Edição 109

Profissionalismo

Comunicação e ética no espaço sala de aula

Ednaldo Ferreira de Amorim

A sala de aula é laboratório de relações humanas. Sempre que penso nesse espaço, visita-me a memória Carl Gustav Jung, em sua célebre afirmação: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. Para mim, síntese de como devem ser as interações entre todas as pessoas. Mesmo com todo o domínio de algum conhecimento ou da forma de fazer algo, o outro é a parte mais importante de tudo.

Comunicação e ética, por sua vez, fazem-se presentes na contínua construção dos convívios. Nesse caso em questão, professor-aluno e aluno-aluno, bem como entre todos os atores desse espaço de autodescobertas, autoconhecimento e conhecimento do mundo em favor da edificação de pessoas melhores.

Sócrates, Platão e Aristóteles entendiam que o homem estava no centro, e o Estado era compreendido através de seu agir, de sua educação, de sua formação. Tratava-se de humanismo, no sentido de uma verdadeira forma humana, do que lhes seria o autêntico ser. Os educadores gregos da Antiguidade marcaram o lugar desse homem na sociedade e situaram, enquanto força geradora do ideal, esse conhecimento explicitado através de pensamentos, da fala e de um estilo próprio que regia o pensamento e a vida.

Temos a comunicação a serviço da expressão e da interpretação das manifestações desse homem através do discurso. Quanto à ética, naturalmente invocada desde os filósofos da Antiguidade, encontra-se interligada à comunicação e funcionando como balizadora da crítica sobre as atitudes e a consequente coerência ou não em relação ao que é falado. O que me leva a pensar na impossível dissociação destes, quando a perspectiva em questão é respeito e entendimento, diálogo e soluções para todos os interlocutores e a sociedade.

Penso que é mais que razoável um processo de comunicação baseado na ética que leva emissores e receptores, em dinâmica de troca de posições entre si, a aprender juntos sobre os objetos da construção do conhecimento. Na comunicação professor-aluno, o aprender-ensinar ocorre, e o educador deve estar atento para não impor o seu próprio desejo, de modo a não colocar em risco a constituição do eu, do sujeito que tem desejo próprio.

A comunicação eficaz e o entendimento no relacionamento humano são fundamentais ao aprendizado; essencialmente o primeiro, pois seu processo, competentemente realizado, possibilita o segundo por parte do receptor à mensagem transmitida pelo emissor. Ideias, aspirações, expectativas, crenças e desejos são comunicados. Modos de vida, comportamentos, hábitos e costumes são influenciados.

A comunicação entre professores e alunos deve ser clara, seja através da fala, da escrita, do ouvir, do silenciar, nas mais amplas possibilidades — no estudo, no trabalho, no ócio, na vigília. A transparência de propósitos percebidos como positivos colabora para que se estabeleça a proximidade. Assim, alunos e professores diminuem suas resistências mútuas, trabalham naturalmente seus “pré-conceitos”, aprendem com as diferenças e com os diferentes — estes que somos todos, quando comparados, dada a individualidade inerente a cada ser. O interagir dos participantes possibilita que todos aprendam mais e, possivelmente, melhor, uma vez que várias percepções são manifestadas e apreciadas, oportunizando até mesmo o repensar sobre coisas já sabidas.

A adesão dos atores à interação depende do interesse presente e latente em cada um. A forma como o professor expõe pode incentivar o aluno, provocando seu motivo à ação. Cabe ao educador, a partir da interpretação das necessidades demandadas, ofertar, através de práticas inteligentes, conteúdos percebidos como interessantes. Planejamento, sistematização, disciplina e estratégias precisam ser contemplados no empreender-educar. Só aquele que vislumbra ganhos com o objeto apreciado interage com ele e com o seu condutor. O interagir na sala de aula possibilita diferentes descobertas e geração de ganhos mais amplos para todos.

A utilização de recursos audiovisuais pode, por estimular visão, audição e movimento, constituir-se forte aliada do professor, no sentido de chamar a atenção para o conteúdo trabalhado e na retenção da atenção do interlocutor. Acredito na educação prazerosa, aquela em que todos gostam de fazer o que precisa ser feito

Comunicação, ética e motivos para a busca do aprender40

A relação comunicação–ética–motivação se mostra presente na medida em que as duas primeiras interferem no entendimento do proposto e na percepção do respeito, permitindo ao professor a adequação possível da forma ao conteúdo, tomando por base contextos nos quais se encontram envolvidos seus alunos.

