Edição 78

Matérias Especiais

E quanto a nós, docentes?

Mario Sergio Cortella

15_e_quanto_a_nos_docentes

Ao pensar na Educação no século XXI, uma encrenca muito séria se anuncia. Algumas escolas e alguns educadores, vez ou outra, deixam-se levar por uma armadilha: acham que já sabem, que já conhecem, que a melhor maneira de fazer é como já fazem, e deixam de lado algo que alerta. A arrogância é um elemento muito perigoso na Educação. Nossa área é muito complexa para que achemos que ela possa ser simplificada.

Conhece professor arrogante? Sabe gente que acha que já sabe, que já conhece, que não precisa mais aprender? Gente arrogante costuma dizer o seguinte: “Existem dois modos de fazer as coisas, o meu e o errado, você escolhe”. Gente arrogante não tem dúvida. Cuidado com gente que não tem dúvida. Gente que não tem dúvida não inova, não cresce, não avança, só repete. Gente que não tem dúvida é incapaz de fazer o novo. É gente que cai no risco de repetir o velho.

Por isso, cuidado com professor velho. Não confunda idoso com velho; idoso é quem tem bastante idade, enquanto velho é quem acha que já está pronto e não precisa ou não conseguirá mais mudar.

Há colegas com mais de 60 anos de idade que não envelheceram, enquanto alguns, em meados de carreira, já estão vetustos.

O docente velho tem uma carecterística: passa o tempo todo tentando mostrar que algo não vai dar certo, em vez de usar o mesmo tempo para que aquilo dê certo. Aliás, professor velho, de maneira geral, é pessimista. E o pessimismo é o refúgio de quem não quer ter muito trabalho.

Afinal de contas, o pessimista tem duas “vantagens” sobre o otimista: ele não precisa fazer esforço algum, a única coisa que tem de fazer é sentar e esperar dar errado e, consequentemente, também quase não tem cansaço. O otimista, por sua vez, tem uma “desvantagem”: ele tem de levantar, ir atrás, juntar-se com outros, ir para a atividade no sábado de manhã, ir para o encontro, estudar, participar de um seminário.

Aliás, o professor velho e a professora velha, assim como o aluno velho e a aluna velha, colidem com uma importante regra da Ordem dos Beneditinos, fundada por São Bento no século VI. A regra 34, que enuncia: “É proibido resmungar”. Toda escola deveria ter esse lema exposto bem na entrada. Não é proibido reclamar, não é proibido debater, não é proibido discordar, mas é proibido resmungar. Em latim está escrito: “É proibido murmurar”. Gente que murmura, em vez de fazer, fica resmungando. Em vez de acender vela, fica amaldiçoando a escuridão. Em vez de partir e fazer o que precisa ser feito, fica dizendo: “Assim não dá”, “Onde já se viu?”, “Alguém tem de fazer alguma coisa”…

“É proibido resmungar”, olha que coisa boa! No século XXI, educadores e educadoras têm de entender isso. Do contrário, vão ficar repetindo a frase: “Os de hoje não são mais os mesmos”.

Quando comecei a dar aula, nos anos 1970, na PUC-SP, os alunos, obviamente, eram outros. Já imaginou como mudou de lá para cá? E se eu continuasse a fazer como fazia? Já imaginou o impacto de continuar a fazer do mesmo jeito, do mesmo modo, esquecendo o contexto em que estamos?

O aluno que entrou este ano na universidade com 17, 18 anos não chegou a ver um filme antigo, chamado Titanic, que é de 1997. Ele pode até ter ouvido falar do afundamento do Titanic há mais de um século, mas o filme, em si, está muito distante da vida dele. E muitos educadores que têm o Titanic como uma obra cinematográfica recente ainda se emocionam. Os alunos que entraram agora na universidade não conheceram os Mamonas Assassinas. Outro dia, eu estava dando aula na universidade, falei dessa banda, e um aluno perguntou:
— Mamonas o quê, professor? O que eles faziam?
— Eram um conjunto, eles cantavam.
— Cantavam o quê?
— Aquela música Brasília Amarela.
— Brasília?
— É, aquele carro com dois carburadores.
— Carburador?

Num mundo de mudança veloz, nós, nascidos no século XX, estamos no século XXI usando métodos que vinham do século XIX.

E quando dá errado em sala de aula, qual o nosso argumento? “Esses alunos não sabem nada” ou “Eles não querem saber de nada”.

