Edição 91

A LEI Nº 11.645/08

Diversidade cultural no Brasil: do escravismo à assimilação de diversas manifestações humanas

José Raimundo de Jesus

Introdução

32Brasil tornou-se uma das nações de cultura mais heterogênea do mundo devido ao grande e diversificado número de povos advindos de outras terras. Tudo iniciou-se com a chegada dos portugueses no ano de 1500, os quais entraram em contato com os costumes dos nativos já presentes na mais nova colônia de Portugal. Misturaram-se, então, hábitos culturais dos europeus com os dos indígenas, apesar de estes últimos terem sido submetidos aos mandos dos primeiros. Pois, muitos indígenas foram mortos em confronto pela defesa de suas terras, que estariam sendo invadidas por estrangeiros em busca de novos territórios. Como afirma Freyre (2003), “o português fez-se aqui senhor de terras mais vastas, dono de homens mais numerosos que qualquer outro colonizador da América“.

De início houve um choque cultural, ideológico e humano, e, na busca de mão de obra, muitos nativos foram escravizados, porém travaram lutas com os portugueses, sendo que, após muita resistência e ideias contrárias à escravização do povo das terras americanas, não restou outra alternativa aos exploradores a não ser trazer africanos na condição de escravos. Juntam-se, dessa forma, às duas culturas presentes no Brasil os costumes do povo da África, que fora retirado de suas terras à força e vendido como mercadoria. No entanto, o processo de assimilação entre essas culturas tão diferentes não foi fácil. Tivemos muitas restrições em relação às práticas socioculturais pertencentes aos africanos escravizados e seus descendentes.

Outras manifestações humanas de diversas partes do mundo também foram incorporadas à cultura brasileira através das inúmeras imigrações em função de muitos fatores naturais, ideológicos, religiosos, políticos, etc. É frente a essa problemática que se dá o desenrolar deste trabalho, no qual busca-se ampliar os estudos já existentes a respeito da cultura no Brasil, sua formação e trajetória, além dos acertos e desacordos que temos observado na nossa sociedade. Por acreditar na importância e na contribuição dos diversos povos advindos de outros países para a diversidade cultural brasileira, aportamos a este estudo valiosa colaboração para estudantes de níveis fundamental, médio, superior e de pós-graduação em busca da ampliação dos conhecimentos a respeito da cultura brasileira. Pois, concordando com Francisco (2016), “[...] que o Brasil possui uma vasta diversidade cultural [...]”, acredito que ainda há muito a ser feito em relação à desbravação dos inúmeros movimentos culturais presentes no Brasil, desde a cultura indígena, passando pela dos portugueses, dos africanos e dos demais povos que vieram em busca de melhores condições de vida, até das imigrações atuais. E ampliando o campo de estudos linguísticos, históricos, sociológicos, antropológicos, literários, políticos, etc., certamente estaremos contribuindo com o enriquecimento cultural brasileiro e mundial.

Manifestações africanas e afro-brasileiras: proibição, discriminação e marginalização

33om a resistência do nativo brasileiro (indígena) ao trabalho forçado imposto pelos portugueses no período colonial — cuja proibição, após muitas lutas, fugas e ideias contrárias a esse ato, principalmente por parte da Igreja Católica, só aconteceu de forma oficial no século XVIII com as mudanças feitas pelo Marquês de Pombal —, os colonizadores viram, na compra de africanos para trabalharem em regime de escravidão, um negócio lucrativo. Num primeiro momento, a lei de 6 de junho de 1755 (Diretório dos Índios), exposta por Pombal, era válida para o Estado do Grão-Pará e Maranhão, sendo aplicada para o Estado do Brasil a partir de 1758. O tráfico negreiro, no entanto, perdurou até o século XIX. Sabemos que a escravidão não é nem foi uma prática nova, pois, desde a Antiguidade já se praticava esse ato. Como afirma Malheiro (2008),

Introduzida a escravidão entre os povos desde a mais remota Antiguidade por diversos fundamentos, dos quais todavia a guerra foi o principal, e existindo ela infelizmente também em nossa sociedade, embora sem causa que a possa escusar [...] (pp. 38-39).

