Edição 60

Como mãe, como educadora, como cidadã

Como mãe, como educadora, como cidadã

Querido leitor. Querida leitora.

Saudações fraternas.

Gostaria de compartilhar com vocês uma experiência muito gratificante que aconteceu comigo e com meus filhos.

Entre os muitos finais de semana em que fomos jantar, um foi inesquecível para mim.

Tudo aconteceu quando chegamos à pizzaria. Na entrada, um menino que estava vendendo flores se aproximou e perguntou: “A senhora deseja comprar rosas para alegrar ainda mais a sua vida?”. Sorri para ele e disse-lhe que compraria na saída, e sorri novamente. A essa altura, meus filhos já haviam entrado na pizzaria e corrido para os brinquedos.

Aproveitei esse momento e fiquei conversando um pouco com Luciano (este era seu nome), que estava com boné e sempre de cabeça baixa. Pedi que levantasse a cabeça, pois só quem fica de cabeça baixa quando está conversando é quem geralmente faz coisas erradas e não assume o que faz, e não era o caso dele, pois ele estava trabalhando para ajudar em casa, mesmo sabendo que não tinha idade e que naquela hora deveria estar em casa com os pais. Ele me informou que era de uma família de cinco irmãos, que sua mãe teve que sair de casa, pois seu pai, sempre que bebia, batia nela e nos filhos e que agora eles tinham que trabalhar. Falei da Lei Maria da Penha. Percebi que ele a conhecia, mas me fez parar quando disse: “Minha mãe ama muito meu pai e não quer vê-lo preso, preferiu se separar”.

A conversa estava boa, mas precisava entrar para ver meus filhos. Resolvi, então, convidá-lo para comer pizza conosco. De imediato, ele falou: “Moça, os homens aí não vão deixar eu entrar”. Logo, lembrei da música Cidadão, de Zé Ramalho.

“Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar…”

Insisti dizendo que ele era meu convidado e que ninguém poderia impedi-lo. A essa altura já estava começando uma linda amizade.

Entramos na pizzaria, coloquei na minha bolsa a garrafa pet cortada com as flores e fomos procurar os meninos. Depois, fomos todos sentar e apresentei Luciano aos meninos. No primeiro momento silêncio absoluto. Aproveitei e falei um pouco sobre Luciano, querendo sensibilizá-los. Disse que a vida do menino era bem diferente da deles, já que precisava ajudar em casa.

Coloquei Luciano sentado do meu lado, quis passar segurança para ele. Num determinado momento, falei baixinho em seu ouvido: “Tire o boné.”
Ele respondeu também baixinho: “Não posso.”
“Não pode por quê?” “Porque sou uma menina.”

Menina? Eu estava surpresa. Ele, agora, era ela. Tinha dez anos e usava roupa de menino para que, nos sinais de trânsito ou em frente aos estabelecimentos, os homens não desejassem estuprá-la. A pizza chegou, paramos a conversa. Enquanto comia fiquei refletindo sobre a vida de muitos Lucianos e Lucianas, que têm seus direitos violentados e que lutam por um espaço na sociedade.

Pensei nessa mãe, que sofre por ter que colocar seus filhos nas ruas para ganhar um pouco de pão e que tem seus direitos desrespeitados.

Em que tipo de sociedade vivemos e que futuro terão nossos filhos?

Terminamos de comer a pizza, perguntei a Luciana se ela desejava mais alguma coisa. Ela pediu para levar um pedaço de pizza para sua irmã, que estava em outro sinal e com certeza estava com fome.

Comprei todas as rosas de Luciana e ofereci-me para levá-la até sua irmã. Ela concordou.

Quando chegamos ao sinal, Luciana agradeceu. Pedi que apresentasse sua irmã, que também estava de boné. Quando perguntei seu nome, ela respondeu: “Lúcio”. Perguntei: “Lúcio ou Lúcia?”.Ela, sorrindo, respondeu: “Lúcia.”

Não tive mais oportunidade de vê-las, mas tenho a certeza de que com uma mãe tão especial e com as graças de Deus, estão bem. Oro sempre pedindo por todas as famílias que precisam de proteção e peço por meus filhos. Que tenham a sensibilidade de ver nos olhos dessas crianças de rua um aprendizado para sua vida.

Obrigada a vocês, Luciana e Lúcia, por me fazerem uma pessoa melhor.

Zeneide Silva

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