Edição 53

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Edgar Morin – Contemporâneo complexo: mestre do saber

Rosa Costa

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“A reforma do pensamento é que permitiria o pleno emprego da inteligência para responder a esses desafios e permitiria a ligação de duas culturas dissociadas. Trata-se de uma reforma não programática, mas paradigmática, concernente à nossa aptidão para organizar o conhecimento… A reforma do ensino deve levar à reforma do pensamento, e a reforma do pensamento deve levar à reforma do ensino” (Morin, 2001).

Edgar Morin, pensador, educador contemporâneo, defende que o papel do intelectual reside na ousadia, na audácia, na revolta, e não na apatia e na adesão aos sistemas de poder. Acredita na reforma do ensino, a partir do currículo, e entende que a formação do educador seria a solução para os entraves da Educação. Enquanto sujeito pensante que somos, sabemos que o processo educacional pede, clama, por um educador pesquisador comprometido, ético e responsável não só profissionalmente.

Também afirma que as ideias avançam sempre no antagonismo, nas contradições, nas dialéticas, uma união de contrários que leva a uma sociedade melhor, uma sociedade
reflexiva. Substitui a palavra dialética pela palavra dialógica nos seus escritos mais metodológicos, confrontando ponto de vista e argumentação.

Fala da globalização como uma dinâmica multidimensional, com uma visão ecológica, cultural, econômica, política e social, estabelecendo um mercado mundial e uma
rede de comunicação em todo o planeta. Em relação ao Pensamento Complexo, afirma: “O Pensamento Complexo está animado por uma tensão permanente entre a aspiração
a um saber não parcelado, não dividido, não reducionista e o reconhecimento do inacabado e incompleto de todo conhecimento” (Morin, 2003).

Usa como base para a epistemologia do Pensamento Complexo (aquilo que é tecido junto) as seguintes teorias: a Teoria da Informação, a Teoria dos Sistemas e a Cibernética.

A base fundamental do Pensamento Complexo é acrescida do discurso. Hoje se fala muito nas palavras interdisciplinaridade, multidisciplinaridade, transdisciplinaridade, e é evidente que o Pensamento Complexo aposta mais na visão transdisciplinar.

“A transdisciplinaridade significa mais do que disciplinas que colaboram entre si sem projeto com um conhecimento comum a elas, mas significa também que há um modo de pensar organizador que pode atravessar as disciplinas e que pode dar uma espécie de unidade” (Morin).

Não poderíamos falar do pensador Edgar Morin sem trazer Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, com regras próprias a cada sociedade e cultura. São eles:

• O erro e a ilusão: a ciência se acostumou a sempre afastar o erro das suas concepções. Precisamos integrar os erros nas concepções para avançar no conhecimento.
• Conhecimento pertinente: é preciso não aniquilar a ideia da disciplina, mas rearticulá-la em outros contextos.
• Ensinar a condição humana: é reaprender que somos também naturais, físicos, psíquicos, míticos, imaginários.
• Terra pátria: devemos ensinar aos alunos que a Terra é um pequeno planeta que precisa ser sustentado a qualquer custo.
• Enfrentar as incertezas: ensinar na escola a ideia da incerteza. Uma vez que o conhecimento científico nunca é um produto absoluto de certezas, devemos ser crivados pela ideia da incerteza.
• Ensinar a compreensão: a compreensão deve ser o meio e o fim da comunicação humana. O planeta também precisa de mais compreensão.
• Ética do gênero humano: o ensino da antropoética precisa ser reintroduzido na escola; ela está ancorada em três elementos interligados: o indivíduo, a sociedade e a espécie,
e não separados como se encontram nos dias atuais.

Edgar Morin acredita que não se trata de transformar os sete saberes em sete disciplinas. Ao contrário disso, os sete saberes rejuntam as disciplinas. A reforma da Educação se concretizaria em religar a Biologia à História, à Antropologia, abrindo
outros campos, outros contextos do Pensamento Complexo. Sabemos que essa mudança exige outro tipo de professor e de currículo, logo a Educação navegaria por outros caminhos. A construção de um currículo multidimensional em todos os níveis do ensino — Fundamental, Médio, e Superior — seria o passo fundamental se realmente fosse assumido como pressuposto por todos. Contudo, o acolhimento do Pensamento
Complexo vem fortalecer o estudo do saber fazer na construção de um projeto para cidadania.

Resgatando o discurso do autor, apresentamos o objetivo da Educação na era planetária como o educar para o despertar de uma sociedade-mundo. Sua missão é fortalecer as condições de possibilidades da emergência de uma sociedade-mundo, composta de cidadãos protagonistas, conscientes e criticamente comprometidos. Acrescenta que é preciso compreender a vida como consequência da história da Terra e a humanidade como consequência da história da vida na Terra. Nessa viagem planetária, entende-se que a nossa diversidade será o caminho para criação de saberes e gestação de
conhecimentos, princípios de equidade que só a era planetária e sua unidade geradora irão proporcionar. Saber cuidar do outro, do planeta e de tudo que existe pelo seu caminho, programado ou não programado. Somos ousados e devemos fazer a diferença.

O grande pensador nasceu em 8 de julho de 1921, em Paris. Fez da literatura e do cinema o seu refúgio. Graduado em Direito, História e Geografia, é amante da Sociologia e da Filosofia. Na vivência de um exílio interior, começou a escrever o livro O Homem e a Morte, adentrando a cultura transdisciplinar, buscando fundamentação teórica na Geografia Humana, Etnografia, Pré-história, Psicologia Infantil, Psicanálise, História das Religiões, Ciências das Mitologias, Histórias das Ideias, Filosofia, etc. Tornou-se pesquisador emérito do Centro Nacional de Pesquisas Científicas – CNRS.

Rosa Costa é educadora, mestranda, especialista em RH e pedagoga.
E-mail: rosacostaf@ig.com.br

Referências Bibliográficas
MORIN, Edgar. A Cabeça Bem-feita: Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento. Tradução de Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

_________. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. Tradução de Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: Unesco, 2002.

_________. Educar na Era Planetária: o Pensamento Complexo Como Método de Aprendizagem no Erro e na Incerteza Humana. Tradução de Sandra Trabucco Valenzuela. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: Unesco, 2003.

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