Edição 63

Espaço pedagógico

Como falar de morte para a criança? A dor infantil…

Rosangela Nieto de Albuquerque

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Certamente esse assunto é bem complexo e delicado para pais e escola trabalharem com as crianças, pois envolve crença, religião, maturidade e questões emocionais. Os pais tentam evitar que seus filhos sofram, e, quando ocorre algum caso de morte na família, as crianças pequenas costumam ser deixadas à parte do assunto, pois, acreditase, não possuem maturidade suficiente para entender o que aconteceu.

Segundo Freud, em sua obra Nós e a Morte:

Nós, criaturas civilizadas, tendemos a ignorar a morte como parte da vida… no fundo ninguém acredita na própria morte nem consegue imaginá-la. Uma convenção inexplícita faz tratar com reservas a morte do próximo. Enfatizamos sempre o acaso: acidente, infecção, etc., num esforço de subtrair o caráter necessário da morte. Essa desatenção empobrece a vida…

A dificuldade de abordar o assunto com as crianças está diretamente relacionada à negação do próprio adulto em lidar com a morte. Para Freud, o homem percebe que sua preocupação com a questão da morte tem base não apenas no declínio da condição biológica, mas também está fortemente calcada na questão da guerra e sua capacidade destrutiva além da morte.

A propósito, Freud chama a atenção para o fato de que nossa atitude civilizada perante a morte é muito irreal e que “vivemos psicologicamente acima de nossos meios”, enquanto deveríamos conceder um espaço maior em nossas vidas para a morte, para que a vida se tornasse suportável conscientemente, embora sabendo de sua finitude e de suas consequências.

A morte cerca o nosso mundo, e a criança percebe isso. Ela vê, escuta e sabe o conceito do que é acabar. As perguntas sobre a morte iniciam-se por volta dos 5 anos. A notícia da perda deve ser dada de forma direta, não importa a idade da criança, utilizando-se a palavra morte e deixando claro que se trata de um acontecimento irreversível.

Na tentativa de proteção emocional da criança, muitos pais ocultam ou procuram disfarçar o tema com o intuito de poupar os pequenos do sofrimento e, muitas vezes, optam por não falar no assunto, o que poderá causar uma série de traumas em crianças que perderam algum ente querido. Na verdade, uma boa comunicação com a criança certamente contribuirá para a superação da perda.

É comum as famílias utilizarem eufemismos — como “Vovô está vivo em outra dimensão”, “Mamãe foi morar com papai do céu”, “Totó foi para o paraíso dos cachorrinhos”, “Fulano virou estrelinha” ou “Foi viajar” — na tentativa de amenizar o sofrimento e articular a compreensão da criança; isso, no entanto, poderá criar expectativas de que a pessoa irá voltar.

É importante enfatizar que, se conversarmos com a criança de forma sincera e simples, permitindo seu luto, certamente oportunizaremos o seu desenvolvimento de aceitação
da perda. A não exposição da verdade levará à quebra da confiança, pois, à medida que a criança for crescendo, perceberá que não era verdade o que contaram para ela.

Os pais ou responsáveis devem abordar a questão da morte com delicadeza e sutileza, contextualizando a realidade. É importante explicar com exemplos concretos — respeitando a idade da criança, fazendo uma relação com a vida —, dizendo, por exemplo, como acontece com a planta, que nasce, cresce e depois morre.

O ocultamento da verdade ou a suavização ao falar da morte pode deixar a criança confusa. Segundo Célia Maria Ferreira da Silva Teixeira, inventar argumentos pode constituir algo “desastroso”. À medida que a criança cria fantasias acerca do retorno do ente querido, ela poderá ter pensamentos autodestrutivos, acreditando que, se morrer, poderá se juntar a ele.

A relação de compreensão da morte pelas crianças

Uma criança de 2 anos, ainda vivenciando as representações, a fantasia, a imaginação e os pensamentos mágicos, pode pensar que não existe finitude, pois, através de sua capacidade imaginativa, aquele ente querido poderá voltar, assim como acontece nos contos infantis. Em sua fantasia e imaginação, é capaz de atribuir vida ao morto, consequência do animismo infantil; para ela, a morte é algo impossível e abstrato.

