Edição 81

A fala do mestre...

Conflitos na escola: um espelho da sociedade

professora_aluno_sala__fmtQuanto mais violentas são nossas relações sociais, mais violentas podem se tornar as relações no interior das escolas. Nessa lógica, se promovermos a cultura de paz, as relações podem mudar. Dedicamos nossa entrevista para contribuir com a reflexão sobre a superação dos conflitos nas escolas. É tarefa de todos nós buscar alternativas coletivas, novos jeitos de pensar a escola, dividindo responsabilidades entre professores, pais, alunos e comunidade, sem fechar os olhos para as situações de conflito. Sobre isso, ouvimos a psicóloga clínica e escolar Cynthia Castiel Menda, que trabalha na Universidade Federal de Rio Grande (Furg), na Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis.

Jornal Mundo Jovem: Quais são as principais causas de conflitos na escola?

Cynthia Castiel Menda: De forma geral, a escola reproduz a sociedade, e, portanto, os conflitos existentes na comunidade dos estudantes são reproduzidos dentro da escola. Mas todos dizem respeito à questão do relacionamento interpessoal. É difícil lidar com o outro, entender o outro, se colocar no lugar do outro se tenho uma educação (familiar e escolar) voltada para o eu (“Eu que tenho que me dar bem”, “Eu tenho que ser melhor que os outros”), em que a competitividade é estimulada e recompensada. A própria situação social e de motivação dos professores, na maioria das escolas, gera conflitos entre estudantes e professores, porque há um estranhamento das características de cada um deles e uma dificuldade de superar as barreiras para uma comunicação eficaz e eficiente. Diria, em resumo, que a escola rompeu o diálogo e o entendimento com a sua comunidade, por vários fatores externos, inclusive econômicos, políticos e sociais.

São diferenças não assimiladas?

De forma específica, continuamos encontrando na escola os conflitos de classe social e de gênero. Assim, se um estudante tem muito menos ou muito mais idade do que os outros de sua sala de aula, ou se o adolescente demonstra uma tendência homoafetiva, tende a gerar conflitos no seu meio, por exemplo. É necessário estar atento à questão do estabelecimento de grupos com identidade própria fora da escola, que em algumas cidades atualmente são chamados de bondes. Isso porque estes também podem fomentar conflitos dentro da escola, ou pelas diferenças entre os grupos, ou pelo desejo de as pessoas entrarem em (ou saírem de) um determinado grupo, o que não é bem visto. Por último, podemos citar a questão da violência e das drogas em várias comunidades.

Então os conflitos na escola espelham os conflitos da sociedade?

Com certeza. Não só espelham os conflitos, como mostram nossa inabilidade educativa até o presente momento para a resolução desses conflitos. É uma das funções da escola fomentar o conhecimento social, a elaboração e o respeito às regras, a educação para a paz. Estamos nos preocupando muito com os aspectos cognitivos da formação da pessoa e pouco com os sociais. Temos que lembrar que a escola é uma das primeiras instituições na qual a criança convive fora da sua família e é onde deve aprender aspectos positivos dessa convivência e como resolver os conflitos inerentes a ela. Ao vermos, por exemplo, os casos de estudantes americanos que voltam para sua escola depois de anos para cometer assassinatos em função da vivência traumática que tiveram nesta — que na totalidade dos relatos foram vítimas de violência psicológica e física —, temos um alerta inequívoco de que a educação falhou. Aqui no Brasil, quando vemos uma escola ser destruída pela comunidade onde está inserida, temos a noção do quanto a educação formal falhou. Quando a escola funciona como palco para o duelo entre grupos de traficantes de drogas, temos que ter a exata noção de que falhamos enquanto educadores e que nossa educação precisa mudar para que a sociedade mude. Os adultos da nossa sociedade são resultado direto da educação familiar e escolar. Se a educação familiar falha e a escolar também, nesse aspecto social, não há como ter um futuro com mais esperança.

E os conflitos de gerações?