Ainda segundo Malheiro (2008),

A escravidão antiga achava sua escusa no direito do vencedor em guerras internacionais. Foi um progresso no direito das gentes da Antiguidade conservar a vida ao prisioneiro inimigo, a quem se julgava ter direito de matar, sujeitando-o, em compensação, ao cativeiro e domínio do vencedor. Este mesmo fundamento foi mais tarde formalmente reprovado pelo próprio legislador, que não só qualificou a escravidão de contrária à natureza, mas de introduzida pela ferocidade dos inimigos [...] (p. 38).

Como podemos perceber, a prática perversa da escravidão não se trata de algo recente, tampouco desconhecido pelos olhos da humanidade. Apesar de assumir várias formas, a escravização do homem pelo homem está longe de acabar.

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Trazidos de várias regiões do Continente Africano, em especial a África Centro-Ocidental, atual Angola, os africanos tiveram papel decisivo no desenvolvimento da produção de açúcar, principalmente na Região Nordeste brasileira. Para Oliveira (2007),

Quanto à origem das populações escravas, existiram dois grandes conjuntos de grupos que se fizeram representar no tráfico negreiro: bantos e sudaneses. Os bantos englobavam as populações oriundas do antigo reino do Congo, que hoje compreende as regiões localizadas no atual Congo, Angola, Gabão, Moçambique e Zaire.

O açúcar era um produto muito lucrativo na Europa, daí a necessidade de Portugal utilizar a mão de obra escrava em sua recém-“descoberta” colônia americana, pois, como já dissemos, a tentativa de escravizar os nativos não obteve sucesso. Segundo Sousa,

A participação dos negros no Brasil Colonial aconteceu a partir do momento em que a experiência colonial portuguesa estabeleceu a necessidade de um grande número de trabalhadores para ocuparem, em princípio, as grandes fazendas produtoras de cana-de-açúcar. Tendo já realizada a exploração e dominação do litoral africano, os portugueses buscaram nos negros a mão de obra escrava para ocupar tais postos de trabalho (s/d).

O povo africano forçado a vir ao Brasil pertencia a tribos diferentes, falava idiomas e dialetos diversos, além das inúmeras ideologias, crenças, hábitos, costumes, etc. Tratados como mercadorias, os escravizados cruzavam o Oceano Atlântico em porões de navios, expostos a condições desumanas, propensos a doenças e pragas.

Ao chegarem à América, na então Colônia portuguesa, Brasil, os africanos trouxeram muitos costumes de suas regiões de origem, elementos preponderantes na formação da cultura Brasileira. Dentre as contribuições dos africanos, podemos destacar a religiosidade e os cultos de matriz africana, por exemplo. No entanto, ao aportarem em solo estrangeiro, os africanos escravizados não tiveram liberdade para viver seus hábitos culturais, linguísticos e religiosos. Primeiramente tinham que aprender a língua portuguesa falada pelos seus “senhores”, além de terem sido proibidos a cultuar seus deuses, realizar rituais, os quais tomavam como sagrados. Foram-lhes negados também as danças e muitas outras formas de expressão corporal. Dessa forma, a única maneira de continuarem a praticar sua cultura advinda de sua terra de origem foi de forma clandestina. Mesmo perseguido, o povo afro-brasileiro não se desfez de seus hábitos e costumes, apesar de ter seus cultos e suas crenças menosprezados por muito tempo aqui no Brasil. Uma das formas encontradas pelos negros para não deixar de praticar suas crenças foi misturar as religiões de matriz africana com o cristianismo europeu, dessa forma eles agradavam os brancos por estarem praticando o Catolicismo e, ao mesmo tempo, fortaleciam suas tradições trazidas da África transmitindo-as às gerações mais jovens.

É perceptível e inegável que, além das torturas físicas e psicológicas, a população afro-brasileira escravizada teve seus hábitos culturais e linguísticos e suas práticas religiosas discriminados, marginalizados e até proibidos por muito tempo no Brasil. Dessa forma, percebemos que as diferenças socioculturais, políticas e humanas entre brancos e negros no nosso país possuem raízes profundas e de longa data. Isto é, muitos dos problemas enfrentados pela população menos favorecida vêm desde o período colonial brasileiro em que seres humanos foram arrancados de sua terra natal e trazidos para terras longínquas e desconhecidas para serem escravizados e tratados como meros objetos de produção, sem nenhum valor nem direitos de cidadão.

