Edição 70

Lá Vem a História

Crônica melogramática

Eronildo Ferreira

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Maria tinha sempre um discurso direto bem afinado. Dia desses, ao vê-la entrar na repartição com um objeto indireto nas mãos, comecei a fazer uma análise sintática da sua vida. Ela era falastrona, muito eloquente, mas ultimamente tinha se tornado um tanto pleonástica.

Andava com um sujeito ora oculto, ora inexistente, e não havia mais predicados favoráveis ao seu respeito.

Ontem mesmo chegou atrasada e, questionada pelo chefe, limitou-se a desferir seus ditongos crescentes e decrescentes, criando um enorme hiato entre os dois.

Suspensa, presenciou uma elipse salarial. Lançava mão de eufemismos para se referir ao seu superior, mas sua permanência na empresa era uma verdadeira metáfora. Agora, o discurso indireto a acompanhava. Interjeições severas eram lançadas a quase todo mundo, junto com as suas partículas expletivas e pronomes demonstrativos de que algo não andava bem.

Seus dias eram uma enxurrada de adjetivos incomuns, e já era vista na companhia de alguns substantivos impróprios. Levava uma vida de sentido figurado e já nem dava bola à norma culta. Sua concordância andava brigando com a regência e estava cada vez mais íntima da gíria. Insatisfeita com seu trabalho, até tentou fazer um bico com a locução verbal, mas logo desistiu.

Foi quando descobri que sua grande paixão, lembrada apenas como um grande “trema de amor”, desapareceu, inutilizada pelo tempo.

Hoje, um velho hífen, de cara nova, tenta se aproximar. Infelizmente, ela percebe que a hifenização está se tornando uma infernização. Tenta se matar, mas acaba descobrindo que sua vida está cheia de prefixos e sufixos leais e fraternos que não a abandonam e que a incentivam a escrever um artigo definido para um grande jornal, no qual acaba fazendo sucesso como escritora.

A vida é assim: uma verdadeira aula de Gramática. Às vezes, super, hiper, mega; outras vezes, cheia de supressões, vírgulas, apostos e vocativos. E ainda temos que aprender a conviver com a comparação, apelando sempre por uma boa oração. Difícil? Sim! Desistir de aprender? Nunca!

Pois a certeza que temos da vida, ou melhor, da frase, seja ela curta ou longa, com ou sem interrogação, é de que um dia acaba, como num ponto-final.

Eronildo Ferreira é professor do Colégio Santa Joana d’Arc e da Faculdade Metropolitana da Grande Recife. Endereço eletrônico: proferon100@hotmail.com.

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