Edição 65

Em discussão

Como é que se constrói a afetividade da criança?

Luís Lobo

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Mães e pais, geralmente, nem desconfiam da importância que tem o desenvolvimento da afetividade para a criança e para o seu futuro. Em todo o mundo, a maior carência das crianças talvez seja a afetiva.

Em primeiro lugar, é preciso entender que, para o bebê e a criança pequena, o amor precisa ser traduzido na sua linguagem. Amor é atenção, cuidado físico, carinho. Em segundo lugar, é indispensável compreender que a afetividade não se realiza sob a desatenção, o medo, a ameaça, a insegurança, gritos, desespero, sob o desagrado ou a acomodação a uma situação injusta.

A carência afetiva tem pouco a ver com outras carências e pode ocorrer — e ocorre — em qualquer classe. Se a condição de vida da maioria da população é de pobreza, sofrimento, má nutrição, trabalho duro por salário insuficiente, insegurança e revolta, é evidente que seus filhos chegarão à escola em desvantagem. Às vezes em grande desvantagem, por falta de comida e problemas de saúde. Mas, se observarmos os casos de pessoas muito pobres que venceram na vida e sobreviveram às dificuldades com sucesso, vamos verificar que quase todas elas viveram em famílias em que havia a esperança de melhorar de vida, em clima de amor (ou, pelo menos, de respeito familiar), e eram amadas, cuidadas e protegidas. Isso significa dizer que não foram negativamente marcadas pela pobreza nem definitivamente sacrificadas pelas suas carências físicas e pelas situações sociais de risco porque tinham uma família, tinham atenção, carinho, desenvolveram bem o seu afeto.

Outro elemento que parece ser muito importante no bom desenvolvimento afetivo da criança é a religiosidade da família e, mais importante ainda, a sua fé. Ela ajuda a enfrentar dificuldades e cria um ambiente aproximador na família. Além disso, a transmissão de valores espirituais e morais contribui de forma comprovada para criar uma cumplicidade e uma união muito importante sob o aspecto afetivo.

Nas piores condições de sobrevivência, nos campos de concentração nazistas, muitas crianças foram capazes de crescer e de atingir um desenvolvimento surpreendente para quem não sabe que, mesmo lá, elas brincavam e tinham o máximo de atenção e amor.

Não se pode dizer que esse ou aquele aspecto do desenvolvimento seja mais importante do que outro. Mas algumas crianças com poucas possibilidades de desenvolvimento físico admitem recuperação depois dos 6 anos de idade. Certas crianças com problemas de desenvolvimento intelectual são socorridas depois dos 6 anos e acabam retomando um desenvolvimento normal. Mas é impossível recuperar a carência afetiva e apagar as cicatrizes sobre a personalidade da criança que foi rejeitada e que não recebeu amor e atenção suficientes.

LOBO, Luís. Escola de Pais: Para que seu Filho Cresça Feliz. Rio de Janeiro: Lacerda, 1997.

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