Edição 103

Espaço pedagógico

Como educar no contexto tecnológico

Uglaneide Mahátima
Marinho Juvino de Oliveira

Sociedade da informação

Você provavelmente já viveu uma cena parecida. Sentou-se em frente ao computador para começar uma atividade e se distraiu com o celular. Ou clicou em alguma página que não precisava ler no momento. Ou simplesmente sua mente começou a viajar e pensar em mil outras coisas, menos naquilo que ia começar a fazer. Normal. O pensamento acelerado é um dos verdadeiros males do século, causador de danos como procrastinação, ansiedade, depressão, perda de energia… Porém, nos últimos tempos, ressurgiu com força uma técnica capaz de pôr um ponto-final nas distrações. Conheça o conceito de mindfulness, técnica que promete impulsionar a sua produtividade e o seu bem-estar.

Na Primeira Revolução Industrial, ocorrida nos primórdios do século XVIII, houve a criação do motor a vapor, o qual substituiu o trabalho artesanal, originando assim as primeiras indústrias, como Singer (1987, p. 10) menciona ao relatar que “a primeira forma histórica de produção capitalista foi a manufatura. Era constituída por empresas que produziam mercadorias com métodos artesanais — isto é, sem uso de máquinas movidas por energia não humana”. Como fato marcante da Segunda Revolução, temos a descoberta da eletricidade, que propiciou a criação dos meios de comunicação a distância, e na Terceira Revolução Industrial tivemos o surgimento do computador com o advento da sociedade da informação, através das manifestações científicas e de grande aparato tecnológico. Isso resultou em uma sociedade não mais agrícola, tampouco industrial, mas produtora de informações e bens de consumo. Ainda sob a reflexão de Singer (1987, p. 24), constatamos o exposto acima quando o autor explica que “o processo de industrialização, que até hoje em dia está em marcha no Terceiro Mundo, foi inaugurado por uma série de mudanças tecnológicas, econômicas e sociais induzidas pela Revolução Industrial”.

A sociedade da informação, consequentemente chamada de sociedade do conhecimento, é alicerçada no capital intelectual humano. Capital esse que fomenta o pensamento, estabelecendo o pensar como um elemento diferencial entre as pessoas e a sociedade, exigindo assim da escola uma participação primordial, que é a de instigar os alunos a pensar. A informação por si só não tem valor, é necessário que ocorra a sua internalização, objetivando transformá-la em conhecimento.

A minha questão não é acabar com a escola, é mudá-la completamente, é radicalmente fazer que nasça dela um novo ser tão atual quanto a tecnologia. E continuo lutando no sentido de pôr a escola à altura do seu tempo. E pôr a escola à altura do seu tempo não é soterrá-la, mas refazê-la (FREIRE, 2001, p. 1).

Encontramo-nos em uma conjuntura social de extremas mudanças, ocasionadas pelo avanço científico e tecnológico, consecutivamente os espaços econômicos e sociais também sofrem alteração. Tais mudanças alteram o modo de comunicação e de como as pessoas se relacionam, rompendo barreiras e trazendo para perto de si o que antes a distância impedia de ser vivenciado. E é nesta globalização que as diversas tecnologias ganham espaço em nossas vidas, acarretando mudanças em especial nas práticas socioculturais.

Ensinar e aprender exige hoje muito mais flexibilidade espaço-temporal, pessoal e de grupo, menos conteúdos fixos e processos mais abertos de pesquisa e de comunicação. Uma das dificuldades atuais é conciliar a extensão da informação, a variedade das fontes de acesso, com o aprofundamento da sua compreensão, em espaços menos rígidos, menos engessados. Temos informações demais e dificuldade em escolher quais são significativas para nós e conseguir integrá-las dentro da nossa mente e da nossa vida (MORAN, 1999, p. 1).

A partir de tal pressuposto, é possível afirmar que a nova sociedade pertence aos “donos” da informação pautada e direcionada pelo conhecimento teórico ofertado pelas novas tecnologias, o que faz com que a nova sociedade adquira um novo controle, que não é econômico, mas, sim, político. Porém, tem-se que ter cuidado com esse controle intelectual, pois nem sempre ele é transformado em conhecimento, o que pode gerar uma sociedade com um bem de consumo intelectual desqualificado.