As crianças de até 3 anos não conseguem perceber claramente que a morte é definitiva e irreversível, mas entendem que essa perda ocasionará a ausência das brincadeiras com aquele ente que morreu. As mais velhas percebem que a morte é algo natural, mas precisam de explicações concretas para entender como a pessoa que morreu não vai mais estar entre nós.

A morte é compreendida por uma criança a partir dos 5 anos, conforme o seu desenvolvimento cognitivo, no que tange à possibilidade de assimilar a irreversibilidade e a noção desse conceito. Assim, as reações de uma criança diante da morte dependerão também do seu desenvolvimento psicológico. Além disso, crianças muito pequenas não percebem a morte como definitiva e irreversível, somente por volta dos 10 anos é que são capazes de reconhecer a morte como algo finito e de degeneração do corpo.

A partir dos 7 anos, período em que a criança começa a aumentar as relações e os vínculos sociais (na escola, principalmente), passa a sentir mais intensamente as perdas fora do círculo familiar. Assim, com a possibilidade de compreender as questões infralógicas e assimilar os processos de reversibilidade e irreversibilidade, ela passa a compreender melhor a morte e é possível falar mais abertamente sobre o assunto. Portanto, é a partir dos 12 anos que todo o processo de morte pode ser entendido pela criança. Dar oportunidade à criança de participar do luto familiar será importante; levar em conta o desenvolvimento psicoafetivo e a idade da criança irá possibilitar o entendimento sobre a perda.

Como abordar o tema em sala de aula?

A melhor maneira de a criança entender o que é a perda é explicar de uma maneira lúdica. O professor deve contar a verdade e estar preparado para as múltiplas perguntas, por exemplo, “Para onde ele foi?”, “Com quem estará?”. Nesse momento, o professor deverá usar a criatividade, poderá utilizar a técnica de contação de histórias — há vários livros que abordam o assunto —; nessa hora, o simbolismo é fundamental.

Segundo Bromberg, quem enfrenta a tristeza de uma morte vivencia o luto até a perda ser “aceita”. Para auxiliar a enfrentar essa fase, é preciso falar com sinceridade. Respostas fantasiosas tendem a prolongar o sofrimento.

É uma coisa curiosa, a morte [...] Todos nós sabemos que o nosso tempo neste mundo é limitado e que eventualmente todos nós acabaremos embaixo de algum lençol para nunca mais despertar. E, no entanto, é sempre uma surpresa quando isso acontece com alguém que conhecemos. Lemony Snicket

Embora as crianças pequenas ainda não compreendam inteiramente a ideia de morte, o assunto deve ser discutido na escola para que elas tenham a oportunidade de trocar opiniões com os colegas e também de encontrar apoio para encarar o sofrimento.

Em geral, o ponto crítico se dá com a morte de um familiar ou de uma pessoa próxima, mas também pode ocorrer em casos como a separação dos pais, a morte de uma personalidade famosa e até uma mudança brusca, como a troca de cidade ou de escola. Todas essas situações geram dificuldades para as crianças.

Para Torres, como o comportamento das pessoas ao redor interfere no enfrentamento das perdas, uma intervenção adequada no momento certo é de grande importância, podendo ajudar no encaminhamento do luto e no restabelecimento das condições emocionais dos pequenos.

O principal requisito para uma atuação eficaz é se apoiar na verdade. Afinal, uma informação distorcida pode interferir na conscientização da perda e na sua aceitação. “A morte faz parte do processo da vida.”

Morin enfatiza a importância da discussão do tema na escola, que certamente ajudará a lidar com a situação. É preciso levar em conta diversos fatores que dizem respeito principalmente à fase de desenvolvimento em que cada criança se encontra e ao ambiente que a cerca. Trabalhar otema em sala de aula não é nada fácil, deve-se respeitar as escolhas da família e da criança, considerar sua faixa etária, mostrar a dimensão cultural da morte e minimizar os efeitos do luto no aprendizado. É normal que as crianças apresentem explicações para a morte baseadas na religiosidade, nas crenças e na cultura da família. O professor deve aceitar a argumentação, mas, se for indagado sobre o ocorrido, seu papel é responder da maneira mais objetiva — a ideia é ajudar o pequeno a se conscientizar da perda.

