Edição 64

Profissionalismo

Da pedagogia do oprimido à pedagogia do deprimido

divulgação_paulofreire8_fmtHá treze anos, morria um dos mais importantes educadores brasileiros do século XX, Paulo Freire, deixando atrás de si não apenas uma obra de reflexões e proposições pedagógicas, mas também uma vida marcada pelas injunções de uma região — o Nordeste — e de um contexto social — a inumana desigualdade — que vincaria inapagavelmente essa obra.

Embora autor de inúmeros livros e artigos publicados em diversas partes do mundo, Freire celebrizou-se com o seu Pedagogia do Oprimido, sua opera-mor, seu texto mais traduzido e comentado, um ensaio para onde confluiu sua obra anterior e para onde se voltou sua obra posterior, com raras exceções. Foi ali que Freire “inventou” o oprimido!

Entendam-me: não estou dizendo que o oprimido é uma ficção literária saída da imaginação de um homem criativo e sensível; estou afirmando que, antes de Freire, o pensamento pedagógico tinha se ocupado — e se preocupado — com outras coisas, como a infância, a didática, a formação do professor, o progresso moral e intelectual, a salvação das almas, a formação integral do homem, a autonomia do sujeito, mas não especificamente dessa coisa tão abstrata quanto real que é o “oprimido”! Freire trouxe essa personagem para o interior da discussão pedagógica, e o imenso sucesso que essa figura veio a conhecer reside no fato de que aquele educador não adere à facilidade de entender a gramática da dominação segundo uma dualidade, digamos, “externa” e excludente, como se o dominador fosse algo de fora, estrangeiro ao dominado, ou como se quem fosse dominador estivesse situado necessariamente na antípoda do dominado. O problema é, justamente, o fato de que o dominado “hospeda” seu opressor dentro de si: pensa como ele, age como ele, sente como ele… e, na maioria das vezes, sem percebê-lo.

Aqui, Freire produziu — ou melhor, reproduziu — uma ideia que, desde o século XVI, com Étienne de La Boétie (O Discurso Sobre a Servidão Voluntária), até o século XX, com, por exemplo, Erich Fromm (O Medo à Liberdade) — em quem Freire muito se inspirou —, conheceu uma invejável fortuna: a de que, para se livrar da dominação, é necessária não apenas uma “ação” política contra o dominador, mas uma ação pessoal e subjetiva sobre si mesmo. O problema é que quem está imerso na opressão dispõe de uma consciência ainda precária para “desvelar” sua própria opressão, mas, em comunhão com outros homens, “mediados pelo mundo”, ele transitará para uma outra forma de consciência, a crítica. E isso através de uma pedagogia que supõe a igualdade ontológica entre os homens, a crença de que todos podem pronunciar a sua palavra e de que, baseados numa relação pedagógica dialogal, no final nos libertaremos. E eis como uma tradição soteriológica judaica (e agostiniana) reaparece numa pedagogia moderna e laica!!!

O esquema é altamente sedutor! Mas, na verdade, não faz outra coisa senão repetir uma badalada cantilena moderna: “alienação/autoconsciência/libertação”. Em palavras mais simples: ao cabo de um doloroso percurso de desencontro do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo, nós, finalmente, tomaremos consciência de nosso flagelo e realizaremos nossa vocação para “ser mais”.

O problema que se põe para todas essas pedagogias libertadoras ou emancipacionistas, como queiram, é, primeiro, o de saber se ainda podemos definir a opressão da mesma maneira e, segundo, saber se as pessoas, mesmo sob opressão, ainda preservam uma suposta “vontade de liberdade”.

Freire é um intelectual de uma época em que, quando se falava de opressão, pensava-se em fábrica, em latifúndio, em imperialismo ianque, em burguesia… Daí porque sua obra anterior à Pedagogia do Oprimido é tão marcada por uma linguagem da autenticidade e do projeto (vinda do existencialismo), aqui entendidos como o encontro de um povo consigo mesmo, com seu destino histórico, com sua vocação, e que, para consegui-lo, é preciso mudar a consciência. Praticamente todos os filósofos e intelectuais, de Platão para cá, tentaram a mesma coisa: mudar a consciência dos outros, sob a alegação de que esses outros são alienados, não veem a realidade como ela deveria ser vista e são enganados por uma falsa consciência. No fundo, todo educador-filósofo é uma espécie de ortopedista do olhar.

Isso significa que, enquanto o problema da libertação era tratado como uma questão de consciência em um mundo dividido em duas partes — a da sombra e a da luz, a da ingenuidade e a da crítica —, o ponto crucial era fazer o que aquele personagem da alegoria de Platão não tinha conseguido: desacorrentar seus companheiros. Só que, agora, através da palavra partilhada e comungada. Receio, no entanto, para nosso desespero, para nosso desalento político e pedagógico — e isso chega a cheirar a implicância! —, que os “prisioneiros da caverna” (metaforicamente, todos os oprimidos) não querem nem se libertar nem serem libertados! E é aí onde a pedagogia do oprimido se transforma em pedagogia do deprimido…

 

BRAYNER, Flávio Henrique Albert. Nós que Amávamos Tanto a Libertação. Brasília: Liber Livro, 2011.

cubos