Segundo Cratty (1984), por motivação compreende-se os fatores e processos que levam as pessoas a uma ação ou à inércia. Saber motivar para a aprendizagem escolar pressupõe saber como os alunos aprendem. O interesse dos alunos em aprender depende, em grande medida, das decisões que o professor toma no que diz respeito à organização do ensino.

Devemos considerar que cada aluno é diferente e que cada um deles não chega vazio à escola. Ao contrário disso, traz consigo uma riqueza pronta para ser explorada pelo professor. Cabe ao professor promover uma interação de qualidade com os alunos, baseado nos contextos da aprendizagem, desde os mais próximos aos mais distantes, desde o espaço físico até a família.

Queiroz (2008, p. 177) nos remete ao entendimento de que o termo motivação em educação designa:

[...] aquilo que desperta no aluno o desejo de aprender algo novo. As necessidades orgânicas, as atitudes e os interesses são motivos que instigam o indivíduo à ação e à atividade objetiva. As motivações se processam no interior do indivíduo. A motivação é um impulso ou uma tendência diretiva que se processa no interior do organismo.

Ajuda a compreender a motivação do aluno a observação de seu comportamento. Enquanto uns mostram-se contentes com suas conquistas, outros abaixam a cabeça quando são chamados à participação em público. Há os que pedem ao colega para fazer a pergunta por ele e os que gostam de trabalhar em grupo. Agindo diferentemente, pois têm diferentes metas.

Para alguns, o mais importante é aprender algo que faça sentido: descobrir o que há por trás das palavras que se constroem, encontrando explicação para um problema relativo a um tema que se deseja compreender. Por outro lado, outros 41se preocupam em preservar sua imagem diante de si mesmo e dos demais. Há também os que somente desejam conseguir a aprovação, notas suficientes. No entanto, essa forma de aprendizagem não tem valor em si mesmo, servindo somente para conseguir algo externo com o objetivo de atingir o fim. Consideramos relevante ressaltar que na adolescência existe a preocupação de agir com autonomia. Os alunos começam a fazer as coisas que acham necessárias, questionando as outras que julgam não ser. E há os que agem movidos especialmente para conseguir atenção e aceitação.

“A tarefa dos educadores não é a de ensinar às crianças alguns conceitos fundamentais, mas, sim, a de colocá-las em circunstâncias favoráveis que lhes permitam descobrir aquilo que elas devem saber” (ASSIS, 1987, p. 22). Desse modo, realizar tarefas preocupado em aumentar a própria competência e interessado no descobrimento, na compreensão e no domínio dos conhecimentos e das habilidades é fundamental; a aprendizagem em jogo define o tipo de motivação intrínseca à tarefa.

O aluno que se preocupa apenas com sua própria imagem obtém, em geral, resultados negativos. Porém, há uma situação em que estar preocupado com a própria imagem tem efeitos positivos: quando o aluno tem a segunda chance de fazer uma prova após não obter um bom resultado na primeira tentativa. Na segunda chance, geralmente consegue melhorar. O que significa dizer que, quando a preocupação de aprender é maior, os alunos tendem a serem aprovados na primeira avaliação; os demais, à medida que sua preocupação com a melhoria do seu desempenho aumenta, são aprovados na segunda tentativa. Nesta circunstância, a preocupação de obter bons resultados tem efeitos positivos.

O professor deve facilitar a motivação para a aprendizagem e despertar curiosidade nos alunos para que estes se interessem pelas aulas, estando os conteúdos relacionados com suas experiências e com seus conhecimentos prévios. Sua proficiência na comunicação interpessoal é fator determinante para o interesse do aluno e seu efetivo aprender. E não estou falando sobre eloquência, mas de adequação. Coerência e coesão que, através da expressão verbal e não verbal, conseguem revelar sentido na mensagem e vontade do até então receptor em assumir o discurso. Retroalimentando, assim, o valoroso processo comunicativo.

A psicanálise nos dá importante contribuição quando nos diz que a relação humana é mediada por fatores conscientes e por fatores inconscientes. Por ocorrer na relação professor-aluno a interferência dos inconscientes, o reconhecimento destes facilita a situação ensino-aprendizagem, que passa a ter melhoria em sua qualidade.