Por mais que seja difícil, é preciso mostrar a morte como algo inevitável. Essa postura deve ser explicitada nas conversas com os pais — em encontros, reuniões —, portanto, é preciso considerar que os próprios familiares, fragilizados, apresentem dificuldade em lidar com a questão. A escola deve se aproximar, oferecer ajuda, promover a humanização, pois a criança passa grande parte do dia no ambiente escolar; talvez ela encontre respostas primeiramente na escola, pois a família está fragilizada. A escola, ao perceber que as dificuldades emocionais estão exageradas, então, deverá orientar o acompanhamento de um profissional da Psicologia.

É inegável que devemos considerar a faixa etária de cada aluno. Desde pequena, a criança já entende a ideia da morte — o que muda ao longo dos anos é a concepção dela sobre a perda. Até os 5 anos, a criança considera a morte reversível, pois sua noção de irreversibilidade ainda não está maturada. Depois, começa a entender a finitude, mas ainda não a concebe como universal — acha que ela não pode vir para alguém jovem, por exemplo. Nesse sentido, a participação em rituais como velórios e enterros, ainda que dolorosa, é importante para auxiliar na complexa construção do que significa a morte.

Para Kübler-Ross, é importante que a escola mantenha um diálogo aberto com a família e a criança, num processo dialético, pois precisam de alguém em quem confiem e que lhes dê a abertura para falar, questionar e até pedir apoio emocional. Trabalhar com a classe irá ajudar no acolhimento da criança, e é comum que os colegas se abatam também, pois acabam se identificando. “Compreender o que está se passando com a classe e com a criança enlutada é necessário para auxiliar o professor a lidar com a dinâmica da sala.”

A preocupação com o desempenho escolar é fundamental. Com um trabalho em equipe multidisciplinar, professores, coordenadores, diretores, psicólogo escolar, educadores, etc., juntos, devem buscar alternativas didáticas (técnicas metodológicas diferenciadas) para auxiliar no desenvolvimento da aprendizagem nesse período. Naturalmente, em sala de aula, as crianças reagem de maneiras diversas: choro, sonolência, dificuldade de concentração e desinteresse, entre outros comportamentos, são maneiras de mostrar o momento de dor e que a situação não é fácil.

O papel da escola

A relação direta da escola com a família é essencial. É comum professores não saberem como agir no dia a dia em sala de aula, nas festividades e no período do Dia das Mães ou Dia dos Pais. O caminho a percorrer é conversar sobre os sentimentos da criança.

Não há regras impostas, cada criança tem uma sensibilidade diferente; o importante é o círculo de convívio afetivo dela — pais, irmãos, colegas, professores, educadores devem participar do luto com a criança. Não há tempo previsível para o término do luto. O fato é que, quando se lida bem com ele, ele passa. Ao perceber-se acolhida, a criança amadurece com mais facilidade, a ideia da perda se constitui num significado da vida, e, aos poucos, volta-se à rotina. Claro que podem ocorrer recaídas. Passado certo tempo após a elaboração do luto, é comum que ela relembre a morte e retome alguns sentimentos de tristeza intensa. Essa situação pode ser mais ou menos marcante, de acordo com a superação do luto. Certamente, o trabalho em conjunto com a família ajuda a superar a crise com mais facilidade, principalmente quando envolve crianças muito pequenas.

Assim como os adultos, as crianças passam pelo processo de luto, que tem diversas fases: inicialmente é a negação, fase de muitas perguntas; posteriormente, uma tristeza profunda; e, em seguida, a aceitação. Portanto, se após uma perda a criança ficar mais agressiva ou isolada, chorar à noite antes de dormir ou apresentar comportamento regressivo, estes são comportamentos normais. Os educadores devem ficar alertas: em caso de exagero de tristeza, encaminhar a criança para acompanhamento psicológico é primordial.

Referências bibliográficas

ÁRIES, P. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

BROMBERG, M. H. P. F. Ensaios sobre Formação e Rompimento de Vínculos Afetivos. Taubaté: Cabral. Editora Universitária, 1998.

FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XIV, Imago. Rio de Janeiro, 1914 – 1916.

KÜBLER-ROSS, E. Sobre a Morte e o Morrer. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

MORIN, E. O Homem e a Morte. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

TORRES, N.C. O Conceito de Morte na Criança. Arquivos Brasileiros de Psicologia. Out./dez., 1979, 31 (4): 9–34.

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