Edição 57

Professor Construir

Como se avalia a produção textual dos alunos do Ensino Médio

Ednaldo Gomes da Silva

Numa perspectiva da aprendizagem como processo pessoal, em que alguém constrói o conhecimento sobre determinado objeto, quem aprende não pode ausentar-se nem sequer ser apenas espectador de sua avaliação. Isso significa admitir que qualquer prática de avaliação escolar deve incluir a dimensão da autoavaliação. Nada pode dispensar o olhar do aprendiz sobre seu próprio processo de aprendizagem. Ninguém poderá dispensá-lo de, ele próprio, voltar-se para a atividade ou para as produções apresentadas, a fim de ponderar sobre as condições de sua qualidade ou de sua consistência.

Não tem sentido dispensar o próprio aluno desse papel de avaliador e eximi-lo de ser capaz de julgar a propriedade ou a adequação de seus desempenhos. Nas escolas, a avaliação que mais se destacou foi a pontual, feita nos dias de prova, nos dias de exame para atribuição de notas. O erro ganhou, no universo escolar, um lugar de destaque.

Dessa forma, avaliar passou a ser identificado como tarefa de correção. Assim, os alunos, quando querem saber se já foram avaliados, perguntam se as provas já foram corrigidas. De fato, o ato de corrigir implica, naturalmente, o erro, Como se avalia a produção textual dos alunos do Ensino Médio pois ninguém corrige o que está certo. Ou seja, professor e aluno já assumiram o contrato de se fixarem no erro, naquilo que precisa ser corrigido. É assim que, na correção dos textos, cada um só tem olhos para os erros, para aquilo que constitui alguma violação. Avaliar uma redação se reduz ao trabalho de apontar erros, de preferência aqueles que se situam na superfície da linha do texto. Nessa perspectiva de apenas focalizar o erro, professor e aluno perdem a oportunidade de perceberem também o que já foi aprendido, o que já pode ser testado como competência desenvolvida.

Os textos dos alunos, mesmo os do Ensino Médio, se apresentam com imensas dificuldades, não apenas linguísticas, e, no entanto, a escola continua não priorizando a produção de textos ou não priorizando a exploração das regularidades discursivas. Continua a comentar que os alunos não sabem escrever, que são vergonhosos seus textos. Ou seja, a escola continua agindo como se nada dissessem esses textos, ignorando os sinais que se evidenciam nas atividades de avaliação. Nessa trilha, é preferível apresentar as “fórmulas” a considerar as possibilidades de interpretação e as maneiras de elaboração do texto. Os elementos de textualização cercam todas as propriedades dele (intertextualidade, informatividade, coerência, coesão) e todos os processos e as estratégias na construção sequencial do texto. Especificamente, condicionam as situações e as regularidades de como funcionam sua estrutura. Dessa forma, pode-se afirmar que um conjunto de palavras, para ser um texto, precisa, de alguma forma, estar encadeado, articulado, concatenado, promovendo a sua coesão e, em parte, a sua coerência.

A priori, o próprio texto não aceita definição pronta, inacabada. Até porque ele vai depender das concepções que se adotam para o que é língua e, consequentemente, sujeito. Por exemplo, na concepção de língua como representação do pensamento e de sujeito como senhor absoluto de suas ações e de seu dizer, o texto é visto como um produto lógico do pensamento (representação mental). Na concepção de língua como código, como mero instrumento de comunicação, e de sujeito como predeterminado pelo sistema, o texto é visto como simples produto da codificação de um emissor a ser decodificado pelo leitor/ouvinte, bastando para este o conhecimento do código, já que o texto, uma vez decodificado, é totalmente explícito. Já na concepção interacional dialógica da língua, na qual os sujeitos são vistos como atores construtores sociais, o texto passa a ser considerado o próprio lugar da interação, e os interlocutores, sujeitos ativos que, dialogicamente, nele se constroem e são construídos.

