Edição 64

A fala do mestre...

Como você vê a Educação no Brasil?

Nildo lage

Negar que a Educação no Brasil avançou nas últimas décadas é autocracia… Contudo, evolução sem consenso é desperdiçar recursos, imolar vidas… E, quando se afasta do caminho que conduz à vitória, é o momento de acionar o despertador da razão para despertar governantes que vêm transformando a Educação numa utopia.

Nessas vicissitudes de aprendizagem e desaprendizagem, governo maquia, professor dissimula e o aluno é forçado a se servir de um cardápio adverso à sua cadeia alimentar, pois a família confunde educação com formação, envolvimento e participação com compromisso — e, se a lei não punisse cortando benefícios sociais, a situação seria pior — e, na ânsia de livrar-se das suas responsabilidades, simplesmente assina o boletim no final dos bimestres com um amistoso “Está tudo bem!”.

Completamente exposto às intempéries de uma sociedade telhuda, o sistema de ensino desenha, redesenha, ajusta, reajusta… Recauchuta… Mas não impetra os ingredientes básicos da Educação: valores, ética, respeito… Mesmo consciente de que Educação é um todo e que, sem a junção desse todo, fica impossível abrir uma janela, pois o colapso de paradigmas científicos, as deficiências étnicas e a degradação familiar afastam da sala de aula princípios morais, religiosos e culturais, provocando a cegueira do ensinar bem, impedindo a escola de cumprir o seu papel de integradora em plena era tecno-científica-informacional, em que o conhecimento tornou-se exercício da cidadania.

E assim, década após década… Séculos a fio… A Educação se concentra, recarrega a arma, ajusta a mira e aciona o gatilho, confiante de que, desta vez, alcançará o alvo qualidade para saciar uma sociedade sedenta de Educação. No entanto, as perspectivas se frustram por não atingir a meta formação humana e — fracasso após fracasso… erros sobre erros — não evoluem para se converter na menina dos olhos do governo. Pois esses olhos permanecem vendados, persistindo em acreditar que Educação de qualidade é sinônimo de investimento, para que cifras reflitam nos gráficos uma realidade forjicada.

Deficiência de estruturas governamentais para favorecer as práticas educacionais

Propicia a proliferação dos problemas que acontecem entre diagnósticos inconvenientes e vazamentos de resultados. Seguindo por esse caminho, a desaceleração é fatal. Nessa descida contínua, a queda provocada pela deficiência de políticas educacionais é inevitável. A estatística incomoda e se reflete, principalmente, no vestibular: as nossas escolas oferecem uma formação de Terceiro Mundo e o governo aplica o vestibular com nível de Primeiro Mundo. Só é aprovado aquele que frequentou uma escola particular ou pagou cursos pré-vestibulares para ajustar as falhas deixadas pela escola pública.

E assim a desordem agrava a situação com os equívocos da aquisição pelos municípios de programas educacionais

Por não terem competências para discernirem que tudo o que se constrói estabelece fundamento, fazem da Educação brasileira uma história análoga à do Brasil: o achamento do que não havia sido perdido por alguém que se desnorteou nos próprios caminhos. A nossa Educação, clonada de outros países, busca a edificação numa base que não foi edificada. Essa sequência de erros vem desde os jesuítas, que acreditavam que podiam. Podiam e podiam… Não puderam. Não catequizaram os índios nem alfabetizaram as famílias dos colonos — afinal, para que uma colônia agrícola necessitava de Educação? A força dos braços era o bastante para manusearem a revolucionária caneta “enxada” —, e a expulsão da Companhia de Jesus agravou a situação.

Daí a praxe de receber fórmulas prontas desde a colonização, a ponto de se tornar “cultura latina”; e se ambicionarmos chegar a um patamar que proporcione um ponto de luz no fim do túnel, o Brasil deve se curar da febre provocada pelo vírus da importação de tendências. Pois, desde o liberalismo — quando a formação era o alvo, até o neoliberalismo assumir o comando para desmistificar mitos, evidenciando que o sociointeracionismo seria o caminho para edificar a construção do conhecimento; muitos chegaram a comemorar, acreditando que uma nova era surgia para ampliar os horizontes —, a Educação ficou na mesma.