Miscigenação cultural no Brasil: a inexistência de fronteiras entre as diversas produções humanas

35esde os primórdios da humanidade existem manifestações culturais, independentemente de suas características ou finalidade. De início, os seres humanos (primitivos) registravam suas façanhas, seus hábitos e seus costumes, enfim, sua cultura, em paredes de cavernas, em rochas, monumentos, etc. Nesses registros, percebem-se as formas de caçar, pescar e as lutas existentes na época. Para Reis (2008),

O homem pré-histórico legou-nos interessantes testemunhos da sua cultura, através de gigantescos monumentos de pedra e pinturas em cavernas. Os monumentos de pedra parecem ter significado religioso, ligando-se ao culto dos mortos. São de dois tipos, conhecidos pelo nome de menires (pedra comprida, em língua bretã) e dólmens ( mesa de pedra, também em língua bretã). O homem da Pré-história criou ritos mágicos para auxiliá-lo a vencer a natureza e o medo do desconhecido. Esses ritos buscavam favorecer a caça, trazer chuva, estações propícias, fartura de alimentos. Foram os ritos mágicos favorecedores da caça que provavelmente deram início às primeiras manifestações artísticas, desenhadas e pintadas, nas paredes e no teto de cavernas, com carvão, tintas minerais e vegetais, representando animais como o mamute, o touro, o javali, a rena e o cavalo (2008).

36E dando continuidade ao desenvolvimento cultural, o ser humano vem, ao longo dos séculos e milênios, fazendo com que a humanidade progrida, e seus hábitos, seus costumes, suas crenças e suas ideologias se permutem e se perpetuem ao mesmo tempo.

A cultura, como um todo, não tem limites nem fronteiras. Como sabemos, em todos os cantos do planeta Terra há culturas diversas, porém, com os constantes deslocamentos humanos, suas variadas formas de expressão, sejam elas quais forem, miscigenam-se em outras culturas, e estas, juntas, formam novas expressividades. No Brasil, por sua vez, essa mistura cultural se deu desde o início da chegada dos europeus no ano de 1500. Num primeiro momento, tivemos o contato dos portugueses com os nativos americanos (indígenas), cujo encontro, apesar dos conflitos humanos e ideológicos, houve uma fusão cultural entre esses dois povos.

Antes da vinda dos exploradores enviados da Coroa portuguesa, o território “brasileiro” tinha de 2 a 5 milhões de pessoas pertencentes a vários grupos/etnias, dentre eles: os bororos, os carajás, os caiangues e os ianomamis. Esses povos dividiam-se de acordo com o tronco linguístico ao qual pertenciam. Na região litorânea, tínhamos o tupi-guarani; na área que abrange o Planalto Central, encontrava-se o macro-jê, também conhecido como tapuia; e, na vasta região amazônica, o aruaque e o caraíba. Dessa forma nativos e estrangeiros tiveram, num primeiro momento, o estranhamento, para depois virem as misturas culturais, mesmo que de forma lenta.

Outro momento, e talvez um dos mais promissores para a formação da cultura brasileira, foi a junção do povo africano com os hábitos dos luso-brasileiros. Daí surgem elementos essenciais que norteiam todas as formas de expressões culturais na nossa atualidade. Também não foi um processo fácil nem muito amigável, mas a força incontrolável das manifestações humanas sobrepôs-se a qualquer forma de discriminação, perversidade e violência. Como afirma Ribeiro (2016),

A cultura brasileira em sua essência seria composta por uma diversidade cultural, fruto dessa aproximação que se desenvolveu desde os tempos de colonização, a qual, como sabemos, não foi, necessariamente, um processo amistoso entre colonizadores e colonizados, entre brancos e índios, entre brancos e negros. Se é verdade que portugueses, indígenas e africanos estiveram em permanente contato, também é fato que essa aproximação foi marcada pela exploração e pela violência impostas a índios e negros pelos europeus colonizadores, os quais a seu modo tentavam impor seus valores, sua religião e seus interesses.

