Edição 40

Matérias Especiais

Cyberbullying:uma nova modalidade de violência escolar

Vera A. C. Capucho e Genilson C. Marinho

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O surgimento e o desenvolvimento cada vez mais rápido e intenso das novas tecnologias da informação, com seus recursos, suas habilidades e suas funções cada vez maiores e mais diferentes, em nosso mundo, fazem com que a vida das pessoas esteja totalmente envolvida por eles, criando crescentes relações de dependência. No espaço escolar, isso não é diferente. As novas tecnologias da informação entram na escola, interferindo na aula dos professores e influenciando os alunos de forma a envolvê-los, transformando seu modo de conhecer, pensar, agir e estar no mundo.

Desse modo, a rapidez extrema com que acontecem as mudanças na sociedade contemporânea acaba por afetar os comportamentos e estilos de vida, fortemente enraizados nas relações sociais e culturais.Essa nova forma de viver estimula o relativismo radical, desencadeando novas situações problemáticas, entre elas o surgimento da violência gratuita, que afeta diretamente a convivência social.

A Sociedade Brasileira de Psiquiatria, representada pelo psiquiatra e delegado da ONU no Conselho Mundial de Psicoterapia, José Toufic Thomé, analisando o impacto da violência urbana no cidadão, alerta para o fato de que vivemos toda uma situação de ansiedade, desconfiança, defesa, levando cada indivíduo ao estresse físico e emocional permanente. Daí Thomé (2006) afirmar que antes a psiquiatria lidava com manifestações de desequilíbrios de ordem individual; no atual contexto histórico, o principal agente é cultural. Ainda segundo o psiquiatra, a falta de pertencimento à vida, a desilusão e o individualismo estão impactando as diversas formas de fobias e surtos psicóticos na sociedade mundial.

Nesse sentido, Debray argumenta que, a partir da espetacularização da imposição imagética, o mundo passa a se resumir àquilo que se vê em imagens de computadores, jornais televisivos, iPods, celulares e similares. O que não se vê é considerado inexistente.

Sendo assim, é comum dizer que estamos não só na era da informação, mas também na civilização da imagem. Isso tem sido revelado pela crescente proliferação dos meios imagético-eletrônicos e dos sistemas computadorizados que vêm ocupando parte significativa das relações sociais. A microeletrônica e a multimídia são elementos significativos que compõem a arquitetura dos territórios na sociedade contemporânea.

A equivalência entre visível, real e verdadeiro adquire novos contornos na medida em que se considera que a imagem também se transformou em mercadoria e se encontra, cada vez mais, submetida ao seu valor de troca. Como mercadoria, a imagem corresponde à visibilidade daquilo que se vende e se compra.

Constituída de fragmentos captados do mundo real, a atual cultura imagética não mostra a realidade, afinal as técnicas figurativas não são apenas meios para criar imagens de um tipo específico, são também meios de perceber e de interpretar o mundo. As sociedades humanas se utilizam dessa linguagem para as suas comunicações habituais e, sobretudo, para a elaboração de ideários políticos, religiosos, sociais e culturais que determinam a “hegemonia” dos grupos dominantes.

Esses grupos criam objetos e imagens, elaboram e definem modos de conduta, gestos, expressões, sentimentos e atitudes que também participam da legitimação dessas idéias e da pressão sobre todos os indivíduos sociais, colaborando para a produção e instalação de um viver e de uma visão de mundo que penetra e influencia a instituição escolar direta ou indiretamente. A escola, com seus métodos, suas didáticas e técnicas, participa efetivamente do projeto político-pedagógico de seu tempo.

Portanto, o atual estágio da indústria cultural (Adorno; Horkheimer, 1985) instaura um novo modelo de cultura da época, sob o poder absoluto do capital e do monopólio: a falsa identidade do universal e do particular. A chamada democratização da informação, bem como as já não tão graduais transformações na percepção, na estética, fornecem a impressão de que a nossa subjetividade conquista propriedades que a habilitam para compreender e intervir na sociedade de tal modo que as contradições entre o particular e a totalidade são apenas detalhes técnicos que podem ser resolvidos sem qualquer alteração das estruturas sociais. Portanto, a imposição imagética transforma a vida em algo para ser visto, um espetáculo no qual se prescinde do real e se advoga a sua representação, o simulacro.