O42 professor precisa fazer pleno uso do saber de que na realidade de um aluno se inserem aspectos subjetivos, como sonhos, desejos, emoções, crenças e afetos. A leitura dessa realidade depende dos aspectos subjetivos. Cabe aos educadores observar que, para extrair da realidade do aluno a linguagem e fazer de suas expectativas uma “delimitação” do conteúdo a ser ensinado, seria necessário unir labor e prazer, teoria e prática.

De certo modo na contramão da educação, Freud (1914, p. 248) menciona: “Como psicanalista, estou destinado a me interessar mais pelos processos emocionais que pelos intelectuais, mais pela vida mental inconsciente que pela consciente”.

Além da comunicação explícita do professor, sua maneira de pensar, seu estilo, sua personalidade, suas atitudes, seus valores são comunicados. Aspectos que fazem com que a vocação de professor seja tão difícil e apaixonante. Recorro, aqui, ao texto freudiano de 1914, que diz:

Estes homens, nem todos os pais na realidade, tornaram-se nossos pais substitutos. Foi por isso que, embora ainda bastante jovens, impressionaram-nos com tão maduros e tão inatingivelmente adultos. Transferimos para eles o respeito e as expectativas ligadas ao pai onisciente de nossa infância e depois começamos a tratá-los como tratávamos nossos pais em casa (FREUD, 1914, p. 249).

Já Piaget (1977, p. 16) nos fala sobre a afetividade desempenhando um papel essencial no funcionamento da inteligência:

Vida afetiva e vida cognitiva são inseparáveis, embora distintas. E são inseparáveis porque todo intercâmbio com o meio pressupõe ao mesmo tempo estruturação e valorização. [...] Assim é que não se poderia raciocinar, inclusive matemática, sem vivenciar certos sentimentos, e que, por outro lado, não existem afeições sem um mínimo de compreensão [...]. O ato de inteligência pressupõe, pois, uma regulação energética interna (interesse, esforço, facilidade).

Considerações finais

Encontros na sala de aula são oportunidades diárias para o exercício da comunicação eficiente e, antes de tudo, da ética, do respeito de todos por todos. Desde educadores gregos da Antiguidade, o conhecimento explicitado por pensamentos, fala e de estilo próprio já regia o pensamento e a vida.

Fundamentais a esse entendimento, a realização da comunicação eficaz e o exercício da ética influem positivamente na qualidade do processo que envolve emissor, receptor, mensagem, canal, código e contexto. O que permite que ideias, aspirações, crenças e saberes sejam tocados. O que oportuniza que comportamentos, hábitos e costumes sejam influenciados.

Quanto ao professor, é certo seu dever de facilitar a motivação, de incentivar e estimular os alunos para a aprendizagem, despertando-lhes o interesse pelas aulas, relacionando conteúdos a experiências e conhecimentos prévios.

A psicanálise lança, sobre o espaço sala de aula, luz diferenciada que possibilita um olhar que faculta melhor leitura dos fenômenos. Na relação professor-aluno, a interferência de fatores inconscientes denota isso. O ensino-aprendizagem ganha com o reconhecimento a isso.

Minha vivência de quase duas décadas em sala de aula ganhou muito em qualidade, na perspectiva de entendimento do sujeito que aprende, seja este aluno ou professor, a partir do olhar humano que a psicanálise permite.

Referências

ASSIS, O. Z. M. Uma nova metodologia de educação pré-escolar. 5. ed. São Paulo: Pioneira, 1987.

CRATTY, B. J. Psicologia no esporte. 2. ed. Rio de Janeiro: Prentice-Hall do Brasil Ltda., 1984.

FREUD, S. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Edição standard brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, v. XIV.)

PIAGET, J. O julgamento moral na criança. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

QUEIROZ, T. D. Dicionário prático de pedagogia. São Paulo: Rideel, 2008.

SILVEIRA, Elisabeth; MURASHIMA, Mary. Redação empresarial. Rio de Janeiro: FGV, 2011.

Ednaldo Ferreira de Amorim é Doutor em Psicanálise Aplicada à Educação e Saúde, especialista em Administração com ênfase em Marketing, bacharel em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas, docente em graduação e pós-graduação, presidente da Comissão Própria de Avaliação da Faculdade Nova Roma, personal coach, palestrante sobre comportamento humano e organizacional. Tem certificado em Metodologia do Ensino Superior pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e larga vivência no varejo de bens e serviços.

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