E, apesar de ser um direito constitucional, a Educação Básica não é encarada com seriedade, e, por sermos carentes de homens que fortaleçam a cultura nacional para que valores sejam inseminados no contexto educacional, ficaremos por mais algumas décadas estagnados. E, como todo segmento que não é levado a sério, os pontos de destaque surgem isoladamente.

SerrNovik_shutterstock__fmtA verdade desse reflexo negativo parte do próprio Ministério da Educação (MEC), que nos revela a triste estatística de que 91% dos alunos que saem do Ensino Fundamental não dominam as habilidades básicas de leitura, não compreendem nem interpretam textos básicos.

Esses números ratificam outros estudos, como o encomendado pela UOL Educação, que teve como referência as notas da Prova Brasil de 2009 — exame da proficiência de alunos das escolas públicas para medir o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgadas em 21 de dezembro do ano passado, revelando que nove de dez alunos das escolas públicas que concluem o nono ano não dominam as quatro operações matemáticas, principalmente as que envolvem centavos ou porcentagens, como declara o economista Ernesto Faria, responsável pelo estudo:

89,4% dos alunos do último ano do Ensino Fundamental tiveram desempenho abaixo do básico e básico na disciplina. Isso quer dizer que tiraram notas menores que 300 na prova — em uma escala que chega a 425 em matemática e a 350 em Português.

E, por termos 80% dos nossos alunos em escolas públicas, a situação é uma vergonha para uma nação que é a sétima economia mundial.

O que fizeram nesse período? Brincaram, pintaram e bordaram para passar o tempo?

Respostas inelegíveis ecoam: O professor desconversa alegando que fez o que estava ao seu alcance, o gestor mais ainda… O governo? Foi além das suas obrigações… Pois seu sistema tem estrutura para oferecer uma Educação de Primeiro Mundo — com escolas modernamente equipadas e ministradas por professoras com formação —, o vácuo deveria ser preenchido pela presença da família… Mas, no fritar dos ovos, sonhos foram comprimidos e caminhadas foram interrompidas pelos objetivos não alcançados, e a crise se alarga, tornando cada vez mais difícil submeter o problema a um raio X para se chegar à raiz da dificuldade, pois a guerra de empurra não tem fim: professores acusam o sistema de negligência: espaço físico inadequado, baixos salários, péssimas condições de trabalho, alta carga horária, inexistência de suporte… Aporte… Sempre na defensiva, o sistema dispara: a deficiência de compromisso do educador é um dos principais fatores da desaceleração da qualidade… E, assim, a Educação avança a passos de tartaruga, proporcionando o seu naufrágio por estar sob o comando de gestores sem supervisão, que desequilibram educadores e deixam educandos perdidos, pois conteúdos e realidade não seguem pelo mesmo caminho.

Qual o alvo almejado pelo Estado através da Educação?

A pergunta ecoa e silencia antes de chegar aos gabinetes. Nenhum envolvido contesta. A Educação no Brasil avançou, mas perdeu a direção ao estacionar no físico: prédios modernos abarrotados de livros, mobílias, tecnologias, material didático, bibliotecas, salas de vídeo, TV, pendrives, computadores… E o professor? O que a Educação está fazendo com esse humano sem autonomia, sem respeito, que vem se tornando o saco de pancada ao permitir ser agredido, sugado, massacrado entre quatro paredes?

Bem que o MEC poderia emergir desse mar de desordens e traçar uma rota definida para determinar onde quer ancorar o barco da Educação. Pois, a partir do instante em que o Brasil decidir aonde quer chegar e canalizar investimentos para esse fim, alcançará índices surpreendentes.

