Edição 17

Lendo e aprendendo

Couro de piolho

Era uma vez uma princesa que estava sendo penteada pela ama quando esta encontrou um piolho no pente. A princesa ficou tão admirada com aquele achado que resolveu criar o piolho numa caixinha. O piolho cresceu tanto que, mudando de caixas, estava enorme. A princesa mostrou-o ao rei, seu pai, que mandou matar o bicho e tirar-lhe o couro para fazer o assento de uma cadeira para seu salão. Ordenou que a rainha e a princesa guardassem todo o segredo e disse que dava a mão da filha em casamento a quem advinhasse de que era feito o forro da cadeira real.

Como a princesa era muito bonita e rica, correram moços de todas as partes para a prova. Nenhum acertou. Os meses passavam, e a princesa estava zangada com tanta demora no casamento. Primeiro, vieram rapazes das melhores famílias; e, depois, os de menor fortuna, seguidos pelos pobres. Centenas e centenas de homens olhavam e tornavam a olhar a cadeira, e não havia jeito de descobrir a que animal pertencera aquele couro esquisito.

Bem longe da cidade, morava uma velha que tinha um filho chamado João, meio amalucado, mas esperto. João, sabendo da promessa do rei, resolveu tentar a fortuna. A mãe, debalde, aconselhou-o a desistir daquela loucura. João nem ouviu. A velha preparou a matalotagem, e o rapaz pôs-se a caminho.

Andou, andou e, quando anoiteceu, estava perto da cidade, mas achou melhor dormir no mato. Amarrou a rede a uns galhos, fez o fogo, assou carne e ia comer quando apareceu um velhinho muito trêmulo, dizendo que estava morto de fome e de cansaço.

— Não faça cerimônia, homem de Deus, vá comendo e descanse.

O velho sentou-se, comeu, bebeu água, descansou. Lá para as tantas, João, com sono, e tendo apenas uma rede, ofereceu-a ao velho.

— Não quero. Deus lhe pague por tudo. Quero dar uma lembrança. Leve estes três fios da minha roupa. Quando se vir agoniado, queime um deles e será valido.

Disse essas palavras e meteu-se pelo mato. João dormiu a noite inteira e, pela manhã, desarranchou-se e botou o pé na estrada com vontade.

Chegando, procurou o palácio do rei e um lugar para pousada. Deram-lhe agasalho bem pertinho do palácio. João andou rondando a casa do rei, vendo o movimento da gente que subia e descia as escadas.

No outro dia, foi ao palácio e disse que queria advinhar de que era feita a cadeira do rei. Madaram-no subir com outros rapazes. João, todo acanhado, ia suando frio. Quando entraram no salão, estavam o rei, a rainha, a princesa e muitos jovens importantes e bem vestidos. Mostraram a cadeira bem no meio da sala. João foi olhando, de longe, e ouvindo as palavras dos outros:

— É couro de cobra!

— Não é!

— É couro de rato!

— Não é!

— É couro de lagartixa!

— Não é!

O rapaz esgueirou-se para o vão de uma janela, puxou um dos fios, queimou-o dizendo: — Quero saber de que é feito o forro daquela cadeira — e imediatamente veio à idéia a imagem do piolho. Ficou alarmado com tamanho absurdo, mas, tendo confiança no velhinho, avançou para o meio da sala e esperou sua vez. Um criado chamou-o, e o rei perguntou de que era feito o forro da cadeira.

— É couro de piolho!

— É mesmo. Acertou!

Toda a gente bateu palmas e abraçou o rapaz. A princesa não achou graça naquele moço mal vestido, sujo e com um ar desajeitado e palerma.

Houve um jantar com todas as variedades de comidas. Depois, o rei chamou João e lhe disse:

— Está tudo muito bem, mas, para você casar com a princesa, deve cumprir outro preceito. Amanhã, pela manhã, receberá cem coelhos e deve levá-los para o campo e voltar pela tardinha, sem faltar um só.

João ficou certo de que guardar coelhos é o mesmo que juntar moscas. Não ficaria um só para exemplo. Mas mesmo assim, aceitou e dormiu num quarto todo preparado. Pela manhã, deram-lhe café e outras coisas e cem coelhos. Quando o rapaz saiu pelo portão do palácio, não via mais um coelho que fosse. Tinham fugido todos.

João andou até o campo, deitou-se debaixo de uma árvore e queimou o segundo fio que tivera de presente:

— Quero um jeito para guardar esses coelhos!

