Edição 102

Em discussão

Crianças, a alma do negócio?

José Alexandre da Silva

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O Dia das Crianças é uma data especial. Afinal, pode ser uma oportunidade de manifestarmos nosso amor e revisarmos nossa responsabilidade individual e coletiva de tratar os pequeninos. Ainda há crianças abandonadas, rejeitadas, famintas e mal-amadas. É oportunidade também de revermos nossas atitudes “inocentes”, como expor as crianças a uma publicidade consumista.

Um personagem que marcou minha infância foi o Galo Terrível. No livro A bolsa amarela, Lygia Bojunga Nunes conta a história desse galo para o qual, desde pintinho, foi decidido que seria galo de briga. E botaram em sua cabeça que teria de ganhar sempre. O resto do seu pensamento foi costurado com linha de pesca bem forte. Durante 130 lutas, o Terrível venceu, repetindo consigo mesmo que tinha de vencer.

As crianças no Brasil são as responsáveis por 80% da influência de compra dentro de um domicílio, o que justifica a linguagem infantil de muitas propagandas.
Publicidade para crianças

Publicidade para crianças

A lembrança desse personagem me foi despertada ao assistir ao documentário Crianças, a alma do negócio, que trata da publicidade dirigida ao público infantil. Além de entrevistas com crianças, mães e especialistas nessa temática e trechos de campanhas publicitárias, o documentário traz informações baseadas em dados estatísticos do IBGE, como a que revela que as crianças brasileiras são as que mais assistem TV no mundo, numa média de quatro horas, 51 minutos e 19 segundos por dia. Ou também a de que as crianças no Brasil são as responsáveis por 80% da influência de compra dentro de um domicílio, o que justifica a linguagem infantil de muitas propagandas

Uma campanha publicitária, a da boneca Barbie, chama a atenção em especial. Vejamos um trecho da fala de meninas que participam dessa propaganda: “Ser princesa é andar sempre bem-vestida. Ser princesa é estar sempre brilhando”. É importante frisar que as falas são de meninas menores de 10 anos e maquiadas.

Na sequência, é entrevistada uma mãe, dona de um salão de beleza, que afirma que as filhas sempre querem fazer as unhas e andar maquiadas. Outra diz que as meninas começam a usar batom a partir dos três anos. A partir dos quatro ou cinco, já estão bem maquiadas e, a partir dos oito, já têm a expectativa de arranjar namorado. Entre tantos estímulos lançados por propagandas direcionadas a um público infantil, talvez a adultização e a sensualização de meninas sejam a faceta mais cruel.

O contexto em que ocorrem tais situações não oferece perspectivas alentadoras. Vivemos em uma sociedade em que, na maioria das famílias, pai, mãe ou responsáveis estão inseridos no mercado de trabalho. Nesses casos, a televisão acaba servindo de babá e tem mostrado uma influência perniciosa, que é a de criar desejos desnecessários nas crianças.

Um jogo de interesses

Essa permissividade nociva é notada, no documentário, na fala de uma mãe que afirma fazer suas compras baseada no que seu filho, “que é louco por televisão”, quer comer. O documentário também traz a informação de que, de acordo com a Anvisa, 30% da população infantil está acima do peso e 15% é obesa. Depois de duas crianças terem sido inquiridas sobre o nome de alguns legumes, chamaram a abóbora de pepino, e o chuchu foi esquecido, o que não ocorre com salgadinho e outros alimentos não recomendáveis, cuja propaganda é veiculada em qualquer horário, sem restrições.

O Projeto de Lei do deputado Luiz Carlos Hauly, que altera o Código do Consumidor e proíbe a publicidade infantil em qualquer tipo de mídia, levantou uma grande polêmica entre os interessados nessa questão. Como ocorre em vários países europeus, uma regulamentação de publicidade direcionada ao público infantil poderia ser alternativa viável em nosso país. Mas tal controle, por nossa recente experiência da ditadura militar, traz consigo a possibilidade de os setores beneficiados com esse tipo de publicidade alegarem que se trata de censura.

Enquanto não discutirmos melhor essa questão, a cabeça de nossas crianças vai continuar sendo bombardeada pela publicidade, que lhes diz o que fazer, o que comer e como devem agir, de forma semelhante ao exemplo do Galo Terrível, mencionado no início deste texto. Entretanto, com esse personagem ocorreu que, depois das 130 vitórias, encontrou um galo mais jovem e mais forte, o Crista de Ferro, e acabou perdendo.

José Alexandre da Silva é professor de História dos ensinos Fundamental e Médio, em Ponta Grossa, PR.z

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