Edição 54

Espaço pedagógico

Criança feliz é criança sem medo !

crianca

Durante muito tempo se manteve a esperança de que o Brasil seria o país do futuro. Mas o futuro tem demorado muito mais do que podemos esperar. A crise tem sido a presença mais constante em quase todos os nossos lares, como hóspede indesejada da qual não conseguimos nos livrar. Vassouras atrás de cada porta, pontas de panos de prato amarradas, e ela ali, olhando fixo para nós, diz que não vai embora nem com reza nem com água benta. Ficamos por aí, tentando obedecer ao calendário como se ela não existisse, como se suas ameaças não tivessem a ver conosco. Mas têm.

Outubro é um mês muito importante no calendário brasileiro. Grandes comemorações são reservadas a esse período: Nossa Senhora Aparecida, Santa Terezinha, São Francisco de Assis, São Judas Tadeu, Santa Tereza de Ávila; e, especialmente em 2010, teremos eleições majoritárias (presidente, senadores, deputados federais, governadores, deputados estaduais). Nesse clima de preparação para as eleições, não vamos nos esquecer do Dia das Crianças.

Para o Dia das Crianças, será mais do que nunca necessário que todos, pais, mães e responsáveis por crianças nas áreas de ensino e cuidado, façam uma reflexão sobre o que temos feito pelos seres que vêm ao mundo por nossa vontade ou que nos são entregues como precioso dom. Pôr uma criança no mundo é parte fundamental da transmissão e preservação da vida. Mas se transmite mal e se preserva menos ainda
quando o ato se encerra na geração ou, quando muito, na alimentação. Crianças precisam de muito mais do que nascer e comer. Já diz bem expressivamente o poeta: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte [...] a gente quer inteiro, e não pela metade”.

Como em todos os outros anos, lojas e centros de consumo e lazer se esforçarão por elevar a venda de presentes de todos os tipos e preços à máxima expressão de amor que pais e mães podem dar a filhos e filhas. Mas isso não passa de velho truque que será aplicado em outubro, em novembro e, insistentemente, gritado em todos os intervalos comerciais até dezembro, até o dia do Natal. Mas o que esperam os milhões de crianças do nosso país? Talvez uma historinha nos ajude a ter uma ideia.

Outro dia, numa sala de espera de consultório dentário, havia um pai cuidando da filha de uns 5 anos, enquanto a mãe era atendida. Na mesma sala, uma senhora, já de certa idade, também esperava atendimento, visivelmente incomodada com o comportamento da garotinha. Seria aquela senhora um desses tipos ranzinzas que mal suportam a inocência, a beleza, o frescor da infância? Não. A história não é bem essa. A menininha, sim, é que era absurdamente agressiva. Sem tirar os olhos do pai, solta na sala de espera, pisava nos pés das pessoas, ameaçava bater, encarava com hostilidade, xingava de modo bem acintoso, num tom de voz que só era ouvido por quem era xingado… enquanto o pai tentava controlar, carinhosamente demais, os excessos da filha, sem conseguir disfarçar o quase prazer de vê-la tão novinha a demonstrar tanta “atitude”. Sai a mãe do consultório, e o casal vai embora, também sem conseguir disfarçar o mal-estar de estarem juntos.

Mesmo fazendo-se de solícitos com a filha, estavam a vários graus de separação um do outro. A cena se encerra aí. O problema não. Que fazer com uma criança assim? Submetê-la a rígida disciplina, a palmadas e castigos? Não é o caso. Se alguém, naquele núcleo, precisa de disciplina, palmadas e castigos, são os pais, que, tendo atendido automaticamente ao apelo de transmissão da vida, não se mostram capazes de entender o comportamento claro de quem é vítima de medo.

Aquela criança, ao agredir a senhora e quem mais se apresentasse naquele momento, demonstrava medo. De quê, exatamente, a cena foi demasiado breve para se poder levantar alguma hipótese. Seria leviano julgar. Algo, porém, não se pode negar: cada gesto daquela criança, cada atitude com quem estivesse de fora da situação em que ela vivia e que ameaçasse se aproximar do pai ou da mãe, mesmo numa sala de espera, era um pedido claro de ajuda para se livrar de algum grande medo. Que ameaça grave a perseguia?
Se aquele casal vivesse em clima de confiança, aquela menininha bem teria outra atitude. Ela não precisaria atacar ninguém para defender a convivência dos pais, visivelmente abalada. Por isso, o maior e melhor presente que pais e mães podem dar a seus filhos e filhas no Dia das Crianças e em todos os dias é a segurança de se sentirem amados.

Desse querer é que vêm os filhos e as filhas, que, além de gerados no ventre da mãe, necessitam ser gerados todo dia no ventre do amor, do crescimento e da segurança que extingue o medo.

É preciso que as crianças aprendam a encarar e a conviver com o medo e a derrotá-lo em cada passo, amparadas pela segurança e pela responsabilidade do amor dos pais. Só num clima assim, fazem sentido presentes, festas, passeios, manifestações de alegria e comemorações.

É só pensando em enfrentar todos os medos que pairam sobre a nossa vida e a de nossas crianças que começaremos a nos sentir responsáveis pelo que sucede em nossas casas, em nossas relações imediatas, para depois nos animar a encarar a horrenda fisionomia da crise que ronda nossas relações de trabalho, de amizade, de amor. Não conseguiremos mundo habitável para nossas crianças pensando só em nosso lar, doce lar, fingindo que a vida é um amor e uma cabana.

Tudo naufragará, nem mesmo o sonho poderá existir se não participarmos do duro despertar da consciência, do árduo exercício da responsabilidade pelo que acontece no mundo das relações de trabalho, da política, da economia. Por isso é bom pensar, neste mês de outubro, no que faremos do nosso voto para que ele se transforme numa senha, num passaporte para o futuro das crianças que dependem, para viver melhor, do que fizermos enquanto adultos empenhados em levar o Brasil a domar a crise que insiste em dizer, abusadamente, que não vai nunca mais nos deixar.

Feliz Dia das Crianças! Que o grande manto de proteção do amor a todos guarde!

Fonte: Revista Mensageiro do Coração de Jesus. vol. 108
n° 1.204. São Paulo: Edições Loyola, out. de 2002.

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