Palavras não eram ditas; apareceu uma gaita pequenina. João pegou e soprou. Saiu um apito estridente. Imediatamente os coelhos vieram correndo como uns loucos e se enfileiraram como soldados diante do rapaz. João espantou-os para que fossem comer. Pela tardinha apitou na gaitinha, juntou os cem coelhos e tocou-se para o palácio. Assim que chegou, mandou dizer ao rei que contasse os bichos. Contaram. Estavam todos os cem.

No outro dia, voltou com os cem coelhos, porque a princesa estava maldando uma diabrura para não casar com João. Este chegou, deitou-se debaixo da árvore, e os coelhos sumiram-se, pulando para todos os lados.

No pino do meio-dia, apareceu uma das criadas da princesa, toda bonita e trajada. Vinha comprar um coelho por todo dinheiro que fosse. O rapaz, desconfiado, teve uma idéia. Disse que vendia o coelho por um beijo. Vai a criatura e aceita o preço, dando o beijo. João entregou o coelho, e a moça segurou o bichinho nos braços e botou-se para casa, bem depressa. Logo que João a perdeu de vista, soprou a gaita e o coelhinho debateu-se com tanta força que arranhou a moça e voltou como um raio para junto dos outros. A moça chegou triste e contou à princesa que não pudera trazer o coelho. A princesa disse que ela não tinha sabedoria e mandou outra. Aconteceu o mesmo, sendo que o prelo subiu para dois beijos. A segunda moça voltou sem o coelho, e a princesa veio, ela mesma, decidir a questão.

Encontrou João na sombra e puxou conversa, com muito rodeio, e acabou falando na compra de um coelho.

— Só vendo se a princesa, minha senhora, me der a sua camisa.

A princesa zangou-se, mas não tendo outro remédio, foi para trás de uma árvore, tirou a camisa e a deu ao rapaz, recebendo o coelho. Enrolou o bichinho numa toalha e veio voando para o palácio. Nem passou o portão e já o coelho, ouvindo o apito da gaita, arrancava-se da toalha e voltava como uma flecha. A princesa nem olhou para trás, de furiosa.

De tarde, o rapaz voltou e entregou os cem coelhos. O rei mandou chamá-lo e disse:

— Amanhã eu reúno a corte toda e quero que você traga um saco cheio de mentiras.

João ficou desesperado com essa lembrança. Trancou-se no quarto e queimou o último fio:

— Quero um saco cheio de mentiras! Ouviu umas vozes que ensinavam o que ele devia fazer.

No outro dia, o salão estava apinhado de gente, o rei, a rainha, a princesa e todas as criadas, espelhando e bem-vestidas. O rei chamou João, mandou entregar-lhe um saco e disse:

— Vamos, encha esse saco de mentiras, na vista de todos que aqui estão.

O rapaz pegou o saco, abriu-lhe a boca, segurando-a com a mão esquerda, e, estirando a direita, como se tirasse uma fruta do pé, começou a falar:

— Por um coelhinho fujão, a criada da princesa me deu um beijo. É mentira ou não?

— É mentira, gritou a criada que dera o beijo.

João fez que metia uma coisa dentro do saco e declarou:

— O saco está enchendo!

— Por um coelhinho fujão, a outra criada da princesa me deu dois beijos. É mentira ou não?

— É mentira! É mentira! Gritava a outra criada da princesa que deu dois beijos.

— Saco meio! Dizia o rapaz. E gritando:

— Por um coelhinho fujão a princesa, minha senhora, me deu sua camisa. É mentira ou não?

— É a mentira maior do mundo! Gritou a princesa.

— Saco cheio! Saco cheio. Rei, meu senhor!

— É verdade — declarou o rei —, o saco está cheio. Falta saber se a princesa quer mesmo casar com você.

— João olhou para a princesa, e esta, que já estava gostando dele, balançou a cabeça dizendo que sim. Casaram e foi uma festa de arromba. Eu lá estive e comi de tudo e trouxe uma compoteira de doce para vocês, mas, na ladeira do Conclis, dei uma queda e quebrei o nariz…

Luísa Freire
Macaíba. Rio Grande do Norte
Cascudo, Luís da Câmara, 1898-1986.
Contos tradicionais do Brasil/Luís da Câmara Cascudo – Belo Horizonte: Itatiaia;
São Paulo: Universidade de São Paulo, 1986. p. 106-109.

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