O sentido de um texto, qualquer que seja a sua situação comunicativa, não depende tão somente da estrutura textual em si mesma. Os objetos de discursos a que o texto faz referência são apresentados, em grande parte, de forma lacunar, permanecendo muita coisa implícita. O produtor de um texto pressupõe, da parte do leitor/ouvinte, conhecimentos textuais situacionais e enciclopédicos. Entrelaçados a esses eixos, encontra-se, de forma muito sincronizada, o contexto situacional permanente no texto, o qual interliga o percurso discursivo, inferindo as ideias dialogicamente nele percebidas. Nessas perspectivas é que Van Dijk diz que o contexto é como um conjunto de todas as propriedades dasituação social que são sistematicamente relevantes para aprodução, a compreensão ou o funcionamento do discursoe de suas estruturas. A escrita é uma atividade processual,ou seja, uma atividade durativa, um percurso que se vaifazendo pouco a pouco, ao longo de nossas reflexões, denosso acesso a diferentes fontes de informação. E é por issoque quem lê tem a seu benefício o domínio linguístico, passandoa se expressar com maior riqueza de detalhes, maiscriatividade e clareza. Por outro lado, quem nunca lê ou lêpouco pode até falar muito, mas sempre vai dizer pouco,porque dispõe de um repertório mínimo de palavras para seexpressar. A leitura é, na verdade, uma atividade que mobilizanosso repertório de conhecimentos e, por isso mesmo,não pode ser improvisada, não pode nascer inteiramentena hora em que se começa a escrever. O pouco êxito conseguidocom a escrita de textos na escola se explica muitopela visão estática e pontual da escrita, como se escreverfosse apenas um ato mecânico de fazer alguns sinais sobrea folha de papel e, assim, um ato que começa e termina nointervalo de tempo que foi dado para se escrever. As dicasde como redigir um texto — como escolher um bom começo,fazer um belo tópico frasal, evitar períodos longos, nãorepetir demais uma única palavra, evitar chavões — não sãosuficientes para a construção de um texto efetivo na suacomunicação e dialógico idealmente. Tampouco garantem apermissividade para o encadeamento e a articulação coerentee satisfatória para o texto.

O texto não é feito apenas de palavras e, portanto, não écomposto apenas do material linguístico que aparece emsua superfície. Nele, o significado de uma parte depende dasoutras com que se relaciona. O seu significado global não éo resultado da mera soma de suas partes, mas de certa combinaçãogeradora de sentidos. A produção de um texto, dealguma forma, acaba sendo uma maneira de reorganizar opensamento e o universo interior da pessoa. A escrita não éapenas uma oportunidade para que se mostre, comunique,mas também para que se descubra o que é, o que pensa, oque quer, em que acredita, etc. Tudo isso porque todo ato deescrita pertence a uma prática social. Ninguém escreve porescrever. A escrita tem sempre um sentido e uma função.Levar esses princípios em consideração vai implicar umaavaliação multidimensional bem mais ampla e bem maismobilizadora também, pois será constantemente recriadae mobilizará estratégias, recursos e instrumentos diversificados,diferentemente da mesmice com que ela ocorre naspráticas atuais.

Portanto, a avaliação é uma estratégia fundamental no decorrerde qualquer realização. Quando ela está totalmentevinculada à Educação, se incumbe de valores que merecemser destacados e que norteiam a complexidade nela existente.Em se tratando de produção textual, essa complexidadetorna-se ainda mais evidente, em virtude do vislumbramentorudimentar pelo qual a escola vem passando e,consequentemente, também os alunos. De fato, criou-seuma cultura, seguida por muitos docentes, em que a avaliaçãoé um momento para se detectar erros gramaticaistotalmente desvinculados da prática social. Interessante éobservar que, se por um lado a escola não tem culpa, estamuito recai sobre o aluno por não saber fazer um texto oufazê-lo de maneira vergonhosa. O que acontece é que os discentessão conduzidos, ensinados a fazer textos mecânicos,ou seja, tudo é elaborado por meio de uma forma prontana qual os professores apresentam a maneira “adequada”para a formalização de um bom texto. Para isso, justificamque o certo é não usar períodos longos, não ser repetitivonas palavras e estar sempre atento para as regras de concordânciae regência verbal. Pronto! Para alguns adequadoestá o texto com essas características. No entanto, seesquecem de algumas bases linguísticas sociodiscursivas etextualistas, como coerência, coesão e elementos textuaisextratexto, que são responsáveis pela concatenação finalizadorae inteligível para se construir um bom texto. Portanto,não existem e, por isso, não se devem dar fórmulas prontasao aluno; faz-se necessário que este construa seus textosintercalando-os com seus conhecimentos diversos, buscando,no seu mundo de leitura, argumentos que enriqueçam atessitura estrutural na sua produção escrita.

Ednaldo Gomes da Silva é graduado em Letras e pós-graduadoem Língua Portuguesa pelas Faculdades Integradas de Vitóriade Santo Antão (Faintvisa–PE). Atualmente, é professorde Língua Portuguesa do Ensino Fundamental do SistemaEducacional Radar, no município de Vitória, e professor tutorvirtual do curso de Letras da Universidade Federal Ruralde Pernambuco (UFRPE), com a disciplina Estudos Fonéticose Fonológicos da Língua Portuguesa, na Universidade Abertado Brasil (UAB).

Referência bibliográfica

KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. Desvendando os Segredosdo Texto. São Paulo: Cortez, 2006.

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