Edição 109

Espaço pedagógico

Competências socioemocionais: caminhos em construção

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa

O mundo passa por constantes mudanças, o dia a dia é uma grande correria. Corre-se para o trabalho, para a escola, faz-se tudo como se o piloto automático estivesse acionado permanentemente. As pessoas parecem não ter tempo para pensar antes de agir. O cotidiano virtual tem nos tirado do face a face com familiares, amigos e colegas de trabalho. Quase não há mais tempo/prazer para degustar as refeições em família, mesmo nos dias em que não há trabalho ou escola para os filhos. Tem-se a consciência de que é preciso apertar o “pause” de vez em quando porque se chega à conclusão de que a vida está a passar num piscar de olhos. E nos questionamos: para que tudo isso? Aonde queremos chegar? O que nos é mais valioso?

Nesse contexto acelerado, também se encontra a escola. Na atualidade, mais do que nunca, os gestores e professores têm percebido que não basta o conhecimento acadêmico, ou seja, que tal formação não está sendo suficiente para os desafios do século XXI. A realidade nos apresenta claramente a complexidade que é o ser humano e nos mostra a importância de uma visão holística do mesmo a fim de desenvolvê-lo de forma integral. É preciso compreender que os saberes estão interligados, o paradigma da complexidade permite a comunicação entre saberes sem efetuar a redução, a fragmentação, diferentemente do método cartesiano e do paradigma simplificador “insuficiente e mutilante” (MORIN, 2008, p. 55).

A escola precisa encontrar o caminho para conectar os saberes, considerando o integral e as especificidades dos alunos, bem como a importância da heterogeneidade. O ambiente escolar precisa fazer sentido na vida dos estudantes, isto é, aquele que aprende necessita compreender que o aprender vai além de saberes fragmentados e que, para isso acontecer, há uma variedade de pontos a considerar, sejam estes: culturais, sociais, econômicos, afetivos ou emocionais. Surge, então, a necessidade do desenvolvimento de competências socioemocionais. Mas o que seria isso? Qual o seu valor? O que muda na vida de estudantes e educadores?

Segundo Saarni (1999),

Competência emocional refere-se ao grau de consciência de um indivíduo sobre os sentimentos (seus e dos outros) e se é capaz de agir sobre esta consciência, bem como à capacidade para regular a experiência emocional e eficazmente navegar as relações interpessoais.

As competências socioemocionais vêm ao encontro da convicção de que o ato de aprender os conteúdos das mais diversas disciplinas está estritamente relacionado à motivação, criatividade, resiliência, empatia e socialização.

Segundo Casarin (2018, s/p.),

As competências socioemocionais incluem a capacidade de cada um de lidar com suas próprias emoções, desenvolver autoconhecimento, se relacionar com o outro, ser capaz de colaborar, mediar conflitos e solucionar problemas. Elas são utilizadas no nosso dia a dia de forma sistemática e integram todo o processo de formação de uma pessoa como um ser integral: como indivíduo, como profissional e como cidadão.

Desde a década de 1990, discute-se, com maior ênfase, em virtude da expansão da Teoria de Inteligência Emocional, a nítida necessidade e relação entre as competências cognitivas e socioemocionais. Essa relação foi evidenciada também pela Unesco através dos quatro pilares da educação mundial: aprender a aprender, aprender a ser, aprender a conviver e aprender a fazer.

A abertura do âmbito escolar para o desenvolvimento de competências socioemocionais trilha caminhos para uma aprendizagem muito mais ampla e integral, e esse cenário evidencia alunos mais centrados, autônomos e responsáveis, mais interessados pelos estudos, equilibrados emocionalmente e conscientes dos novos desafios impostos por um mundo de crescentes transformações sociais e tecnológicas. Mundo este que requer pessoas que tenham autocontrole, resiliência, boas relações consigo e com o outro e que saibam tomar decisões em prol do bem comum.

É notório que a implementação de competências socioemocionais nos currículos escolares trará benefícios ao processo de ensino-aprendizagem, deixando alunos muito mais tranquilos e focados e professores mais motivados e felizes. Em outras palavras, a escola tornar-se-á um ambiente privilegiado para alunos, professores, gestores e pais. Um ambiente voltado à harmonia e ao bem-estar, sincronizado com o aprender e o fazer, distante da insensibilidade, da violência e do desrespeito que rondam escolas, famílias e sociedade nos dias de hoje, num permanente ciclo de insegurança e instabilidade.

Segundo Adeb (2014, p. 112),

Em uma sociedade como a nossa, em que os alunos passam, desde a mais tenra idade, várias horas de suas vidas na escola (tempo que está sendo ampliado, no Brasil, com a implantação da jornada de tempo integral e a obrigatoriedade do ingresso na escola aos quatro anos), cabe pensar no papel do ambiente escolar na promoção da saúde mental e física dos estudantes. Uma “escola suficientemente boa”, com “professores suficientemente bons” (parafraseando Winnicott) é uma alternativa institucional para combater os revezes decorrentes de condições familiares e sociais marcadas por carências afetivas, alimentares, materiais, muitas vezes envolvidas em violências de diferentes tipos e graus.

São inúmeros os estudos que comprovam a importância do desenvolvimento de competências socioemocionais no âmbito escolar. Mas o caminho a ser trilhado não será fácil, será necessário desconstruir o óbvio, sair da zona de conforto e ter a convicção de que as mudanças são imprescindíveis para impulsionar novas aprendizagens, a fim de minimizar as desigualdades de aprendizagem entre os alunos e elevar a qualidade do ato de ensinar
e aprender.