Vivenciar a era digital é estar mergulhado em um espaço comunicacional regido pela informática e pela internet, que propõe uma análise dos avanços da sociedade. Percebe-se que a sociedade da informação surgiu sobrepondo-se à sociedade industrial, que também ocupou o espaço da sociedade artesanal e agrícola do século XVIII. Algo extremamente perceptível nesta nova era é a vasta capacidade de armazenar e memorizar informações, salientando a integração mundial. Bem como podemos perceber na citação a seguir:

[...] uma forma específica de organização social em que a geração, o processamento e a transmissão de informação tornam-se as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas surgidas nesse período histórico, sendo uma de suas características principais sua estrutura em redes. Tem-se, portanto, uma nova base material, tecnológica, da atividade econômica e da organização social, ou seja, um novo modo de desenvolvimento. A esse modo de desenvolvimento, o autor denomina informacional; e à sociedade onde ele se insere, sociedade informacional (CASTELL, 1999 apud ALVES, 2009, p. 1).

O ciberespaço que atrai toda a nova sociedade é um mundo sem fronteiras, no qual não há limites temporais e espaciais para o desenvolvimento da comunicação, os seus visitantes podem interagir à vontade, promovendo diversas formas de aprendizagem. “O ciberespaço como suporte da inteligência coletiva é uma das principais condições de seu próprio desenvolvimento” (LÉVY, 2009, p. 29).

Encontramo-nos em uma sociedade que vive frequentemente uma dicotomia com relação às informações que são disseminadas instantaneamente pelo mundo virtual, levando a população a viver cercada de escassez ou de excesso de informação. Nem tudo que circula nos sites é digno de confiança, fazendo com que os sujeitos envolvidos nesses processos sociais tenham que desenvolver uma constante análise e reciclagem das informações que recebem, pois a tecnologia apenas oferta a informação, cabendo aos receptores incorporá-las.

O fato de estarmos inseridos nesta era dá-nos a impressão de que temos que ler e assistir a tudo que é disseminado midiaticamente, na tentativa incessante de estar a par de tudo que nos circunda. Porém esquecemo-nos de que a notícia perde sua essência rapidamente e, com isso, não nos damos conta de que a quantidade de informações que recebemos é muito maior que a capacidade que temos de absorver. Assim, Moran (1999, p. 7) afirma que, “na sociedade da informação, todos estamos reaprendendo a conhecer, a comunicar-nos, a ensinar; reaprendendo a integrar o humano e o tecnológico; a integrar o individual, o grupal e o social”.

A dissipação da informação é o elemento constituidor da cidadania, a partir do momento que favorece a compreensão das alterações tecnológicas, econômicas, religiosas, culturais e sociais, instigando em cada sujeito uma postura individual ou coletiva que propiciará o desenvolvimento do processo educativo firmado em um dos pilares educacionais que é o aprender a conviver e consequentemente aprender a aprender. Torna-se necessário ao indivíduo realizar análise crítica e sintética das informações que recebe. Fato esse confirmado por Jacque Dorls ao dizer que:

Aprender para conhecer supõe, antes de tudo, aprender a aprender, exercitando a atenção, a memória e o pensamento. Desde a infância, sobretudo nas sociedades dominadas pela imagem televisiva, o jovem deve aprender a prestar atenção às coisas e às pessoas. A sucessão muito rápida de informações mediatizadas, o zapping tão frequente prejudicam de fato o processo de descoberta, que implica duração e aprofundamento da apreensão. Esta aprendizagem da atenção pode revestir formas diversas e tirar partido de várias ocasiões da vida (jogos, estágios em empresas, viagens, trabalhos práticos de ciências…) (DORLS, 1998, p. 92).

11Imigrantes digitais e nativos digitais

Atualmente, nos espaços tecnológicos de informação, tornou-se comum encontrar crianças e adolescentes utilizando equipamentos tecnológicos como meios interativos objetivando se relacionarem e se comunicarem nas redes sociais.

Considera-se que a era digital proporcionou e gerou diversas necessidades nas mentes e no comportamento humano. A digitalização se tornou algo frequente na vida de todos a partir da década de 1980; assim, todos os que nasceram nesse período são considerados imigrantes digitais, de forma que tentam se enquadrar às inovações que estão emergindo por toda parte, em situações corriqueiras do nosso dia a dia: telefones, smartphones, aplicativos, contas bancárias, compras online, etc.

