Edição 64

Em discussão

Perspectivas no ensino-aprendizagem

Claudemir dos Santos Silva

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Hoje, a sociedade e a escola parecem estar despertando para uma nova realidade, pois novos rumos indicam melhorias para os “atores” que lutam incessantemente pelo progresso no processo de ensino-aprendizagem. O foco está nos campos afetivo, cognitivo e psicomotor, que identificam as competências do novo profissional e cidadão. Muitos educadores enfatizam que a afetividade está nas interações sociais, influenciando no aspecto cognitivo do educando, e as decisões relacionadas ao ensino têm várias implicações afetivas no desenvolvimento do comportamento do aluno, impactando na sua aprendizagem.

Segundo Wallon (1968), para construir uma pessoa ou o seu conhecimento, o aspecto afetivo é o foco principal, pois a atividade emocional é, ao mesmo tempo, social e biológica. O vínculo com o ambiente social garante o acesso ao universo da cultura acumulado pelo ser humano ao longo dos tempos. Já para Freire (2002), falta alguma coisa à cultura que não permite gestos afetivos.

Dessa maneira, a afetividade experimentada na relação professor-aluno contribui para o êxito no processo de ensino-aprendizagem. Devemos esse sucesso a uma didática intercomunicativa, que traz e expressa uma pedagogia dialógica que prima pela interatividade, o diálogo e o sociointeracionismo. Enfim, que busca constantemente, através do aprendizado colaborativo/interacional, o protagonismo social e o atuar crítico dos educandos, que deixarão de ser sujeitos passivos e realizarão uma leitura crítico-reflexiva do mundo, tornando-se autônomo-atuantes no contexto escolar e social em que estão inseridos. A afetividade nasce dessa certeza de que o aluno aprende quando se sente valorizado, acolhido e respeitado.

Para estudiosos, o papel afetivo funciona como fonte de energia que a cognição utiliza para o funcionamento do intelecto. Todos os objetos de conhecimento são simultaneamente cognitivos e afetivos, e as pessoas são, ao mesmo tempo, objetos de conhecimento e de afeto (ARANTES, 2008).

Dinâmica afetiva humana

Para Benato (2001), falar de afetividade é pensar na essência da vida humana no sentido em que o ser humano é ser social por natureza, relaciona-se e vincula-se a outras pessoas desde sempre, sendo feliz e sofrendo em decorrência dessas inter-relações. Sendo assim, observamos que a afetividade está atrelada a relações sociais com outras pessoas, isto é, estas se abrem ao diálogo através da linguagem.

Conforme Freire (2005, p. 91): “O diálogo é este encontro dos homens, midiatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu”. Nas interações entre educadores e educandos, o diálogo e a afetividade são construídos por meio da linguagem que aproxima esses “atores” na comunicação. Na abordagem freireana, só a partir da relação dialógica entre educadores e educandos é que a educação se efetiva no processo de construção de conhecimentos e descobertas, visando à transformação.

Essa noção de dialogismo foi amplamente abordada nos escritos de Bakhtin (1993). No enfoque bakhtiniano, a linguagem é eminentemente dialógica, visto que mantém interação com enunciados anteriores e posteriores ao momento da comunicação. Além disso, enquanto fenômeno social e ideológico, a linguagem participa dinamicamente da realidade histórico-social dos indivíduos. De acordo com Freire (2002), assim como a linguagem, a Educação também é dialógica, já que “Ensinar exige disponibilidade ao diálogo”.

Vigotsky (2008, citado por SANTOS, 2009) estudou como as emoções se integravam ao funcionamento da mente com participação ativa em sua configuração. Goleman (1996) já destacava a importância da motivação e da afetividade na aprendizagem dos alunos mostrando como a vida mental é diretamente afetada pelos distúrbios emocionais, chamando a atenção para a ideia bem conhecida de que “[...] alunos deprimidos, mal-humorados e ansiosos encontram maior dificuldade em aprender” (JAQUES; VICARI, 2005, p. 6).

Rezende (2006) acredita ser interessante mencionar o quanto é importante saber escutar nossos alunos; dessa maneira, os laços de amizade irão “crescendo e penetrando” no coração, e os alunos acreditarão, cada vez mais, nas palavras de seus mestres. E isso nos mostra que o saber escutar é um princípio de humildade, o que traz também uma afetividade. Quando o educador souber escutar, poderá trazer o educando junto a si e poderá orientá-lo, direcioná-lo.

Didática intercomunicativa

De acordo com a proposta pedagógico-comunicacional, denominada de pedagogia da comunicação, didática é um ato comunicativo e integrador praticado por sujeitos comunicantes. Essa pedagogia tem como um dos seus princípios criar, dentro dos espaços de aula, “[...] oportunidades de vivências partilhadas entre alunos e entre estes e o professor” (PENTEADO, 1998, p. 20). Nessa pedagogia, “Os conhecimentos e a metodologia surgem a partir da dialogicidade do professor-comunicador com os alunos no espaço escolar” (PORTO, 1998, p. 33).