Corroborando essa esfera social imagética, Harvey (1994), em sua análise, aponta que a condição pós-moderna estaria presente na sociedade do descarte, que “[...] mais do que jogar fora bens produzidos [...] significa também ser capaz de atirar fora valores, estilos de vida, relacionamentos estáveis, apego a coisas, edifícios, lugares, pessoas e modos adquiridos de ser e agir”.

cyber02Os ciberespaços da condição pós-moderna (Harvey, 1994) significam, basicamente, isso. Entre nós e o mundo, estão os meios tecnológicos de comunicação/interação, ou seja, de simulação. Eles não informam sobre o mundo, simplesmente o refazem à sua maneira, hiperrealizam o mundo, transformando-o num espetáculo. Uma reportagem em cores sobre os sobreviventes da invasão estadunidense no Iraque, por exemplo, deve, primeiro, seduzir e fascinar o público telespectador, para, depois, se for o caso, permitir um esboço de indignação. Caso contrário, a primeira reação é trocar de canal.

Exemplos como esse são indicativos de que há uma nítida fissura entre os conteúdos ideológicos da promessa de uma vida mais justa por causa da “democratização da cultura” e o real cumprimento dessa intenção. De fato, a produção cultural que se submete quase que por completo ao seu caráter de valor afastase de si própria, ou seja, termina por negar toda possibilidade de humanização e felicidade ao dissimular um verdadeiro estado de liberdade.

No interior da própria produção cultural, podemos observar os conflitos entre os desejos idiossincráticos e as leis sociais, entre o indivíduo e a sociedade. É uma definição de cultura que revela a influência de Freud, sobretudo o Freud de o Mal-estar na Cultura, no que diz respeito à difícil relação entre homem e sociedade, baseada na produção cultural que impinge a privação da satisfação imediata dos desejos mais profundos, resultando na conseqüente permanência da sensação de insatisfação e no deslocamento das pulsões para as atividades socialmente aceitas.

Do ponto de vista ideológico, o risco dos estereótipos reside na sua aparente obviedade ou naturalidade. Para o receptor, a realidade estereotipada parece tão óbvia que não fará esforços para questioná-la ou, pelo menos, para atenuá-la. Nesse sentido, segundo Ferres (1998), “os estereótipos são representações sociais, institucionalizadas, reiteradas e reducionistas”. As imagens que chegam até nós são constantemente repetidas, criadas e recriadas, montadas e misturadas com ou sem intenções claras e conscientes, gerando efeitos em seus espectadores. Imagens e sons que, juntos, nos trazem informações, nos sensibilizam e nos emocionam, nos ajudam a conhecer, decifrar, perceber, nos informar, sobreviver e também iludir, enganar, dirigir, dominar e controlar.

De certa forma, realiza-se no plano psicológico aquilo que Jameson chamou de “presentes perpétuos”. De acordo com o autor, de forte inspiração adorniana, vivemos num período cujos meios de comunicação que fundamentam a nossa experiência estética exigem que os acontecimentos históricos presentes devam ser relegados ao passado o mais rapidamente possível. Há um prejuízo, talvez irreparável, relacionado à perda do próprio sentido histórico. O que interessa é a reposição constante de produtos que prometem o contato definitivo com o “novo”, que já foi aprovado pelo “gosto popular” antes mesmo de ser lançado no mercado.

Na mesma direção, Harvey afirma que os planos coletivos e a própria formação das identidades, cada vez mais, limitam-se ao momento de exclusão e, até mesmo, de eliminação do outro. A tolerância mútua parece ser realizada apenas para aqueles eleitos que se reconhecem como “iguais”.