Cuidado, o comandante do Titanic achou que estava seguro. Ele não deu atenção ao iceberg que estava se aproximando. Por que estou dizendo isso? Pela necessidade de prestarmos atenção. O professor velho acha que já sabe, que já conhece, e quando vai atrás, muitas vezes é da novidade, porque o novo o incomoda. A novidade é passageira, o novo é aquilo que vem, muda e entra no circuito. Por isso, cautela: “É proibido resmungar”. Nessa hora vale essa ideia. Retomemos: há colegas nossos que passam o tempo falando: “Os alunos de hoje não são mais os mesmos”. Claro que não são. Então, como podemos continuar a fazer do mesmo modo?

Há alunos na sua escola que nasceram depois da morte de Saddam Hussein, que foi enforcado em 2006. Em que ano foi o tsunami na Ásia que matou 350 mil pessoas na véspera de Natal? Em 2004. O aluno do Infantil ou do Fundamental ou era menininho, ou não tinha nascido. E alguns de nós falamos de tsunami como se fosse coisa de agora. Vou ao topo para pensarmos também na base: alguns dos nossos alunos do Ensino Superior de agora tinham cinco anos quando do atentado às Torres Gêmeas em Nova York, que nos parece tão recente…

O aluno que está na universidade ou no Ensino Médio não conheceu Ayrton Senna e menos ainda o que está em etapas anteriores. Já imaginou uma escola que organiza o material, o projeto todo em cima da Fórmula 1? Inclusive os mais jovens nem imaginam por que nós, os mais idosos, assistimos a corridas de Fórmula 1.

A última vez em que o Brasil venceu um campeonato de F-1 foi em 1991, com o próprio Ayrton Senna. O presidente da República era Fernando Collor, a União Soviética ainda existia, e a seleção brasileira era tricampeã de futebol. O aluno não entende por que assistimos a corridas de F-1. Tanto que as tevês, que não são tolas, estão migrando da F-1, que já não tem tanto público, para as lutas do tipo MMA, modalidade que está se tornando mais próxima dessa geração. Assim como as grandes companhias de telefonia celular estão mudando o modo de fazer negócio, com o lucro migrando da cobrança de pulso para a de SMS, de torpedo. Se eu falasse isso há 10 anos, me considerariam louco. Isto é, a área de telefonia iria deixar de ganhar dinheiro com a ligação para ganhar com a mensagem.

Até o uso dos aparelhos mudou radicalmente! Durante séculos, nós, humanos, quisemos um telefone. Tele + fone: algo para falar a distância. Usamos tambor, fumaça, o que deu. Na metade do século XIX, inventamos o telégrafo. Não falávamos, mas escrevíamos e líamos a distância. No final do século XX, inventamos o telefone de verdade, que é o fone móvel. Pois bem, seu aluno, seu filho, seu neto não utilizam mais esse equipamento para falar. Eles usam para escrever. Eles reinventaram o telégrafo. Você está dirigindo o carro, seus dois filhos no banco de trás, um conversando com o outro por mensagens. As pessoas com menos de 18 anos não usam celular para falar, usam para escrever. Elas acham, inclusive, que quem usa esse aparelho para falar é idoso. Usam para escrever e ainda fazem algo inacreditável: acionam somente o polegar para fazer todas as coisas. Você sabe que alguém é idoso quando este segura o aparelho com uma mão e digita com a outra.

Nesse contexto, qual a chance que a escola perde? Essa geração com menos de 18 anos voltou a escrever. A minha geração — eu sou dos anos 1950 — cresceu, nos anos 1960, com o telefone. Nossos pais ficavam irritadíssimos porque passávamos um tempão pendurados no telefone. Mas, de vez em quando, escrevíamos cartas. Meus pais cultivavam esse hábito. E era preciso aprender a escrever bem.

Eu usava parte o telefone, parte a carta, mas o telefone era muito caro, e o meu pai ficava bravo. Depois, a geração dos meus filhos passou a usar só o telefone, e não se escrevia mais. Essa geração que está entrando nas escolas voltou a escrever, nas redes sociais, como no Twitter…

Pode-se argumentar: “Mas são 140 caracteres só”. A diferença entre zero e 140 é de 140. Se a Escola não prestar atenção nessa dinâmica, no material didático, na leitura, vamos perder essa condição de interação e de aproximação.

