidos. Exemplos:

Qual é a sua opinião sobre religiões africanas?
Qual é a sua opinião sobre dar esmolas?
O que você acha dos políticos brasileiros?
Qual é a sua opinião sobre o povo brasileiro?

Lécio Cordeiro é formado em Letras pela UFPE. É editor e autor de livros didáticos de Língua Portuguesa para os anos finais do Ensino Fundamental.

E-mail: leciocordeiro@editoraconstruir.com.br

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