Edição 26

A fala do mestre...

Dewey e a Escola Progressista

A moral está jungida às realidades da vida, não a ideais, fins e obrigações independentes das realidades concretas. Os fatos dos quais ela depende, que são seus alicerces, procedem das ligações ativas e recíprocas entre indivíduos, são conseqüências das suas atividades entrelaçadas com a vida dos desejos, das crenças, dos julgamentos, das satisfações e dos descontentamentos. Neste sentido, a conduta e, conseqüentemente, a moral são sociais (…).
DEWEY, J. A Natureza Humana e a Conduta, IV, cap. 4, p. 257

O filósofo John Dewey (1859–1952) tornou-se um dos maiores pedagogos americanos, contribuindo intensamente para a divulgação dos princípios do que se chamou de Escola Nova. Entre outras obras, escreveu Meu Credo Pedagógico, A Escola e a Criança e Democracia e Educação.
Estudou nas Universidades de Vermont e Johns Hopkins; recebeu, nesta última, em 1884, o grau de Doutor em Filosofia. Ensinou na Universidade de Chicago, onde veio a ser chefe do Departamento de Filosofia, Psicologia e Pedagogia e, onde, por sugestão sua, essas três disciplinas se agruparam em um só departamento. Ainda em Chicago, fundou uma escola experimental, na qual foram aplicadas algumas das suas mais importantes idéias: a da relação da vida com a sociedade, dos meios com os fins e da teoria com a prática.
Em 1904, assumiu a direção do Departamento de Filosofia da Universidade de Colúmbia, em Nova York, na qual permaneceu até retirar-se do ensino. A partir da Primeira Guerra Mundial, interessou-se pelos problemas políticos e sociais. Deu cursos de Filosofia e Educação na Universidade de Pequim, em 1919 e em 1931; elaborou um projeto de reforma educacional para a Turquia, em 1924; visitou o México, o Japão e a URSS, estudando os problemas da educação nesses países. Ao falecer, em 1952, com 92 anos de idade, Dewey deixou extensa obra, na qual se destacam: Psychology (1887; Psicologia), My Pedagogic Creed (1897; Meu Credo Pedagógico), Psychology and Pedagogic Method (1899; Psicologia e Método Pedagógico), The School and Society (1899; A Escola e a Sociedade), How We Think (1910; Como Pensamos), Democracy and Education (1916; Democracia e Educação), Reconstrucion in Philosophy (1920; Reconstrução na Filosofia), Human Nature and Conduct (1922; Natureza Humana e Conduta), Philosophy and Civilization (1931; Filosofia e Civilização), Art as Experience (1934; A Arte como Experiência), Logic, the Teory of Inquiry (1938; Lógica, a Teoria da Investigação), Freedom and Culture (1939; Liberdade e Cultura) e Problems of Men (1946; Problemas dos Homens).
Dewey não aceitava a educação pela instrução defendida por Herbart, propondo a educação pela ação; criticava severamente a educação tradicional, principalmente no que se refere à ênfase dada ao intelectualismo e à memorização.
Para Dewey, o conhecimento é uma atividade dirigida que não tem um fim em si mesma, mas está voltada para a experiência. As idéias são hipóteses de ação e são verdadeiras quando funcionam como orientadoras dessa ação.
A educação tem como finalidade propiciar à criança condições para que resolva por si própria os seus problemas, e não as tradicionais idéias de formar a criança de acordo com modelos prévios ou mesmo orientá-la para um porvir.
Tendo o conceito de experiência como fator central de seus pressupostos, chegou à conclusão de que a escola não pode ser uma preparação para a vida, mas, sim, a própria vida. Assim, para ele, vida, experiência e aprendizagem estão unidas de tal forma que a função da escola encontra-se em possibilitar, à criança, uma reconstrução permanente da experiência.
A educação progressiva está no crescimento constante da vida à medida que vai sendo aumentados o conteúdo da experiência, assim como o controle que podemos exercer sobre ela.
É importante que o educador descubra os verdadeiros interesses da criança para apoiar-se nesses interesses, pois, para ele, esforço e disciplina são produtos do interesse, e, somente com base nesses interesses, a experiência adquiriria um verdadeiro valor educativo.
Dewey atribui grande valor às atividades manuais, pois apresentam situações de problemas concretos para serem resolvidos, considerando, ainda, que o trabalho desenvolve o espírito de comunidade e a divisão das tarefas entre os participantes estimula a cooperação e a conseqüente criação de um espírito social. Dewey concebeu que o espírito de iniciativa e a independência levam à autonomia e ao autogoverno, que são virtudes de uma sociedade realmente democrática, em oposição ao ensino tradicional, que valoriza a obediência.

“O conceito central do pensamento de Dewey é a experiência, que consiste, por um lado, em experimentar e, por outro, em provar.”

A educação, para ele, é uma necessidade social; os indivíduos precisam ser educados para que se assegure a continuidade social, transmitindo suas crenças, suas idéias e seus conhecimentos. Ele não defendia o ensino profissionalizante, mas via a escola voltada aos reais interesses dos alunos, valorizando sua curiosidade natural.

De acordo com os ideais da democracia, Dewey via, na escola, o instrumento ideal para estender a todos os indivíduos os seus benefícios, tendo a educação uma função democratizadora de igualar as oportunidades.

Advém, dessa concepção, o “otimismo pedagógico” da Escola Nova, tão criticado pelos teóricos das correntes crítico-reprodutivistas.

O processo de ensino–aprendizagem, para Dewey, estaria baseado em:

Uma compreensão de que o saber é constituído por conhecimentos e vivências que se entrelaçam de forma dinâmica, distante da previsibilidade das idéias anteriores.
Alunos e professor detentores de experiências próprias, que são aproveitadas no processo. O professor possui uma visão sintética dos conteúdos; os alunos, uma visão sincrética, o que torna a experiência um ponto central na formação do conhecimento, mais do que os conteúdos formais.
Uma aprendizagem essencialmente coletiva, assim como é coletiva a produção do conhecimento.

O conceito central do pensamento de Dewey é a experiência, que consiste, por um lado, em experimentar e, por outro, em provar. Com base nas experiências que prova, a experiência educativa torna-se, para a criança, um ato de constante reconstrução.

A pedagogia de Dewey apresenta muitos aspectos inovadores, distinguindo-se especialmente pela oposição à escola tradicional, mas não questiona a sociedade e seus valores como estão propostos no seu tempo. Sua teoria representa plenamente os ideais liberais, sem se contrapor aos valores burgueses, acabando por reforçar a adaptação do aluno à sociedade.

Vera Lúcia Camara F. Zacharias é mestre em Educação, pedagoga, diretora de escola aposentada, com vasta experiência na área educacional em geral e, em especial, na implantação de cursos técnicos de Nível Médio e Pós-médio, assessoria e capacitação de profissionais para a utilização de novas tecnologias aplicadas à educação e alfabetização.

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