Consecutivamente, a partir de tais inovações, o modo de pensar e agir da sociedade é alterado, acarretando mudanças significativas no espaço educacional. A internet trouxe facilidades para o ensino, que envolvem desde a base até o mais elevado nível, como o de doutorado. Tudo que é apresentado prende a atenção do aluno, pois se refere a um ambiente que domina.

Os nativos digitais são todos os que nasceram e cresceram com a tecnologia à sua volta; com isso, tem-se uma geração que quase não usa papel e canetas e não realiza uma atividade sequer sem o computador ou os dispositivos móveis.

Os nativos digitais, por sua familiaridade, têm um poder de criação muito grande com equipamentos e ferramentas tecnológicas, o que lhes possibilita fixar sua marca em conteúdos digitais. Algo interessante e marcante nos nativos digitais é a maneira como constroem seus conhecimentos: coletivamente através da troca de informações. É a partir dessa nova forma de aquisição de conhecimento que o educador adquire novas necessidades metodológicas.

Como educadores, nós precisamos pensar sobre como ensinar tanto o conteúdo legado e o futuro na língua dos nativos digitais. O primeiro requer uma tradução maior e mudança de metodologia; o segundo requer tudo o que ADICIONA o novo conteúdo e pensamento. Não está na verdade claro para mim o que é mais difícil — “aprender algo novo” ou “aprender novas maneiras para fazer algo antigo”. Eu suspeito que seja este último (PRENSKY, 2001, p. 4).

É perceptível quando alguém é um imigrante digital simplesmente por suas ações. O imigrante precisa imprimir o e-mail para ler, liga perguntando se o remetente recebeu o e-mail, ao escrever um texto começa primeiro no lápis e papel, opta por livros impressos em vez de e-books, enquanto para os nativos isso quase não existe.

Um estudioso da área tecnológica da educação, Marc Prensky (2001), é o responsável pela nomenclatura dos indivíduos em nativos e imigrantes digitais. O autor diz que os nascidos após a década de 1980 são uma geração diferenciada por muitos aspectos com relação à antecedente, os imigrantes digitais. Prensky (2001) diz que os imigrantes digitais são uma geração de indivíduos dotados de elementos formativos que não sofreram influência demasiada dos recursos tecnológicos em seu processo de formação, porém em algum momento de suas vidas se sentiram chamados pelo advento tecnológico. A forma de aprendizagem dos nativos digitais é diferenciada da dos imigrantes digitais. Os nativos utilizam a internet como fonte de pesquisa e buscam informações, através do processo de investigação. Utilizar blogs e diversos sites para os nativos digitais é o mesmo que comunicação face a face, situação esta não muito considerada para o progresso do processo de ensino-aprendizagem pelos imigrantes digitais. Como explicita Prensky:

Os imigrantes digitais não acreditam que os seus alunos podem aprender com êxito enquanto assistem à TV ou escutam música, porque eles (os imigrantes) não podem. É claro que não — eles não praticaram esta habilidade constantemente nos últimos anos. Os imigrantes digitais acham que a aprendizagem não pode (ou não deveria) ser divertida. Por que eles deveriam? Eles não passaram os últimos anos aprendendo com a Vila Sésamo (PRENSKY, 2001, p. 3).

Tecnologias na educação:potencialidades e contribuições

A partir da invenção do quadro-negro, evoluindo para a utilização do projetor de transparências, da fotocopiadora, do videocassete, do DVD e do datashow, a tecnologia era vista em sala de aula apenas como uma transmissora de informações. Em virtude da disseminação dos computadores em nosso século e dos programas interativos, os desafios aumentaram, e uma das questões é como acessar as informações.

Para começar, é importante olharmos para como produzimos conhecimento contemporaneamente. Processos mais coletivos e, principalmente, colaborativos estão presentes, cada vez mais intensamente em todos os campos da ciência e da divulgação destas informações, que passam a se dar, essencialmente, em rede (PRETTO, 2013, p. 79).

A tecnologia mudou muita coisa na vida do cidadão, alterando seus hábitos de consumo, produção e interação, remetendo-a a ser pensada e utilizada no processo de ensino. De acordo com Blanco e Silva (1993, apud ALVES, 2009), a etimologia do termo tecnologia origina-se do grego téchne (arte, ofício) e logos (estudo de), retratando a fixação dos termos técnicos, designando os utensílios, as máquinas, suas partes e as operações dos ofícios.