Percebemos, então, que o contato do índio, do português e do africano, três povos com diferenças culturais visíveis, teve papel importantíssimo na formação da nossa cultura. Com contribuições culinárias, folclóricas, religiosas, artísticas, linguísticas, etc., esses povos nos proporcionaram uma gama de expressões socioculturais e humanas que, em muitos momentos nos diferenciam de outras culturas mundo afora. Para Ribeiro (2016),

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A culinária africana misturou-se à indígena e à europeia; os valores do catolicismo europeu fundiram-se às religiões e aos símbolos africanos, configurando o chamado sincretismo religioso; as linguagens e vocabulários afros e indígenas somaram-se ao idioma oficial da Coroa portuguesa, ampliando as formas possíveis para denominarmos as coisas do dia a dia; o gosto pela dança [...].

Devemos lembrar também das contribuições de outros povos à cultura brasileira. Em 1819, chegaram ao Brasil os suíços. Os motivos pela vinda desse povo são variados, dentre eles podemos destacar divergências ideológicas e religiosas, busca pela liberdade, fuga da pobreza e estudos científicos no Brasil. Dessa forma, os suíços cooperaram substancialmente com a formação da nossa cultura.

Os alemães começaram a chegar ao Brasil a partir de 1824, logo após os suíços. Devido às situações desfavoráveis vividas na Alemanha, isto é, às tensões políticas e econômicas, esse povo buscou melhorias de vida em solo brasileiro. Seu ápice se deu entre 1920 e 1930. Os imigrantes alemães influenciaram na arquitetura das cidades e difundiram a religião protestante. Desenvolveram ainda a agricultura familiar, a criação de suínos e o plantio de milho. O povo eslavo (poloneses e ucranianos) também buscou oportunidades melhores no Brasil. A vinda desses imigrantes se deu entre 1869 e 1920. Dedicaram-se à plantação de batata, milho, feijão, repolhos, etc., além de introduzirem em nossa cultura o uso do arado. A partir de 1870, começaram a chegar a terras brasileiras os italianos, os quais contribuíram com sua mão de obra nas lavouras cafeeiras e nas indústrias, principalmente no Estado de São Paulo. Cultivaram também a uva e produziram vinho. Os italianos ajudaram ainda a fortalecer o catolicismo no Brasil. Tivemos também a imigração japonesa, cujo início se deu no ano de 1908. Os japoneses também visavam o trabalho na plantação de café em território paulista. Esse povo foi o responsável pela introdução da religião budista, da prática do beisebol, do cultivo do bonsai, do uso do bambu em artesanato, da criação de carpa, do cultivo da cerejeira e da criação de galinha poedeira na cultura brasileira.

Na atualidade tem havido a entrada de milhares de estrangeiros no Brasil em busca de melhores condições de vida. Como afirma Pena (2016),

Ao longo dos últimos anos, houve um movimento crescente de grupos estrangeiros no Brasil advindos tanto de países desenvolvidos quanto de países subdesenvolvidos [...]. Influenciados por diversos fatores, muitos imigrantes têm adentrado em solo brasileiro, almejando aqui uma vida mais digna do que a que tinham em seu país de origem.

Ainda segundo Pena (2016),

A tendência é que as imigrações atuais no Brasil continuem aumentando, sobretudo de populações advindas de países subdesenvolvidos ou com uma precária situação econômica, além de povos de regiões marcadas por grandes conflitos, com destaque para povos da Palestina.

Dessa forma, percebemos que muitos foram os povos que contribuíram e continuam contribuindo com a formação da cultura no Brasil. Assim sendo, entendo que uma cultura, seja ela qual for, nunca está completa, tampouco, formada. Está sempre em mudanças, adaptações e fusão com outras culturas, homogeneizando-se, quebrando preconceitos e barreiras, ultrapassando fronteiras, se é que existem fronteiras para a produção cultural do ser humano.

Cultura brasileira: um conceito plural

3839uando falamos na inexistência de barreiras, fronteiras e empecilhos à propagação das produções humanas, sejam elas quais forem, é inevitável o questionamento a respeito do termo cultura. Ou seja, será que acertamos quando definimos um determinado, porém mutável, mesmo que cíclico, e ininterrupto, e inacabado, conjunto de manifestações dos grupos humanos como a cultura de uma determinada nação? Não seria apenas uma forma de fortalecimento imperioso da identidade nacional? Principalmente em se tratando de Brasil, uma nação jovem, se comparada a outros países, que passou por vários momentos desde sua invasão/exploração pelos portugueses e que por muito tempo esteve à mercê das manifestações socioculturais, econômicas e políticas advindas da Europa? Como sabemos, tudo começou com a inserção de elementos culturais de nações africanas, asiáticas, europeias e até mesmo do próprio continente americano aos rituais, costumes, lendas, crenças, etc. cultivados pelos indígenas. Provas irrefutáveis disso estão presentes em nossa literatura, a qual de início baseava-se nos moldes europeus, com seus heróis, exploradores, seu romantismo. A arte, a arquitetura, os hábitos, boa parte da alimentação, o modo de se vestir, também são importados. A linguagem é outro fator que determina nossa heterogeneidade cultural, pois formou-se devido à fusão de vários idiomas e dialetos. Devemos lembrar ainda que o nosso Código Civil é de origem estrangeira. Como afirma Alves (1993),

