Edição 60

Lendo e aprendendo

Consumismo por impulso

Psidium Guajava

O filósofo René Descartes (1596–1650) demonstra, no livro Discurso sobre o Método, a questão da dúvida de nossos sentidos a respeito da existência. Ele considerou tudo falso à sua volta. Até mesmo a existência de Deus foi questionada. Ele diz: “Duvidemos dos sentidos, uma vez que eles, frequentemente, nos enganam, pois nunca tenho certeza de estar sonhando ou de estar desperto!”, e conclui:

Existe, porém, uma coisa de que não posso duvidar, mesmo que o demônio queira sempre me enganar. Mesmo que tudo o que penso seja falso, resta a certeza de que eu penso. Nenhum objeto de pensamento resiste à dúvida, mas o próprio ato de duvidar é indubitável. Penso, cogito, logo existo, ergo sum.

O que o atormentou foi saber se existia ou não.

Ao refletir sobre a frase do filósofo, percebi que, hoje em dia, isso não faz parte do nosso contexto social. Não se precisa pensar para existir. O mais importante é consumir. Ao modificar a frase de “Penso, logo existo” para “Consumo, logo existo”, a minha ideia fica clara. Pelo menos é o que espero.

Olho à minha volta e vejo o consumo, simplesmente, pelo prazer de possuir o objeto de desejo. Quem não guarda no armário aquele utensílio usado apenas uma vez? Acho que todos somos assim. É difícil controlar o impulso consumista. O que predomina é o desejo, e não a necessidade. É preciso consumir para existir. Será que estou exagerando? (Kracauer)

Isso é mais comum entre os adolescentes. Eles adquirem produtos da moda, sem ao menos se perguntarem se é útil ou não. Quem já não os ouviu conversando que determinada roupa de grife está na moda ou ainda que tal carro é melhor que aquele outro? Possuir significa existir. Existir para os amigos e para a sociedade. Quem não possui não existe e, consequentemente, não é aceito no meio social. Já entre os adultos prevalece a competitividade para ver quem adquire o melhor objeto de desejo.

Estamos presenciando uma inversão de valores. Hoje é o produto que dita a nossa existência. Sou o celular do momento, sou a roupa da moda, sou o último modelo de carro. Foi esquecida a essência do ser humano em função da essência do objeto de consumo. A pessoa pode ter tudo de que precisa para existir perante seus amigos, mas não vai mudar sua essência. Ela permanece a mesma, com ou sem o objeto de consumo. Por acaso, não seria uma questão de perda de identidade? Aliás, qual a sua verdadeira identidade? Que celular, que carro, que roupas você usa?

Descartes exemplificou usando um pedaço de cera retirada da colmeia. Colocando-a no fogo, perdem-se alguns atributos, mas não a essência. No fogo, o sabor, o odor e a cor se modificam; mas ele continua sendo o mesmo. Coloque a melhor tinta, despeje o melhor perfume e acrescente algo para lhe dar um sabor delicioso. O que teremos? Um pedaço de cera. Não digo que somos bonecos de cera. Apenas ilustrei como o filósofo demonstrou seu pensamento. Fora esse exemplo, ele fez outras conjecturas a respeito da sua existência.

As pessoas perderam a sua essência para a dos objetos de consumo. Se pensassem antes de agir, minha frase não teria sentido. Quem pensa existe, e não quem consome existe. Houve uma inversão de valores aqui.

Li outro dia um artigo que tratava da propaganda e da publicidade como as responsáveis pelo consumo exagerado. Discordo disso. Acredito que a culpa não seja somente delas. Como já mencionei, são as pessoas que não pensam na hora de comprar. Uma parte da culpa é do consumidor. As agências de publicidade apenas promovem o produto. Se nós acreditamos, a culpa é nossa. Você já comprou algum produto por impulso e depois se arrependeu? Eu já!

A crítica aqui não é sobre o consumo. Ela é sobre o que ele acarreta nas pessoas. As coisas são assim hoje porque quase todos precisam se firmar numa sociedade em que predominam valores distorcidos. Agora preciso terminar porque vi uma propaganda interessante de um novo modelo de celular. Consumo, logo existo! E você?

 

Fonte: http://www.webartigos.com/articles/29817/1/penso-logo-existo-ou-consumo-logo-existo/pagina1.html.

cubos