O que tem que parar é de imitar. O que funcionou na Holanda, em Cingapura, pode não funcionar aqui. Os sistemas são completamente diferenciados… O Governo gira o mundo seguindo resquícios de métodos e tendências que funcionem e não para para criar o próprio, o que se enquadra à nossa realidade, nem persiste nas metas, estruturando tecnicamente o seu quadro de educadores. Educação não é uma competição em que troféus elevam a posição no ranking. Estar no topo em qualidade é fundamental, mas clonar um modelo e implantar em solo e clima adversos é perder tempo e dinheiro e sacrificar os 80% de dependentes da Educação pública, que são submetidos a esses testes.

O Brasil está no caminho de se tornar uma potência econômica, e essa alavancada na economia pode ser o momento para que os fazedores de Educação reinventem a história. A hora é agora. A equipe de Governo — mesmo envolta em crises e escândalos — está amadurecida; e, com economia em alta, tudo fica mais fácil. A diferença está na opção decoreba — como na Coreia do Sul — ou liberdade — como na Finlândia — ou assumir o comando da carruagem e determinar que saia do lugar-comum para ampliar os horizontes?

Esse atraso gera outro problema que dificulta o processo ensino-aprendizagem. A escola estagnou no tempo. Pintou a fachada para dissimular, enquanto seus alunos decolam ao encontro do futuro e pousam de iPhone, iPad, tablet, smartphone… Os métodos… Os métodos? Estes retardam, pois chegam de carroça, e o aluno não suporta o excesso de informações fúteis em meio aos conteúdos aplicados, quando poderiam ser sutis com atividades sem tantas repetições e explorar a criatividade — que nessa fase está aflorada —, tornando as buscas objetos de pesquisas, ampliando, assim, os horizontes do conhecimento.

Mas o sistema desconhece os impactos da formação do professor na aprendizagem do aluno…

Temos ciência de que o Sistema de Ensino é falho, que o Governo é omisso, que as famílias fazem vista grossa para não assumir as suas responsabilidades… Mas, quando o alvo é o humano, a maior barreira é o próprio humano, que se torna vítima de uma enfermidade que é a marca do brasileiro: o comodismo. Professor come livros para passar no vestibular ou deixa de comer para pagar a faculdade… Atravessa dias, noites em branco para ser classificado no concurso… Essa zona de conforto — a estabilidade — o faz acreditar que a missão de se tornar educador foi cumprida e passa a ser um cumpridor de calendário… A Educação que se dane ou rebole para atingir metas sem contar com a sua participação.

Como a Educação depende de um conjunto de esforços para atingir resultados, muitos confundem formação com qualificação. Sem direcionamento, a locomotiva educacional se descarrila, e é nessa linha que despontam as dificuldades.

Formação depende, em parte, do Governo, do sistema… Mas o querer do educador em fazer a diferença… Pode ser a diferença. Todavia, professor que não tem ambições de crescer profissionalmente jamais desejará o sucesso do seu aluno.

Sem essa ambição que o impulsiona, o freio de mão é puxado e tudo fica estagnado. E, mesmo na era em que o esporte está em alta, não há avanços, porque a cultura está em baixa, e, com cultura em baixa, professor é uma ação em queda no mercado governamental. E, diante dessa desvalorização, a tendência é o nível cair, pois o investimento no professor está sendo apenas salarial, e, sem o investimento complementar, acontece o que declara Gabriel Chalita no livro Educação Está no Afeto:

A alma de qualquer instituição de ensino é o professor. Por mais que se invista na equipagem das escolas, em laboratórios, bibliotecas, anfiteatros, quadras esportivas, piscinas, campos de futebol — sem negar a importância de todo esse instrumental —, tudo isso não se configura mais do que aspectos materiais se comparados ao papel e à importância do professor.

Professor que, para cumprir a missão, transforma a profissão numa aventura… Uma verdadeira maratona contra o tempo, pois o estresse se inicia antes de pisar no batente da sala de aula: engarrafamentos, ônibus, trens, metrôs superlotados — isso quando não tem que pegar duas, três embarcações. Ao toque do sinal, corre-corre, gritos, indisciplina e violência, que transformam a sala de aula num espaço hostil.

No entanto, professor é super-herói, tem que reter poderes para superar os vilões e proteger as vítimas do descaso político, do abandono social, do desequilíbrio familiar… Afinal, professor é tio, mas, na maioria das vezes, tem que assumir o papel de pai, psicólogo… e… ser professor.