O direito civil brasileiro deita suas raízes no antigo direito civil português, ligando-se a este mais estreitamente do que o próprio direito civil lusitano dos tempos modernos. Daí, sua formação profundamente romanística. Pouco depois da proclamação da independência do Brasil, editou-se a Lei de 20 de outubro de 1823, em que se preceituou que permaneceriam vigentes as ordenações, leis, regimentos, alvarás, decretos e resoluções promulgados pelos reis de Portugal até 25 de abril de 1821, enquanto não se organizasse um novo código ou não fossem eles alterados. (p. 186).

Dessa forma, é inegável as diversas contribuições de povos d’além mar e intracontinental em prol da formação da cultura no Brasil. Daí a ideia de pluralidade cultural defendida neste trabalho. Independente, porém, de qualquer que seja a definição para o termo cultura, é preciso reconhecermos que a formação cultural é uma mistura de elementos socioculturais, humanos e políticos advindos de diversos povos. E, além desse reconhecimento, temos que conviver de forma a respeitar as diferentes manifestações em/do nosso país e lembrar que não existem fronteiras para o fazer humano. Somando-se ao fator quebra de obstáculos, há o avanço técnico-científico em consequência da globalização. Como sabemos, o processo de globalização tem encurtado as distâncias entre as diferentes nações do planeta, levando as pessoas a fundirem suas culturas.

Descriminalização das manifestações socioculturais afro-brasileiras: um lento despertar para o reconhecimento e aceitação da contribuição do africano e seus descendentes à formação da cultura no Brasil

Sabemos que muitas lutas foram travadas em prol do reconhecimento, da descriminalização e da aceitação das manifestações sociais e culturais do povo negro no Brasil. Sejam essas lutas de cunho ideológico, diplomático ou, até mesmo, confronto corporal. Como já fora dito, desde o período colonial brasileiro que os africanos escravizados foram proibidos de exercerem seus costumes trazidos da África. Foram obrigados a aprender a língua portuguesa, a se converter ao catolicismo e a conviver segundo os hábitos europeus. Essa proibição passou de geração em geração e continua visível, mesmo que disfarçada de outros adjetivos, nos dias atuais. Tem crescido a cada dia a intolerância religiosa no Brasil. O que percebemos são grupos de extremistas de algumas denominações destilando ódio contra aqueles que não se encontram submetidos à doutrina daqueles que não aceitam o Brasil como um país laico, onde não é imposta uma religião única, ou seja, todas as crenças são admitidas. Quando falo em intolerância, não me refiro a uma doutrina específica, mas a todos os indivíduos que cometem qualquer ato desrespeitoso e inadmissível à livre escolha, de quem quer que seja, de seguir e/ou exercer sua crença. Pois, de acordo com Decreto Lei nº 2.848, de 07 de dezembro de 1940, art. 208: “É crime o escárnio a alguém por motivo de crença ou função religiosa, assim como impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso [...]”. Não podemos tolerar a imposição ou proibição de nenhuma prática cultural, ideológica ou religiosa, pois, como vimos anteriormente, o Brasil abrange uma multiculturalidade e negar isso seria desvalorizar todas as nossas conquistas pela busca de uma identidade genuinamente nacional, por assim dizer, além de nos desacreditar enquanto nação independente e autossuficiente em termos culturais.