Antes buscava-se ensinar com o apoio do computador, quando ele chegou à escola, hoje a intenção é outra. O objetivo é utilizar a tecnologia para educar, primando em superar desafios educacionais, como o da equidade, da qualidade e da contemporaneidade.

As mudanças demorarão mais do que alguns pensam, porque nos encontramos em processos desiguais de aprendizagem e evolução pessoal e social. Não temos muitas instituições e pessoas que desenvolvam formas avançadas de compreensão e integração, que possam servir como referência. Predominam a média, a ênfase no intelectual, a separação entre a teoria e a prática (MORAN, 1999, p. 2).

Na busca de estabelecer a equidade, é preciso ampliar o acesso ao conhecimento e a todos os recursos que estejam disponíveis, de forma que os diversos ritmos de aprendizagem sejam respeitados. Já na efetivação da qualidade, esperam-se recursos interativos e dinâmicos que ajudem o aluno a compreender o que utiliza e aprende, de forma que o mesmo adquira autonomia. É necessária uma aprendizagem que dialogue com os jovens no novo século, os quais estão sendo mediados pela tecnologia.

No nível da informação e da comunicação, as novas tecnologias têm um papel relevante para a formação de uma sociedade civil cada vez mais ampla e mundializada. Tanto o movimento altermundialização quanto as redes de movimentos específicos têm se beneficiado desses recursos não só para a comunicação inter-rede, mas também na construção de uma rede de simpatizantes, de solidariedade e na formação de uma “opinião pública mundial” e (ou) latino-americana, a partir de uma sociedade civil crítica (SCHERER-WARREN, 2008, p. 513).

Pensar a educação sem tecnologias não é algo cabível no contexto social em que o mundo se encontra, não mais se pensa ou planeja qualquer atividade didática sem auxílio do computador, os diversos softwares substituíram pilhas e pilhas de papel, poupando tempo e facilitando a vida administrativa e do profissional da educação. A internet é tida como um elemento indispensável na pesquisa e elaboração de projetos didáticos. Portanto, a tecnologia e seus recursos ocupam diversos espaços da instituição escolar, podendo ter todo seu “poder” potencializado e aplicado na sala de aula. Sendo assim, Tedesco apud Ribeiro, Castro e Regattieri diz que:

A incorporação das novas tecnologias à educação deveria ser considerada como parte de uma estratégia global de política educativa e, nesse sentido, destaca que “as estratégias devem considerar, de forma prioritária, os professores”, pois “as novas tecnologias modificam significativamente o papel do professor no processo de aprendizagem e as pesquisas disponíveis não indicam caminhos claros para enfrentar o desafio da formação e do desempenho docente nesse novo contexto” (TEDESCO, 2004, p. 11 apud RIBEIRO, CASTRO E REGATTIERI, 2007, p. 10).

Não é mais concebível uma educação tradicionalista que impõe, dita regras e valores a serem cumpridos. Os alunos têm que saber o porquê de cada proposta e como eles podem participar delas, aprender por aprender não faz mais parte da realidade do alunado. São muitos os atrativos desse mundo, que com tanto aperfeiçoamento os temos dispostos na palma de nossas mãos, se tornando difícil e até impossível prender a atenção do aluno em aulas com objetos obsoletos e ultrapassados. A escola não pode ficar de fora, ela tem que procurar acompanhar o ritmo da sociedade, proporcionando aos alunos o conhecimento e contato com diversas tecnologias, se possível as que eles ainda não conheçam, o que fará com que se sintam atraídos pelo ambiente escolar. Tal exposto é confirmado por Porto:

Novas formas de pensar, de agir e de comunicar-se são introduzidas como hábitos corriqueiros. Nunca tivemos tantas alterações no cotidiano, mediadas por múltiplas e sofisticadas tecnologias. As tecnologias invadem os espaços de relações, mediatizando estas e criando ilusão de uma sociedade de iguais, segundo um realismo presente nos meios tecnológicos e de comunicação (PORTO, 2006, p. 1).

É sabido que não só os alunos, mas todo e qualquer ser dotado de inteligência consegue aprender com o que está lhe prendendo atenção. Porém, será que a escola, os profissionais que a compõem e todo o sistema estão preparados para proporcionar tal mudança? Segundo Ribeiro (2007, p. 9), a escola, em especial a escola pública, “ainda é um lugar que pouco prepara os jovens para o uso e a produção ‘conscientes, críticos e ativos’ de tecnologias”.