“Voltaram a escrever!”, dizem uns. “Ah, mas eles escrevem errado…”, “Ah, em vez de escreverem você, eles escrevem vc”. Cuidado! Há 300 anos, eu diria vossa mercê; há 200 anos, diria vosmecê; há 100 anos, diria você. E hoje eles escrevem vc.

Não estou afirmando que vale qualquer coisa, mas que a língua, sendo viva e dinâmica, vai sofrendo alterações. Esta nova geração voltou a escrever, e pode ser que nós consigamos encantá-la também para a leitura. Porque as duas coisas, evidentemente, são conexas.

Esse é um novo paradigma, e parte das escolas ainda não entendeu isso. Quem escreve precisa ler para escrever melhor e não passar ridículo.

A geração atual retornou à comunicação por intermédio da “telefonia escrita”, e não mais “vocal”. Num primeiro momento, essa comunicação veio com caracteres mais reduzidos, no Twitter ou no torpedo, mas eles voltaram a ler.

Voltaram a falar melhor. Eles se comunicam melhor verbalmente, oralmente? Não. Por quê? Porque houve uma redução da comunicação oral. A tecnologia faz com que pessoas estejam no mesmo ambiente e estabeleçam uma comunicação verbal por meio da mensagem. Isso significa que tivemos um rareamento da comunicação oral, que foi a grande marca das gerações anteriores, X e Y, dos anos 1970 para cá. Esta agora é, em grande medida, verbal sem ser oral. E esse oral é extremamente telegráfico e sintético.

Um grande indício disso é que as pessoas não têm mais nome completo. Hoje é “Má”, “Fê”, “Alê”, “Lê”, “Dé”… O sincopamento nesse modo de chamar o outro faz com que haja uma economia oral muito grande, mas não necessariamente vocabular. Porque o vocabulário persiste no escrito.

Os alunos podem voltar a escrever bem? Sim, alguns blogs são muito bem escritos por gente jovem. O que se reinaugurou? O diário. Até os anos 1960 e 1970, as pessoas, especialmente as meninas, por conta da cultura machista, mantinham o diário com cadeadinho. Hoje esse diário é público, com o blog e a página nas redes sociais. O diário é tão público que os pais estão lendo. E, portanto, vigiando e controlando. Isso preocupa parte dos jovens, que está migrando para tecnologias mais privativas.

A comunicação escrita está numa melhor hoje. As pessoas, ao manter seus blogs, procuram poesias, textos, citações — ainda que muitas vezes não verdadeiras — de Pessoa, Veríssimo, Borges, mas isso é inerente à própria rede. Essa melhoria não acontece tão acentuadamente na oralidade.

Há uma restrição vocabular e um modo de comunicação que trouxeram uma mudança muito acelerada para a sintaxe, tanto que algumas escolas estão elaborando atividades para que o aluno volte a se expressar oralmente, como a leitura em voz alta, algo que é antigo, mas não é velho. No passado, essa tarefa cumpria a função de mostrar o domínio da leitura; no entanto, havia também uma intenção recôndita, que era aferir se o aluno fazia alterações na gramática, seja em pontuação, seja em acentuação. Isso era levado tão a sério por alguns que as crases eram enfatizadas com uma espécie de eco dentro do “a”. Isso hoje até carrega certo humor, não faz sentido. A leitura em voz alta aprimora a capacidade de pronunciar os vocábulos com clareza e de se apropriar de um mundo de oralidade que ultrapasse a linguagem sincopada e restrita.

A tecnologia também confere a possibilidade de ganho de repertório, de conteúdo. Não é casual que as grandes redes de livraria tenham montado espaços para jovens e crianças, e que as grandes editoras tenham carreado parte da literatura para o que interessa à criança e ao jovem, como as histórias de Harry Potter, os livros ligados ao vampirismo (a nova forma de lidar com os hormônios, aquilo que é altamente sexualizado), que despertam interesse e são lidos. E isso aproxima crianças e jovens dos livros, estejam em plataforma digital ou em papel.

Docentes que somos, ou entendemos e aprendemos a ter tudo isso como referência ou ficamos apenas com um grande passado pela frente…

Mario Sergio Cortella é filósofo e escritor, Mestre e Doutor em Educação e professor titular da PUC-SP (onde atuou por 35 anos, 1977–2012).

 

CORTELLA, Mario Sergio. Educação, escola e docência: novos tempos, novas atitudes. São Paulo: Cortez, 2014.

cubos