Como vemos, a escola não deve ignorar nem abolir as novas tecnologias da informação, mas saber usar sem ser usada; adaptar-se aos usos e costumes atuais, mas não se deixar deformar. Zuin, em seu texto Seduções e simulacros – considerações sobre a Indústria Cultural e os paradigmas da resistência e da reprodução em educação, alerta-nos para o fato de que

Os meios de comunicação de massa, enquanto instrumentos responsáveis pela propagação de valores e normas de comportamento, bem como as formas como suas lógicas medeiam e estruturam as relações sociais, inclusive as desenvolvidas nas escolas, são questões que necessariamente devem ser debatidas e pesquisadas. Ainda mais num país como o nosso, onde os interesses políticos e financeiros determinam, na maioria das vezes mais direta do que indiretamente, a produção dos bens culturais (Zuin, 1995, p. 172).
Assim sendo, é hora da sociedade ficar atenta à forma como as novas tecnologias estão sendo usadas pelos jovens educandos. É importante enfatizar que, não sendo neutra, a tecnologia está subordinada a jogos de poder e leis do mercado da sociedade em que está inserida. Conseqüentemente, o sistema educacional vai se apropriar da tecnologia sob uma determinada orientação ética, política, ideológica e pedagógica.

Novas formas de violência escolar no ciberespaço: o fenômeno cyberbullying

O ciberespaço configura-se como um locus de extrema complexidade e heterogeneidade, estabelecendo- se, em seu interior, as mais diversas e variadas formas de interação, tanto entre seres humanos quanto entre seres humanos e máquinas. Portanto, o ciberespaço, num contexto de globalização, pode ser visto como a possibilidade de acesso virtual a informações mundiais; o ser humano indo e vindo pelo mundo sem sair do lugar. É uma dimensão da sociedade em rede, em que os fluxos definem novas formas de relações sociais. Em resumo, é um novo fenômeno advindo das novas tecnologias da informação.

Ao contrário da do ciberespaço, a violência escolar não é algo novo, e, infelizmente, a cada momento histórico, assume novos contornos. Ademais, a violência se manifesta em todos os espaços sociais tradicionais (família, escola, igreja, política, etc.) e emergentes, como é o caso da sociedade virtual promovida pelas novas tecnologias.

A sociedade virtual como utopia de uma comunidade livre está sendo cada vez mais objeto de controle, não por razões éticas, mas, sim, por razões econômicas, diante das novas necessidades introduzidas pelas mudanças tecnológicas operadas pelas novas tecnologias, impondo à sociedade uma adaptação ao seu novo estilo de vida. Cada vez mais, grupos poderosos controlam o espaço da rede, operando uma nova divisão na sociedade capitalista contemporânea. Assim, as novas tecnologias legitimam uma nova forma de exclusão, controlando o acesso às informações de acordo com o poder econômico, não garantindo a totalidade para todos e todas, oferecendo produtos culturais de acordo com a faixa financeira do cliente.

Dessa maneira, ao reproduzir a mesma lógica do capital no ciberespaço, a internet, ao mesmo tempo que pode disponibilizar um volume fantástico de informações na rede, o qual podemos acessar de qualquer lugar e a qualquer momento, também pode controlar o acesso e determinar alguns padrões culturais destinados ao puro consumo.

Aí se encontra o perigo, pois a padronização cultural do mundo virtual aprisiona o indivíduo de maneira caricata e estereotipada, fazendo-o perder a capacidade reflexiva, contribuindo para propagar crimes cibernéticos atentatórios aos Direitos Humanos e Fundamentais, como o racismo, o neonazismo, a intolerância religiosa, a prostituição infantil, a homofobia e a apologia e incitação a crimes contra a vida, que têm afetado principalmente os jovens internautas brasileiros.

Neste atual contexto social, marcado por novas manifestações de violência simbólica na rede, temos o novo fenômeno cyberbullying, através do qual muitos usuários se aproveitam da falsa sensação de anonimato para praticar agressões ou intimidação por intermédio de mensagens veiculadas nos meios digitais.

Dessa maneira, o cyberbullying é um conjunto de comportamentos agressivos, intencionais e repetitivos que são adotados por um ou mais alunos contra outros colegas via blogs, Orkut, YouTube, entre outros tipos de sites, além de mensageiros instantâneos e mensagens de texto escritas no telefone celular.