A inserção da tecnologia na escola junto com os nativos digitais torna necessária uma mudança gradativa no papel do professor. Percebe-se que o professor está deixando de ser um agente disciplinador e transmissor absoluto do conhecimento para ser um agente treinador e parceiro, porém essa transformação vem ocorrendo lentamente.

Fazer uso das tecnologias no meio educacional permite uma ligação essencial à questão da qualidade do ensino e da aprendizagem, inclusive porque novas tecnologias permitem aplicabilidades pedagógicas inovadoras que podem contribuir para resultados positivamente diferenciados.

Os meios de comunicação, principalmente a televisão, desenvolvem formas sofisticadas multidimensionais de comunicação sensorial, emocional e racional, superpondo linguagens e mensagens, que facilitam a interação com o público. A TV fala primeiro do “sentimento — o que você sentiu”, não o que você conheceu; as ideias estão embutidas na roupagem sensorial, intuitiva e afetiva (MORAN, 1999, p. 4).

Quando utilizada corretamente, toda ferramenta tecnológica tem potencial para promover a equidade e qualidade educacional, desfazendo barreiras entre a escola e o universo do alunado. É o momento de transformarmos a maneira como se aprende nas escolas; a tecnologia está mudando tudo o que produzimos, consumimos, a forma como nos relacionamos; até o exercício de nossa cidadania está sendo auxiliado pela tecnologia.

Porém, a presença das tecnologias no âmbito educacional não é o suficiente, a escola tem que levar em consideração as mudanças do espaço escolar com a chegada das tecnologias, a formação continuada dos educadores, a criação e o fortalecimento das redes de aprendizagem, infraestrutura, manutenção e avaliação de todo o processo.

Ressignificação dos papéis de educador e educandona sociedade da informação

Observando o cotidiano, nota-se que do amanhecer ao entardecer os indivíduos da nova sociedade estão cercados de diversas tecnologias em ascensão. Portanto, nada mais natural do que utilizar esses recursos na sala de aula.

Segundo Gomes (2010, p. 6), a ressignificação de papéis ocorrerá quando se repensarem a educação e a escola, a partir de uma dimensão emancipatória, a qual implica problematizar as solicitações globais, que estão determinando o perfil do aluno em formação.

De forma bem tímida, pode-se afirmar que mais de 80% dos jovens acessam a internet ao menos uma vez na semana. Fato esse que os torna meramente “seres digitais”, denominados de imigrantes e nativos digitais, como foi explicitado anteriormente, e requer das instituições um novo fazer educacional voltado para a tecnologia e esse novo perfil de aluno. Tal percepção por parte do professor o levará a trilhar um caminho não sistêmico e focado na ressignificação, levando-o à ação-reflexão-ação numa óptica sócio-histórica do ser em formação.

Schmitt (2011, p. 60) diz que uma abordagem reflexiva atribui valor ao processo de construção do conhecimento tanto pessoal quanto profissional do professor, agregando legitimidade ao solo epistemológico que fundamenta suas práxis. Assim, o professor sai de sua função de mero transmissor de conhecimento, alguém que ensina a aprender, e passa a assumir o papel de aprendiz junto a seus alunos e colegas em situações diversas do cotidiano, ou seja, aprenderá através da reflexão da socialização de conhecimentos.

A definição de professor reflexivo surgiu na América do Norte, precisamente nos EUA, como reação à concepção tecnicista da formação do professor pelo autor John Dewey, ao caracterizar o pensamento reflexivo como algo incentivador de melhores práticas docentes. Dewey apud Silva et al. diz que:

É penoso, porque exige que triunfemos sobre nossa inércia, que nos inclina a aceitar as sugestões apenas pelo valor superficial, ele implica em suportar de boa vontade um estado de inquietação e de conturbação mental. Duvidar e evitar as conclusões prematuras, continuando-se, ao mesmo tempo, a proceder à investigação sistemática (DEWEY, 1953, p. 16. apud Silva et al., 2012, p. 6).

Refletir através da autonomia tornou-se elemento propulsor do contexto educacional internacional no final do século XX. Quando se desenvolve a prática pedagógica à luz da óptica reflexiva, ela não se baseia apenas na teoria, tampouco desconsidera
o entorno da escola.