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É inegável que nas últimas décadas algumas conquistas foram alcançadas em prol das manifestações socioculturais e religiosas no Brasil no que se refere ao povo afrodescendente. O art. 5º, Inc. VI, da Constituição Federal assegura ao povo brasileiro a “inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, assim como o livre exercício dos cultos religiosos [...]”. Esta é a Lei de Liberdade de Culto criada pelo então deputado federal Jorge Amado em 1946. Isso se deu em reação às inúmeras agressões sofridas pelas religiões de matriz africana no Brasil. Em 2010, foi instituído o Estatuto da Igualdade Racial, Lei nº 12.288/10, que assegura à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica. Ainda segundo o art. 20 dessa mesma Lei,

É dever do Estado e da sociedade garantir a igualdade de oportunidades, reconhecendo a todo cidadão brasileiro, independentemente da etnia ou da cor da pele, o direito à participação na comunidade, especialmente nas atividades políticas, econômicas, empresariais, educacionais, culturais e esportivas, defendendo sua dignidade e seus valores religiosos e culturais (BRASIL, 2010).

Em 2003, a Lei nº 10.639/03 instituiu o ensino da História Afro-brasileira e Africana visando ressaltar a importância do povo negro na formação da cultura no Brasil. Essas são apenas algumas citações das conquistas alcançadas em prol da população brasileira nos últimos anos, após décadas e mais décadas de lutas pelo reconhecimento, respeito e acolhimento das diversas manifestações socioculturais exercidas pelos descendentes africanos e também de outros povos que fazem parte da população brasileira. São conquistas consideráveis, porém é preciso igualar direitos de classes sociais, independentemente da cor da pele e da ideologia. É necessário quebrar barreiras internas, pois, como já foi dito, não existem fronteiras para as diversas produções humanas, então não há motivo nem justificativa para divergências sociais e culturais do ser humano dentro da nossa sociedade.

Considerações finais

41 cultura brasileira, de início, está centrada num tripé, isto é, uma mistura cultural entre índios, portugueses e africanos. O primeiro povo (nativo) tivera suas terras invadidas e usurpadas pelos lusitanos, cujo principal objetivo foi explorar as riquezas minerais e vegetais dessa terra, além de aumentar seus domínios territoriais e, com o apoio e o aval da Igreja, propagar a doutrina cristã. Resistindo, porém, o indígena, ao trabalho forçado, pois seu sistema de organização social nada tinha a ver com o modelo europeu, fora substituído pela mão de obra africana. No entanto, vale ressaltar que os jesuítas tiveram papel importante na luta pela não escravização dos índios no Brasil. Retirados de suas terras de origem, muitos africanos foram forçados a virem ao Brasil para ocupar o lugar de escravizados anteriormente pertencentes ao indígena. Vítimas de muita crueldade, propensos aos mais variados castigos e punições por parte dos feitores a mando dos senhores escravocratas, os negros acabaram por tomar consciência das injustiças pelas quais estavam condenados e começaram a resistir ao trabalho forçado. Foram muitas as fugas, sendo que muitos negros foram mortos, quando não, caçados como animais no mato. Para piorar a situação, ao contrário dos nativos (índios), os africanos escravizados não conheciam a geografia do Brasil, daí a maior facilidade dos capitães do mato em encontrar os fugitivos. Porém, após muita resistência, mortes, lutas e as diversas reivindicações a favor do fim da escravidão no Brasil, aos poucos, mesmo que de forma lenta e um tanto desigual, as conquistas foram se tornando visíveis. É provável, porém, que a ideia de escravidão tenha tomado novos rumos e assumido novos significados e modelos. O que tratamos aqui é apenas uma pequena fração da gama de possibilidades de outros estudos a respeito da exploração, seja ela qual for, entre os seres humanos. Por isso, devemos reconhecer as conquistas alcançadas pelo povo brasileiro em se tratando de visibilidade, reconhecimento e respeito pelas manifestações socioculturais negadas, proibidas e criminalizadas durante muito tempo. Não nos contentemos com apenas essas poucas conquistas. É preciso continuarmos lutando em busca da igualdade cultural, social, humana e política entre as diferentes classes sociais no Brasil.

José Raimundo de Jesus é especialista em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, História e Estudos Afro-brasileiros pela Faculdade Venda Nova do Imigrante (Faveni). Licenciado em Letras com habilitação em Inglês e Português pela União Metropolitana de Educação e Cultura (Unime). Professor de Língua Portuguesa na rede particular de educação de Salvador/Bahia. E-mail: jraimundo.jesus@yahoo.com.br.

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