Edição 02

Mensagem Profética

Criança e Paz

Toda criança é portadora da paz. Com sua demanda de espaço e de vida, renova a fraternidade. Suas perguntas nos obrigam a pensar sobre a razão de cada passo e o rumo de nossa vida. Rainha da paz e mestra da sabedoria, quase nunca é levada a sério.

Há 2 mil anos, em Belém, nascia uma criança carregada de paz.

Não havendo lugar para ela, foi acampar nas cercanias da cidade, à espera de pessoas que pudessem recebê-la. Ao seu encontro, correram os guardadores de ovelhas. Gente simples, de baixa colocação na pirâmide social.

Pessoas comprometidas com a paz, mas carentes de dignidade e de cidadania. Povinho carregado de esperança, mas sem valia nas relações da economia da política.

Hoje, como ontem, a paz se encontra em periferias e baixadas, sempre nas mãos de uma criança. Coberta por uns trapinhos, a paz chora de fome e de frio, e, assim, vai de definhando na vida perdida da criança desnutrida.

Em cada seis, uma é paz morta pelo pão que não foi repartido, pelo teto descoberto e pela ausência do carinho de pai e da ternura de mãe. Órfã de um mundo que globalizou o reinado da economia excludente e predatória.

Há bem pouco tempo, vestida de branco e à luz de vela, a Cidade Maravilhosa esperava amanhecer o dia trazendo a paz, como um sonho de Cinderela! Quando a paz chegou e adentrou o templo do consumo, foi enxotada pelos defensores da ordem e do progresso!

As luzes das lojas se apagaram, e as portas foram cerradas pelas mesmas mãos que acenavam das janelas com toalhas brancas. Os jornais noticiaram.

A gente pensava que a paz chegaria travestida de anjo. Eis que aparece malvestida e malcheirosa, pois, sem conhecer a estabilidade de uma tapera, vegeta em barrocos desprovidos de conforto e de mordomias.

Não estava no script que a paz estaria nas mãos da criança coberta de andrajos e de olhos esbugalhados diante de tanta fartura e beleza. Malditos sem teto! Ousam perturbar o weekend da frivolidade e da fantasia.

O engraxate da esquina cantarolava, sorrindo com os olhos.

Pareceu-me ouvir a melodia do Chico Buarque, cantando o desfile da vida em festa. Lembrei-me de que em outros tempos proibiram passeata de panela vazia. É tão simples, basta enchê-la!

Mais adiante um mendigo gargalhava. Não precisa ser médico para prescrever o único remédio que afugenta o sem-teto. De novo, é tão simples. A moradia. Terra, casa e escola, os três segredos de Fátima para a salvação do Brasil.

É tão simples, não?

Em todos os tempos, procura-se a paz onde ela não se encontra. A paz não abre mão de ser criança que pede espaço para vida com dignidade e esperança. A paz é vida para as crianças. É teimosa.

Defende a política da cidadania.

Criança e paz. O destino da criança é a maturidade da vida, não o paraíso dos anjinhos. Encontra a paz quem abre caminhos para a criança crescer em idade, graça e sabedoria. O caminho da paz estará sempre nas mãos das crianças. Crianças e paz!

 

Dom Mauro Morelli, primeiro bispo da Igreja Católica Apostólica Romana em Duque de Caxias e São João de Meriti.
Família Cristã
Ano 67 – Nº 781 – Janeiro/2001 – ISSN 0014-7125

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