Segundo Candau (1983, p. 04), “O objeto de estudo da didática é o processo de ensino-aprendizagem. Toda proposta didática está impregnada, implícita ou explicitamente, de uma concepção do processo de ensino-aprendizagem, sendo este numa visão humanística”. Desse modo, a prática docente na Educação já revela as concepções subjacentes sobre o fazer pedagógico, bem como a abordagem didática que o professor prioriza na relação com os objetos de aprendizagem e com os educandos.

Para Freire (1996), ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção ou para a sua construção. Portanto, compreendemos que o princípio comunicativo da interação didática deve ser primado pelo dialogismo entre educadores e educandos no processo de ensino-aprendizagem.

Como desenvolver a prática docente com base em uma didática intercomunicativa? A dimensão dialógica da didática vem evidenciando que ensinar requer atenção e interação, considerando-se a via de mão dupla entre ensinar-aprender, docência e discência. É através do diálogo que Habermas vislumbra a possibilidade de o homem retornar ao seu papel de sujeito. Ele vê na escola o espaço em que uma ação comunicativa, ao ser desenvolvida sistematicamente, coincide com os objetivos de uma educação que visa à formação de indivíduos críticos e participativos (apud GONÇALVES, 1999, p. 131).

É preciso ressaltar, como postulou Freire (2002, p. 161), que a prática educativa envolve “[...] afetividade, alegria, capacidade científica e domínio técnico a serviço da mudança”. É preciso ir além e buscar a construção da afetividade como eixo fundamental no processo dialógico de ensino-aprendizagem.

Segundo Haidt (2006, p. 76), a aprendizagem de forma autêntica só vai ocorrer quando o aluno estiver interessado/motivado, sendo isso um processo psicológico e energético e, como tal, pessoal e interno, que impele o indivíduo para a ação, determinando a direção do comportamento. O que o professor pode fazer é incentivar o aluno, isto é, despertar sua atenção e seu interesse, orientando e canalizando as fontes motivacionais. Nisto, concorda Silveira Teles (2003) dizendo que o processo de motivação consiste no estágio motivacional, no qual o indivíduo é ativado a fim de satisfazer uma necessidade.

O professor precisa saber viabilizar exercícios de cooperação que sustentarão os próprios desenvolvimentos cognitivo, moral, social e afetivo dos discentes. Para Freire (1996, p. 47), “Às vezes, mal se imagina o que pode passar a representar, na vida de um aluno, um simples gesto do professor”.

Algumas considerações

Concordemos que sentimentos e emoções influenciam na aprendizagem dos alunos e no trabalho dos professores em qualquer modalidade de ensino a partir das interações entre educadores e educandos, tendo em vista uma dimensão espaço-temporal bem definida e as relações dialógicas entre o ensinar e o aprender contando com as múltiplas potencialidades da interação face a face. Um sorriso, um olhar, um gesto, um tom mais elevado de voz, expressões faciais, corporais, recursos sonoros, enfim, quando uma gama de componentes participa das relações interpessoais no ensino presencial. Assim, o educador deve transformar sua ação em objeto de reflexão, buscando não só o avanço cognitivo dos educandos, mas a criação de condições afetivas para estabelecer vínculos positivos com os conteúdos ministrados. A didática intercomunicativa torna-se uma poderosa aliada, desencadeando uma pedagogia dialógica e afetiva na relação professor-aluno no ensino-aprendizagem.

Saibamos que aprender é um processo que se dá ao longo da vida, permitindo-nos adquirir algo novo em qualquer idade. Envolve múltiplas dimensões: aprender a ser, aprender a fazer, aprender a perceber, aprender a viver junto, aprender a ouvir, aprender a falar, aprender a aprender, aprender que sempre estaremos aprendendo. Dessa maneira, estaremos cumprindo o papel social da escola, que é o de formar cidadãos em seus aspectos afetivo, cognitivo e social.

Claudemir dos Santos Silva é graduado em Letras (2009) e especialista em Psicopedagogia Institucional (Faintvisa – PE). É docente de Língua Inglesa do Educandário Reino Infantil e professor tutor do curso de licenciatura em Letras da UFRPE. Endereço eletrônico: claudemirssilva@yahoo.com.br.

Referências bibliográficas

BAKHTIN, M. Questões de Literatura e de Estética. São Paulo: Cultrix, 1993.

BARROS, Célia Silva Guimarães. Pontos de Psicologia Escolar. São Paulo: Ática, 1998.

CANDAU, V. (Org.). A Didática em Questão. Rio de Janeiro: Vozes, 1983.

FARIAS, Isabel Maria Sabino de. Mudança e Cultura Docente. Brasília: Líber, 2006.

FILHO, Luiz Schettini. Carão com Carinho. Recife: Bagaço, 1995.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

_____. Pedagogia da Esperança: Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

_____. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

HAIDT, Regina Célia Cazaux. Curso de Didática Geral. São Paulo: Ática, 2006.

REZENDE, Bernardo Rocha de. Transformando em Ouro. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

TELES, Maria Luiza Silveira. Aprender Psicologia. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 2003.

WALLON, H. A Evolução Psicológica da Criança. Trad. Ana Maria Bessa. Lisboa: Edições 70, 1968.

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