Edição 39

Matérias Especiais

Desafio e Entusiasmo como Estratégia na Aprendizagem

Armando Correa de Siqueira Neto*

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Os educadores já possuem plena consciência sobre as dificuldades existentes no cotidiano de sua profissão. A experiência tem revelado, cada vez mais, o abismo que se estabelece entre o saber e o aluno. Falta de interesse em muitos estudantes e frustração presente nos professores atestam o trágico período pelo qual passa a Educação. A descrença anda à solta, aumentando a já desgastada imagem de mestre. Mesmo os mais otimistas, recém-saídos de seus mestrados e ávidos por praticar a pedagogia, ao se depararem com a realidade de algumas salas de aula, empalidecem e se sentem parte da enorme corrente formada nesta causa com poucas esperanças de melhora. Para os mais realistas, a idéia é a de que existem várias batalhas a caminho. “Matar um leão por dia” exprime o cenário.

Muitas reuniões para se discutirem as estratégias e os métodos mais adequados de se cumprir a missão educacional são parte da rotina dos docentes em algumas instituições. Nelas, são negociadas formas de se aproximar o aluno dos conteúdos encontrados nos planos de aula. Ora se apresentam soluções sob o contato individualizado com os alunos, ora se determina controle pela imposição do diário de presença ou, ainda, aplica-se severamente uma prova de última hora, causando o impacto aterrador que a tudo faz silenciar, mesmo os mais inquietos do fundão. Nesse último caso, o “inimigo” é vencido no “grito”. O aprendiz torna-se um obstáculo a ser superado, e não alguém que precisa superar os obstáculos. É antes um fardo do que um prazer. No entanto, há água em meio a tamanha sede. Por outro lado, existem aqueles que são dedicados e amenizam, em parte, o turbulento e cansativo cenário.

Mas a questão gira em torno de como aumentar o número de adeptos dentro das salas de aula, cujo interesse possa alavancar a aprendizagem e a boa formação, pressupostos inalienáveis do processo de educação. O que fazer diante dessa situação complexa e desgastante? O que se pensar a respeito? Que tipo de ajuda é crucial para se reduzir o grau de dificuldade existente na relação de aprendizagem? São muitas questões em mira. Entretanto, educadores de vários lugares podem contribuir, ao compartilhar as suas experiências inovadoras e criativas, provocando, dessa forma, uma troca. Os meios de comunicação têm espaço aberto para que se aproveite a oportunidade. Publicações, debates, fóruns, etc. são alguns caminhos para a convergência das idéias. Porém, é preciso agir. Dar o passo nessa direção. Sair do triste hábito de apenas se queixar e se justificar por tal condição. Romper com a prisão do desânimo e participar mais.

Sempre que nos deparamos com a experiência do outro, e ela nos faz sentido, nos estimulamos a tentar novamente. Da mesma forma, podemos influenciar favoravelmente alguém em determinado lugar, em um dado momento. A riqueza existente nas relações humanas vai além do pouco que usualmente enxergamos. É momento de sentir mais, de intuir mais, de crer e ousar mais. Quantas criações nos são possíveis quando nos abrimos a elas? Soluções para problemas tão complexos são concebidas diariamente em diversos segmentos. A Educação merece esse tipo de atenção também. Abrir a mente e o coração é o primeiro e fundamental ato para se alcançar mais do que se está acostumado.

Para exemplificar a troca de experiências, compartilharei de alguns momentos vividos durante os treinamentos numa indústria e em salas de aula. A desatenção e o desinteresse estão presentes também na vida organizacional. Para tanto, foi preciso criar uma situação motivadora: o dia do Grande Show, cuja estratégia visava a provocação por meio do desafio estabelecido, além do entusiasmo decorrente. Os participantes foram divididos em dois grupos e orientados a respeito das regras. Essencialmente, era um jogo semelhante ao Passa-ou-Repassa apresentado em programa televisivo. Os pontos eram registrados em quadro branco ou lousa. As perguntas se referiam aos temas já desenvolvidos. Cada grupo discutia, com empenhada concentração, a resposta que daria. O estímulo à competição transformava o lugar em programa de auditório, resultando em esforço para ser vitorioso e oportunidade de aprendizagem novamente. Todos estavam mais presentes e, portanto, mais abertos a conteúdos anteriormente ignorados ou esquecidos. Para a apresentação e a mediação do evento, criava-se uma ficha com logotipo, semelhante às utilizadas pelas emissoras de televisão.

estrategia02Esse artifício foi igualmente introduzido nas salas de aula, obtendo-se resultados semelhantes. O ser humano é despertado pela motivação que lhe preenche a alma com ânimo e interesse mediante as formas inusitadas que uma oportunidade de aprendizagem oferece. Um dia de aula comum pode se transformar num evento marcante para o estudante, que sai da apatia e penetra no reino do contágio motivador e se desafia a vencer ao ser desafiado pela atmosfera de competição que se instala inevitavelmente.

Tais experiências são uma amostra do que podemos tentar, a fim de modificar as relações com os alunos e criar um clima descontraído e motivador à aprendizagem, grande objetivo na prática docente. Crer, criar, coordenar, conscientizar e construir no processo de educação são fontes de desafio e entusiasmo. Os estudantes comprovam, através do seu envolvimento no jogo, por sua boa resposta e seu espírito de equipe, o quanto podem ser diferentes nos casos em que se considere a estratégia de aprendizagem no cotidiano educacional.

*Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo, consultor, conferencista e escritor. É professor de Gestão de RH pela Faculdade de Administração de Limeira/SP e de Pedagogia Empresarial pela Faculdade Maria Imaculada de Mogi-Guaçu/SP. É mestrando em Liderança pela Unisa Business School.
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