Segundo Shaheen Shariff, investigador do Projeto Internacional de Cyberbullying, da Universidade McGill, no Canadá, o cyberbullying é uma tendência global, pois a sensação de anonimato tem produzido um significado especial nos meios digitais, onde o código cultural defende que as pessoas evitem o confronto direto.

Para o Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobes), o uso da tecnologia propicia uma forma de ataque perversa, que extrapola muito os muros da escola, ganhando dimensões incalculáveis.

Assim sendo, diante do exposto, apontamos algumas pistas introdutórias na tentativa de provocar a reflexão dos profissionais da educação para a relevância do cyberbullying no cotidiano escolar, encorajando-os a realizarem ações concretas de enfrentamento aos crimes cibernéticos atentatórios aos Direitos Humanos em face da cultura fragmentária expressa na internet.

Por fim, cabe destacar que a poderosa rede virtual tornou próximo o que é distante, mas instaurou uma falsa democracia (pseudoconcretude) cuja natureza não requer o respeito ao outro ser humano ou à diversidade, isto é, tornou distante qualquer possibilidade de universalização dos Direitos Humanos. Portanto, uma das constatações é que a escola necessita, urgentemente, criar práticas concretas sobre como se portar na internet, incluindo nessas aulas os aspectos legais do uso da Web, contribuindo, dessa forma, para a prevenção do cyberbullying.

Alguns casos…

Agressão em Brasília

“Fernanda não freqüentava o Centro de Ensino 404 da Samambaia, onde cursa a 6ª série, havia três semanas. Nesta quarta-feira, no entanto, mudou de idéia e resolveu ir à aula. Na saída, foi abordada por um grupo de colegas de classe que se auto-intitulam ‘Gangue SDM’. Elas queriam passar a limpo um antigo desentendimento, que envolveu até ameaças pelo site de relacionamentos Orkut. Fernanda foi jogada no chão e agredida por uma das meninas a tapas, teve seu rosto prensado contra o asfalto e chegou a ser ameaçada com um prendedor de cabelo pontiagudo. A mãe da menina acusa a escola de omissão e teme pela segurança da filha, já que são quase vizinhas da agressora, que tem 15 anos.”
Fonte: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/educacao/

Happy slapping ou “tapinhas bacanas”

“Série de ataques violentos em que adolescentes agridem colegas com tapas violentos e socos nos pátios e recreios apenas para gravarem e distribuírem o ‘feito’ através dos seus celulares de última geração, equipados com câmeras fotográficas e capacidade de gravação de vídeo. Depois, a gravação é disponibilizada na rede.”
Fonte: agência de notícias Reuters

Celular se transforma em arma para prática de comportamentos agressivos

“Para muitas crianças japonesas, o telefone celular é uma ferramenta importante para sua vida social. Mas, para o estudante do colegial Makoto, esse aparelho virou um instrumento de tortura mental que quase o levou ao suicídio. ‘Mesmo quando eu parei de ir à escola para ficar em casa, meu telefone continuava tocando por causa das mensagens molestadoras’, afirmou Makoto, que passou a sofrer de anorexia e raramente saía de seu quarto depois de passar quase meio ano sendo vítima de cyberbullying. A internet também facilita esse tipo de ação: 10% dos alunos de colegial do Japão dizem já ter sido ofendidos por e-mails, sites ou blogs.”
Fonte: agência de notícias Reuters

O que fazer?

Especialistas afirmam, em unanimidade, que a prática de cyberbullying deve ser denunciada às autoridades. Assim como acontece com os crimes de calúnia e difamação realizados via meios virtuais, as vítimas devem dar queixa em delegacias tradicionais ou, se preferirem, nas especializadas, como a Delegacia de Crimes Praticados por Meios Eletrônicos (Departamento de Investigações sobre Crime Organizado). No site da Safernet, organização que luta para defender os Direitos Humanos na internet, há uma seção que orienta os usuários da grande rede sobre o que fazer em caso de crimes de ameaça, calúnia, injúria e falsa identidade. Entre as instruções, estão a preservação de todas as provas, a realização de denúncia e, também, o envio de uma carta registrada, com modelo disponível no site, para o provedor de serviço tirar a página ofensiva do ar.

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