O retorno para casa é uma nova maratona… Em casa, a guerra continua: trabalhos diários para corrigir, filhos. A família… Na vida do professor, o dia é longo… A corrida não pode ser interrompida, pois um bico para complementar a renda familiar o aguarda na escola da outra banda da cidade, e é para lá que ele vai… Ao final do dia, o esgotamento é total: físico, emocional, psicológico… Mas a sala de aula é como o ciclo da vida: não pode ser obstruído… Por isso, é preciso recarregar a bateria para reiniciar tudo de novo no dia seguinte.

O desafio de educar a geração pós-boom tecnológico…

O Governo não se enrubesce ao se adentrar pelos lares sem pedir licença, usando a tecnologia popular — a televisão —, que dita as tendências, transfigura costumes, altera tradições e comportamentos; interrompe a programação em horário nobre para chamar de Tecnologia Educacional o que não passa de computadores instalados numa salinha para fazer marketing do seu grande feito, o Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo), convicto de que está proporcionando suporte e aporte a educadores e educandos, para que não sejam abatidos nem sobressaltados pela revolução tecnológica que invadiu o planeta Educação com sediciosas armas — iPhone, iPad, tablet, palmtop, notebook — obrigando a todos — gestores, especialistas e professores — a colocarem uma viseira 3D para vislumbrarem essas ferramentas como o complemento que necessitavam para redirecionarem os olhares e atenderem aos anseios da Educação.

O Sistema de Ensino brasileiro necessita ser remodelado, ser alfabetizado para ler sem tartamudear o abecedário da comunicação on-line, readaptar-se à realidade do mundo para, assim, educar cidadãos com valores, em pleno boom tecnológico — que compactou o planeta e rompeu a distância entre as pessoas. A Geração Y desfez regras familiares, ultrapassou princípios religiosos, rompeu tabus religiosos e sociais para construir a própria identidade.

Esse livre-arbítrio elevou barreiras que dificultam os professores a transitarem nessas plataformas, e a inseminação do conhecimento não acontece em face da chuva de informações que impedem o crescimento do aluno no espaço escolar pelo fato de Educação, professor, aluno e Governo não falarem o mesmo dialeto.

E, sem dialeto definido, a expressão grafolinguística dominou a sala de aula, contaminando adolescentes, jovens e crianças. Tanta tecnologia desnorteou a escola, que não consegue girar nos eixos norteadores, e mesmo o humano — sendo uma espécie adaptável, gestores, professores — não consegue acompanhar o ritmo devido à falta de intimidade com esses artifícios e se embaraça cada vez mais, a ponto de muitos as descartarem para tomar mão do clássico.

“O brasileiro adere facilmente à tecnologia; é um povo muito aberto à comunicação” — explica Priscyla Alves, gerente de produtos, comunicação e marketing para o Brasil e a América do Sul da Microsoft —, exceto por alguns professores que se confundem nos conflitos do relacionamento entre o humano e a tecnologia e submergem na transição do real para o virtual, fazendo com que o convívio com os alunos seja conflituoso. Pois muitos — analfabetos digitais — não se encontram nesse universo de plataformas onde o novo desponta com um clique, e, por não se identificarem, vivem na era do ecrã se contorcendo como um peixe fora da água e sem direção no centro do próprio ecrã.

O fato é que ecrã e professor não falam a mesma língua, e, assim, o primeiro não obedece ao comando do segundo e, sem sincronia, não há entendimento, mesmo os que vivem nos grandes centros urbanos ainda veem o computador como bicho de outro mundo e não se interessam em tocar nesse monstrengo porque… “Eu tenho medo de clicar em hibernar no computador… Vai que ele só volte a ligar depois de seis meses!”. Ante tanta incompatibilidade, o próprio Windows se envergonha.

O desinteresse é abissal. Muitos acreditam que as tecnologias na Educação chegaram para complicar a vida do professor. Esses reflexos interferem diretamente no ensino-aprendizagem, pois os métodos aplicados não atraem nem estimulam o aluno a se arraigar no seu universo para pousar num espaço sem atrativos.