A transformação da prática dos professores deve se dar, pois, numa perspectiva crítica. Assim deve ser adotada uma postura cautelosa na abordagem da prática reflexiva, evitando que a ênfase no professor não venha a operar, estranhamente, a separação de sua prática do contexto organizacional no qual ocorre. Fica, portanto, evidenciada a necessidade de realização de uma articulação, no âmbito das investigações sobre prática docente reflexiva, entre práticas cotidianas e contextos mais amplos, considerando o ensino como prática social concreta (PIMENTA, 2002, p. 24).

A prática reflexiva permite ao professor um papel ativo na formulação dos objetivos e meios de trabalho, percebendo que os professores possuem teorias que auxiliam e contribuem para a construção de conhecimento sobre o ensino. Assim, nota-se que após a discussão e reflexão surgem novas propostas voltadas para a reconstrução do fazer pedagógico. Freire (1996, p. 44) diz que a reflexão crítica sobre a prática é um dos principais momentos na formação do professor: “É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática”

Para Lago (2003, p. 216), estamos convivendo como ciberalunos, com cibercrianças, ciberadolescentes, conectados em aparelhos e eletronicamente enraizados. É impossível se dar aula hoje como se dava há 10 anos atrás, os jovens e as crianças são outros, e os professores precisam se transformar para seguir essa mudança.

Quando educadores e psicólogos apresentam o ¨aprender a aprender¨ como síntese de uma educação destinada a formar indivíduos criativos, é importante atentar para um detalhe fundamental: essa criatividade não deve ser confundida com busca de transformações radicais na realidade social, busca de superação radical da sociedade capitalista, mas, sim, criatividade em termos de capacidade de encontrar novas formas de ação que permitam melhor adaptação aos ditames capitalistas (DUARTE, 2001 apud CARVALHO, 2012, p. 75).

Não cabe mais às escolas manterem-se numa posição engessada e irrefutável. A instituição precisa modernizar-se e acompanhar a sociedade; é óbvio que o aluno aprende mais quando o objeto de estudo lhe prende a atenção. Mas a questão é: como estamos nós professores, escolas e sistema de ensino? Será que estamos preparados (formados) para enveredar nessa nova sociedade do saber?

De acordo com Alves (2009, p. 39), o professor só assumirá um novo papel se a sua formação inicial e continuada atribuir a ele um domínio significativo sobre os diversos instrumentos tecnológicos usados na sua prática pedagógica, bem como demonstrar flexibilidade em relação às mudanças que as novas tecnologias proporcionam. Porém, todo esse aparato tecnológico só terá validade se os professores mantiverem o objetivo principal: a aprendizagem. Confirmando o que foi exposto acima, Valente (1999, p. 6) diz que::

A escola é um espaço de trabalho complexo, que envolve inúmeros outros fatores, além do professor e alunos. A implantação de novas ideias depende, fundamentalmente, das ações do professor e dos seus alunos. Porém essas ações, para serem efetivas, devem ser acompanhadas de uma maior autonomia para tomar decisões, alterar o currículo, desenvolver propostas de trabalho em equipe e usar novas tecnologias da informação (VALENTE, 1999, p. 6).

Sendo assim, a escola não pode ser vista como um setor industrial, onde o aluno é tido como “mercadoria” a ser produzida e fiscalizada. Como bem exemplifica Valente a seguir:

A Educação no paradigma fordista é baseada no “empurrar” a informação para o aluno. A escola pode ser vista como uma linha de montagem, em que o aluno é o produto que está sendo educado ou “montado” e os professores são os “montadores, que adicionam informação ao produto. Além disso, existe a estrutura de controle do processo de “produção”, formada por diretores, supervisores que verificam se o “planejamento da produção”, traduzido em termos de métodos, currículo e disciplinas, está sendo cumprido. A educação atual opera com base no racional, em que, se tudo for realizado de acordo com o plano, a linha de montagem deve produzir alunos capacitados. Caso contrário, existem as ações corretoras, como a recuperação ou a repetência (VALENTE, 1999, p. 4).

Com relação às mudanças cabíveis à educação dentro deste cenário tecnológico, onde toda a sociedade está sendo condicionada por uma cultura digital, deve-se lembrar o que disse Lévy (1999, p. 33) quando recomendou que se aprenda “[...] com o movimento contemporâneo das técnicas”, considerando as características inatas da tecnologia na sociedade digital, verificando as possibilidades de ressignificação dos métodos educacionais, fazendo com que o professor e o aluno aprendam juntos a partir das dificuldades digitais impostas durante o processo educativo.

Referências

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