A mídia enfatiza muito os conflitos entre gerações. São professores, direção e/ou pais versus crianças e adolescentes. Aqui podemos citar as estratégias de controle como causa principal desses conflitos: por exemplo, colocar câmeras de vigilância na escola, porta com detectores de metal e chips para controle de entrada e saída dos estudantes ou a própria conduta dos adultos frente à falta de limites dos estudantes. Daí podem surgir tiroteios na porta da escola, depredação das estruturas, movimentos reivindicatórios dos estudantes e/ou pais e o abandono da escola pelos estudantes. Há também os conflitos entre os próprios alunos. Estes têm uma conotação de violência psicológica mais frequente do que violência física. Os casos de bullying têm se tornado quase que uma epidemia nas escolas brasileiras, independentemente do tipo ou local em que a escola se encontra. E esses conflitos têm uma consequência mais grave na formação dos jovens e tendem a continuar repercutindo na vida dessas pessoas por longo tempo e em vários aspectos da vida, como o social, profissional e emocional.

Quais são os papéis da família, da escola, dos professores e dos alunos na mediação dos conflitos?

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Em primeiro lugar, deve-se ter a consciência de que todos são escola e de que, portanto, se existe um conflito, eu também faço parte dele e tenho que auxiliar na sua resolução. Infelizmente, nossa educação até hoje tem privilegiado a fuga dos conflitos, não o seu enfrentamento. Então ficamos com um monte de conflitos pequenos sem solução que vão se acumulando até que viram quase insolúveis. Em segundo lugar, é fundamental estar aberto ao diálogo, ouvir todas as partes que fazem parte do conflito. Dialogar com imparcialidade e tentar encontrar as estratégias adequadas para aquele conflito. Não trazer os preconceitos para o conflito, pois não é porque um estudante costuma iniciar as confusões que ele sempre vai ser responsabilizado por elas. Naquele dia pode não ter sido ele e, se não se ouve atentamente, pode-se cometer uma injustiça. As injustiças trazem revolta e anulam qualquer tentativa de diálogo. Diria que o senso de adequação também é importante, pois é necessário perceber até que ponto se está envolvido nesse conflito apresentado, diretamente ou indiretamente. Muitas vezes o conflito aumenta porque um pai que não está diretamente envolvido toma para si o problema e começa a incitar outros pais, que nem sabem do contexto, a tomarem partido. Assim também pode acontecer com professores ou com estudantes. Portanto o papel de cada um no conflito não é estanque nem vitalício; depende do contexto em que o conflito acontece e quem está envolvido nele. Pode acontecer de num momento ser mediador, no seguinte ser apaziguador e no seguinte ser um dos envolvidos no conflito. O que não pode variar é a postura de diálogo, de imparcialidade e de apoio à resolução do conflito com menos danos possíveis para as partes envolvidas.

O conflito é algo necessariamente negativo?

O conflito, por definição, não é negativo; ele é da natureza humana. Somos diferentes e, em contato com o outro, mostramos essas diferenças. Mas na convivência social estabelecemos regras para equilibrar essas diferenças. O conflito é a sinalização da falta da regra nesse quesito específico ou de que a regra acordada não funciona mais e precisa de uma nova combinação. Então o conflito é apenas uma divergência natural, que precisa acontecer na convivência entre diferentes para que haja uma cultura de paz. Se o conflito for tratado dessa forma em todos os níveis — seja conflito de ideias, de comportamentos, de classes sociais —, se ensinarmos, desde a Educação Infantil, que os conflitos têm solução e que é necessário empatia (colocar-se no lugar do outro) para resolvê-los, todo conflito passa a ser visto como positivo, como uma possibilidade de viver melhor com o outro, respeitando suas diferenças.

Cynthia Castiel Menda é psicóloga escolar e clínica, Mestre em Educação, professora convidada na Faccat e tutora em EAD na UFRGS, Porto Alegre, RS.
Endereço eletrônico: cyncamen@terra.com.br

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