Frente a tudo que foi exposto até aqui, é de suma importância fazer presente a teoria Big Five, que são:

Constructos latentes obtidos por análise fatorial realizada sobre respostas de amplos questionários com perguntas diversificadas sobre comportamentos representativos de todas as características de personalidade que um indivíduo poderia ter. Quando aplicados a pessoas de diferentes culturas e em diferentes momentos no tempo, esses questionários demonstraram ter a mesma estrutura fatorial latente, dando origem à hipótese de que os traços de personalidade dos seres humanos se agrupariam efetivamente em torno de cinco grandes domínios (SANTOS & PRIMI, 2014, apud ABED, 2014, p. 114).

A teoria Big Five, através dos seus pesquisadores, fez uso de testes com o intuito de medir os aspectos particulares de personalidade e, a partir daí, estruturou as competências socioemocionais em cinco eixos:

Abertura ao novo (curiosidade para aprender, imaginação criativa e interesse artístico).
Consciência ou autogestão (determinação, organização, foco, persistência e responsabilidade).
Extroversão ou engajamento com os outros (iniciativa social, assertividade e entusiasmo).
Amabilidade (empatia, respeito e confiança).
Estabilidade ou resiliência emocional (autoconfiança, tolerância ao estresse e à frustração).

Competências Socioemocionais, Nova Escola.

Ficou claro, por meio dos diversos estudos, que o desenvolvimento de competências socioemocionais em comunhão com as competências cognitivas promove impacto extremamente positivo no percurso escolar e na qualidade de vida das pessoas.

Sobre isso, Coelho (2016, apud CASEL, 2005) destaca a aprendizagem socioemocional como

[...] uma abordagem promissora para promover o sucesso dos alunos na escola e na vida que tem como objetivo final apoiar os alunos a lidar de forma adequada com as exigências da complexa sociedade atual.

Casel (2003) estruturou inicialmente a aprendizagem socioemocional a partir dos seguintes objetivos:

• Desenvolver a consciência e o autocontrole para atingir sucesso na escola e na vida.
• Utilizar a consciência social e as competências relacionais a fim de estabelecer e manter relações positivas.
• Desenvolver competência de tomada de decisão responsável nos contextos pessoais, escolares e de comunidade.

Posteriormente, Casel (2005) passou a recomendar cinco diretrizes, intimamente ligadas às competências emocionais, sociais e cognitivas, aos programas Social and Emotional Learning (SEL), as quais nomeou de: Autoconsciência, Autocontrole, Consciência Social, Tomadas de Decisão Responsável e Competências Relacionais. Vejamos o infográfico a seguir para uma melhor compreensão acerca das competências socioemocionais.

Competências Socioemocionais

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Enfim, depois de toda reflexão e comprovação dos benefícios proporcionados pelo desenvolvimento das competências socioemocionais, torna-se ultrajante a não implementação do referido trabalho nas escolas em todo o mundo. Gerir as emoções, tomar decisões responsáveis e manter relações saudáveis faz parte das transformações educacionais da contemporaneidade, uma vez que não se pode mais pensar na cognição sem pensar na emoção. Para que tudo isso se torne realidade no âmbito educacional, é necessário ousar, acreditar e colocar em prática, pois “É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer” (Aristóteles).

Agora vou te contar um segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos…
-Antoine de Saint-Exupéry, (2013, p. 74)

Referências

ABED, Anita. O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como caminho para a aprendizagem e o sucesso escolar de alunos da educação básica. São Paulo: Unesco/MEC, 2014.

CASARIN, Tonia. Educação mais humana: o que são competências socioemocionais? 2018. Disponível em https://www.caiodib.com.br/blog/o-que-sao-competencias-socioemocionais/. Acesso em 24 de junho de 2018.

COELHO, Vitor Alexandre, et al. Programas de intervenção para o desenvolvimento de competências socioemocionais em idade escolar: uma revisão crítica dos enquadramentos SEL e SEAL. Lisboa: Análise Psicológica, 2016.

Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning (CASEL). Safe and sound: an educational leader’s guide to evidence-based social and emotional learning programs – Illinois edition. Chicago: Author, 2005.

Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning (CASEL). Effective social and emotional learning programs – Preschool and elementary school edition. Chicago, IL: R. P. Weissberg, Goren, C. Domitrovich, & L. Dusenbury, 2012.

Competências socioemocionais. Revista Nova Escola com apoio do Facebook. Disponível em: https://nova-escola-producao.s3.amazonaws.com/ffmHynzstuECHwJFdbqU4ZuzM3cgTTC6VUdcby9bGUDAAyxMErdR2xkQE2jN/competencias-socioemocionais–novaescola.pdf. Acesso em 27 de junho de 2019.

MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 15. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

SAARNI, C. The development of emotional competence. New York: The Guilford Press, 1999.

Saint-Exupéry, A. Principezinho (4. ed.). Barcarena: Presença, 2013.

SANTOS, Daniel & PRIMI, Ricardo. Desenvolvimento socioemocional e aprendizado escolar: uma proposta de mensuração para apoiar políticas públicas. São Paulo: Instituto Ayrton Senna, 2014.

Kelly Simões Cartaxo Lima Costa é pedagoga, especialista em Psicopedagogia e Tecnologia Educacional, Mestre e doutoranda em Ciências da Educação.
E-mail: kellycartaxo@hotmail.com

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