Todavia, a Educação não sofre apenas com o professor que ainda encara o computador como uma coisa indomável. As tecnologias, na maioria das vezes, não são aproveitadas como ferramentas pedagógicas e empregadas a favor de alunos e professores. Porém, as suas influências vêm se tornando uma arma letal que assassina o português, onde a escrita formal se choca contra o “internetês” a ponto de embaraçar até o professor: “Anotem o meu e-mail pessoal, porque eu não sei escrever aquele tanto de… Vocês entenderam… Foi o meu filho quem criou… então anotem: joão underline silva letra, aquele ‘a’ de rodelinha, hotmail ponto com”.

E, como o sistema não evolui para proporcionar suporte ao professor, a revolução do “internetês” na escola está transfigurando a língua materna. A metamorfose é tamanha que VOCÊ já é grande demais para um universo imaginário, por isso se tornou simplesmente VC, mas se a “tia” achar que naum tá bom, nóis cria um blog e deixa a parada beim!

Esse bilinguismo está dificultando o entendimento professor-aluno. Só que o sistema, a escola… O próprio professor deve entender que essa influência vai transitar pelos corredores e pela sala de aula por muito tempo. Por isso, é aconselhável que se adote essa linguagem — sem preconceitos, exageros e descontrole — para o bom desempenho das aulas. Pois professor plugado entra em sintonia com a turma e não tem que “pagar mico” quando os seus alunos postarem um trabalho no link da escola ou receber um e-mail com um arquivo anexo:

Bom dia!

Aki! Axo que a paradinha ficou blz.

Os 10colados usaram a kbça, buscaram as 9da10 e ficou 10.

Vlw,

Abc da turma e muitos bjus.

Essas ferramentas dominarão a Educação, e chegar aos pontos mais remotos do País — como nos estados do Norte e do Nordeste — será uma questão de tempo. Não demorará a consumação de aulas com alunos plugados na rede mundial de computadores. Portanto, dominar esses recursos será uma questão de sobrevivência na profissão. Professor que não se atirar nesse mundo tecnológico ficará marginalizado.

Mas, se a resistência do professor em buscar o novo imperar, as mudanças ficarão cada vez mais distantes e as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) na Educação continuarão com um projeto estagnado pelo desinteresse, pois muitos veem software como ferramenta além dos muros da escola e esse negócio de TIC… TIC? SO Linux Educacional? Deixa essas coisas onde estão… Não queremos nada que possa nos provocar tique-tique nervoso!

Um caminho a ser trilhado…

É preciso provocar um terremoto. Abalar as estruturas do sistema e chamar a Educação para a responsabilidade de ensinar em tempos de guerras tecnológicas e declínio de valores familiares exige uma formação que vá além do repassar informações. É necessário inserir denodos, prender a atenção, despertar o prazer do aluno em estar na sala de aula, e que essa sala auxilie, preencha as necessidades de cidadão por meio de conteúdos ricos em nutrientes que fortaleçam o humano e mate a sua fome de ser.

Afinal, Educação se comprime em porções disseminadas em dois pontos de convergência obrigatórios: o do aprender e do ensinar. Se o educador não assumir o desafio de ensinar aprendendo, para, assim, tornar-se um formador de humanos, tampouco com gritos, castigos, toneladas de conteúdos e avaliações superficiais, atingirá as metas propostas pela Educação universal.

Possíveis caminhos a partir das conquistas atuais…

Zurijeta_shutterstock_5_fmtEm meio à crise, as palavras de ordem são: suporte e aporte. Suporte que não deve se resumir em capacitação, mas promover o fortalecimento das estruturas profissionais do professor para, assim, edificar as bases do trabalho docente, pois a Educação do novo milênio determina que se vá além da sala de aula, dos muros da escola, e essas mudanças devem-se iniciar pelo humano, estruturando e estimulando o professor para dominar competências, intervir, explorar potencialidades e habilidades e se relacionar com alunos portadores de necessidades educativas especiais.

Esse cardápio deve ter como prato de entrada a autonomia do professor, para que este possa atuar como medida socioeducativa para amenizar outro grande problema enfrentado pela escola — o bullying — e possa derrubar um paradigma histórico: o fim do ensino elitista, pois a escola pública — assim como as faculdades federais — ganhará respeito, confiança pela qualidade do ensino oferecido. Qualidade que se tornará integração e inclusão, pois se converterá num espaço onde o sociocultural será respeitado por meio do domínio do conhecimento, que será direcionado por um transmitir consciente, no seio de uma escola inclusiva, onde as diferenças são superadas pelo princípio de igualdade.

Em que ponto principiar a obra de reestruturação?

O fato é que a maioria dos envolvidos no processo educacional não assume, mas a sentença já foi decretada: o professor que não estiver preparado para enfrentar as adversidades certamente fracassará. Pois, nesse duelo, formação acadêmica já não é suficiente, é preciso personalidade imutável para não se transformar em mais um sem idealismo no quadro de docentes, pois, na Educação do novo milênio, a construção do conhecimento é edificada sobre uma plataforma universal, onde o aluno deixou de ser um indivíduo sem domínio de conteúdo. Já envereda pelos portões da escola com teorias de engenharia universal, torna-se um construtor do próprio conhecimento e, exatamente por ser um sujeito historicamente situado, não permite ser guiado, muito menos afastado do seu universo.

O novo modelo exigirá do professor competências determinadas para administrar o processo de ensinar sem extinguir o multiculturalismo, afetar princípios religiosos, arranhar valores sociais, familiares… Ter em mãos acessórios obrigatórios como decisão, flexibilidade, dinamismo, reflexão e transdisciplinaridade.

Nesse processo, nem sempre uma extensa infraestrutura física e uma vasta lista de recursos tecnológicos suavizarão o problema. A escola necessita de credibilidade, e, para tal, subsídios como aporte ao professor são a segunda pedra que deve ser assentada para fortalecer, principalmente, as estruturas técnico-pedagógica, social e psicológica.

Só que esse subsídio não pode ser temporário ou em períodos alternados… Deve ser um processo contínuo de investimentos no humano para que técnicas modernas e dinâmicas sejam introduzidas como instrumentos aliados às tecnologias, para que transformem alunos sonhadores em empreendedores do próprio tempo, pois o ensino transformador impulsiona a busca, e é essa busca que amplia os horizontes do ensino-aprendizagem.

Para evitar uma tragédia, é preciso adotar políticas internas para adequar a realidade da escola ao perfil de seus alunos, impedindo que barreiras artificiais impeçam o crescimento humano. Afinal, as tecnologias, principalmente a Internet, podem se tornar grandes aliadas, como acredita Ataliba de Castilho, professor titular de Língua Portuguesa na USP, um dos especialistas que ajudaram a criar a Estação da Luz da Nossa Língua:

A Internet pode ajudar a reduzir os excessos da ortografia, e bem sabemos que são muitos. Como toda palavra é contextualizada pelo falante, podemos dispensar muitos acentos. O interneteiro mostra um caminho.

Mas como o brasileiro é herói e “não desiste nunca”, mantém acesa a chama da esperança. Esperança que vislumbra esse caminho — a escola — desobstruído a tempo de despertar a consciência do Governo, de educadores e pais… Que Educação é ação. Atitudes que estimulam… Educação vai além do ler, do escrever, do fazer cálculos matemáticos… Educação é o caminho — e mesmo não sendo a verdade e a vida —, é o fundamento da vida humana… Sem esse alicerce, muitos desmoronam, perdem-se pelos próprios caminhos sem se realizar pessoal ou profissionalmente, pois é por meio dela — da Educação — que o homem sonha e conquista a liberdade ao adquirir habilidades e competências para fazer escolhas, traçar conscientemente a própria trajetória e, o melhor, impor direitos e exigir que deveres sejam cumpridos.

Afinal, homem é fruto do que planta… Doce ou amargo, dependerá da escolha do terreno em que cultivará, e a Educação é a substância que irriga, fortalece, dulcifica e prepara esse fruto para o amadurecimento no ponto almejado pelo mercado, por ser cultivado na árvore mais sublime… A árvore da vida que indicou a sala de aula como ponto de conserto… Se não houver sintonia entre homem e Educação, os seus frutos perderão o teor, e a espécie fenecerá.

Porque o Governo espera prêmios, e a Educação não paga recompensa, reflete resultados… Pois somente quando esse fruto é servido — ao se enveredar no mercado de trabalho — é que percebemos a seriedade de uma Educação de qualidade… Qualidade que se converte numa âncora que ostenta sonhos e leva milhares a encontrarem a sua pedra filosofal.

Comumente, a ausência de compromisso da comunidade escolar para compartilhar responsabilidades transformou-se numa barreira que se eleva dia após dia, e isso vem estimulando a escola a fazer cada vez mais… NADA, e o espaço preenchido por esse NADA aumenta a distância entre sonhos e realidade… Porque o MUITO que poderia ser feito foi substituído por NADA, e a escola está se convertendo num parque de diversões onde as brincadeiras — “Eu faço de conta que ensino, e você faz de conta que aprende” — estão cada vez mais divertidas.

Contudo, nesse universo, as dificuldades impedem o cumprimento de metas, porque a regra que impera é a universal: “Cada um no seu quadrado”. E, como não existe clemência, as argileiras naturais isolam professor e aluno, impedindo o cumprimento da meta maior: o ensinar bem… Pois ensinar bem determina estudar muito… Estudar para ampliar horizontes, facilitar o entendimento… Entendimento que promove a compreensão, instigando a busca do novo que chega antes do amanhã, quando, muitas vezes, é preciso reconstruir o passado para edificar o presente.

Mas o presente para o sistema é uma promessa, e promessa de futuro incerto. Apenas temporais de projetos, programas e planos, e essas chuvas não cessarão nos próximos anos, como prevê o centro “Meteorológico Especial da Crise” (MEC), que já acionou o alerta vermelho: torrenciais tempestades desabarão e inundarão o planeta Escola de tal maneira que alunos e professores correm um alto risco de se afogarem entre informações e desinformações, tendências e teorias, casos e descasos, até serem submergidos pela onda de descompromisso, sem conseguirem se orientar pelos caminhos bloqueados pelos lamaçais Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE-Escola), que provocarão a escassez de alimentos que nem mesmo a Alimentação Escolar saciará, porque a fonte Biblioteca na Escola, que deveria fornecer na cesta básica a base de conhecimento, valores e princípios, é ignorada, está à beira da extinção, e o Brasil Alfabetizado esbarra em dificuldades para escrever a própria história, pois o Dinheiro Direto na Escola não é autossuficiente para promover a Formação pela Escola, pelo simples fato de o Plano de Ação Articulada articular somente os interesses do sistema, do Governo e até mesmo de alguns gestores, fazendo do Proinfância um caminho sem horizontes. Sem horizontes porque nem mesmo as máquinas do Transporte Escolar conseguem transitar para desobstruir outro caminho ainda mais importante, o Caminho da Escola, que abre uma janela para o mundo.

Mas, para manter essa janela aberta, é necessário alfabetizar o sistema para que possa se locomover com as próprias pernas e gerar a energia que ilumine o planeta Educação, extinguindo a fadiga de cinco séculos de tentativas e fracassos. Mas essa energia deve ser canalizada para um instrumento que anseia ser aclarado para iluminar vidas: o professor. Professor forte, satisfeito, bem remunerado e respeitado como profissional responsável pela formação de humanos.

Essa deve ser a primeira lição que o sistema deve aprender. Aprender que Educação é ação-reflexão-ação… Não embromação de construir uma escola, tirar uma foto, colocá-la numa moldura dourada e expô-la como troféu. Mas consciência de que construir uma Educação forte é imprescindível, além de ousadia, coragem e determinação para destruir paradigmas que impedem a abertura de novos horizontes. Horizontes que podem fazer do Brasil uma nação mais forte.

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